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terça-feira, 26 de agosto de 2014

A morte do jornalista James Foley


Benjamim Formigo |
26 de Agosto, 2014

James Wright Foley, foto jornalista americano raptado a 22 de Novembro de 2012 no noroeste da Síria, foi decapitado a 19 de Agosto passado e as imagens de “uma mensagem à América” divulgadas no You Tube circularam por todo o mundo.
O vídeo não mostrava o assassínio em si mesmo, mas o seu corpo depois de ele ter lido uma mensagem claramente decorada ou lida de um teleponto qualquer. Pela primeira vez, fora da América Central dos anos 80, um jornalista é assassinado publicamente. Uma vida por um resgate, os duros recusaram negociar com terroristas ao contrário de alguns dos seus parceiros, ninguém se irá lembrar que a quantia paga não sustenta a guerra nem admitir que não fica diminuído por negociar.
Em Julho deste ano, Barack Obama autorizou uma operação de resgate com base num conjunto supostamente sólido de informações que levavam os serviços secretos americanos a acreditar que ele e outros reféns, todos jornalistas, estavam detidos em Ragga, no Leste da Síria.
A operação envolveu operações especiais dos vários ramos das Forças Armadas, o 160 º Regimento de Operações Especiais da Aviação, a célebre Força Delta, helicópteros e aviões de asa fixa. As forças americanas entraram em combate em território sírio contra forças do autoproclamado Estado Islâmico do Levante que sofreu, segundo o Pentágono, elevadas baixas.
Todavia a operação gorou-se, porque os reféns haviam sido mudados de local e aparentemente os “drones” usados nesta operação e sua preparação não deram pela mudança dos prisioneiros. Os raptos têm sido uma excelente fonte de financiamento para os extremistas islâmicos. Desde jornalistas a camionistas os resgates têm sido pagos. Desta vez foi um jornalista americano cuja família não tinha possibilidade de pagar os cem milhões de dólares exigidos e o Governo manteve-se firme na sua política (discutível) de não negociar com terroristas (o que parece não ser inteiramente verdade).
Outros Governos têm negociado libertações com sucesso. Mas a questão que aqui importa sublinhar é a transformação dos jornalistas de veículos de informação em alvo de rapto, o que aparentemente dá na sua fase final bem mais publicidade que as negociações de bastidores ou o relato de uma verdade que nem sempre agrada a um dos lados.
Os Estados Unidos têm agora, mesmo que não quisessem, de intervir. Porém Obama parece estar a considerar um ataque no Norte da Síria sob “controlo” do Estado Islâmico de consequências duvidosas.
Atacar o que é agora a rectaguarda dos extremistas é bem mais inútil que cortar-lhe as linhas de abastecimento e manter um apoio aéreo consistente às forças curdas que defendem o Curdistão iraquiano com escassos meios. Durante toda a semana os F-19 do porta aviões George H. Bush (pai de George W.) fizeram centenas de saídas a partir do Golfo Pérsico, onde o navio se encontra desde 31 de Julho. O problema americano é ter agido tarde demais, e não poder pedir à Turquia, sem a envolver no conflito sírio, o uso da base de Tikrit, o que colocava os F-18 e aviões de apoio mais perto do alvo e permitia um uso mais eficiente da aviação.
O apoio aéreo contra o Estado Islâmico do Iraque e da Síria (Califado Islâmico do Levante), ironicamente tem sido feito pela aviação síria que tem atacado posições do Estado Islâmico em território curdo.
Nas últimas horas, enquanto se prolonga sem fim à vista o conflito na Palestina, o ministro dos Estrangeiros iraquiano encontrou-se inesperadamente em Teerão com o seu homólogo iraniano. Do encontro não houve declarações oficiais, transpirando apenas uma hipotética ajuda iraniana ao Iraque se os EUA levantassem as sanções, o que significa que Teerão estaria na disposição de pressionar dentro da fraca influência que tem no Califado do Levante para uma solução negociada entre a minoria xiita e os sunitas, maioria da população e que controla o Governo. Nada é menos certo que Washington aproveite esta oportunidade para reatar o diálogo com o Irão.
Nada é também menos certo que as imagens da Palestina mudem e seja encontrada, pelo menos, uma trégua prolongada que permita um diálogo. Não enquanto Israel responder a um fogacho de morteiro com as bombas e mísseis dos F-16 e outras aeronaves.
Se o prazo de três anos dado esta semana pelo Papa Francisco, para cumprir a sua missão ou ver  resultados, se prende com estes dois conflitos, para não falar na Ucrânia e nos conflitos de baixa intensidade um pouco por todo o lado, então definitivamente Francisco está a prazo.
A Igreja tem muitos problemas por resolver e tem de os resolver apesar da oposição interna. Francisco tem apostado muito na política internacional, nas chamadas de consciência. Porém os políticos que gostam tanto de sublinhar que foram à missa não lêem as declarações do herdeiro de Pedro.
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segunda-feira, 18 de agosto de 2014

