Benjamim Formigo
23 de Março de 2016
Os atentados de terça-feira em Bruxelas, pela sua coordenação, a facilidade de planeamento, o seu impacto na cidade que é considerada a capital da Europa deixam evidente que o autoproclamado “estado islâmico” (”EI”) reage de facto como um estado organizado, com uma estrutura militar e capaz de responder com a maior facilidade aos ataques de que é alvo, de retaliar uma retaliação de responder aos ataques.
Os dois atentados em Bruxelas, no aeroporto desafiaram toda a segurança e desencadeados em hora de ponta; o terceiro na estação de metro e Maalbeek foi uma ameaça directa à Comissão Europeia, servida por esta estação, e também a hora de ponta. Entre as duas acções decorreram duas horas, o tempo necessários para que a atenção das autoridades se desviasse para o aeroporto. A capital formal da Europa ficou paralisada. Aeroportos fechados, comboios suspensos e se isso não chegasse um alerta que levou à evacuação de todo o pessoal não essencial de duas centrais nucleares.
Importa em o primeiro lugar esclarecer que neste texto não se pretende definir terrorismo. Para historiar actos violentos contra alvos civis não houve outro critério senão o da sua existência independentemente das motivações. Essa definição entraria em zonas cinzentas complicadas de distinguir e muitas vezes usadas pelos poderes instituídos conforme os interesses conjunturais ou de politica interna ou externa. Essa discussão está por fazer e os debates na ONU sobre ela não têm sido uma prioridade.
O debate sobre a definição de terrorismo dissipasse contudo quando se trata da actividade da Al Qaeda e muito especialmente a do autoproclamado “estado islâmico”. Dias depois de as autoridades belgas e francesas exultarem com a captura de Salam Abdestam, presumível responsável pelos mortíferos ataques de Paris o “EI” e de centenas de horas de buscas por toda a Europa Salam é detido no bairro de Maalbeek onde permanecera preparando os ataques de Paris.
Uma verdade abateu-se sobre a Europa de forma brutal: a Europa já está em guerra, na verdade o Mundo já está em guerra. Uma guerra capaz de atacar em França ou na Bélgica, na Indonésia ou na Nigéria, no Quénia ou na Tunísia. Uma guerra que aproveita todas as contradições adversárias e todas as suas fraquezas. Os assassínios em massa de Bruxelas ocorrem no momento em que a opinião publica europeia e os próprios Estados da União se dividem quanto aos refugiados e assinam um escandaloso acordo de devolução de refugiados à Turquia que ganha por cabeça recebida. Uma contradição que tem dado peso eleitoral às forças xenófobas.
A Guerra Fria e a sua estratégia de tensão trouxe consigo uma clivagem entre os que defendiam as chamadas democracias ocidentais, os regimes ditos socialistas democráticos ou as democracias cristãs, em geral todos quantos de opunham ao comunismo ou mais simplesmente ao alegado risco da expansão soviética. Na Europa, onde esse fenómeno foi mais marcante, surgiam movimentos que se reivindicavam de esquerda ou mais correctamente se radicalizaram numa extrema esquerda ilegal e clandestina. A França, Itália, Alemanha e mesmo Bélgica conheceram os grupos mais violentos de 1968 até ao final da década de 70 do século passado. Destacaram-se na Alemanha o “Baader-Meinhof”, também conhecido por Facção do Exército Vermelho (RAF na sigla alemã), em França a “Action Directe”, na Itália as “Brigadas Vermelhas” e na Bélgica as menos faladas “Células Comunistas Combatentes”. Paralelamente actuavam na Europa outras organizações separatistas, como a ETA ou o IRA (na Irlanda do Norte ao IRA – católico – opunham-se movimentos integracionistas protestantes). Não é possível dizer sem incorrer em propaganda que o financiamento destas organizações era feito pela União Soviética, não existem provas ou alegações consubstanciadas desses financiamentos.
A acção destes grupos era, na generalidade, orientada para atentados contra alvos específicos frequentemente de carácter militar ou individualidades militares ou politicas frequentemente com aquilo a que hoje se chama “danos colaterais”. No período dos “anos de chumbo” as acções e atentados foram levadas a cabo tanto por organizações consideradas de esquerda como ligadas à extrema direita em particular na Alemanha, o “Nationalsozialistischer Untergrund”, cuja existência só recentemente foi reconhecida; os “skin head” eram, são, o núcleo dessas acções frequentemente descoordenadas e sem qualquer objectivo definido. O mesmo não se pode dizer de grupos da América do Sul que agiram em El Salvador, Nicarágua, Brasil, Argentina e que assumiam um cariz paramilitar, muitas vezes com ligações às próprias Forças Armadas, como na Argentina onde após a ditadura de Vilela incutiram o terror e raptaram centenas de pessoas, os “desaparecidos” ou em El Salvador foram responsáveis pelo assassinato do bispo monsenhor Óscar Romero durante uma homilia em que mais uma vez ele punha em causa a ditadura.
