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quarta-feira, 23 de março de 2016

Ao terrorismo global não faltam meios financeiros


Benjamim Formigo

23 de Março de 2016


Os atentados de terça-feira em Bruxelas, pela sua coordenação, a facilidade de planeamento, o seu impacto na cidade que é considerada a capital da Europa deixam evidente que o autoproclamado “estado islâmico” (”EI”) reage de facto como um estado organizado, com uma estrutura militar e capaz de responder com a maior facilidade aos ataques de que é alvo, de retaliar uma retaliação de responder aos ataques.


Os dois atentados em Bruxelas, no aeroporto desafiaram toda a segurança e desencadeados em hora de ponta; o terceiro na estação de metro e Maalbeek foi uma ameaça directa à Comissão Europeia, servida por esta estação, e também a hora de ponta. Entre as duas acções decorreram duas horas, o tempo necessários para que a atenção das autoridades se desviasse para o aeroporto. A capital formal da Europa ficou paralisada. Aeroportos fechados, comboios suspensos e se isso não chegasse um alerta que levou à evacuação de todo o pessoal não essencial de duas centrais nucleares.


Importa em  o primeiro lugar esclarecer que neste texto não se pretende definir terrorismo. Para historiar actos violentos contra alvos civis não houve outro critério senão o da sua existência independentemente das motivações. Essa definição entraria em zonas cinzentas complicadas de distinguir e muitas vezes usadas pelos poderes instituídos conforme os interesses conjunturais ou de politica interna ou externa. Essa discussão está por fazer e os debates na ONU sobre ela não têm sido uma prioridade. 


O debate sobre a definição de terrorismo dissipasse contudo quando se trata da actividade da Al Qaeda e muito especialmente a do autoproclamado “estado islâmico”. Dias depois de as autoridades belgas e francesas exultarem com a captura de Salam Abdestam, presumível responsável pelos mortíferos ataques de Paris o “EI” e de centenas de horas de buscas por toda a Europa Salam é detido no bairro de Maalbeek onde permanecera preparando os ataques de Paris.


Uma verdade abateu-se sobre a Europa de forma brutal: a Europa já está em guerra, na verdade o Mundo já está em guerra. Uma guerra capaz de atacar em França ou na Bélgica, na Indonésia ou na Nigéria, no Quénia ou na Tunísia. Uma guerra que aproveita todas as contradições adversárias e todas as suas fraquezas. Os assassínios em massa de Bruxelas ocorrem no momento em que a opinião publica europeia e os próprios Estados da União se dividem quanto aos refugiados e assinam um escandaloso acordo de devolução de refugiados à Turquia que ganha por cabeça recebida. Uma contradição que tem dado peso eleitoral às forças xenófobas.


A Guerra Fria e a sua estratégia de tensão trouxe consigo uma clivagem entre os que defendiam as chamadas democracias ocidentais, os regimes ditos socialistas democráticos ou as democracias cristãs, em geral todos quantos de opunham ao comunismo ou mais simplesmente ao alegado risco da expansão soviética. Na Europa, onde esse fenómeno foi mais marcante, surgiam movimentos que se reivindicavam de esquerda ou mais correctamente se radicalizaram numa extrema esquerda ilegal e clandestina. A França, Itália, Alemanha e mesmo Bélgica conheceram os grupos mais violentos de 1968 até ao final da década de 70 do século passado. Destacaram-se na Alemanha o “Baader-Meinhof”, também conhecido por Facção do Exército Vermelho (RAF na sigla alemã), em França a “Action Directe”, na Itália as “Brigadas Vermelhas” e na Bélgica as menos faladas “Células Comunistas Combatentes”. Paralelamente actuavam na Europa outras organizações separatistas, como a ETA ou o IRA (na Irlanda do Norte ao IRA – católico – opunham-se movimentos integracionistas protestantes). Não é possível dizer sem incorrer em propaganda que o financiamento destas organizações era feito pela União Soviética, não existem provas ou alegações consubstanciadas desses financiamentos.


A acção destes grupos era, na generalidade, orientada para atentados contra alvos específicos frequentemente de carácter militar ou individualidades militares ou politicas frequentemente com aquilo a que hoje se chama “danos colaterais”. No período dos “anos de chumbo” as acções e atentados foram levadas a cabo tanto por organizações consideradas de esquerda como ligadas à extrema direita em particular na Alemanha, o “Nationalsozialistischer Untergrund”, cuja existência só recentemente foi reconhecida; os “skin head” eram, são, o núcleo dessas acções frequentemente descoordenadas e sem qualquer objectivo definido. O mesmo não se pode dizer de grupos da América do Sul que agiram em El Salvador, Nicarágua, Brasil, Argentina e que assumiam um cariz paramilitar, muitas vezes com ligações às próprias Forças Armadas, como na Argentina onde após a ditadura de Vilela incutiram o terror e raptaram centenas de pessoas, os “desaparecidos” ou em El Salvador foram responsáveis pelo assassinato do bispo monsenhor Óscar Romero durante uma homilia em que mais uma vez ele punha em causa a ditadura.


Os mais activos e notados – até pela sua localização geográfica no Primeiro Mundo – eram os europeus. As armas e explosivos eram obtidos no mercado negro, em assaltos a instalações da policia ou militares e a maior parte dos financiamentos provinham de assaltos a bancos ou de resgates de pessoas de posses, industriais, banqueiros, homens de negócios e familiares em geral. Sem qualquer apoio entre as populações – excepção ao IRA e ETA – e perseguidos pelas várias policias europeias esses grupos desapareceram após o espectacular rapto pelas Brigadas Vermelhas do Primeiro Ministro italiano Aldo Moro a 16 de Março de 1978. Aldo Moro, um PM democrata-cristão que promoveu um entendimento de Governo com o desaparecido Partido Comunista Italiano, viria a ser assassinado alguns meses depois. As exigências  das Brigadas Vermelhas de libertação de mais de uma dezena dos seus membros foram sistematicamente recusadas pelos terroristas. Este rapto e subsequente assassínio continua ainda hoje envolto em interrogações e duvidas. À altura do rapto o grupo estava considerado extinto dadas as operações policiais que levaram à prisão um significativo numero de elementos. Falou-se numa “segunda” Brigada Vermelha sem contudo se determinar quem esteve envolvido e que desapareceu tão lestamente quanto tinha surgido. Apesar de não existirem confirmações especulou-se e ainda se especula muito sobre a verdadeira autoria deste rapto ser de uma organização radical de direita, a Gládio, formada com apoio da OTAN, como grupo de resistência a uma invasão soviética. O grupo existiu (existe?) mas o seu envolvimento não passa de mais um ramo da teoria da conspiração, ou talvez não. A existência deste grupo só foi confirmada em 1990 pelo então PM italiano Giulio Andreotti que o definiu como uma "estrutura de informações, resposta e salvaguarda".