As crises e a "sillyseason"

Benjamim Formigo|
18 de Agosto, 2014

No Verão editores e jornalistas procuravam notícias que escasseavam satisfazendo-se com matéria que normalmente nem seria nota de rodapé.
Era a “sillyseason” (ou época parva) quem satisfazia o imperativo de encher o mínimo de páginas exigido pela publicidade.
De um momento para o outro, com esta novel ordem internacional tudo mudou. A dificuldade agora é decidir entre as várias crises.  A crise despoletada pelo surto de ébola e a ameaça de se deslocar para a Europa e Estados Unidos levou a uma mobilização sem precedentes, não só a FDA (agência norte-americana responsável pelo licenciamento de drogas e alimentação) aceitou o uso de um medicamento experimental como a própria Organização Mundial de Saúde permitiu a utilização de drogas experimentais em humanos, rompendo ambas com o principio ético de não usar cobaias humanas.
Mesmo assim o contágio alastra entre os países da África Ocidental, ao mesmo tempo que outros, como por exemplo o Quénia, optam por fechar as suas fronteiras legais. Não há fronteira terrestre que resista se refugiados pretenderem passar.
Em simultâneo mantêm-se as críticas ao novo Governo egípcio ao mesmo tempo que se espera dele uma mediação que possa trazer um alívio para a situação palestiniana, facilitada agora pela opinião pública israelita que começou a vir para as ruas dizer basta à violência desencadeada pelo Estado de Israel contra Gaza.
A Síria vive uma situação catastrófica. Estima-se que um terço do seu território, confinante com o Iraque, possa estar sob controlo dos fundamentalistas do Estado Islâmico do Iaque e da Síria.
 Segundo indicações dos serviços de informação americanos, citados pelo diário britânico “The Guardian”, militantes de movimentos ligados à Al Qaeda no Iémen e em África estariam a juntar-se às forças do Estado Islâmico do Levante, cujas elementos demonstraram estar fortemente armadas graças a material levado dos paióis de unidades conquistadas ao Exército regular iraquiano e a equipamento recebido enquanto oposicionistas ao regime sírio enviado pelas potências ocidentais para a resistência.
 Os ataques contra cristãos e curdos iraquianos não param, obrigando os Estados Unidos a intervirem em apoio às forças curdas em defesa de localidades e da barragem de Mosul, objectivo estratégico no Curdistão iraquiano.
 Aos americanos parece ir juntar-se agora a RAF, força aérea britânica, na tentativa de travarem o avanço dos extremistas que dispõem de meios blindados ironicamente de fabrico norte-americano.
A intervenção dos EUA e da Grã-Bretanha levanta a questão da obrigação de defender e direito a ser defendido. No caso do Iraque, mesmo depois da demissão do Primeiro Ministro que fez parte do problema, coloca-se a questão do colapso do Estado.
Na questão palestiniana a situação tem nuances dada a intervenção do Hamas, contudo o seu direito à paz e defesa deveria prevalecer.
Na Ucrânia entretanto a tensão na fronteira com a Rússia sobe com a coluna de ajuda enviada por Moscovo estacionada junto da fronteira. Vladimir Putin aceitou as condições do Presidente ucraniano de permitir que os camiões fossem vistoriados entes de entrarem. E foram.
 Todavia a ajuda humanitária continua a escassos quilómetros dos destinatários enquanto Kiev procura capitalizar com o envio da sua ajuda. Se alguma boa notícia poderá existir sairá talvez da sequência do encontro de Berlim de domingo. O facto de ao longo do dia não estar nas notícias pode indicar que algum progresso poderá existir. Mas um progresso muito difícil.
A Rússia não vai abandonar os seus cidadãos e os russófonos às mãos de um Governo que não dá mostras de flexibilidade e cujo Primeiro Ministro, provavelmente por inexperiência, toma diariamente na televisão atitudes que, seja qual for o ponto de observação, são objectivamente provocatórias.  As últimas afirmações de confrontos, da destruição de blindados russos que teriam passado a fronteira são pouco animadoras.
 A ser verdade o silêncio público seria a melhor atitude, deixando que pelas vias diplomáticas corressem os protestos e que os aliados da Ucrânia fizessem essa denúncia.
 A ser falso foi uma forma de provocar o urso russo que nem sequer está ferido, quanto mais moribundo. Putin esta semana deu sinais de abertura, indo mesmo ao ponto de afirmar que não queria ver a Rússia “isolada”. O recado foi claro.
 Moscovo não está interessada em confrontos mas não a qualquer preço e se tiver de pagar o preço de um confronto apenas procurará que este seja limitado ao Leste da Ucrânia. Kiev verá então quem são os seus aliados.
A Chanceler alemã Ângela Merkel parece estar a ter um importante papel por detrás da cortina, beneficiando das tradicionais relações com a Rússia, dos seus laços económicos, bem como da dependência da UE em que a Ucrânia se colocou.
Os conflitos, as crises, incluindo as sociais que nos últimos dias atingem o estado norte-americano do Missouri, não se ficam por aqui.
 Ao contrário do que muitos podem pensar nada disto está a acontecer longe sem nos afectar. A interligação da situação internacional tornou-se um facto do dia a dia. Hoje já não há “sillyseason” que dava destaque a esses tais acontecimentos demasiado longe.
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domingo, 2 de outubro de 2011

