3 de Junho, 2014
Maio de 2014 fica como o ano em que os eurocépticos e os
críticos da gestão da Europa marcaram posição no Parlamento Europeu; os
partidos xenófobos capitalizaram no descontentamento crescente do
eleitorado europeu com a incapacidade de a UE ultrapassar a crise
desencadeada há seis anos pelas más apostas da banca americana que
contagiaram as finanças um pouco por todo o Mundo. O eleitorado europeu
mostrou o cartão amarelo não só aos partidos tradicionais como à
própria Comissão Europeia.
A estagnação económica da Europa, o desemprego galopante, a forma como o Estado Social foi arruinado com a obsessão do défice, conduziram a uma situação de indiferença e crítica face às instituições europeias. Os partidos tradicionais seguiram as receitas tradicionais na linha de Milton Freedman quando para muitos a receita estaria mais para o lado de Keynes ou provavelmente no repensar de tratados, como o de Maastricht aprovado e assinado em 1992 que abriu as portas à criação do euro e para a sua estabilidade fixou o limites dos défices em três por cento. Ora a realidade é que a Europa mudou consideravelmente com o alargamento sucessivo do grupo dos Doze em 1992 para os actuais 28 Estados membros. Apenas 18 Estados integram o euro por não reunirem condições ou por opção própria como é o caso da Grã Bretanha que sempre se tem mantido numa posição dúbia relativamente à União Europeia.
Os organismos europeus, em particular a Comissão Europeia, não sendo eleitos não se coíbem porém de ignorar esse défice democrático para promulgar directivas e normas absolutamente incongruentes sobrepondo-se à legislação dos Estados membros.
Um exemplo dessas preocupações legislativas de Bruxelas foi a tentativa de introdução de uma norma proibindo os restaurantes de reutilizarem os galheteiros tradicionais enchendo-os de azeite e vinagre avulso uma vez vazios – a norma nunca chegaria sequer a ser publicada. Contudo a Comissão não tem tido uma atitude pró-activa na promoção de políticas de emprego e de desenvolvimento indo a reboque o FMI e do BCE (Banco Central Europeu). Os comissários europeus chegam mesmo a criticar os Estados membros pelas políticas seguidas, designadamente económicas, com repercussões nas agências de notação e nos meios financeiros internacionais.
Paralelamente a Europa tem lidado com o problema da migração e em particular da imigração ilegal numa base de repatriamento e fecho de fronteiras sem que em paralelo estimule o investimento nos países pobres por forma a ajudar à sua estabilidade política e ao seu desenvolvimento com a consequente criação de postos de trabalho.
Se para os eurocépticos as preocupações se centram na gestão medíocre da Europa por organismos não eleitos, para a extrema direita, incluindo neofascistas e neonazis, o problema da imigração e do desemprego são explorados fomentando a xenofobia e o racismo. A insatisfação europeia pode-se medir pela vitória da extrema direita pura e dura de Martine LePen em França, onde foi o partido mais votado, pelo sucesso do Partido da Independência do Reino Unido (UKIP), um movimento populista e antieuropeu, da extrema esquerda na Grécia, e os bons resultados dos eurocépticos na Dinamarca. Na Alemanha, apesar de ser o país mais rico e motor da economia europeia os eurocépticos e os partidos alternativos também subiram. Uma subida que na realidade se verificou em toda a Europa, onde o apelo das instituições europeias, o Parlamento, não conseguiu uma participação eleitoral superior a 45 por cento.
Os dirigentes europeus reuniram para mesmo perante o abismo não conseguirem apresentar rapidamente um conjunto de medidas que fazendo regressar a economia à política permitissem lançar as bases de um relançamento do consumo interno na União e com isso uma redução do desemprego e aumento das receitas fiscais. Presente o imutável Tratado de Maastricht em que ninguém parece querer tocar para permitir a subida dos défices e o relançamento da economia através do investimento público, agora devidamente programado e obedecendo a uma estratégia de médio – longo prazo. Os dirigentes europeus pareceram mais preocupados com o candidato à substituição de Durão Barroso e que pela primeira vez será eleito pelo Parlamento Europeu mais eurocéptico de sempre.
A oposição eurocéptica surgiu desde logo através do Primeiro Ministro britânico David Cameron que fez saber de imediato à Chanceler alemã Ângela Merkel que a Grã-Bretanha se retirava da UE se Jean-Claude Junker, ex-PM do Luxemburgo e antigo presidente do Eurogrupo fosse eleito. Se as dificuldades para os conservadores eram grandes e necessitavam no parlamento dos eurocépticos do apoio socialista, agora mais confusa se torna pois a alternativa Martin Shultz, alemão, presidente do parlamento cessante, socialista, é muito complicada sendo eventualmente de encarar uma outra figura tanto mais que François Hollande, acossado pela vitória da extrema direita, virou subitamente à esquerda.