Em paralelo com a violência de raízes europeias a Al Fatah, junção de vários grupos palestinianos após a ocupação da Palestina por Israel, aparece como um pólo agregador da luta contra a ocupação da sua terra. Após a Guerra dos Seis Dias os lideres e militantes da organização liderada por Yasser Arafat vivem na Jordânia. Cada vez mais o peso da Fatah se assume maior importância pondo eventualmente em causa a liderança do Rei Hussein. Após uma alegada tentativa de sublevação contra o monarca hachemita, em Setembro de 1970, este desencadeia um violento ataque que provocou a morte de cinco mil palestinianos. Mesmo após os arranjos entre o Rei Hussein e Yasser Arafat, nasce na Al Fatah uma organização radicalizada: “Setembro Negro”. Foi este grupo que em Setembro de 1972 assaltou a Aldeia Olímpica em Munique assassinando onze atletas israelitas.


A partir de então começa uma sucessão de assaltos a aviões comerciais quer pelo Setembro Negro, cujos militantes receberam treino na Líbia e Síria, quer de outros grupos que vieram a afastar-se da Al Fatah quando Yasser Arafat propõe e consegue impor uma mudança estratégica que afasta a Fatah do terrorismo e o faz enveredar pela luta politica. Abu Nidal, tão misterioso quanto elusivo e violento, separa-se de Arafat em Setembro de 1974 fundando o grupo “Fatah - Conselho Revolucionário” que em vinte anos levou a cabo mais de uma centena de atentados, frequentemente contra alvos indiscriminados, causando cerce de 280 mortos.


As organizações palestinianas aumentavam os apoios à medida que Israel alargava a sua politica de colonatos e atacava objectivos palestinianos ou árabes por “razões de segurança nacional e sobrevivência do Estado de Israel”. De novo as leis da Física, o Principio de Acção e Reacção aplicou-se perfeitamente a uma situação que extravasava o Médio Oriente e se repercutia na Europa. A acção mais espectacular dos anos 80 sucedeu num ataque à sinagoga da Rua Copérnico, em Paris, em Outubro de 1980, levada a cabo por outro grupo dissidente da Fatah, a Frente Popular de Libertação da Palestina, dirigida por George Habash. A este grupo são atribuídos vários desvios de aviões e era apoiado pela URSS e China. Outras acções não menos violentas foram levadas a cabo pela Frente Democrática de Libertação da Palestina de Nayef Hawatmeh. Ambos de inspiração marxista e defensores de um Estado laico. Todavia Nayef Hatmeh, ao contrario de Habash, aceitou o projecto de Yasser Arafat negociar os Acordos de Oslo.


Para encerrar este “capitulo” será talvez escandaloso afirmar que estes eram os “cavalheiros” do terrorismo quando comparados com a Al Qaeda e ainda mais do autoproclamado “estado islâmico da Síria e do Levante”. Tinham objectivos políticos bem definidos que procuravam por meios extremamente violentos à época.


Porventura um novo capitulo abre-se após a invasão israelita do Líbano em 1982, a fuga da OLP e de Arafat para vários países dispostos a recebe-los. Em Setembro desse mesmo ano a milícia maronita libanesa entra nos campos de refugiados de Sabra e Shatila enquanto tropas israelitas cercavam os campos a seu pedido e cometeram um dos maiores genocídios da região alegadamente em retaliação pelo assassinato do líder da Falange Libanesa e Presidente o Líbano Bashir Gemayel. Este massacre levantou a opinião publica internacional contra o então ministro de Defesa israelita e mentor da invasão do Líbano, general Ariel Sharom. Em simultâneo criou no Líbano e em especial no Vale de Bekaa um terreno fértil para o recrutamento de extremistas. Sucedem-se uma nova série de atentados muitos deles indiscriminados e sem objectivo politico definido.


Em Abril de 1983 surge um novo grupo, a Jihad Islâmica, que lança um ataque suicida com um carro cheio de explosivos contra a embaixada dos EUA em Beirute matando quase 70 pessoas incluindo 17 americanos. Ronald Reagan retaliou lançando um ataque sem precedentes contra território libanês que se pensava ocupado e dar guarida ao grupo. O assalto em Outubro de 1985 ao navio Achille Lauro pela Frente de Libertação da Palestina e o assassínio de um judeu de 69 anos inválido atirado borda fora na sua cadeira de rodas virou-se contra os autores. A tentativa de retaliação de Ronald Reagan não teve sucesso como a anterior também não teve.


Por fim a ataque em Berlim contra a discoteca “La Belle” frequentada por soldados americanos matou 79 pessoas, a maioria militares americanos fez transbordar o copo do velho Presidente dos EUA e Reagan lançou um ataque aéreo contra Tripoli e Bengasi. A Líbia era então considerada o país que mais apoio dava ao terrorismo.


O financiamento destes grupos vinha de vários países árabes entre os quais se supõe estarem a Líbia, Síria, Arábia Saudita.


Em paralelo com estes acontecimentos visíveis os Estados Unidos davam apoio a um saudita, de família abastada, que combatia como voluntário a ocupação do Afeganistão pela URSS, Osama Bin Laden. Bin Laden era um organizador e comandante no terreno de quem a CIA gostava particularmente. O armamento que necessitava era canalizado rapidamente através de Estados do Golfo e da Turquia e Paquistão para o Afeganistão onde um dos grandes beneficiados era precisamente o milionário saudita combatente. Em Fevereiro de 1989 o final da retirada soviética do Afeganistão deixa Bin Laden sem emprego. Contudo Osama Bin Laden ao que se supõe entre meados de 1988 e o final de 1989 consegue agregar um considerável grupo de antigos combatentes da ocupação soviética do Afeganistão. A eles se junta a Jihad Islâmica já então disseminada por vários países muçulmanos e a quem se atribui os atentados às embaixadas americanas em Dar-es-Salam e Nairobi, em 1998 sob coordenação da Al Qaeda. Surge a primeira rede organizada de carácter então tendencialmente global e que viria a tornar-se tristemente tão célebre como eficiente. A ONU pela primeira vez consegue um acordo para considerar terroristas a Al Qaeda e afiliados.


