Mostrar mensagens com a etiqueta Xenofobia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Xenofobia. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 3 de junho de 2014

A crise económica e financeira e a xenofobia no velho continente


Benjamim Formigo
3 de Junho, 2014

Maio de 2014 fica como o ano em que os eurocépticos e os críticos da gestão da Europa marcaram posição no Parlamento Europeu; os partidos xenófobos capitalizaram no descontentamento crescente do eleitorado europeu com a incapacidade de a UE ultrapassar a crise desencadeada há seis anos pelas más apostas da banca americana que contagiaram as finanças um pouco por todo o Mundo. O eleitorado europeu mostrou o cartão amarelo não só aos partidos tradicionais como à própria Comissão Europeia.
Os próximos cinco anos serão interessantes no Parlamento onde cerca de 30 por cento dos lugares serão ocupados por deputados claramente antieuropeus, ou no mínimo extremamente críticos da União e dos caminhos que está a trilhar.
A estagnação económica da Europa, o desemprego galopante, a forma como o Estado Social foi arruinado com a obsessão do défice, conduziram a uma situação de indiferença e crítica face às instituições europeias. Os partidos tradicionais seguiram as receitas tradicionais na linha de Milton Freedman quando para muitos a receita estaria mais para o lado de Keynes ou provavelmente no repensar de tratados, como o de Maastricht aprovado e assinado em 1992 que abriu as portas à criação do euro e para a sua estabilidade fixou o limites dos défices em três por cento. Ora a realidade é que a Europa mudou consideravelmente com o alargamento sucessivo do grupo dos Doze em 1992 para os actuais 28 Estados membros. Apenas 18 Estados integram o euro por não reunirem condições ou por opção própria como é o caso da Grã Bretanha que sempre se tem mantido numa posição dúbia relativamente à União Europeia.
Os organismos europeus, em particular a Comissão Europeia, não sendo eleitos não se coíbem porém de ignorar esse défice democrático para promulgar directivas e normas absolutamente incongruentes sobrepondo-se à legislação dos Estados membros.
Um exemplo dessas preocupações legislativas de Bruxelas foi a tentativa de introdução de uma norma proibindo os restaurantes de reutilizarem os galheteiros tradicionais enchendo-os de azeite e vinagre avulso uma vez vazios – a norma nunca chegaria sequer a ser publicada. Contudo a Comissão não tem tido uma atitude pró-activa na promoção de políticas de emprego e de desenvolvimento indo a reboque o FMI e do BCE (Banco Central Europeu). Os comissários europeus chegam mesmo a criticar os Estados membros pelas políticas seguidas, designadamente económicas, com repercussões nas agências de notação e nos meios financeiros internacionais.
Paralelamente a Europa tem lidado com o problema da migração e em particular da imigração ilegal numa base de repatriamento e fecho de fronteiras sem que em paralelo estimule o investimento nos países pobres por forma a ajudar à sua estabilidade política e ao seu desenvolvimento com a consequente criação de postos de trabalho.
Se para os eurocépticos as preocupações se centram na gestão medíocre da Europa por organismos não eleitos, para a extrema direita, incluindo neofascistas e neonazis, o problema da imigração e do desemprego são explorados fomentando a xenofobia e o racismo. A insatisfação europeia pode-se medir pela vitória da extrema direita pura e dura de Martine LePen em França, onde foi o partido mais votado, pelo sucesso do Partido da Independência do Reino Unido (UKIP), um movimento populista e antieuropeu, da extrema esquerda na Grécia, e os bons resultados dos eurocépticos na Dinamarca. Na Alemanha, apesar de ser o país mais rico e motor da economia europeia os eurocépticos e os partidos alternativos também subiram. Uma subida que na realidade se verificou em toda a Europa, onde o apelo das instituições europeias, o Parlamento, não conseguiu uma participação eleitoral superior a 45 por cento.
Os dirigentes europeus reuniram para mesmo perante o abismo não conseguirem apresentar rapidamente um conjunto de medidas que fazendo regressar a economia à política permitissem lançar as bases de um relançamento do consumo interno na União e com isso uma redução do desemprego e aumento das receitas fiscais. Presente o imutável Tratado de Maastricht em que ninguém parece querer tocar para permitir a subida dos défices e o relançamento da economia através do investimento público, agora devidamente programado e obedecendo a uma estratégia de médio – longo prazo. Os dirigentes europeus pareceram mais preocupados com o candidato à substituição de Durão Barroso e que pela primeira vez será eleito pelo Parlamento Europeu mais eurocéptico de sempre.
A oposição eurocéptica surgiu desde logo através do Primeiro Ministro britânico David Cameron que fez saber de imediato à Chanceler alemã Ângela Merkel que a Grã-Bretanha se retirava da UE se Jean-Claude Junker, ex-PM do Luxemburgo e antigo presidente do Eurogrupo fosse eleito. Se as dificuldades para os conservadores eram grandes e necessitavam no parlamento dos eurocépticos do apoio socialista, agora mais confusa se torna pois a alternativa Martin Shultz, alemão, presidente do parlamento cessante, socialista, é muito complicada sendo eventualmente de encarar uma outra figura tanto mais que François Hollande, acossado pela vitória da extrema direita, virou subitamente à esquerda.
Read more ...