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terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Trégua e interesses


Benjamim Formigo |
17 de Fevereiro, 2015

Menos de 24 horas depois de entrar em vigor o cessar-fogo no Leste da Ucrânia é cedo dizer se se mantém ou fracassa como no passado. Desta vez  está em jogo não só a paz e estabilidade na região, como os seus efeitos na estabilidade e economia mundiais.
O bom sinal até domingo à tarde era a manutenção geral do cessar-fogo com excepção para Debaltseve, um importante nó ferroviário no Leste onde há semanas os separatistas cercam tropas ucranianas.
Situado em território já ocupado pelos separatistas, estes consideram que o fim das hostilidades não é aplicável senão na linha da frente, que nestes dias que decorreram entre a assinatura dos acordos de Minsk II e o fim decretado das hostilidades foi objecto de renovados ataques na procura e consolidação de posições pelos dois lados. Ontem devia ter início a retirada do armamento pesado para trás da linha de demarcação da zona desmilitarizada. Estão os separatistas, como as forças de Kiev, dispostas a entregar as áreas conquistadas após a fracassada tentativa de Setembro, conhecida como Minsk I? E a colocar as armas sob controlo dos observadores da Organização de Segurança e Cooperação Europeia? A permitir o patrulhamento e observação da OSCE?
As questões de fundo que se colocam agora são o controlo de Poroshenko sob tropas e milícias ucranianas, algumas delas ligadas à extrema-direita neonazi, e a influência de Vladimir Putin sobre as milícias pró-russas que declararam independências nas províncias fronteiriças com a Rússia.
Estados Unidos, que não fizeram parte deste acordo, continuam a manter a disponibilidade para o fornecimento de armas a Kiev, mesmo contra a posição de Ângela Merkel que não esconde o desagrado, afirmando que já há armas a mais na região. Uma “opção zero”, o embargo de armas aos dois lados, era um incentivo bem melhor, mas se Washington não parece estar nessa onda Moscovo também não a vai surfar.
O acordo foi conseguido graças aos esforços da chanceler Ângela Merkel e ao apoio que recebeu de François Hollande, mais em figura de “compére” que de participante activo.
Merkel e Putin mantêm uma relação cordial e a Alemanha é essencial à economia russa, como o inverso é verdadeiro. A realpolitik presidiu a este acordo que, a descambar, os russos vão, verdadeiro ou falso, acusar os EUA. A estratégia dos confrontos indirectos da Guerra Fria, obrigava os Estados Unidos a serem mais parcimoniosos no fracking que colocam no mercado, beneficiando assim uma subida do crude. Mas acarretando um conjunto de problemas difíceis de inventariar e travando retomas económicas para além dos “grandes” e da banca internacional.
Berlim prepara-se para pôr fim à sua moratória no fracking, a lei deve ser votada no Bundestag em Maio. Embora a autorização não ultrapasse os três mil metros de profundidade na Alemanha estimam-se em 2,3 mil milhões de metros cúbicos as reservas de gás que o país pode ter, usando o fracking só até à profundidade de três mil metros. Berlim pretendia assim aliviar a dependência do gás russo, pelo menos no período de transição para as energias renováveis. As consequências dessa iniciativa por parte de um dos grandes consumidores, tinham reflexos mundiais, em especial nos produtores já lesados pelo fracking norte-americano.
Se por outro lado o acordo subsistir e a Rússia se mantiver um parceiro fiável e leal aos seus compromissos a Alemanha pode injectar noutras áreas da sua economia o investimento destinado ao fracking, os russos ganham, os preços não são abalados.
A própria Ucrânia beneficiava dos preços que a Rússia se propõe praticar, o que era um alívio face aos “benefícios” que vai ter do plano de ajuda do FMI e da União Europeia, e aqui a medalha tem um reverso, os bancos prontos para ganharem na Ucrânia tinham de cercear o seu apetite pelo lucro.
Quanto à manutenção do cessar-fogo de Minsk II e desenvolvimento das fases subsequentes acordadas na Bielorrússia francamente é mais um trabalho para os astrólogos. Mas estão lá todas as razões para um sucesso, se Kiev e Moscovo, mas sobretudo Kiev e os seus radicais, entenderem todo o sentido de compromisso.
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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Reunião de Minsk pode ser última oportunidade