Os mais activos e notados – até pela sua localização geográfica no Primeiro Mundo – eram os europeus. As armas e explosivos eram obtidos no mercado negro, em assaltos a instalações da policia ou militares e a maior parte dos financiamentos provinham de assaltos a bancos ou de resgates de pessoas de posses, industriais, banqueiros, homens de negócios e familiares em geral. Sem qualquer apoio entre as populações – excepção ao IRA e ETA – e perseguidos pelas várias policias europeias esses grupos desapareceram após o espectacular rapto pelas Brigadas Vermelhas do Primeiro Ministro italiano Aldo Moro a 16 de Março de 1978. Aldo Moro, um PM democrata-cristão que promoveu um entendimento de Governo com o desaparecido Partido Comunista Italiano, viria a ser assassinado alguns meses depois. As exigências das Brigadas Vermelhas de libertação de mais de uma dezena dos seus membros foram sistematicamente recusadas pelos terroristas. Este rapto e subsequente assassínio continua ainda hoje envolto em interrogações e duvidas. À altura do rapto o grupo estava considerado extinto dadas as operações policiais que levaram à prisão um significativo numero de elementos. Falou-se numa “segunda” Brigada Vermelha sem contudo se determinar quem esteve envolvido e que desapareceu tão lestamente quanto tinha surgido. Apesar de não existirem confirmações especulou-se e ainda se especula muito sobre a verdadeira autoria deste rapto ser de uma organização radical de direita, a Gládio, formada com apoio da OTAN, como grupo de resistência a uma invasão soviética. O grupo existiu (existe?) mas o seu envolvimento não passa de mais um ramo da teoria da conspiração, ou talvez não. A existência deste grupo só foi confirmada em 1990 pelo então PM italiano Giulio Andreotti que o definiu como uma "estrutura de informações, resposta e salvaguarda".
Em paralelo com a violência de raízes europeias a Al Fatah, junção de vários grupos palestinianos após a ocupação da Palestina por Israel, aparece como um pólo agregador da luta contra a ocupação da sua terra. Após a Guerra dos Seis Dias os lideres e militantes da organização liderada por Yasser Arafat vivem na Jordânia. Cada vez mais o peso da Fatah se assume maior importância pondo eventualmente em causa a liderança do Rei Hussein. Após uma alegada tentativa de sublevação contra o monarca hachemita, em Setembro de 1970, este desencadeia um violento ataque que provocou a morte de cinco mil palestinianos. Mesmo após os arranjos entre o Rei Hussein e Yasser Arafat, nasce na Al Fatah uma organização radicalizada: “Setembro Negro”. Foi este grupo que em Setembro de 1972 assaltou a Aldeia Olímpica em Munique assassinando onze atletas israelitas.
A partir de então começa uma sucessão de assaltos a aviões comerciais quer pelo Setembro Negro, cujos militantes receberam treino na Líbia e Síria, quer de outros grupos que vieram a afastar-se da Al Fatah quando Yasser Arafat propõe e consegue impor uma mudança estratégica que afasta a Fatah do terrorismo e o faz enveredar pela luta politica. Abu Nidal, tão misterioso quanto elusivo e violento, separa-se de Arafat em Setembro de 1974 fundando o grupo “Fatah - Conselho Revolucionário” que em vinte anos levou a cabo mais de uma centena de atentados, frequentemente contra alvos indiscriminados, causando cerce de 280 mortos.
As organizações palestinianas aumentavam os apoios à medida que Israel alargava a sua politica de colonatos e atacava objectivos palestinianos ou árabes por “razões de segurança nacional e sobrevivência do Estado de Israel”. De novo as leis da Física, o Principio de Acção e Reacção aplicou-se perfeitamente a uma situação que extravasava o Médio Oriente e se repercutia na Europa. A acção mais espectacular dos anos 80 sucedeu num ataque à sinagoga da Rua Copérnico, em Paris, em Outubro de 1980, levada a cabo por outro grupo dissidente da Fatah, a Frente Popular de Libertação da Palestina, dirigida por George Habash. A este grupo são atribuídos vários desvios de aviões e era apoiado pela URSS e China. Outras acções não menos violentas foram levadas a cabo pela Frente Democrática de Libertação da Palestina de Nayef Hawatmeh. Ambos de inspiração marxista e defensores de um Estado laico. Todavia Nayef Hatmeh, ao contrario de Habash, aceitou o projecto de Yasser Arafat negociar os Acordos de Oslo.