As mistificações e os silêncios cúmplices dos media


Benjamim Formingo
2 de Outubro, 2011

Da leitura dos jornais internacionais que nos habituamos a olhar como referências, dos noticiários das televisões globais, excepção talvez à BBC e de algum modo à Al Jazeera, nada se passa no Mundo além da famosa crise financeira que não era difícil adivinhar em 2007.
A Assembleia-Geral da ONU tem estado à margem das notícias depois do Presidente da Autoridade Palestiniana apresentar o pedido formal de reconhecimento como país independente e Estado de pleno direito.
Os jornais europeus olham para dentro das suas fronteiras e preocupam-se com a crise financeira vindo aos poucos a reconhecer, com relutância, que os gregos afinal não são uns aldrabões, os irlandeses podem sair da crise, os portugueses não estão falidos, a Itália e a Espanha estão a ser vítimas dos especuladores e que o ataque ao flanco Sul do euro visa apenas enfraquecer o centro. Os norte-americanos afinam pelo mesmo diapasão. Olham para dentro, escrutinam o Afeganistão e para o Iraque, procuram inimigos no terrorismo e acusam, com razão, os europeus de não reagirem com a rapidez necessária. Esquecendo claro que a crise é Made in USA.
A receita como é evidente é a do FMI e não varia. Ou melhor, desta vez tem uma variante: a banca europeia não sofre as imposições e com as medidas que o FMI aplicou na década de 80 na crise asiática.
O FMI trata a Europa com outro cuidado, pois os europeus, em especial da Zona Euro (ZE), estão interligados de tal modo, que até finlandeses e alemães tiveram de ceder a uma realidade não reconhecida e mesmo refutada: a crise é geral da ZE, os países mais periféricos são os primeiros a sofrer.
A realidade é que a abordagem geral da comunicação social convence muitos que existem países falidos, na bancarrota, sei lá! Todavia, essa mesma abordagem e os mesmos medias que noticiam as manifestações na Grécia e um pouco por toda a Europa não dizem o óbvio: como é que é possível à Grécia, ou qualquer outro país da ZE, relançar a economia quando a receita imposta pelo FMI, o Banco Central Europeu (BCE) e a Comissão Europeia (CE) passa pelos despedimentos na administração pública, redução de salários no Estado, liberalização dos despedimentos, aumento de impostos que penalizam fortemente a classe média, sem, contudo, intervir ao nível da tributação das empresas, designadamente da banca.
Em síntese, retira-se o poder de compra ao grupo que mais consome, aumenta-se a carga fiscal deste grupo e liberalizam-se os despedimentos de forma quase horizontal. Consequência: quebra generalizada da confiança do consumidor com a consequente diminuição da procura, a inevitável quebra na produção, mais despedimentos e cada vez menos receita fiscal.
Tudo isto tem um pouco de perverso e até de surrealista. Mas o remédio para a doença é uma outra estirpe do vírus que a causou.