Benjamim Formigo |
9 de Fevereiro, 2015

Depois de deixar Ângela Merkel e François Hollande marinar durante um dia, Vladimir Putin deu finalmente a sua resposta, acedendo a uma conferência telefónica a quatro, na próxima quarta-feira: os três, mais o Presidente ucraniano, Petro Poroshenko.
O porta-voz do Kremlin já na véspera dera um sinal de que Putin estava a encarar o plano Merkel-Hollande com seriedade. No domingo, ainda durante a Conferência de Munique, surgiu a resposta russa e tudo ficou pronto para essa conversa reportada como longa.
Ninguém espere que numa única sessão os trabalhos fiquem concluídos.Mas quatro Chefes de Estado e de Governo não se reúnem em cimeira se, previamente, não tiver sido feito, pelos seus assessores, o trabalho de casa que permita não qualificar o encontro como fracasso.
O facto preocupante é não existir qualquer referência à presença de Barak Obama, aparentemente mais preocupado com a sua agenda interna.
Preocupante, porque os republicanos ameaçam com o envio de armamento para as forças governamentais de Kiev e o comandante chefe da OTAN, um general americano, insiste publicamente que a opção militar continua em consideração. A chanceler Angela Merkel tem na sua agenda, para hoje, uma reunião com o Presidente dos Estados Unidos, que tem mantido uma imensa ambiguidade quanto ao armamento para Kiev. A chanceler alemã deixou muito claro que “já há armas a mais no Leste da Ucrânia” e que não seriam as armas a resolver um problema politico, social, étnico e económico que se arrasta e ameaça a estabilidade global.
Ao que se sabe do plano Merkel-Hollande, ele não difere muito do acordo assinado em Minsk, em Setembro passado, e que nunca entrou em vigor, começando pelo binómio cessar-fogo/autonomia. Existem diferenças substantivas que não são do agrado de Poroshenko, mas ou este aceita a cedência ou é a continuação e intensificação da guerra.
Os dois chefes de Estado da União Europeia propõem no seu plano um cessar-fogo nas actuais posições e a criação de uma zona desmilitarizada de 50 a 70 quilómetros ao longo da linha de cessar-fogo. Isto implica para o governo ucraniano a cedência de cerca de mais 500 quilómetros quadrados de território aos separatistas. Estes, por seu turno, desistem da secessão e independência em troca de uma ampla autonomia política e administrativa na região Donetsk e Luhansk. Para este pacote ser aceitável para Kiev, os separatistas têm de desistir de abrir – o que estão quase a conseguir – o corredor terrestre para o porto de Mariopol que lhes daria, a eles e aos russos, o controlo de Mar de Azov. Uma derrota política para Poroshenko? Em certa medida sim, mas também lhe daria a tranquilidade que necessita para reconstruir a economia do país cujo produto nacional bruto (PNB) caiu este ano sete por cento.
Moscovo abriria em pleno a torneira do gás, que ao preço subsidiado que tem sido praticado, corresponde anualmente a um auxilio de sete mil milhões de dólares. Alem disso, os ucranianos poderiam voltar a trabalhar livremente na Rússia, como sempre puderam, o que se traduz em três milhões de trabalhadores ucranianos ocupados na economia russa, e a poderem exportar para a Ucrânia uma parte do produto do seu labor, uma importação livre de remessa de moeda necessária à economia da Ucrânia.
Com a entrada alemã, a verificar-se um acordo sobre as condições descritas, a discussão passou para o plano da “realpolitik” – inventada por Ludwig Von Rochau e Klemens Von Metternich no século XIX para gerir o poder imperial na Europa e mais tarde as relações internacionais durante a Guerra Fria.
A União Europeia, ao contrário da ideia dos tecnocratas de Bruxelas – os homens que dão instruções, pareceres e definem estratégias e cuja maioria nunca governou ou fez política, bafejados apenas por uma boa nota de curso ou uma juventude partidária – não tem condições para apoiar a Ucrânia. Não tem condições financeiras para por a economia de pé, não tem disponibilidade para abrir as portas à imigração ucraniana (em substituição da Rússia) e está dividida entre os Estados de Leste motivados pelo ressentimento à URSS e os Estados ocidentais permeáveis ao comércio com a Rússia e para quem o alargamento a Leste foi um aumento de mercado consumidor ou um bom terreno para o investimento financeiro.
No contexto da “realpolitik”, a Ucrânia não pode dispensar as suas relações comerciais com a Rússia, nem os benefícios económicos que dela tira.
Aceitar um apoio da União Europeia implicaria passar pelos problemas que os gregos ainda sofrem, e não há objectivamente condições para isso. Kiev tentou arrastar-se para a OTAN, para se ver defendida pela Aliança, mas nem os falcões norte-americanos fizeram mais do que um auxílio militar não letal – e nunca enviaram tudo o que prometeram. Em paralelo, tirando os países de Leste, a OTAN dividia-se com os norte-americanos a meio da ponte, o Leste europeu a pretender vingança e o ocidente europeu a evitar os problemas da Ucrânia na OTAN. Do lado russo, ao mesmo tempo que a União Europeia parece ter deixado de lado uma maior integração ucraniana, Moscovo deixa Kiev fora da sua União Euro-Asiática. Não desiste, provavelmente, do território nas mãos dos separatistas – e esse é o principal problema – mas mantém um tampão de um milhar de quilómetros entre as suas fronteiras e as da OTAN, sendo o contrário verdadeiro.
A Ucrânia é um tampão entre as fronteiras de duas zonas geográfica e culturalmente próximas, mas afastadas pela sua ligação ou afastamento aos Estados Unidos, que continuam a ser a grande incógnita do encontro da próxima quarta-feira. Poroshenko tem ainda um pequeno trabalho: o de se livrar de personalidades neofascistas ou com ligações à extrema direita que nomeou desde que chegou ao poder, como Vadim Troyan, comandante da polícia de Kiev, ligado à extrema-direita, que tem tido um importante papel na guerra no Leste contra os separatistas.
Depois do fracasso de “Minsk I”, em Setembro de 2014, “Minsk II”, em Fevereiro de 2015, podeser a última oportunidade, durante longo tempo, e a distensão de uma situação que não se conhecia desde os tempos da Guerra Fria.
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quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Guerra sem soluções políticas


Benjamim Formigo |
1 de Outubro, 2014

Ainda a crise provocada na Ucrânia está por resolver já os Estados Unidos e os seus parceiros europeus se envolvem numa outra bem mais complicada: a guerra contra o auto intitulado “Estado Islâmico”. Num caso como no outro os envolvimentos euro-americanos ocorreram sem uma estratégia de saída.
Na Ucrânia a guerra não foi (é) transfronteiriça, mas sim um confronto de vontades com a Rússia e a saída está a ocorrer, parece, de uma forma natural, por si mesma, com a existência de uma zona desmilitarizada (ZDM) entre o Leste do país, russófono, e o resto da Ucrânia. O futuro dirá onde conduzirá essa autonomia e essa ZDM, de facto um tampão entre duas culturas do mesmo país.
No Iraque levanta-se a grande incógnita. Os Estados Unidos procuraram cooptar e conseguiram o apoio tácito ou activo de vários Estados árabes e dos seus parceiros da OTAN. Uma excepção notável a distanciação da Turquia que obriga os americanos a operar a partir de porta-aviões ou de bases distantes em países do Golfo em vez de Incirlik, a base mais usada nas guerras do Golfo.
A Turquia negociou com o auto designado “Estado Islâmico” a libertação de cidadãos seus e tem uma extensa fronteira com a Síria e o Iraque, notavelmente o Curdistão iraquiano. O envolvimento turco ao lado da oposição síria armada coloca Ancara numa situação incómoda, já que uma boa parte dessa oposição deserta para se juntar às forças do “Estado Islâmico”, o movimento radical que quase derrubou o Governo de Bagdad, derrotou o Exército iraquiano apoderando-se de sofisticado material de guerra fornecido pelos Estados Unidos. A França seguiu no encalço dos EUA, apressando-se a atacar alvos o EI a partir de porta-aviões; Bélgica e Dinamarca anunciaram o envio de caças F-16 sem especificar onde irão estacionar; a Grã Bretanha, depois de consultado o Parlamento, fez entrar em acção, para já de reconhecimento, os seus Tornados estacionados nas bases que mantém em Chipre, enclaves territoriais na costa Sul da ilha que Londres recusou entregar à soberania cipriota quando cedeu a independência a Chipre. Os Emiratos Árabes Unidos agiram já contra o “Estado Islâmico” tal como outros Estados árabes, mas as correntes operações estão longe de uma coligação como a que em 1990 foi estabelecida para a guerra contra o Iraque.
A questão de fundo é o que pretendem EUA e os seus aliados no final desta intervenção. Não se conhece uma estratégia de saída. Atacar as forças do “Estado Islâmico” pode parecer louvável quando se fazem em defesa de populações que fogem aos milhares procurando refúgio na Turquia. É um facto que o movimento que se intitula “Estado Islâmico do Iraque e do Levante” é o grupo mais brutal que alguma vez actuou naquela região e o que mais estrangeiros recrutou, designadamente europeus e americanos, numa aparente conversão a um Islão brutal repudiado pelos imãs em geral. A Al Qaeda parece um grupo de meninos de coro ao lado do EI. As decapitações de europeus e americanos gravadas em vídeo e difundidas são apenas uma pequena parcela da mentalidade desse grupo. Ao conseguirem deitar a mão a bastante material de guerra americano que equipava o Exército iraquiano tornou-se imparável no seu avanço. Esse ímpeto ofensivo atraiu muitos dos opositores ao Presidente Assad da Síria que militavam noutros grupos. Alguns com ligações à Al Qaeda engrossando os seus efectivos para cima de quatro mil homens.
Os ataques aéreos que se irão intensificar podem impedir o avanço das forças do EI que agem como um exército convencional desde que possuem armamento pesado e blindados. Podem limitar a acção do EI mas não conseguem derrotá-lo no terreno. Os curdos, mais do que o Exército iraquiano, têm conseguido com o apoio aéreo conter algumas ofensivas convencionais do grupo. O guerreiros curdos conseguiram mesmo alguns avanços territoriais no Iraque para suster o EI fora do Curdistão, mas na prática o facto é que o Curdistão iraquiano aumentou o seu território, uma questão para debater no final. Um final que ninguém antevê como vai ser. David Cameron nos Comuns deixou claro que é uma campanha para anos. Ninguém tem uma ideia clara do que fazer no final desta campanha, apenas a decisão de que o auto denominado “Estado Islâmico do Iraque e do Levante” é um perigo real, claro e presente e que não pode continuar a dominar territórios, a controlar zonas petrolíferas e refinarias, a financiar-se através da comercialização do petróleo no mercado negro.
A presente crise põe em destaque a necessidade de abordar a situação de uma forma global. Desde o diálogo de Israel com a Autoridade Palestiniana e o fim dos ataque indiscriminados que ainda recentemente Israel levou a cabo, até a uma aproximação ao Irão com quem é necessário dialogar e integrar na política regional. Não é realista manter à margem uma potência regional, ainda por cima quando parece disponível a debater o seu programa nuclear. O petróleo da Arábia Saudita ou do Qatar tem feito fechar os olhos aos financiamentos sauditas a grupos radicais. A Rússia tem uma palavra estratégica na região. Não se vê em lado algum a consideração de todos estes factores. Como ninguém tem uma proposta para o dia a seguir, é bom ter presente que EUA, França e Grã-Bretanha foram o apoio aéreo das forças que derrubaram Kaddhafy. Hoje, graças à ausência de uma estratégia a Líbia está o que se sabe.
Os países ocidentais em geral, os EUA em particular, têm de tomar consciência de que mesmo sendo potências militares e ou económicas estão em declínio e o Mundo deixou de ser fácil de gerir. Os problemas enfrentados no Médio Oriente têm soluções geracionais e se não forem encarados como tal entraremos num ciclo vicioso de soluções falsas e envolvimentos militares na resolução de novos problemas.
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quarta-feira, 30 de julho de 2014