Para encerrar este “capitulo” será talvez escandaloso afirmar que estes eram os “cavalheiros” do terrorismo quando comparados com a Al Qaeda e ainda mais do autoproclamado “estado islâmico da Síria e do Levante”. Tinham objectivos políticos bem definidos que procuravam por meios extremamente violentos à época.
Porventura um novo capitulo abre-se após a invasão israelita do Líbano em 1982, a fuga da OLP e de Arafat para vários países dispostos a recebe-los. Em Setembro desse mesmo ano a milícia maronita libanesa entra nos campos de refugiados de Sabra e Shatila enquanto tropas israelitas cercavam os campos a seu pedido e cometeram um dos maiores genocídios da região alegadamente em retaliação pelo assassinato do líder da Falange Libanesa e Presidente o Líbano Bashir Gemayel. Este massacre levantou a opinião publica internacional contra o então ministro de Defesa israelita e mentor da invasão do Líbano, general Ariel Sharom. Em simultâneo criou no Líbano e em especial no Vale de Bekaa um terreno fértil para o recrutamento de extremistas. Sucedem-se uma nova série de atentados muitos deles indiscriminados e sem objectivo politico definido.
Em Abril de 1983 surge um novo grupo, a Jihad Islâmica, que lança um ataque suicida com um carro cheio de explosivos contra a embaixada dos EUA em Beirute matando quase 70 pessoas incluindo 17 americanos. Ronald Reagan retaliou lançando um ataque sem precedentes contra território libanês que se pensava ocupado e dar guarida ao grupo. O assalto em Outubro de 1985 ao navio Achille Lauro pela Frente de Libertação da Palestina e o assassínio de um judeu de 69 anos inválido atirado borda fora na sua cadeira de rodas virou-se contra os autores. A tentativa de retaliação de Ronald Reagan não teve sucesso como a anterior também não teve.
Por fim a ataque em Berlim contra a discoteca “La Belle” frequentada por soldados americanos matou 79 pessoas, a maioria militares americanos fez transbordar o copo do velho Presidente dos EUA e Reagan lançou um ataque aéreo contra Tripoli e Bengasi. A Líbia era então considerada o país que mais apoio dava ao terrorismo.
O financiamento destes grupos vinha de vários países árabes entre os quais se supõe estarem a Líbia, Síria, Arábia Saudita.
Em paralelo com estes acontecimentos visíveis os Estados Unidos davam apoio a um saudita, de família abastada, que combatia como voluntário a ocupação do Afeganistão pela URSS, Osama Bin Laden. Bin Laden era um organizador e comandante no terreno de quem a CIA gostava particularmente. O armamento que necessitava era canalizado rapidamente através de Estados do Golfo e da Turquia e Paquistão para o Afeganistão onde um dos grandes beneficiados era precisamente o milionário saudita combatente. Em Fevereiro de 1989 o final da retirada soviética do Afeganistão deixa Bin Laden sem emprego. Contudo Osama Bin Laden ao que se supõe entre meados de 1988 e o final de 1989 consegue agregar um considerável grupo de antigos combatentes da ocupação soviética do Afeganistão. A eles se junta a Jihad Islâmica já então disseminada por vários países muçulmanos e a quem se atribui os atentados às embaixadas americanas em Dar-es-Salam e Nairobi, em 1998 sob coordenação da Al Qaeda. Surge a primeira rede organizada de carácter então tendencialmente global e que viria a tornar-se tristemente tão célebre como eficiente. A ONU pela primeira vez consegue um acordo para considerar terroristas a Al Qaeda e afiliados.
O alvo principal deste grupo parece serem os Estados Unidos. O armamento estava disponível: as imensas sobras do Afeganistão, armas incluindo sistemas de armamento sofisticado, equipamento obtido em países envolvidos em conflitos e comprado a países do Leste europeu recentemente separados da URSS alguns dos quais chegaram a vender armamento à UNITA quando EUA e África do Sul mudaram de atitude em Angola; resta a verdadeira origem do dinheiro que não faltou nunca a Bin Laden. Estamos ainda demasiado perto para estabelecer com alguma fidedignidade a origem do dinheiro mas não existem muitas duvidas que o Golfo tem sido uma fonte de financiamento. Algumas fontes ligadas a serviços de informação admitem que tivesse existido (existe?) um “trade-off” – as ou algumas monarquias do Golfo aceitavam o financiamento da actividade desses grupos em troca de estes se manterem afastados dos seus países.