Com o Mundo preocupado com a crise financeira, passam em claro os dramas que se vivem em África com a seca que atinge muitos países a provocar milhares de refugiados. A “primavera árabe”, mesmo a descarrilar, é remetida para uma página para onde estão outras notícias sobre os incidentes na Síria, no Yémen, etc... O silêncio caiu sobre a Líbia.
O desastre humanitário no Paquistão tem também direito a 200 palavras numa página par ou se as imagens forem muito boas (leia-se confrangedoras) terão os seus 20 segundos na TV. Podíamos continuar.
Um silêncio que não devia espantar. O Conselho de Segurança da ONU há uma semana que procura uma formulação para votar uma proposta de Resolução, ameaçando a Síria. Ao contrário do que seria de esperar, não é a questão palestiniana que domina os bastidores. Os Estados Unidos vão vetar, os europeus estão a ceder à pressão norte-americana e o assunto está a ser remetido para daqui a alguma semanas, com sorte.
A Síria já é outro assunto. Uma boa manobra de diversão da crise e das suas verdadeiras causas. O pequeno problema é que a Rússia deixou claro e inequívoco que vai vetar qualquer proposta que cheire, mesmo tenuemente, a sanções ou outras ameaças. O mesmo fez os outros membros não europeus do CS, em particular África do Sul, Nigéria, Índia, e Brasil.
Em Outubro a Nigéria passa a presidir ao CS, seguindo-se nova presidência portuguesa em Novembro e a Rússia em Dezembro. O panorama não é animador, sobretudo porque nem todos os dez membros não permanentes terminam o mandato em Janeiro de 2012.
Face à recusa russa e à insistência norte-americana em colocar a questão no CS, a França, com o apoio da Grã-Bretanha, a Alemanha e Portugal, procuraram toda a semana uma fórmula que pudesse ser votada, este fim-de-semana, e não sofresse o veto russo.
A resistência da Federação Russa é aquela da pessoa a quem não voltam a “enfiar o barrete”.
A Resolução 1973 sobre a Líbia foi distorcida, usada, violada. E aqui vêm de novo os órgãos de comunicação social. Os ataques contra Kadhafi realizados por aviões franceses, e mais discretamente ingleses, foram atribuídos à NATO. Ora a Aliança Atlântica entrou, ou teve de entrar, num comboio já em movimento e só em teoria tinha algo a ver com ela.
A França tinha a sua agenda para a Líbia e a Inglaterra não ia ficar de fora. Outros entraram discretamente, ao mesmo tempo que Obama se afastava conspicuamente daquele conflito onde uma Resolução da ONU serviu para dar cobertura a uma agressão externa. Veremos num futuro próximo a solicitude das petrolíferas francesas e inglesas.
Em síntese, os media escolheram uma agenda que serviu os seus patrões. Não podemos encarar os meios de informação com a independência e empenho de há 20 anos. Os tablóides, jornais e televisões mataram essa vontade de informar. Hoje importam os resultados financeiros e o vedetismo dos intérpretes da informação.
Tranquilos, é como podemos ficar, nada de grave acontece no Mundo. Nada, mas mesmo nada, acontece se não vem nos jornais nem passa na TV.
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sábado, 14 de maio de 2011