Ucrânia na Europa e a confusão no Iraque e no Afeganistão


Benjamim Formigo |
30 de Junho, 2014

Por entre uma imensa confusão o novo Presidente ucraniano assinou o tal acordo de associação económica com a União Europeia, considerado uma ameaça por Moscovo. Assinaram a Ucrânia, a Geórgia e a Moldávia.
A reacção de Kremlin foi bem pouco simpática, apelidando de terrorista o Presidente recém eleito e com quem parecia haver uma abertura negocial. Verdade também é que Petro Poroshenko antes de assinar o acordo havia já declarado que o seu país não iria aliar-se ou integrar-se na OTAN, procurando afastar os receios de segurança de Moscovo.
Uma leitura rápida dos jornais, o cessar-fogo unilateral decretado por Poroshenko no Leste onde têm decorrido confrontos com separatistas russos, o diálogo do ucraniano com Vladimir Putin, mediado ou forçado pela Chanceler alemã Ângela Merkel nas cerimónias do desembarque aliado na Normandia, a 6 de Junho, o silêncio em torno do acordo de associação comercial, levavam a acreditar que nos bastidores decorreriam conversações. De súbito Bruxelas anuncia não um acordo com a Ucrânia, mas três acordos: Ucrânia, Geórgia e Moldávia. Quem tomou esta decisão e qual o objectivo estratégico é para dizer o mínimo um ignorante incapaz de deixar correr a diplomacia – que todos sabemos lenta. Quem fica a ganhar com este acordo é bem evidente: os bancos europeus que vão ser os veículos de transmissão de financiamentos enormes não só para resolver a situação financeira desastrosa da Ucrânia como para financiar a renovação tecnológica do país, colocando os seus produtos sob as directivas e normas europeias, o que custará uma fortuna, bem maior do que os dividendos que a Ucrânia irá retirar. A miragem do mercado de 500 milhões de consumidores com a confiança em baixa poderá custar muito caro à Ucrânia como à Geórgia e Moldávia.
Argumentar que se trata de um contrato para o desenvolvimento é uma visão de muito longo prazo e que vai passar pelas medidas radicais do FMI, Banco Central Europeu e Comissão Europeia, a menos claro que com os resultados desastrosos das eleições europeias as políticas mudem. Mas algum grau de austeridade fica, o desemprego não recupera e os bancos vão lucrar milhões. Do ponto de vista da segurança a Geórgia já perdeu para a Rússia o que tinha a perder, a Moldávia só pode encarar este acordo como um pacto de desenvolvimento. A Ucrânia não deve certamente ter a ingenuidade de acreditar que se não for posto diplomaticamente termo ao conflito separatista no Leste a UE e/ou a OTAN se envolverão num confronto com a Rússia por sua causa.
A verdade é que se tem falado muito e à margem do órgão mais indicado para o fazer e que tem sido manipulado por ambos os lados: a Organização de Segurança e Cooperação Europeias, garante da Acta Final de Helsínquia e único organismo onde muitas vezes durante a Guerra Fria havia diálogo Leste-Oeste.
Claro que a situação numa Europa em processo de recuperação, com um fraco crescimento económico que pode ser abalado com algum sobressalto, sublinha apenas as críticas dos eleitores europeus aos partidos tradicionais e sua promiscuidade com burocratas e financeiros.
Obama está a terminar o segundo e último mandato sem deixar uma marca na política dos Estados Unidos. O Presidente que maiores expectativas criou, que teve apoios mundiais, que até ganhou um Prémio Nobel da Paz com base em declarações de intenção, vai sair sem brilho nem glória. Retirou as tropas americanas no Afeganistão, agora lançado na maior das confusões com os talibãs a recuperarem posições e terreno fazendo tremer o Governo eleito. No Paquistão os “drones” americanos não param os ataques contra alegadas posições talibãs à revelia do Governo de Islamabad. Outrora um importante aliado dos EUA na região, o Paquistão é tratado com total displicência; nenhum líder paquistanês forte se coloca ao lado dos EUA. Quando isto sucede no Paquistão imagine-se no vizinho Afeganistão, de fronteiras permeáveis, em territórios onde prevalece a lei tribal.
No Iraque os rebeldes do ISIS (Estado Islâmico do Iraque e do Levante – Síria) semana a semana conquistam novas posições, o país está de facto dividido em dois com um considerável território do Iraque e da Síria sob domínio dos fundamentalistas que nem a Al Qaeda quer receber. Barack Obama enviou 300 observadores militares para o Iraque, Vladimir Putin optou pela entrega de uma primeira remessa de Sukois que estará operacional nos próximos dias e destinada a lutar contra o ISIS no Iraque e na Síria. Não há indicação de quem os irá operar.
De lado nesta complexa equação está o Irão, porventura a chave para levantar a indeterminação sobretudo num contexto de abordagem geral na situação do Médio Oriente. Esta coisa de começar uma guerra, ou várias, não é nada difícil, toda a gente sabe que o complicado é acabá-la de forma duradoura.
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segunda-feira, 21 de julho de 2014