O alvo principal deste grupo parece serem os Estados Unidos. O armamento estava disponível: as imensas sobras do Afeganistão, armas incluindo sistemas de armamento sofisticado, equipamento obtido em países envolvidos em conflitos e comprado a países do Leste europeu recentemente separados da URSS alguns dos quais chegaram a vender armamento à UNITA quando EUA e África do Sul mudaram de atitude em Angola; resta a verdadeira origem do dinheiro que não faltou nunca a Bin Laden. Estamos ainda demasiado perto para estabelecer com alguma fidedignidade a origem do dinheiro mas não existem muitas duvidas que o Golfo tem sido uma fonte de financiamento. Algumas fontes ligadas a serviços de informação admitem que tivesse existido (existe?) um “trade-off” – as ou algumas monarquias do Golfo aceitavam o financiamento da actividade desses grupos em troca de estes se manterem afastados dos seus países.


A verdade também é que até aos atentados do 11 de Setembro de 2011 contra as torres gémeas de Nova Iorque houve uma certa complacência geral. Os países atingidos eram parte do Terceiro Mundo e os alvos americanos não eram objecto de um ataque sistemático e extremamente violento. Na realidade serviram sobretudo para dar à Al Qaeda projecção e chamar a si voluntários, mostrar capacidade de organização e acção que atraíssem para o seu “franchising” movimentos e organizações já existentes.


A primeira guerra do Golfo, após a invasão do Kuwait pelo Iraque, não teve um impacto significativo nesse agrupamento terrorista. O mesmo não se pode dizer da invasão do Kuwait em 2003 sob a batuta de George Bush filho. Enquanto o pai, em 1990, na Guerra do Golfo, cuidou de por de pé uma coligação alargada, a maior desde a 2ª Guerra Mundial, com larga participação de Estados Árabes evitando a imagem de uma guerra santa e colocando o enfoque na invasão de um Estado soberano por outro Estado vizinho, Bush filho convenceu ingleses, australianos e polacos a juntarem-se-lhe, alguns deles depois de iniciadas as operações. Alegadamente tratava-se de destruir o que se provou inexistente arsenal químico de Saddam Hussein. Saddam foi derrubado, as armas químicas não existiam e toda a estrutura do Estado foi destruída, a começar pelas Forças Armadas.


Após o ataque da Al Qaeda em Nova Iorque e em retaliação contra este grupo Bush invade o Afeganistão onde os talibãs reinavam e davam todo o apoio ao grupo de Bin Laden que se movimentava através da fronteira com o Paquistão. Após a morte de Zia Ul Aq e várias experiências fracassadas de instalar uma democracia o Paquistão tornou-se cada vez menos um regime secular e em paralelo tornaram-se mais abertas as ligações militares às madrastas e aos talibãs, em especial dos serviços secretos, segundo fontes da comunidade de informações. Daí a facilidade de movimento de Bin Laden que ali residia e se refugiava. Derrubado o regime talibã não foi efectivamente possível até hoje o Afeganistão ter um Governo estável e sólido.


Abu Musab al-Zarqawi, um militante islâmico que comandava um campo de treino no Afeganistão durante a ocupação soviética, criara entretanto um grupo de resistência, Jama'at al-Tawhid wal-Jihad, que se opunha è presença americana e estrangeira em qualquer território árabe. Em Outubro de 2004 Abu Musab jurou fidelidade a Bin Laden tornando-se oficialmente a Al Qaeda no Iraque. Após várias fusões e aquisições, como se do mundo de negócios se tratasse, o grupo autoproclama-se o Estado Islâmico da Síria e do Iraque, mais tarde da Síria e do Levante e pretende proclamar um califado.


Não é claro o tipo de relações que matem com a Al Qaeda após a morte de Bin Laden mas há sérias indicações de que, sem se confrontarem, procuram alargar a sua base de influência, designadamente na África subsaariana tirando proveito dos estados falhados surgidos após a não menos falhada “primavera árabe”. Enquanto espalham a sua rede o “estado islâmico” aumenta a sua influência e a Al Qaeda retrocede. Fruto dos seus métodos brutais o “EI” aterroriza as populações com as decapitações inacreditavelmente divulgadas pelas televisões e procurava consolidar as posições ocupadas na Síria e no Iraque. O financiamento, ninguém desmentiu até hoje, tem vindo de algumas monarquias dos Golfo e do contrabando de petróleo a partir das explorações de que se apoderou. Não é por acaso que caravanas de camiões cisternas são um dos alvos preferenciais dos russos que procuram assim cortar o financiamento do grupo terrorista, um grupo que já se manifestou na Indonésia, alargamento geográfico preocupante.


Por muitas criticas que os americanos façam aos russos e acusações de apoio a Bashir Al Assad a verdade é que Moscovo está a cortar uma via de financiamento do terrorismo, como é verdade que procura melhorar a posição no terreno do Presidente sírio para as conversações politicas com que se pretende acabar aquela guerra onde para já ainda pontifica a organização terrorista melhor organizada, funcionando hierarquizadamente como um Estado, e que é uma ameaça à estabilidade mundial. A solução passa de facto pelo corte do seu financiamento e talvez alguns aliados dos EUA tenham de ser pressionados para fecharem a sua torneira.


Os anos de chumbo acabaram. A guerra é muito mais complicada. É uma guerra que se globaliza contra o grupo com a organização de um “estado”, com capacidades de comunicação e movimentação que fazem inveja aos serviços secretos de muitos países.
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domingo, 15 de novembro de 2015