A orientação dos Media e o público


Benjamim Formigo |
14 de Maio, 2011

Alguém se lembra do que sucedeu a 11 de Março deste ano? Haverá alguns leitores, cidadãos mais atentos e de boa memória que irão encolher os ombros e achar a pergunta idiota. Um terramoto, seguido de um tsunami que provocou o pior desastre nuclear da história – talvez mesmo maior que Chernobyl.
A memória da queda de Mubarak começa a ser substituída pelo esquecimento ao mesmo tempo que não abundam as notícias sobre o surgimento, cada vez com mais força da Irmandade Muçulmana.
A queda do Governo tunisino passou à história e o drama humanitário no país é esquecido. Na Líbia a forma como os Estados Unidos, a França e a Grã-Bretanha tenha violado a interpretação da Resolução 1973 do Conselho de Segurança tem sido escondida, excepção feita a alguns artigos de opinião ou análise publicados, apesar de tudo nos Estados Unidos.
Em contrapartida, as notícias apontam para a onda de refugiados que atravessa o Mediterrâneo com destino à ilha italiana de Lampedusa. E depois para a discórdia entre Sarkozy e Berlusconi por este ter aberto as portas e cedido visas Schengen a um bom número de refugiados.
Ao mesmo tempo, as notícias optam por falar numa revisão do código de Schengen sem todavia salientarem que o Tratado de Schengen é um dos pilares da União Europeia, esquecendo mesmo que é contra a cultura europeia aquilo que esse debate pretende concluir.
A própria Comissão Europeia deu luz verde a essa reflexão, um eufemismo encontrado para traduzir o estudo de uma limitação à circulação de pessoas dentro do espaço Schengen. Uma limitação que põe em causa o próprio direito de asilo, que sempre foi parte integrante da cultura europeia. A economia, ou as dificuldades financeiras da União Europeia, determinam um procedimento xenófobo no Velho Continente.
Os Media minimizam a atenção das populações para estas questões e negam omitindo a história e tradições do continente. Como adoptaram facilmente a designação de coligação ou aliança para a força que ataca a Líbia, uma força que de facto não é da OTAN mas da França, Grã-Bretanha e EUA. O comando foi entregue à OTAN apenas para poder formalizar uma “coligação”.
A Resolução 1973 do Conselho de Segurança permite a acção militar “em defesa de populações civis”, contudo são notórios os ataques dirigidos não contra forças que ameacem civis mas centro de comando e instalações onde se presume estar ou poder estar o dirigente líbio.
O facto é que todas estas questões têm sido minimizadas ou as atenções desviadas por acontecimentos secundários.
O papel da OUA e da Liga Árabe no conflito líbio é quase desconhecido. Só a internet permite, com algum trabalho e conhecimento de busca, encontrar a informação.
O ataque a Osama Bin Laden põe em causa a presença de 140 mil soldados estrangeiros no Afeganistão. Simplesmente a morte de Bin Laden não põe termo à actividade da Al Qaeda que se estruturou horizontalmente em células independentes. Bin Laden não podia sobreviver, se isso sucedesse ele teria de ser julgado. Onde?
Em contrapartida o Hamas e a Fatah conseguiram finalmente um entendimento que poderá trazer alguma estabilidade e permitir avanços na Palestina. Israel não deu o benefício da dúvida, mas na verdade o acordo passou quase despercebido.
Os acontecimentos na Costa do Marfim quase não passaram nas televisões de referência como os acontecimentos no Bahrein e no Iémen vão sendo varridos para debaixo do tapete e os da Síria destacados. Com que critérios?
Ao contrário do que defendem muitos liberais, as redes sociais não substituem a informação credível. Pelo contrário, contribuem para uma onda de desinformação conveniente a muitos poderes.
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segunda-feira, 19 de abril de 2010