Acidente na Ucrânia desvia atenções do Médio Oriente


Benjamim Formigo |
21 de Julho, 2014

A Malaysian Airlines, para dizer o mínimo, é uma companhia com azar.
Em poucos meses dois dos seus Boeing 777 desaparecem do ar em circunstâncias misteriosas envoltas em polémica mais ou menos aberta.Os israelitas decidem na mesma altura, sensivelmente, avançar sobre Gaza para alegadamente destruírem, ou inibirem os túneis usados pelo Hamas nas suas incursões em território israelita. O Hamas por seu turno recusa um cessar-fogo proposto pelo Egipto, apesar dos termos não lhe serem francamente desfavoráveis, sabendo que Netanyahu não hesitaria em aproveitar para castigar os palestinianos.
Por curiosidade, segundo o “New York Times”, o Presidente russo Vladimir Putin iria sobrevoar 37 minutos mais tarde a mesma rota do B 777 alegadamente abatido por um sofisticado míssil terra-ar (SAM). Por quem? É uma outra história. Para os americanos o míssil teria indubitavelmente sido disparado por separatistas pro-russos, que o teriam obtido num assalto a uma unidade ucraniana. Os ucranianos, e em particular o Primeiro Ministro, sempre um passo à frente do amigo americano, dizem que os mísseis teriam sido fornecidos aos separatistas pelos russos e vão mesmo mais longe, sugerindo que teriam sido disparados pelos russos ou com a assistência de técnicos militares russos.
Na véspera o Governo ucraniano declarara como altitude mínima de segurança o sobrevoo acima de 32 mil pés (+-10 mil metros). Este aviso quase parece uma história de amadores. Os SAM transportados ao ombro, como os “Stinger” entregues pela CIA à UNITA, não passam dos 15 mil pés. Só outros sistemas mais sofisticados, conduzidos por radar, capazes de ler o “transpondes” do avião se é inimigo ou não, incluindo civil, atingem os 40 mil pés. Logicamente a atitude de segurança seria ou interditar o espaço aéreo naquela região pura e simplesmente, ou colocar o patamar de segurança nos 20 mil pés. Mais, todos os restantes voos, incluindo da MA passaram entre 100 a 350 milhas náuticas a Sul da rota usada pelo malogrado voo. Um voo que, sobre a Polónia inflectiu para Norte durante algum tempo até entrar na rota mais a Norte usada pela primeira vez, conforme as informações da Flight Aware, organização privada europeia que monitoriza os voos.
Seja como for só se pode considerar absurda a decisão de voar sobre uma zona de guerra. Mais absurdo e criminalmente punível seria disparar conta uma aeronave, sobretudo civil, que voa dentro de um corredor não interditado. As cartas aeronáuticas têm clara e inequivocamente assinaladas as zonas de sobrevoo interdito, e com o aviso de que uma aeronave sobre essa zona pode ser abatida sem aviso prévio. Para além disso as autoridades nacionais podem recorrer a avisos temporários encerrando por precaução zonas do seu espaço aéreo. Finalmente as próprias companhias de aviação tomam a decisão (e várias já o haviam feito) de não sobrevoar zonas de conflito, haja ou não conhecimento da existência de SAM. Aconteceu porque entramos num novo período de Guerra Fria e a Ucrânia é o território escolhido para o conflito indirecto ente EUA e Rússia com a União Europeia balanceando entre a pressão dos antigos satélites soviéticos, incapazes de se livrar de complexos, os incondicionais de Washington, e o pragmatismo liderado pela Alemanha. Aconteceu assim e mesmo que depois de uma análise independente se verifique que o desastre teve outras causas, ninguém vai acreditar.
A atenção dada pelos média ao voo MH17 escondeu o horror que se desenrola na Palestina. Israel reage aos mísseis do Hamas, como seria de esperar, mas reage de forma desproporcionada.
O Governo israelita começou por anunciar que se tratava de uma operação para evitar que o Hamas usasse túneis para se infiltrar em Israel a partir de Gaza. Para destruir ou inibir esses túneis Israel tem usado artilharia e aviação. Não é possível que os israelitas não tenham tirado lições da experiência norte-americana no Vietname onde mesmo o uso dos B52 foi mais que um desperdício de vidas deixando incólumes a maioria dos túneis. O combate ao uso de túneis foi feito pelos “tunnel rats”, soldados americanos, na maioria voluntários, que com enormes e imensos riscos se infiltravam nos túneis vietcongues para metro a metro os neutralizar.  A rede era tão grande que a tarefa se provou impossível. Nem a aviação ou a artilharia resolveram o problema até ao fim da guerra.
Com as atenções noutro ponto do planeta Israel prossegue uma guerra que não vai ganhar. Ninguém duvida que esta batalha se destina a debilitar militarmente o Hamas e que Israel o irá conseguir. O que é duvidoso é que contribua para a sua segurança e uma solução política. Netanyahu tem certamente presente que na sua retaguarda a Síria e o Iraque se partem num estado islâmico radical do Levante. A guerra irá continuar a criar refugiados palestinianos, agora no seu próprio território.
A guerra justifica-se para obter fins políticos. Alguém sabe quais são esses fins, esses objectivos?
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sexta-feira, 30 de maio de 2014

