17 de Fevereiro, 2015
Menos de 24 horas depois de entrar em vigor o cessar-fogo no
Leste da Ucrânia é cedo dizer se se mantém ou fracassa como no
passado. Desta vez está em jogo não só a paz e estabilidade na região,
como os seus efeitos na estabilidade e economia mundiais.
Situado em território já ocupado pelos separatistas, estes consideram que o fim das hostilidades não é aplicável senão na linha da frente, que nestes dias que decorreram entre a assinatura dos acordos de Minsk II e o fim decretado das hostilidades foi objecto de renovados ataques na procura e consolidação de posições pelos dois lados. Ontem devia ter início a retirada do armamento pesado para trás da linha de demarcação da zona desmilitarizada. Estão os separatistas, como as forças de Kiev, dispostas a entregar as áreas conquistadas após a fracassada tentativa de Setembro, conhecida como Minsk I? E a colocar as armas sob controlo dos observadores da Organização de Segurança e Cooperação Europeia? A permitir o patrulhamento e observação da OSCE?
As questões de fundo que se colocam agora são o controlo de Poroshenko sob tropas e milícias ucranianas, algumas delas ligadas à extrema-direita neonazi, e a influência de Vladimir Putin sobre as milícias pró-russas que declararam independências nas províncias fronteiriças com a Rússia.
Estados Unidos, que não fizeram parte deste acordo, continuam a manter a disponibilidade para o fornecimento de armas a Kiev, mesmo contra a posição de Ângela Merkel que não esconde o desagrado, afirmando que já há armas a mais na região. Uma “opção zero”, o embargo de armas aos dois lados, era um incentivo bem melhor, mas se Washington não parece estar nessa onda Moscovo também não a vai surfar.
O acordo foi conseguido graças aos esforços da chanceler Ângela Merkel e ao apoio que recebeu de François Hollande, mais em figura de “compére” que de participante activo.
Merkel e Putin mantêm uma relação cordial e a Alemanha é essencial à economia russa, como o inverso é verdadeiro. A realpolitik presidiu a este acordo que, a descambar, os russos vão, verdadeiro ou falso, acusar os EUA. A estratégia dos confrontos indirectos da Guerra Fria, obrigava os Estados Unidos a serem mais parcimoniosos no fracking que colocam no mercado, beneficiando assim uma subida do crude. Mas acarretando um conjunto de problemas difíceis de inventariar e travando retomas económicas para além dos “grandes” e da banca internacional.
Berlim prepara-se para pôr fim à sua moratória no fracking, a lei deve ser votada no Bundestag em Maio. Embora a autorização não ultrapasse os três mil metros de profundidade na Alemanha estimam-se em 2,3 mil milhões de metros cúbicos as reservas de gás que o país pode ter, usando o fracking só até à profundidade de três mil metros. Berlim pretendia assim aliviar a dependência do gás russo, pelo menos no período de transição para as energias renováveis. As consequências dessa iniciativa por parte de um dos grandes consumidores, tinham reflexos mundiais, em especial nos produtores já lesados pelo fracking norte-americano.
Se por outro lado o acordo subsistir e a Rússia se mantiver um parceiro fiável e leal aos seus compromissos a Alemanha pode injectar noutras áreas da sua economia o investimento destinado ao fracking, os russos ganham, os preços não são abalados.
A própria Ucrânia beneficiava dos preços que a Rússia se propõe praticar, o que era um alívio face aos “benefícios” que vai ter do plano de ajuda do FMI e da União Europeia, e aqui a medalha tem um reverso, os bancos prontos para ganharem na Ucrânia tinham de cercear o seu apetite pelo lucro.
Quanto à manutenção do cessar-fogo de Minsk II e desenvolvimento das fases subsequentes acordadas na Bielorrússia francamente é mais um trabalho para os astrólogos. Mas estão lá todas as razões para um sucesso, se Kiev e Moscovo, mas sobretudo Kiev e os seus radicais, entenderem todo o sentido de compromisso.