2 de Março, 2011
A Tunísia, o primeiro país a derrubar um Presidente através de um movimento popular, viu o sucessor de Bem-Ali demitir-se no domingo dada a incapacidade de responder às pressões populares que se mantinham na rua.
No Egipto a situação não é melhor, com as massas na rua a exigirem as reformas que levam tempo, consomem meios e necessitam de estabilidade.
Na Líbia, porém, a situação torna-se mais enigmática. Todos os movimentos foram anunciados como espontâneos, convocados por SMS ou via Internet. Todavia, à medida que Kadhafi resistia surgiam notícias de que parte das Forças Armadas desertavam e subitamente começaram a surgir as notícias de acções concertadas dos grupos revoltosos.
Ora, uma comunicação e concertação operacional entre os diferentes grupos, mesmo com o apoio de militares dissidentes, não é coisa que se consiga em meia dúzia de dias. O que não deixa de levantar algumas dúvidas sobre o carácter espontâneo das manifestações.
A disseminação deste movimento, a que se chamou "pró-democracia", trouxe consigo um fenómeno especulativo sobre os preços do petróleo.
Mesmo depois da Arábia Saudita ter anunciado que ia suprir a produção do crude líbio, os preços continuaram a subir. Na Líbia, os 2 por cento da sua quota na produção mundial pararam, não por causa directa de distúrbios, mas porque as petrolíferas retiraram de imediato o pessoal essencial à produção.
Os receios centram-se no Irão e na Arábia Saudita. De novo o petróleo faz tremer os países desenvolvidos. A especulação entre investidores coloca cenários devastadores que de facto têm consequências negativas nas economias dos Estados Unidos e da União Europeia, mas também na Ásia, designadamente na Índia e China. Se os gigantes asiáticos retraírem o consumo, designadamente o privado, juntando-se ao que sucede nos Estados Unidos desde o "burst" provocado pela especulação financeira, e na União Europeia com a crise da dívida, então haverá problemas para as economias em desenvolvimento.
Há dias escrevi sobre a necessidade de reflectir. Essa reflexão e o debate em torno dela são essenciais para que não se escorregue para situações hoje apenas hipotéticas, mas que se alguma vez se tornarem reais terão graves consequências.
A confusão que se está a gerar, metendo no mesmo saco situações em que os Governos não haviam sido eleitos, com a de Governos eleitos democraticamente (como é inevitável Hugo Chavez está na lista), se misturam lutas entre minorias religiosas no poder e maiorias fora dele, quando se tomam as reivindicações na Jordânia por uma contestação inexistente ao rei ou a exigência de uma monarquia constitucional na Arábia Saudita com o derrube do regime, algo está definitivamente mal e até talvez intencionalmente distorcido.
A verdade, passado o tempo sobre a partida dos presidentes tunisino e egípcio, é que as tais massas continuam a reivindicar para já o que leva tempo a construir.
O Conselho de Segurança da ONU, os Estados Unidos e a União Europeia estão a tomar medidas avulsas e de eficácia rebatível.
O fundo das questões não está a ser abordado. E o fundo das questões passa pela correcção das desigualdades e das fracturas provocadas por uma crise financeira sem fim à vista.