A presidência da Ucrânia e as relações comerciais


Benjamim Formigo
30 de Maio, 2014

A eleição, domingo, à primeira volta de Petro Poroshenko para a Presidência da Ucrânia e a esmagadora derrota de Yulia Tymoshenko com escassos 13 por cento dos votos, parece ter aberto as portas a uma terceira via de compromisso nas relações comerciais e económicas da Ucrânia com a União Europeia e a Rússia.
Petro Poroshenko, de 46 anos, é um multimilionário não identificado com o Governo surgido após o derrube do Presidente Viktor Yanukovych. Yulia Tymoshenko esteve presa por corrupção. Foi libertada nas últimas horas em que o Presidente deposto esteve no poder e apressou-se a aparecer à multidão de forma teatral, em cadeira de rodas, por alegadamente estar muito fraca.
Vladimir Putin questionava a legitimidade do Governo de transição, liderado por pessoas próximas de Yulia Tymoshenko. Após o referendo que levou à anexação da Crimeia, colocou-se numa posição de esperar para ver enquanto no terreno os anti-fascistas criavam uma onda contestatária de Donetsk a Odessa. Kiev tentou, sem sucesso, e perante a passividade das tropas russas do outro lado da fronteira, algumas ofensivas contra os separatistas acabando por anunciar a suspensão de operações dois dias antes do acto eleitoral.
Poroshenko baseou a sua campanha no desenvolvimento económico, na paz e reconciliação e na salvaguarda da integridade territorial da Ucrânia sem contudo fazer referência à Rússia e à anexação da Crimeia, apresentando-se como um candidato independente face à União Europeia e à Rússia. Tymoshenko fez a campanha esperada: demagógica, desligada da realidade geoestratégica e sem soluções para a economia.
Na véspera da eleição, Vladimir Putin quebrou o silêncio para afirmar que Moscovo ia dialogar com quem vencesse as eleições presidenciais, uma mudança substantiva face à posição inicial de nem sequer reconhecer legitimidade ao Governo provisório.
A vitória do multimilionário ucraniano só por si não responde a uma questão: a aceitação dos resultados no Leste da Ucrânia onde nalgumas cidades, como Donetsk, as assembleias de voto nem sequer abriram. Poroshenko é visto como um homem que pode conseguir um equilíbrio entre as pressões a União Europeia e da Rússia.
Na sua campanha de facto deu uma no cravo e outra na ferradura falando na assinatura de um pacto com a Europa sem fechar a porta a entendimentos com o Kremlin e, acima de tudo, fez questão de tranquilizar Putin sublinhando que estava fora de questão a adesão da Ucrânia à OTAN, um dos maiores receios russos que não querem a Aliança Atlântica com fronteiras no seu quintal.
Em declarações feitas ainda antes da divulgação dos resultados oficiais, Poroshenko anunciou também a sua intenção de convocar eleições parlamentares antes do final do ano sem contudo esclarecer se manteria em funções o actual Governo provisório pouco hábil em relações exteriores e profícuo em acusações à Rússia e a Putin. O dialogo com o Kremlin é indispensável à estabilização da Ucrânia. Levar o Leste a aceitar a autoridade central passa pelo apoio de Moscovo e concessões de Kiev, sem o apoio russo isso não será possível. O Presidente eleito tem de encontrar um entendimento quanto à energia, gás natural, que lhe dê alguma folga para impulsionar o desenvolvimento do país beneficiando de condições preferenciais a que no passado Vladimir Putin se mostrou aberto.
O mesmo sucede quanto à indústria, com imenso peso no Leste da Ucrânia e cujo principal cliente era a Rússia. Uma indústria que sem uma reconversão de longo prazo não produz bens que possam interessar aos “amigos” europeus. E tudo isto quando está já em andamento um programa de auxilio do FMI que passa inevitavelmente pela receita de desastre já aplicada na União Europeia.
A derrota monumental de Tymoshenko é também uma derrota dos seus principais aliados no Governo provisório. A conjugação dos perspectivas de vitória de Poroshenko, o seu discurso de abertura e conciliação, a anunciada derrota com Tymoshenko dos que ascenderam ao poder através da contestação de rua, terá influído na posição russa.
O Kremlin estava pouco interessado em manter o status de uma nova Guerra Fria e com este resultado os seus interesses podem ficar salvaguardados e ficou facilitada uma solução em que ninguém perde a face.
Resta saber a reacção dos burocratas da Comissão Europeia, se os políticos nacionais aprenderam após as eleições parlamentares que a política não é para ser deixada a burocratas e tecnocratas.
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segunda-feira, 5 de maio de 2014

Ineficácia do Governo de Kiev e a divisão da Ucrânia


Benjamim Formigo |
5 de Maio, 2014

A inépcia e incapacidade do Governo provisório instalado em Kiev após a queda na rua do Governo eleito, goste-se ou não, está a empurrar a Ucrânia.
Se não para uma guerra civil, pelo menos para uma divisão entre o Leste cultural e etnicamente próximo da Rússia e a parte ocidental, uma amálgama onde não falta o radicalismo de direita, incluindo neo-nazi e neo-fascista (goste-se ou não, também a História de colaboracionismo com os nazis durante a 2ª Guerra Mundial não pode ser escamoteada).
O que se está a passar no Leste e agora também no Sul da Ucrânia é uma imagem invertida da movimentação de rua que em Kiev derrubou o poder. Com uma agravante: os acontecimentos de Odessa, a violência inusitada dos confrontos que provocaram a morte de quase meia centena de activistas pró-russos, acentuaram a contestação no Leste e fizeram com que se espalhasse pelo Sul. De incidentes em Donetz passou-se para uma situação de tensão ou confrontos em Sloviansk, Kostyantynivka, Kramatorsk, Luhansk, entre outras localidades no Sul e do Leste. Nalgumas decorriam combates violentos no passado sábado, outras estavam cercadas por tropas ucranianas às ordens de Kiev.
Os militares às ordens do Governo instituído pelos EUA e a UE na capital não são contudo capazes de cumprir as ordens. Mostram-se impotentes para manterem os objectivos que conseguem ocupar apenas temporariamente. No Leste como no Sul os relatos que chegam deixam antever que o Exército não é recebido como uma força de libertação, mas de ocupação.
Os excessos que sucederam em Odessa com o alheamento das forças de segurança face ao ataque “popular” contra militantes russos que ocupavam a sede sindical, deram a Putin mais uma razão para intervir. Por isso o Primeiro-Ministro em exercício, também no poder por obra e graça de Washington e Bruxelas, o jovem Arseniy Yatsenyuk, apressou-se a vir a público acusar as forças de segurança, exonerar o seu comando e anunciar um inquérito da procuradoria.
Tanto Yatsenyuk como o Presidente em exercício Olexander Turchynov reconhecem a incapacidade de os militares às suas ordens cumprirem as missões que lhes são destinadas e que a situação corre o risco de ficar fora de controlo. Ao mesmo tempo acusam Moscovo de desestabilizar o Leste da Ucrânia e Yarsenyuk vai mesmo ao ponto de ameaçar a Rússia com uma nova guerra mundial depois de ouvir os apoios do senador John McCain (“A América está convosco!”).
Olexander Turchynov não teve nem a habilidade nem a experiência para lidar com a contestação que no Leste crescia em paralelo com a que o levou ao poder em Kiev. Inebriado ou provavelmente iludido por promessas de apoio o PM interino terá sido ingénuo para acreditar que alguém cruzaria armas pela Ucrânia?
Desde o final da Guerra Fria e o desmembramento da União Soviética e do Pacto de Varsóvia a OTAN e a União Europeia não cessaram de se expandir para Leste, ocupando através da estrutura militar da Aliança Atlântica muitos países do extinto Pacto de Varsóvia e absorvendo economicamente na União Europeia os países do Comecon.
Esta política a que Moscovo sempre manifestou oposição e considerou mesmo uma ameaça, trouxe um equilíbrio de forças diferente na OTAN com as vozes ferozmente anti-russas, leia-se anti-soviéticas, dos polacos em especial e outros países do antigo bloco de Leste. Na União Europeia a questão colocou-se mais ao nível dos burocratas de Bruxelas que determinam fora de controlo político algumas iniciativas importantes da UE.
Neste contexto sobressai o papel da Alemanha e a sua relação estranha de amor e ódio com a Rússia. Ângela Merkel em Washington a semana passada não cedeu um milímetro a Barack Obama. Alemães e russos divididos e unidos por uma guerra admiram-se mutuamente não por motivos políticos, mas por sentimentos comuns de anti-americanismo e a admiração pela intectualidade, a cultura, a arte e outros valores que acabam por se sobrepor aos 25 milhões de russos mortos na 2ª Guerra Mundial e à ocupação da Alemanha do Leste. Seria um outro texto falar sobre este tema abordado exaustivamente pelo “Der Spiegel”.
Mais de metade dos alemães apoiam a Rússia neste conflito e consideram que Merkel não só deve manter a neutralidade como impor-se como mediadora.
Dentro do seu próprio partido a chanceler alemã vê as vozes divididas por uma margem tão escassa que tanto pode indicar essa vontade como a oposta; em contrapartida o seu parceiro de coligação, o SPD é manifestamente hostil a acções punitivas a Moscovo em linha com a “Ostpolitik”, a détente defendida por Willy Brant, líder do SPD e chanceler alemão de 1969 a 1974. Uma melhor compreensão das razões russas para harmonizar a Europa a uma voz.
De facto nesta situação crítica a Alemanha surge como um factor de bom senso para evitar males piores mas não vale a pena esconder que no final tudo passará por uma Ucrânia dividida “de facto” ou “de jure”, seja qual for a fórmula que venha a ser encontrada para evitar a guerra civil e em especial a intervenção russa. No resultado final Obama não sai bem na foto. Presidente democrata, pressionado pelos republicanos conservadores do Congresso, sente, como todos os Presidentes democratas, a necessidade de mostrar que é conservador e duro em matéria de política externa.
Os Estados Unidos estão a sair de dez anos de guerra no Afeganistão e no Iraque. O apoio popular por mais um confronto, directo ou indirecto não abunda. Se Obama está no último mandato não pode deixar o terreno minado para o seu sucessor.
Ou como Paul Green, professor de Ciências Políticas da Universidade de Illinois me dizia um dia: “se é para parecer conservador vale mais comprar o artigo genuíno”. Mas pior que isso no resultado final iremos provavelmente ter um reforço de uma aliança entre Moscovo e Pequim.
Um acontecimento a milhares de quilómetros das economias emergentes no mundo globalizado pode ter um impacto extraordinariamente negativo nessas economias.
O Brasil, a Índia e outros deixaram já claros os seus receios desta aventura burocrática europeia e presidencial americana. Sem falar que os principais media, controlados pelo capital do Mundo ocidental, remeteram para notas de rodapé a Síria, o Egipto, a Líbia, os confrontos na África Central, o conflito no Sudão do Sul, entre outros.
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segunda-feira, 3 de março de 2014