Paris é mais uma vitória do auto-proclamado Estado Islâmico


Benjamim Formigo
15 de Novembro, 2015

Na véspera de reunirem em Viena os ministros dos Estrangeiros do Grupo de Contacto para a Síria, a fim de definirem quem são os bons rapazes da oposição que podem falar com Assad, sob a égide do Grupo, a fim de negociar uma solução politica, Paris tornou-se teatro de guerra.
Uma sexta-feira à noite é, em qualquer cidade, um período de lazer, de divertimento, de convívio. Paris é provavelmente o expoente máximo desse período. Primeira questão definida: a escolha da data e hora para o ataque. A zona onde os atentados terroristas ocorreram, outrora bairros modestos, são hoje das zonas mais escolhidas pelas classes privilegiadas.
Definido o segundo parâmetro do ataque, uma zona de máximo impacto: fica perto da Concorde, do Louvre, dos Campos Elísios, em síntese das grandes artérias parisienses de trânsito razoável à noite e imensos transeuntes, o que facilitaria a fuga ou a mistura dos terroristas com passeantes que à noite frequentam a zona. Definido o terceiro parâmetro: as vias de fuga. O local também não é longe do “Stade de France” onde decorria um amigável França – Alemanha. Finalmente,  os objectivos: uma sala icónica de concertos, o “Bataclan”, onde se realizava um espectáculo com uma banda americana, restaurantes e bares frequentados àquela hora. Definido mais um parâmetro: maximização da acção.
O facto de estarmos a um escasso mês de eleições regionais, onde a extrema-direita xenófoba da Frente Nacional de Marine Le Pen está bem posicionada, não é totalmente despiciendo. Como não o é o efeito de reverberação numa Europa dividida pelo fluxo de refugiados que levou já alguns Governos a introduzirem controlo de fronteiras, à margem do Tratado de Schengen, alguns mesmo a encerrarem-nas.
Um ataque desta envergadura, o maior sofrido pela França desde a II Guerra Mundial, não deixa de se repercutir na tendência xenófoba crescente, faz disparar o medo e com ele a disponibilidade dos cidadãos em abdicar dos seus direitos. Dito isto, uma palavra para a coordenação dos atentados: uma operação destas só pode ser levada a cabo após muitas missões de reconhecimento de vários locais, até à escolha do que parece melhor e depois de missões de autenticação da fiabilidade da escolha. 
Não para poupar os terroristas, entre os quais suicidas, mas para realizar as acções terroristas com sucesso. Isto não se faz com refugiados mais ou menos recém chegados, mas com residentes, nacionais ou não, capazes de reconhecer a viabilidade da área e de nela operarem à vontade. Significa que, ao contrário do atentado ao “Charlie Hebdo” e ao supermercado judeu, com motivações ditas religiosas, este teve o objectivo de mostrar a capacidade operacional do grupo e a sua determinação na retaliação.
Durante os ataques, sobretudo no “Bataclan” não só se ouviu gritar “Alá é Grande” como houve terroristas que anunciaram o atentado como uma retaliação “pelo que Hollande está a fazer na Síria”. Através dos meios usados normalmente pelo  Estado Islâmico, este reivindicou a autoria do atentado. Os terroristas atacaram indiscriminadamente tanto na sala de espectáculos como nos restaurantes, bares e ruas. Morreram sete ou oito, abatidos pela polícia, mas alguns ter-se-ão posto em fuga, razão pela qual as autoridades procuravam pelo menos uma viatura.
Uma das questões que desde logo se levanta é como foi possível, dado o estado de alerta das polícias e dos serviços de informação franceses e europeus, não detectar movimentos suspeitos ou interceptar comunicações duvidosas?
François Hollande introduziu de imediato controlos fronteiriços, como os ingleses e os alemães. Haverá seguramente uma resposta. Resta saber se existe a informação necessária a uma resposta militar, como defendem muitos, ou uma resposta diplomática acelerando as conversações que decorrem em Viena. A primeira é sem dúvida a retaliação mais popular, mas é mais eficaz? David Cameron, Angela Merkel e até Vladimir Putin, além do chefe religioso do Irão, condenaram a acção, mas parecem divergir na solução. Se a França retaliar militarmente, Vladimir Putin acompanhará, já o disse no sábado: “estes ataques só mostram a premência da guerra ao terrorismo”.
Os EUA não ficarão atrás da Rússia e a Grã-Bretanha irá a jogo. Se os ataque sofrem coordenados e dirigidos com informação fiável contra bases do Estado Islâmico podem enfraquecê-lo o suficiente, se em terra as tropas sírias, o Hezbollah e os Guardas da Revolução, iranianos, aproveitarem a cobertura aérea para ocuparem as posições do grupo terrorista. E se, um grande “e se”, em Viena conseguirem decidir quem são os “bons rapazes” e as potências europeias conseguirem concertar-se com os russos e iranianos?
Para já o Estado Islâmico conseguiu uma vitória: amedrontar pelo terror a França e os europeus e fechar uma das principais conquistas da União Europeia: condicionar a livre circulação.
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quarta-feira, 22 de julho de 2015

Uma estratégia antiterrorista global é quase impossível


Benjamim Formigo |
22 de Julho, 2015

Uma estratégia antiterrorista global seria o único modo de conseguir uma significativa vitória contra a violência sem limites nem fronteiras do autoproclamado Estado Islâmico. Mas ela é impossível ou pelo menos extraordinariamente difícil.
E a primeira dificuldade é semântica: quem define o que é terrorismo? Como se define universalmente de forma inequívoca o acto e a estratégia terrorista? E quem define quem é e não é terrorista? São decisões semânticas, de facto, mas também decisões políticas quase impossíveis no actual clima internacional.
Se olharmos exclusivamente para o caso do Estado Islâmico não existem quaisquer duvidas sobre o carácter terrorista da sua actuação, nem tão pouco de que só uma acção concertada pode derrotar a aura invencível de que goza e o terror que inspira entre as populações com as suas práticas de uma violência até aqui desconhecida.
Nenhum outro movimento havia conseguido estender a sua acção tão rapidamente do Médio Oriente a ambas as costas de África tirando proveito da inexistência de Estado na Líbia, iludindo os serviços de informação e conseguindo coordenar ataques simultâneos em locais completamente diferentes ou levar a cabo uma sequência de ataques como no início desta semana do mercado em Cabul a Suruc, na Turquia, perto da fronteira com a Síria.
Nenhum outro movimento conseguiu a diversidade de recrutamento deste grupo que surge praticamente do nada – já existia de forma insignificante – e com a guerra da Síria cresce desmesuradamente, engolindo grupos armados incluindo da Al Qaeda, e levando a sua guerra para o Iraque. Aqui soube tirar proveito da inépcia do Exército recém formado infligindo-lhe derrotas esmagadoras em várias cidades, capturando-lhe moderno equipamento norte-americano que distribuiu entre o Iraque e a Síria.
Os únicos opositores sérios que encontrou pela frente foram os Peshmerga curdos que não só resistiram de forma organizada como depois de derrotados nalguns locais causando pesadas baixas ao Estado Islâmico reagrupou e contra-atacou retomando posições perdidas. Ao poder de contra-ataque e resistência dos Peshmerga juntam-se as milícias xiitas da Guarda Revolucionária iraniana que tem apoiado os Exércitos iraquiano e sírio.
A estratégia norte-americana de apoiar as tropas iraquianas com aviação, acompanhados de alguns aliados árabes e da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) tem um efeito limitado dado que se limita ao Iraque.
Na Síria a OTAN, como a União Europeia, enredaram-se num apoio a grupos de duvidosa representatividade e capacidade de acção no terreno, o que leva a que o apoio aéreo seja uma acção isolada, descoordenada de forças terrestres (inexistentes).
A multiplicação de ataques do Estado Islâmico, agora mesmo a uma região curda da Turquia, o recurso aos bombistas suicidas, os acontecimentos na Tunísia, Egipto, Nigéria e por aí fora não se compadecem com inércia nem são combatidos com uns bombardeamentos isolados.
Pondo de lado o terrorismo em geral e focando as atenções na Estado Islâmico, onde existe consenso quanto à sua natureza, os vários países interessados, ou seja potencialmente ameaçados mesmo remotamente, têm de ter uma estratégia conjunta.
E para começar, os Estados Unidos e os seus aliados têm de encontrar uma estratégia de negação de terreno e presença ao Estado Islâmico no Iraque, Afeganistão, mas também na Síria. E esse é o cerne do problema. Apoiar as forças do Presidente Bashir Al Assad? De uma oposição difusa e pouco fiável? Coordenar a acção com as milícias iranianas agora que existe um princípio de desanuviamento e apesar de isso ser uma forma indirecta de suportar o Presidente?
Nem sempre os políticos têm de gostar das escolhas que fazem. Todavia, não fazer escolhas e deixar esta situação arrastar é uma aposta demasiado elevada para a paz e segurança mundial.
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segunda-feira, 29 de junho de 2015