A verdade também é que até aos atentados do 11 de Setembro de 2011 contra as torres gémeas de Nova Iorque houve uma certa complacência geral. Os países atingidos eram parte do Terceiro Mundo e os alvos americanos não eram objecto de um ataque sistemático e extremamente violento. Na realidade serviram sobretudo para dar à Al Qaeda projecção e chamar a si voluntários, mostrar capacidade de organização e acção que atraíssem para o seu “franchising” movimentos e organizações já existentes.
A primeira guerra do Golfo, após a invasão do Kuwait pelo Iraque, não teve um impacto significativo nesse agrupamento terrorista. O mesmo não se pode dizer da invasão do Kuwait em 2003 sob a batuta de George Bush filho. Enquanto o pai, em 1990, na Guerra do Golfo, cuidou de por de pé uma coligação alargada, a maior desde a 2ª Guerra Mundial, com larga participação de Estados Árabes evitando a imagem de uma guerra santa e colocando o enfoque na invasão de um Estado soberano por outro Estado vizinho, Bush filho convenceu ingleses, australianos e polacos a juntarem-se-lhe, alguns deles depois de iniciadas as operações. Alegadamente tratava-se de destruir o que se provou inexistente arsenal químico de Saddam Hussein. Saddam foi derrubado, as armas químicas não existiam e toda a estrutura do Estado foi destruída, a começar pelas Forças Armadas.
Após o ataque da Al Qaeda em Nova Iorque e em retaliação contra este grupo Bush invade o Afeganistão onde os talibãs reinavam e davam todo o apoio ao grupo de Bin Laden que se movimentava através da fronteira com o Paquistão. Após a morte de Zia Ul Aq e várias experiências fracassadas de instalar uma democracia o Paquistão tornou-se cada vez menos um regime secular e em paralelo tornaram-se mais abertas as ligações militares às madrastas e aos talibãs, em especial dos serviços secretos, segundo fontes da comunidade de informações. Daí a facilidade de movimento de Bin Laden que ali residia e se refugiava. Derrubado o regime talibã não foi efectivamente possível até hoje o Afeganistão ter um Governo estável e sólido.
Abu Musab al-Zarqawi, um militante islâmico que comandava um campo de treino no Afeganistão durante a ocupação soviética, criara entretanto um grupo de resistência, Jama'at al-Tawhid wal-Jihad, que se opunha è presença americana e estrangeira em qualquer território árabe. Em Outubro de 2004 Abu Musab jurou fidelidade a Bin Laden tornando-se oficialmente a Al Qaeda no Iraque. Após várias fusões e aquisições, como se do mundo de negócios se tratasse, o grupo autoproclama-se o Estado Islâmico da Síria e do Iraque, mais tarde da Síria e do Levante e pretende proclamar um califado.
Não é claro o tipo de relações que matem com a Al Qaeda após a morte de Bin Laden mas há sérias indicações de que, sem se confrontarem, procuram alargar a sua base de influência, designadamente na África subsaariana tirando proveito dos estados falhados surgidos após a não menos falhada “primavera árabe”. Enquanto espalham a sua rede o “estado islâmico” aumenta a sua influência e a Al Qaeda retrocede. Fruto dos seus métodos brutais o “EI” aterroriza as populações com as decapitações inacreditavelmente divulgadas pelas televisões e procurava consolidar as posições ocupadas na Síria e no Iraque. O financiamento, ninguém desmentiu até hoje, tem vindo de algumas monarquias dos Golfo e do contrabando de petróleo a partir das explorações de que se apoderou. Não é por acaso que caravanas de camiões cisternas são um dos alvos preferenciais dos russos que procuram assim cortar o financiamento do grupo terrorista, um grupo que já se manifestou na Indonésia, alargamento geográfico preocupante.
Por muitas criticas que os americanos façam aos russos e acusações de apoio a Bashir Al Assad a verdade é que Moscovo está a cortar uma via de financiamento do terrorismo, como é verdade que procura melhorar a posição no terreno do Presidente sírio para as conversações politicas com que se pretende acabar aquela guerra onde para já ainda pontifica a organização terrorista melhor organizada, funcionando hierarquizadamente como um Estado, e que é uma ameaça à estabilidade mundial. A solução passa de facto pelo corte do seu financiamento e talvez alguns aliados dos EUA tenham de ser pressionados para fecharem a sua torneira.
Os anos de chumbo acabaram. A guerra é muito mais complicada. É uma guerra que se globaliza contra o grupo com a organização de um “estado”, com capacidades de comunicação e movimentação que fazem inveja aos serviços secretos de muitos países.