A Ucrânia e a paciência de Putin


Benjamim Formigo |
3 de Março, 2014

Moscovo tem o seu dispositivo militar montado. Há mais de uma semana que cerca de 150 mil militares apoiados por centenas de tanques e aviões de combate estão a realizar manobras perto da fronteira da Ucrânia.
Os seus militares destacados na sua base naval e militar de Sebastopol estarão aparentemente a ocupar todas as posições estratégicas na cidade e mesmo na Crimeia. Em Simferopol, capital da República Autónoma da Crimeia (parte da Ucrânia, onde se encontra estacionada a frota russa do Mar Negro) a opinião maioritária veiculada pelas cadeias de televisão internacionais era de tranquilidade e segurança pela presença dos estimados 15 a 20 mil militares russos.
Em Bruxelas a OTAN reunia de emergência para concluir que houvesse o que houvesse os Estados Unidos e a OTAN não iriam enviar tropas para a Ucrânia para combater uma eventual invasão e ocupação russa. Ao contrário do que os novos senhores da Ucrânia foram levados a acreditar, o Ocidente não empenhará um soldado na sua defesa. Não é surpresa. Os interesses russos limitam-se à manutenção das suas bases na Crimeia e a garantias para a população russa e russófona da região autónoma, berço dos cossacos. No entanto Moscovo não se limita às manobras militares que colocaram as suas tropas a um passo da fronteira. Os militares russos movimentam-se na região como se esta estivesse sob a sua autoridade legal. O que traduz, de jure, uma violação da soberania ucraniana. Mas tudo indica que se ficarão por aí desde que Kiev se acalme.
Desde o início da reunião de emergência da OTAN ficou claro que não há medidas de contingência para os Estados Unidos ou a OTAN intervirem para além da defesa legal da soberania da Ucrânia. As sanções parecem estar na primeira linha de medidas da União Europeia e da OTAN; mesmo antes da reunião começar o Canadá, seguido dos EUA, anunciou que abandonava as reuniões preparatórias da próxima reunião do G-8 prevista para a Rússia. Mas em paralelo a OTAN tem consciência de que o grau de radicalismo em Kiev é excessivo e que a inexperiência política do novo Governo provisório pode levar a consequências desastrosas. Daí que ao mesmo tempo que decorria a reunião da Aliança Atlântica em Bruxelas o secretário dos Estrangeiros britânico voava para Kiev para conversações com o PM interino Arseniy Yatsenkuy, que no sábado afirmava no Parlamento que as movimentações russas eram uma declaração de guerra à Ucrânia. Ao certo qual o grau de controlo do actual Governo ucraniano sobre as Forças Armadas é pouco claro, sabendo-se porém que entre os militares existem muitos apoiantes da integração com a Rússia, em especial nas forças estacionadas na República Autónoma da Crimeia. As inflamadas declarações anti-russas que a rua (que se tornou a nova instituição de poder na Ucrânia) insiste em proferir já provocaram confrontos e agressões a movimentações pró-russas que se têm espalhado lentamente por outras regiões da Ucrânia, o que aumenta os receios de que as agressões contra cidadãos russos ou populações russófilas constitua a provocação esperada por Vladimir Putin para agir alegadamente em defesa da população russa, russófona e russófila. O Presidente russo deixou a ameaça bem clara ao pedir a ambas as câmaras do Parlamento russo autorização para o uso de tropas russas com esse fim na Ucrânia.
Com a possibilidade de um confronto entre a OTAN e a Rússia por causa da Ucrânia fora de questão, Kiev reconhece que não tem forças para enfrentar o Exército russo. Até ao momento a Rússia tem apenas um mínimo de forças na Crimeia, suficiente para mostrar os músculos. Se houver provocações que dêem à Rússia razões para o uso do que chama o seu “direito de intervir para defender as populações de língua russa ou os russos” que vivem na Ucrânia e na Crimeia a intervenção militar será um desastre para a situação internacional. Como já se disse nem os EUA nem a NATO intervirão, mas será um desastre diplomático e um problema convencer a Rússia a retirar do país que ocupa. Já sucedeu na Geórgia, na Ossetia, em 2008 , quando uma crise semelhante ocorreu. Os russos cruzaram a fronteira com a Ossétia, a Geórgia confrontou-os militarmente e foi um desastre para a Geórgia. A situação levou anos a normalizar.
Barack Obama e Vladimir Putin estiveram sábado ao telefone durante hora e meia. Não se sabe quem telefonou a quem. Sabe-se que Obama exprimiu, segundo a Casa Branca, “profunda preocupação pela violação clara da soberania da Ucrânia e receia pela sua integridade territorial, apelando a Putin para que faça regressar as suas tropas para as bases na Crimeia  e refrear-se de agir. Se a Rússia está preocupada com a segurança dos seus cidadãos na Ucrânia e minorias, a forma de encarar o assunto é através de observadores internacionais”. Não se sabe, mas presume-se o que Putin, como os observadores em geral, pensam dos observadores internacionais numa situação de pré-conflito. Sabe-se porém que Vladimir Putin não falou em retirar e esclareceu Obama de que o próximo movimento da Rússia dependia da atitude de Kiev.
Para já o evidente é que é absolutamente necessário fazer entender aos poderes ucranianos, seja o Governo, o Parlamento ou a rua, de que não têm capacidade para confrontar a Rússia, de que nem a OTAN e muito menos a União Europeia se envolverão militarmente. É necessário que entendam que não é do seu interesse uma guerra com a Rússia, e que a manutenção do “status quo” seria a melhor solução. O bravado da rua não tem correspondência militar. Neste momento mesmo a movimentação de tropas ucranianas perto da fronteira pode ser mal interpretada. É a lei do mais forte, mesmo que em 1994 o Ocidente se tenha comprometido a garantir a soberania da Ucrânia em troca de este país, formado em 1991, entregar as armas nucleares ali estacionadas durante o tempo da URSS.
Estados Unidos e União Europeia têm pouca margem de manobra. Os grupos extremistas de direita rasgaram um acordo político assinado entre o antigo Presidente, agora na Rússia, e os partidos parlamentares, mediado pela Alemanha, França e Polónia, ainda a tinta não havia secado. Azar, o acordo tinha o apoio de Barack Obama e de Vladimir Putin. Agora é legítimo que os russos se interroguem sobre o controlo governamental da situação política e possa garantir a segurança dos russos que vivem na Ucrânia e em especial da República Autónoma da Crimeia, onde para o final deste mês o Parlamento local convocou um referendo sobre os destinos da Crimeia face à Ucrânia e à Rússia.
Na impossibilidade de oferecerem a Vladimir Putin uma solução satisfatória para os erros de cálculo cometidos pelo novo poder de Kiev, apoiado pela UE e EUA, resta à OTAN e à UE ameaçar a Rússia com sanções. Começando pela ameaça de expulsão do G-8, um grupo de que a Rússia não fazia parte e onde tem um estatuto de convidada. Foi Bill Clinton quem em 1998 endereçou a Boris Ieltsin o convite para se juntar ao G-7, o grupo dos sete países mais industrializados e ricos do Mundo. Até às sanções económicas tudo estará em aberto. Domingo alguns políticos puseram a circular uma ideia um tanto peregrina de atingir a Rússia economicamente, obrigando à descida dos preços do petróleo. Descida que afectaria em primeiro lugar todos os países produtores a menos que houvesse um boicote à compra de petróleo russo. A Rússia é o maior exportador e produtor de petróleo, o principal exportador de gás natural e o segundo produtor mundial. Note-se que a UE recebe da Rússia, através do gasoduto que atravessa a Ucrânia, a maioria do gás natural que consome.
Em síntese, os aprendizes de feiticeiros que vêem a política internacional como mais uma componente dos mercados, e a eles subordinada, enganaram-se. Ao tentarem pôr fim à União Euro Asiática de Vladimir Putin lançaram na Europa e no Mundo a crise mais complicada e de consequências mais graves provavelmente desde a Primeira Guerra Mundial, que começou vai fazer em breve 100 anos.
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quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