Terrorismo sem pressa


Benjamim Formigo |
29 de Junho, 2015

Enquanto os ataques terroristas se sucedem em França, Tunísia, Kuwait, para só falar de alguns, os dirigentes europeus manifestam a sua falta de solidariedade com a Grécia, os seus interesses na protecção do capital face a uma saída grega do euro, ignorando a necessidade premente de uma luta coordenada contra o terrorismo do “Estado Islâmico”, hostilizando a Rússia e ignorando Teerão.
Em plena semana da crise do euro, que pode desencadear uma outra crise bem mais ampla e grave do que a despoletada pelo Lehman Brothers em 2008, o “Estado Islâmico” levou a cabo atentados em território francês, numa estância balnear na Tunísia e matou um número indeterminado de pessoas no Kuwait, foi rechaçado no Iraque por forças da Guarda Revolucionária iraniana, oficialmente ausentes do Iraque, sofreu desaires na Síria graças aos combatentes curdos, mas mantém ao que parece intacta a sua capacidade de exportar a violência.
Os dirigentes europeus parecem ter ignorado tudo isto, e até a disponibilidade russa no combate ao “Estado Islâmico” e olharam toda a semana para o umbigo à procura de uma solução que controle os estragos de uma saída grega do euro e quem sabe da própria União Europeia. Houve apenas tempo, no âmbito da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), para preparar uma guerra aos traficantes de seres humanos no Mediterrâneo que carece de uma resolução do Conselho de Segurança da ONU.
Poder-se-á perguntar se a questão do euro não será mais importante ou, pelo menos, mais imediata que o “Estado Islâmico” ou os refugiados que demandam a costa europeia. Na verdade, a saída grega do euro pode, e são muitos os que garantem que sim, ter um impacto global. Se assim for ninguém estará a salvo do contágio numa medida ainda mais global do que a implosão de Wall Street em 2008. Isto porque as economias estão mais débeis, porque as economias emergentes foram arrastadas para a crise e não têm as almofadas financeiras de 2008. Nem a China escapou, pois o crescimento do gigante asiático sofreu um enorme abrandamento, afectado sobretudo na quebra de exportações, dada a contenção dos seus principais mercados, os Estados Unidos e a União Europeia. Na semana passada a bolsa de Xangai conheceu perdas substanciais e o banco central desceu as taxas de juro num estímulo ao sector privado.
O destino e a estabilidade ou instabilidade do euro são, de facto, importantes. Mas não é menos importante e menos grave o continuado e consistente avanço tentacular do “Estado Islâmico”, que, a não ser contido a curto prazo, se tornará num problema muito maior do que a Al Qaeda jamais foi.
É aqui que reside a outra urgência global de não permitir que o terror e com ele a desestabilização política avancem. Já foram longe demais. Por si só, nenhum país tem capacidade de fazer este combate, nem mesmo a OTAN, sobretudo numa atitude de hostilidade contra a Rússia que, tal como o Irão, são essenciais no conhecimento do movimento, na recolha de informação, como base do combate.
A tudo isto acrescente-se que a situação dos “boat people” do Mediterrâneo não se resolve com o acolhimento voluntário de 25 mil refugiados pelos países da União Europeia. O problema de fundo é a estabilidade social, o desenvolvimento económico nos países de origem. Curiosamente, principalmente ali onde a União Europeia e a OTAN deram uma contribuição notável, ao interferirem, em nome da democracia, nos problemas internos desses países.
Veremos se passado o temporal causado pela divergência entre a Grécia e os restantes países do euro, comandados por Berlim, a União Europeia tem fôlego para olhar mais para fora ou se vai preocupar-se em limitar os estragos no seu interior e deixar que os outros carreguem com os problemas. Da União Europeia, é caso para dizer: “nem bom vento, nem bom casamento”.
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segunda-feira, 16 de março de 2015

O papel dos “mass media” no terrorismo

Benjamim Formigo||

A definição de terrorismo varia consoante os interesses políticos e conjunturais do poder instituído. Nas palavras do padre Leonardo Boff, teólogo da libertação, “a singularidade do terrorismo (está na) ocupação das mentes.

Nas guerras e nas guerrilhas precisa-se ocupar o espaço físico. No terror não. Basta ocupar as mentes e activar o imaginário através da ameaça de novos atentados e do medo que então se internaliza nas pessoas e nas instituições”. Este é o conceito e definição mais independente do terrorismo, ao englobar num único ambiente a violência física e psicológica e a intimidação.

Esta definição basta para o tema em abordagem: o papel dos Media na estratégia terrorista. A mediatização dos conflitos criada pelas televisões americanas na primeira Guerra do Golfo trouxe uma nova dimensão à notícia. Uma dimensão o que pouco teve, e tem, de objectivo num noticiário. Em paralelo a imprensa escrita adoptou uma nova estratégia noticiosa partindo do princípio de que o leitor não quer ler textos longos. Daí que o noticiário se tenha reduzido a escassas 500 palavras – uma grande notícia – que não dão conta do contexto em que um facto ocorreu.

Para a rádio, a situação sempre foi diferente: é o meio de informação que mais rapidamente pode noticiar um acontecimento sem quaisquer explicações. A televisão tornou-se um verdadeiro órgão de propaganda ao serviço dos interesses accionistas sempre que estes o queiram. Em Portugal as televisões privadas, em horário nobre, têm serviços noticiosos de 90 minutos artificialmente criados para poderem pôr no ar 30 ou 40 minutos de publicidade que rende uma enormidade.