Jornalismo em notas soltas

Benjamim Formigo |
19 de Abril, 2010


O leitor espera do cronista ou do colunista um texto profundo, articulado e quase ex catedra. Nem sempre isso pode ocorrer. Falar ex catedra é a negação do jornalismo, é a prosa arrogante dos ignorantes. Escrever também não é apenas pegar na pena e fazê-la correr sobre o papel. É um acto responsável individual que compromete a seriedade dos princípios perante o leitor.
A poucos dias do aniversário da Revolução do Cravos em Portugal são muito os que se interrogam do que ficou.
Em boa verdade ficou o fim da Guerra Colonial, a Independência das Colónias. O fechar de um passado colonial e colonialista que pouco tem de dignificante. Dignificante foi a coragem de pegar em armas para lhe por termo já que a solução política não surgia. Ficou uma liberdade de Imprensa que começa a assumir foros de libertinagem, como em vários países.
Em Portugal assiste-se ao assassínio de carácter do chefe do Governo, José Sócrates. O autor esclarece que não se revê neste Governo. Por isso mesmo sente-se livre para sublinhar os caminhos ínvios de um jornalismo duvidoso.
Os jornalistas recebem informações, algumas delas sob a forma de documentos, que lhe são passadas por agentes da Justiça (seja polícia, ou até Ministério Público). Por vezes extractos de escutas telefónicas que o Juiz de Instrução entendeu não terem relevância para o apuramento da verdade. A obrigação ética do jornalista é confirmar essas informações, fazer o contraditório para apurar ou tentar apurar a verdade.
Uma peça instrutória não é uma prova, tem o mesmo valor que um “mujimbo” e por isso mesmo a Defesa solicita o contraditório se o Procurador se limitar a aceitar a peça para construir a acusação. Fraco é o jornalismo, em qualidade e ética, que aceita este tipo de informação, como tem sucedido na Imprensa portuguesa face ao Primeiro-Ministro José Sócrates. É lícita a oposição ao partido do Governo e ao chefe do Governo, mas tem de ser responsável e sustentada pela verdade.
O que sucede em Portugal não é único no Mundo. Desde que os donos dos jornais descobriram que os jornalistas sem contrato vinculativo são presa fácil do Poder, seja do Estado, do económico ou de outras fontes menos claras. A desonestidade passou a imperar nos Media, salvo honrosas excepções de que não é possível deixar de destacar o “Washington Post”, o “New York Times” o “Le Monde”, o “Le Monde Diplomatique” ou a “BBC World”. São os casos mais conhecidos. Felizmente ainda há muitos mais.
Angola não é excepção. A acreditar no que se lê nos jornais ditos tablóides (uma qualificação que deriva do formato dos jornais britânicos menos sérios) Isabel dos Santos, por exemplo, seria uma das maiores investidoras em Angola, quase a única investidora em Angola e até em Portugal. Bom, não é condenável que uma empresária contribua para o desenvolvimento do seu país. Ainda bem que o faz. Mas a verdade é bem diferente. Feitas bem as contas ela teria de investir muito mais que o Bill Gates ganha com a sua multibilionária Microsoft. A verdade é que se pretende de facto atingir o seu pai, o Presidente José Eduardo dos Santos.
Nada disto é jornalismo responsável. É apenas lamentável. Se existem investimentos ilegítimos então o jornalista deve investigar e apurar realmente a verdade e não o que diz ser verdade. Arriscar-se em nome da sua ética e da sua deontologia do seu compromisso com o leitor. Dignificar a profissão.
Devemos isso aos leitores, aos que conquistaram a Liberdade e a nós próprios.
Assim são as Notas Soltas.
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