A Europa e o futuro da Ucrânia


Benjamim Formigo |
27 de Fevereiro, 2014

Na Ucrânia os acontecimentos políticos sucedem-se a uma vertiginosa velocidade e aparentemente fora do controlo dos que apoiavam ou estimulavam a contestação ao Presidente Oleksander Yanukovych.
Nas 48 horas cruciais que foram a sexta-feira e o sábado passado o poder caiu na rua deixando a “troika” europeia e os partidos políticos que com ela negociaram em maus lençóis. Pior que isso, deixando Barack Obama e Vladimir Putin a apoiar um acordo deitado para o lixo horas depois de assinado.
Depois da pacífica “Revolução Laranja” de 2004 a Ucrânia nunca teve de facto estabilidade ou uma estratégia política e económica consequente. Nas ruas de Kiev se acossava Yanukovych e o seu regime de corrupção esquecendo que a sua antecessora, Yulia Tymoshenko, enquanto Primeiro-Ministro propiciou o mesmo tipo de corrupção que desgastou o poder. Se alguma coisa ficou claro nestes últimos anos é que as revoluções coloridas, como as primaveras árabes, não trouxeram ao poder regimes mais justos nem corrigiram os erros dos que derrubaram. A Ucrânia não foi excepção, uma vez na rua o poder torna-se tão incontrolável quanto imprevisível.
Lidando exclusivamente com factos a Europa, do Atlântico aos Urais, União Europeia e Rússia, tem um problema grave e mais uma vez de repercussões, se não globais, pelo menos internacionais extremamente sérias, porque pode pôr em causa a estabilidade e a segurança, sem falar do potencial impacto económico e financeiro que parece estarmos ainda longe de conhecer.
A Ucrânia que há séculos foi um dos pilares da cultura eslava fragmentou-se no século XIII, tornando-se um Estado Nação apenas em 1991, após o colapso da União Soviética. A sua economia poderia ser bastante robusta, assente numa fertilidade agrícola potencial superior à média dos países e numa indústria de ponta embora com meios de produção menos modernos. O país divide-se em duas grandes áreas, uma encabeçada pela capital Kiev, nacionalista, ucranófila a Oeste, fazendo fronteira com a União Europeia com que pretende aumentar os laços; a outra, a Leste, paredes meias com a Rússia, com capital em Kharkiv, russófona e eminentemente russófila e que vê na Rússia o parceiro preferencial. De notar que Moscovo é o grande cliente da indústria ucraniana que não oferece qualquer competitividade no quadro da União Europeia.
Aqui está o cerne de toda a complexa questão provocada pelas alterações súbitas e não programadas no poder: a divisão entre os que defendem uma aproximação económica e alguns até, se possível, uma ligação à UE e os outros que pretendem manter os seus laços tradicionais com a Rússia. Poderá a médio e longo prazo a Ucrânia manter a sua integridade territorial? No imediato a resposta está nas mãos do Presidente russo Vladimir Putin.
O que se passou no final da semana passada, goste-se ou não, foi uma humilhação pessoal para o Presidente russo, mas também embora em menor grau para Barack Obama e para os países europeus da troika europeia: França, Polónia e Alemanha. Putin e Obama passaram uma hora ao telefone a debater o acordo mediado pela troika europeia entre os partidos da oposição e o Presidente e que antecipava as eleições e pretendia responder aos protestos de rua e evitar a queda descontrolada do poder. Apesar de a Europa e a Rússia advertirem para as consequências, o acordo recusado pela rua não valeu sequer o papel em que foi escrito.
Por outro lado está a questão síria, que Putin tem conseguido controlar, embora cada vez com maiores dificuldades dada a violência dos confrontos e as pressões internacionais. O Parlamento ucraniano, face à precipitação de acontecimentos, viu-se confrontado com a demissão do seu presidente e o desaparecimento do Presidente Oleksander Yanukovych. Perante isso e a situação caótica na rua destituiu Yanukovych por incapacidade e elegeu de imediato para novo presidente Oleksander Turchynov, um homem supostamente da confiança de Yulia Tymoshenko, marcando eleições presidenciais para 25 de Maio. Porém na rua surgia a voz de Yulia Tymoshenko recém libertada da prisão depois de acusada de abuso de poder por Yanukovych. Tymoshenko adoptou uma posição mais populista que política, procurando surfar a onda de contestação.
Até 25 de Maio os meios financeiros vão faltar na Ucrânia e tudo indica que o país entrará em incumprimento da sua dívida. Vladimir Putin em Novembro havia acordado na concessão de um pacote de ajuda no montante global de 50 mil milhões de dólares, dos quais dois mil milhões de imediato e o fornecimento de gás a preços preferenciais.
A Ucrânia era chave na sua União Euro-Asiática que visa, em última análise, o derrube das barreiras aduaneiras e uma associação semelhante à União Europeia. Ninguém arrisca perante a volatilidade ucraniana apontar um vencedor das eleições de 25 de Maio. Os candidatos potenciais são todos eles contrários à associação com a Rússia e defensores de uma ligação estreita à União Europeia – excepção talvez da Sr.ª Tymoshenko, que não pode estar na crista da onda se se manifestar a favor das ligações com a Rússia.A antiga PM negociou com os russos os contratos petrolíferos em vigor no país, o que hoje parece não querer dizer muito.
Internacionalmente fazem-se ouvir as vozes a favor da manutenção da identidade ucraniana e da integridade do território. Na verdade ninguém sabe o que de facto pensa o Leste da Ucrânia e não é evidente que as opiniões sejam unânimes a Oeste como a Leste, sendo contudo previsível que o Leste seja mais favorável a uma associação com a Rússia do que com a UE. Por outro lado na Península da Crimeia está baseada a frota naval russa do Mar Negro e os portos são de importância estratégica para Moscovo; o pipeline que fornece o gás russo à Europa atravessa a Ucrânia e, por fim mas não menos importante, o que se passou neste país é considerado pelos poderes institucionais, em particular o russo, um péssimo exemplo de resolver na rua as questões que deveriam ser equacionadas no parlamento e através de eleições.
Vladimir Putin tem na mão a chave da integridade territorial ucraniana. Com o Leste do país potencialmente receptivo à Rússia, com a Ucrânia em profundas dificuldades financeiras que a União Europeia não se propõe resolver da forma expedita que Putin ofereceu, com as diferenças históricas e culturais do país ao Kremlin, basta-lhe oferecer melhores condições ao Leste para estimular as divergências entre ucranianos.Se não é credível que Moscovo mande os seus tanques como na Hungria, também não é credível que o Ocidente chore se a Ucrânia e os seus problemas financeiros conduzirem a uma divisão do país e a novos confrontos. Afinal a Ucrânia será apenas mais um mercado.
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terça-feira, 28 de janeiro de 2014