Se reduzirmos esses noticiários ao importante, ao que efectivamente tem impacto no cidadão, dificilmente obtemos mais de 15 minutos. Mas deixemos o caso português para regressar à abordagem geral.

Na competição por uma notícia muitos canais de TV aproveitam uma mensagem lançada no Twitter, para dar “em primeira mão” uma notícia que sublinham “não estar confirmada” (salvaguarde-se a ética local) e que muitas vezes é de extremo alarmismo e se vem a revelar infundada.

Para os grupos terroristas, mais ou menos sofisticados, o recurso aos Media Sociais tornou-se uma forma de comunicação extraordinária e em tempo real. Uma forma de comando e controlo, de recrutamento, de propaganda, de disseminação de ideias e notícias que de outro modo acabariam no espeto dos pendentes de um editor.

O Facebook é o meio privilegiado para as páginas oficiais dos movimentos terroristas, como por exemplo o chamado Estado Islâmico (EISL).  Já não se trata de recrutar militantes entre os jovens revoltados dos campos de refugiados palestinianos. É uma incursão na própria classe média.

O Twitter, segundo um relatório do 30º Batalhão de Informações Militares do Exército norte-americano, serve para, em curtas frases, dar ordens de execução, coordenar acções no terreno, como teria sucedido para prevenir da iminência de ataques aéreos americanos contra o EISL na Síria em Agosto de 2013.


O YouTube, uma comunidade de partilha de vídeos, tem servido ao chamado exército do Estado Islâmico para divulgar acções indescritíveis, desde espancamentos, violações e execuções em massa de aldeias no Iraque até às decapitações de ocidentais por um tal “JihadJohn”, esta semana identificado como um homem de nacionalidade britânica e que se tornou uma espécie de porta-voz do EISL. Ainda esta semana os radicais revelaram um vídeo mostrando a destruição de preciosidades históricas que se encontravam no museu de Mossul, a segunda maior cidade do Iraque e que está nas mãos desse grupo.
Ora esses vídeos, desde as decapitações à destruição de relíquias históricas foram retransmitidos pelas grandes cadeias de TV, sempre com a origem identificada e a ressalva de não ter sido possível confirmar.

Isso não basta para evitar o terror desencadeado pela imagem da decapitação – a cuja cena final (a separação da cabeça) o espectador foi poupado – e o medo que ela transmite no Ocidente e, sobretudo, no Médio Oriente. A primeira mão não chega para divulgar com destaque as imagens do Museu de Mossul. O terrorista teve objectivos claros na divulgação destas imagens. As decapitações infundem o terror, em Mossul – onde se conjugavam com ataques contra aldeias cristãs assírias na região – precipitam uma intervenção militar, mas sobretudo levam as opiniões públicas revoltadas a apoiar uma intervenção da Infantaria. Haveria divisões na opinião pública, é um facto, mas se é inegável que estas imagens medievais são intoleráveis nos dias de hoje, também é incontestável o receio que elas infundem.

Em qualquer dos casos, os Media cumpriram uma missão que deveriam ter evitado: ser agentes activos na difusão do terror. Apenas por causa da luta por audiências.

A encerrar, recordo Novembro de 1982. Acordei com notícias de que Leonid Brejnev tinha morrido. Muitas estações de rádio interrompiam as suas emissões para acrescentar algum detalhe no que era ainda uma especulação com bases sólidas é certo. Estava perto do noticiário das sete, hora de Lisboa, e como habitualmente, sintonizei a BBC que apenas falava num ambiente anómalo em torno do Kremlin.

Ao fim de uns 20 minutos, chegou a hora do noticiário e a BBC abriu categórica: Leonid Brejnev tinha falecido, acrescentando que a confirmação fora feita havia segundos por um porta-voz do Kremlin. Não havia lugar a qualquer especulação. A notícia foi dada porventura depois de outros, mas a BBC nunca teve de se contradizer naquela noite em que abundaram rumores e faltaram factos.
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quinta-feira, 5 de março de 2015

O papel dos "mass media" no terrorismo


Benjamim Formigo
5 de Março, 2015

A definição de terrorismo varia consoante os interesses políticos e conjunturais do poder instituído. Nas palavras do padre Leonardo Boff, teólogo da libertação, “a singularidade do terrorismo (está na) ocupação das mentes.
Nas guerras e nas guerrilhas precisa-se ocupar o espaço físico. No terror não. Basta ocupar as mentes e activar o imaginário através da ameaça de novos atentados e do medo que então se internaliza nas pessoas e nas instituições”. Este é  o conceito e definição mais independente do terrorismo, ao englobar num único ambiente a violência física e psicológica e a intimidação.
Esta definição basta para o tema em abordagem: o papel dos Media na estratégia terrorista. A mediatização dos conflitos criada pelas televisões americanas na primeira Guerra do Golfo trouxe uma nova dimensão à notícia. Uma dimensão que pouco teve, e tem, de objectivo num noticiário. Em paralelo a imprensa escrita adoptou uma nova estratégia noticiosa partindo do princípio  de que o leitor não quer ler textos longos. Daí que o noticiário se tenha reduzido a escassas 500 palavras – uma grande notícia – que não dão conta do contexto em que um facto ocorreu.
Para a rádio, a situação sempre foi diferente:  é o meio de informação que mais rapidamente pode noticiar um acontecimento sem quaisquer explicações. A televisão tornou-se um verdadeiro órgão de propaganda ao serviço dos interesses accionistas sempre que estes o queiram. Em Portugal as televisões privadas, em horário nobre, têm serviços noticiosos de 90 minutos artificialmente criados para poderem pôr no ar 30 ou 40 minutos de publicidade que rende uma enormidade.
Se reduzirmos esses noticiários ao importante, ao que efectivamente tem impacto no cidadão, dificilmente obtemos mais de 15 minutos. Mas deixemos o caso português para regressar à abordagem geral.
Na competição por uma notícia muitos canais de TV aproveitam uma mensagem lançada no Twitter, para dar “em primeira mão” uma notícia que sublinham “não estar confirmada” (salvaguarde-se a ética local) e que muitas vezes é de extremo alarmismo e se vem a revelar infundada.
Para os grupos terroristas, mais ou menos sofisticados, o recurso aos Media Sociais tornou-se uma forma de comunicação extraordinária e em tempo real. Uma forma de comando e controlo, de recrutamento, de propaganda, de disseminação de ideias e notícias que de outro modo acabariam no espeto dos pendentes de um editor.
O Facebook é o meio privilegiado para as páginas oficiais dos movimentos terroristas, como por exemplo o chamado Estado Islâmico (EISL).  Já não se trata de recrutar militantes entre os jovens revoltados dos campos de refugiados palestinianos. É uma incursão na própria classe média.
O Twitter, segundo um relatório do 30º Batalhão de Informações Militares do Exército norte-americano, serve para, em curtas frases, dar ordens de execução, coordenar acções no terreno, como teria sucedido para prevenir da iminência de ataques aéreos americanos contra o EISL na Síria em Agosto de 2013.
O YouTube, uma comunidade de partilha de vídeos, tem servido ao chamado exército do Estado Islâmico para divulgaracções indescritíveis, desde espancamentos, violações e execuções em massa de aldeias no Iraque até às decapitações de ocidentais por um tal “JihadJohn”, esta semana identificado como um homem de nacionalidade britânica e que se tornou uma espécie de porta-voz do EISL. Ainda esta semana os radicais revelaram um vídeo mostrando a destruição de preciosidades históricas que se encontravam no museu de Mossul, a segunda maior cidade do Iraque e que está nas mãos desse grupo.
Ora esses vídeos, desde as decapitações à destruição de relíquias históricas foram retransmitidos pelas grandes cadeias de TV, sempre com a origem identificada e a ressalva de não ter sido possível confirmar.
Isso não basta para evitar o terror desencadeado pela imagem da decapitação – a cuja cena final (a separação da cabeça) o espectador foi poupado – e o medo que ela transmite no Ocidente e, sobretudo, no Médio Oriente. A primeira mão não chega para divulgar com destaque as imagens do Museu de Mossul. O terrorista teve objectivos claros na divulgação destas imagens. As decapitações infundem o terror, em Mossul – onde se conjugavam com ataques contra aldeias cristãs assírias na região – precipitam uma intervenção militar, mas sobretudo levam as opiniões públicas revoltadas a apoiar uma intervenção da Infantaria. Haveria divisões na opinião publica, é um facto, mas se é inegável que estas imagens medievais são intoleráveis nos dias de hoje, também é incontestável o receio que elas infundem.
Em qualquer dos casos, os Media cumpriram uma missão que deveriam ter evitado: ser agentes activos na difusão do terror. Apenas por causa da luta por audiências.
A encerrar, recordo Novembro de 1982. Acordei com notícias de que LeonidBrejnev tinha morrido. Muitas estações de rádio interrompiam as suas emissões para acrescentar algum detalhe no que era ainda uma especulação com bases sólidas é certo. Estava perto do noticiário das sete, hora de Lisboa, e como habitualmente, sintonizei a BBC que apenas falava num ambiente anómalo em torno do Kremlin.
Ao fim de uns 20 minutos, chegou a hora do noticiário e a BBC abriu categórica: LeonidBrejnev tinha falecido, acrescentando que a confirmação fora feita havia segundos por um porta-voz do Kremlin. Não havia lugar a qualquer especulação. A notícia foi dada porventura depois de outros, mas a BBC nunca teve de se contradizer naquela noite em que abundaram rumores e faltaram factos.
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quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

O terrorismo e as crises no mundo após o fim da Guerra Fria


Benjamim Formigo |
14 de Janeiro, 2015

A incompreensão ocidental relativamente à Síria levou a escolhas precipitadas e, portanto, pouco ajustadas, como o excesso de confiança ou incompetência em lidar com a situação iraquiana conduziu à quase desagregação do Estado.
Para surpresa da opinião pública, surgiu em 2014 um movimento – o Califado do Iraque e do Levante – que recorre à decapitação pública como forma de intimidação.
Não é verdade, ele não surgiu agora, já existia desde a Guerra do Golfo, apenas tomou novo alento e se projectou internacionalmente quando as vítimas dos actos de intimidação deixaram de ser curdos, iraquianos ou sírios para serem ingleses, americanos, cidadãos do tal mundo ocidental que pretende controlar as relações internacionais.
A resposta foi a inevitável: o recurso à aviação para dar apoio aéreo aos combatentes Peshmergas, milícia armada curda, a única força que se mostrou capaz de fazer face aos extremistas do autoproclamado califado. Claro que seria possível apoiar as forças regulares sírias, mas isso implicaria o reconhecimento de um erro e os dirigentes políticos de hoje olham o Mundo do seu Olimpo, analisam-no segundo a sua verdade:Assad é um inimigo a abater, mesmo quando é o único capaz de se opor ao “califado”, tal como os curdos. Mas os curdos Peshmergas não vêm só do Curdistão iraquiano, vêm da Turquia também, e Ancara não se sente nada à vontade com a força e a importância que os curdos assumiram e não vão querem recuar.
No eterno conflito do Médio Oriente, tudo na mesma depois de um agravamento com os ataques israelitas a Gaza. A Arábia Saudita e seus vizinhos, em especial o Qatar, tornaram-se actores do conflito sírio e outras crises – Egipto, designadamente – pagam para manter alguma tranquilidade no poder.
Com a crise financeira em expansão, a América do Sul perdeu o ímpeto de influência que lhe dava o crescimento económico e a visão de Lula da Silva.Com a Venezuela em crise profunda, a América do Sul vê a sua influência recuar sem que ninguém ocupe o espaço político esvaziado. Lula da Silva tinha uma ideologia, Dilma Rousseff é apenas uma ténue sombra do velho líder trabalhista que levantou a classe média do Brasil e o empurrou para o topo. Sem Brasil, a América do Sul é quase irrelevante.
Os Estados Unidos estão a ultrapassar a crise lentamente. Criam mensalmente mais empregos que o mercado de trabalho, o que permite reduzir de forma aparentemente sustentada o desemprego e relançar o consumo interno.
Mas ao mesmo tempo, os norte-americanos lançam nova crise, desta vez nas economias emergentes dependentes do petróleo. O “fracking” reduz em mais de metade as importações petrolíferas norte-americanas e, em simultâneo, entra no mercado internacional com custos de produção relativamente baixos, criando um problema aos países produtores em geral, excepto aos países do Golfo, particularmente á Arábia Saudita e talvez ao Iraque.
Uma guerra pela manutenção de mercados leva os sauditas a não só descerem os preços do crude como a um aumento da produção, visando por fora do mercado o “fracking”norte-americano e conseguindo assim o aumento de preços. Os sauditas têm reservas de divisas suficientes para arrastar esta guerra por mais de um ano. E os outros produtores?
Na Europa desenha-se nova crise. A Ucrânia pretende aderir à OTAN. Como era expectável, o Kremlin reagiu de forma dura e ameaçadora. Ninguém ainda explicou a Kiev que o apoio que recebeu foi um erro de cálculo de tecnocratas de Bruxelas que nunca exerceram um cargo de responsabilidade política e desconhecem os princípios básicos da política e relações internacionais. E nesta fase do campeonato nem me surpreenderia se houvesse quem apoiasse essa loucura.
Mas vai haver. A Polónia em especial irá apoiar e tentar que outros antigos membros do Pacto de Varsóvia façam o mesmo. A Alemanha e a França, pelo menos esses, já indicaram que essa adesão da Ucrânia não é uma atitude inteligente. Resta saber o que farão os Estados Unidos, que se mantêm em silêncio.
Trinta anos depois do fim da Guerra Fria ficou um vazio deixado pelo abrupto desaparecimento da URSS. O mundo deixou de ser bipolar e entrou numa fase de domínio norte-americano. Entre meados dos anos 90 do século passado e hoje os valores do mercado varreram a ideologia, o poder financeiro sobrepôs-se ao político, os burocratas tiveram o seu tempo de glória para mostrarem a sua incapacidade de se relacionarem com o povo, com o eleitorado, com a opinião pública.
E assim vai continuar na Europa, que perde progressivamente a sua importância política sem ser financeiramente relevante.A Alemanha impôs o seu “diktat”: a austeridade contra a inflação, os défices orçamentais, pelo rigor financeiro dos governos. O resultado está à vista, na Europa desapareceram as ideologias, os eleitores que não se sentem representados pelos partidos tradicionais viram-se para forças xenófobas e muitas vezes racistas, como se isso resolvesse os problemas. Desperta, ainda que vagamente, a consciência de que os mercados, o dinheiro, não podem continuar a governar, mas a desertificação política é imensa. Não há líderes de referência, nem quem queira entrar num mundo – o da política – que considera contaminado por relações espúrias com o mundo financeiro, os Media, os interesses não eleitos.
Em síntese, 2015 vai ser apenas 2015+1 em que 1 representa “n” – os problemas que ficaram e os que já se desenham, bem como os que nem se adivinham. Neste contexto mundial, a voz do novo Papa Francisco desperta a imaginação de ateus, agnósticos e, evidentemente, dos católicos, mesmo que alguns não se sintam bem com o realismo do Papa jesuíta face ao Mundo.
Mas o Papa não é um governante, apenas uma consciência moral e cívica a que os políticos em exercício ou aprendizes deviam estar atentos. Sem a assunção de ideais, de valores morais (que não moralistas) a mudança é possível.
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terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Movimentos terroristas desafiam os líderes mundiais