O sonho ou pesadelo ucraniano


Benjamim Formigo |
28 de Janeiro, 2014

O Leste europeu parece continuar a viver o sonho da propaganda dos tempos da Guerra Fria. A ocupação soviética, terminada há praticamente 25 anos com a queda do Muro de Berlim e as mudanças que se seguiram, parece continuar a despertar ódios e antagonismos, de países hoje independentes, face a Moscovo.
O sonho da propaganda Ocidental que prometia o paraíso parece continuar presente e ninguém explica ou quer admitir que esse “sonho” não passa de um pesadelo.
A Europa, União Europeia, mostra recentemente sinais de estar a sair da perturbação financeira e económica em que esteve mergulhada, na sequência da crise desencadeada nos Estados Unidos. Todavia, os países do Centro e do Norte, ao longo destes dois últimos anos de crise, sempre apontaram o Sul como zona de risco, procurando manter-se acima da linha de água.
Na ausência de estímulos ao crescimento do seu mercado interno, a União, designadamente a Alemanha e a França, mesmo com François Hollande, necessitavam de novos mercados que há muito ambicionavam, em particular Berlim: os mercados do Leste europeu que se mantinham à margem.
Ao longo destas duas décadas e meia assistimos ao aglutinar na UE de Estados que antes estavam integrados no Pacto de Varsóvia e no Comecon. Houve como que uma revolta face à URSS no seu final herdada pela Rússia. Até à NATO muitos aderiram, apesar dos protestos da Rússia de Boris Ieltsin. A Ucrânia tentava o mesmo caminho mas a Ieltsin sucedeu Vladimir Putin com uma estratégia política, económica e de defesa para a Rússia.
O gigante adormecido passava das mãos de uma oligarquia inoperante para um semi-capitalismo mais eficiente e rentável. Quando este ano a Ucrânia, com a sua economia em profunda crise e um défice orçamental descontrolado, necessitou de se financiar no exterior, Kiev sentiu pela primeira vez o vazio que era realmente a UE. Bruxelas, face às necessidades ucranianas, pouco mais ofereceu que uma fraca ajuda financeira, acompanhada das reformas e vigilância do FMI, do BCE e da Comissão Europeia.
A receita – que hoje é oficialmente reconhecida como lucífera – é aplicada abertamente aos países da Zona Euro sob resgate e informalmente aos que são encobertamente resgatados (casos da Itália e Espanha).
A receita europeia não agradou ao Presidente ucraniano Viktor Ianoukovitch, desde logo mais receptivo a uma aliança estratégica com Moscovo. Para Bruxelas – leia-se, para a Europa Central e do Norte - é importante a criação de uma zona de influência como a Ucrânia, a Leste, para aumentar os seus mercados.
Claro que Vladimir Putin não foi alheio ao agravamento da situação económica na Ucrânia. A Rússia reduziu ao mínimo as suas compras no mercado ucraniano, pondo em causa a viabilidade de muitas indústrias do seu antigo aliado.
No momento oportuno, quando para Kiev era inevitável o recurso ao crédito externo, Putin abriu a pasta e tirou um pacote financeiro e económico que a União Europeia e a sua actual liderança nunca sonhou propor, nem tem capacidade para o fazer. Vladimir Putin, após breves conversações com o seu homólogo ucraniano Viktor Ianoukovitch, colocou em cima da mesa um pacote que incluía um financiamento de 15 mil milhões de dólares, que salvou a Ucrânia de faltar aos seus compromissos.
A Rússia ofereceu aquilo que Bruxelas recusou dentro da Zona Euro: a compra de 15 mil milhões de dólares em títulos de obrigações da dívida ucraniana, baixou o custo do gás natural de 400 dólares EUA / por mil metros cúbicos para 268,5 dólares, abriu as portas ao fornecimento de crude à refinaria de Odessa, no Sul, e retomou a cooperação industrial que suspendera. Contrapartidas, o uso do rublo como moeda comercial.
Bruxelas reagiu continuando as pressões para a adesão da Ucrânia a um acordo preferencial, sem contudo oferecer nada que pudesse assemelhar-se à proposta russa.
Apesar disso, a aposta da Europa e dos países do centro, em especial a Alemanha e a França, sequiosas de acesso a novos mercados, contém em si o risco de desestabilizar cada vez mais o vizinho eslavo.
Os confrontos continuam um pouco por toda a Ucrânia através da contestação violenta, promovida por partidos nacionalistas ou ditos de esquerda, que recusaram no sábado um acordo de partilha de poder com o actual Presidente.
A Ucrânia, ao contrário da Polónia e outros ex-satélites da extinta URSS, é estratégica para os interesses da Rússia. Por lá passa o gasoduto que leva para a UE o gás que alimenta de energia a indústria europeia. Existem depósitos de matérias-primas no país e interesses cruzados de capitais russos e ucranianos.  Além disso, o complexo militar-indústrial ucraniano vive do seu vizinho russo, como existe uma indústria aeroespacial interdependente. Moscovo tem alternativas para essa comunhão industrial, como tem alternativas para a venda do seu gás.
A União Europeia, neste caso Bruxelas, procura servir os interesses de grupos financeiros que hoje nem se sabe até que ponto são europeus. Nem que isso implique fazer precisamente o contrário do que seria de esperar numa zona continental contínua: a aliança estratégica com a Rússia, parceiro natural.
O que faz afinal correr os senhores da Europa?
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