Benjamim Formigo |
13 de Janeiro, 2015

A iniciar o ano, terroristas aparentemente ligados à AlQaeda do Iémen passaram o ano com uma sequência de ataques em França, culminando no assassínio de jornalistas e polícias do “CharlieHebdo” e, em simultâneo ao cerco dos dois terroristas que atacaram este jornal satírico francês, a tomada de reféns num supermercado frequentado por uma maioria judaica.
Um estudo levado a cabo pela BBC e o King’sCollege, de Londres, concluiu que só no mês passado 16 grupos jihadistas causaram mais de cinco mil mortes civis, a maior parte das quais no Iraque, Nigéria, Afeganistão, Síria e Iémen. Para agravar, o BokoHaramassassinou na sexta-feira cerca de duas mil pessoas perto da cidade nortenha de Baga.
Infelizmente, nem todas as regiões do Mundo recebem a mesma atenção dos media, deixando o sentimento falso de que o terrorismo é um problema europeu e norte-americano. A Europa é o palco privilegiadodo que parece ser uma luta de influência entre o autoproclamado “Estado Islâmico do Iraque e do Levante” e a AlQaeda, cuja influência se contrai para a península arábica, em especial para o Iémen e para a província paquistanesa dos Territórios do Norte.
Os movimentos terroristas espalham-se do grande Médio Oriente, ao longo da costa oriental de África, descendo do Iémen para a Somália e o Quénia. Na costa oriental, seguem o Mediterrâneo, agora travados pelo novo regime egípcio e a resistência periclitante da Tunísia, passam ao lado da Argélia – que se tornou o único bastião anti-jahidista – para contactarem e conquistarem grupos dissidentes da República Centro-Africana, Camarões e Chade, conjugando forças com os nigerianos do BokoHaram.
O ano de 2014 termina sem que tenha trazido soluções para os problemas herdados de 2013 e os que acresceram em 2014. Pelo contrário, agravaram-se várias situações, de África ao Médio Oriente, e até se abriram novas crises bem complicadas na Europa, para não falar da crise económica que está a atingir, agora com maior impacto, as economias emergentes que nalguns casos se achavam imunes à crise euro-americana. Se por um lado a economia entra em crise, por outro sobressaem os problemas sociais onde os extremistas islâmicos encontram terreno fértil de recrutamento.Já não se trata de um movimento radical xiita contra o Ocidente. Os sunitas que gozaram da tolerância ocidental levantam-se agora, após a guerra do Iraque e as “primaveras árabes”, contra a preponderância xiita e perda da influência e poder sunita.
As armas ocidentais enviadas para as tais “primaveras” ou o Iraque cairam nas mão do caldeirão em que o “Califado” se tornou recrutando etnias e religiões diferentes. O Irão, que apoiou a revolta xiita, levou agora o Hezbollah a acompanhar Teerão na condenação dos actos criminosos de Paris e os que ocorrem na Síria, sendo de admitir que o Hamas venha a fazer o mesmo – uma janela de oportunidade para relançar um diálogo suspenso há muito.
Mas não se pense que só por si resolver a questão palestiniana retira o terreno de recrutamento jihadista. Ele estendeu-se pela Europa e até os EUA.
À medida que a crise social e económica avança e se mantém um vazio de liderança politica, mundial ou regional, sobem os ódios raciais e religiosos e aumentam as possibilidades de recrutamento.
Nos últimos 12 meses verificámos que novas crises se acentuaram de forma gravosa mas não totalmente imprevisível: República Centro-Africana, Sudão do Sul, Uganda, Sudão, Somália. A “primavera árabe” abriu as portas ao avanço terrorista no Níger, Nigéria, RCA, causando danos colaterais no Chade, Costa do Marfim, Libéria e por aí fora. A situação na Líbia não melhorou, apenas se modificou para que as petrolíferas pudessem retomar o seu trabalho. No Egipto, os militares tiveram de intervir para acabar com o domínio da Irmandade Muçulmana, interrompendo um processo onde democracia se traduziu numa eleição de um presidente vindo da Irmandade que se aproveitou para fazer ascender a sua ala radical.
Na África Ocidental, uma epidemia de ébola causou o número mais elevado de vítimas, fazendo o mundo desenvolvido acordar quando europeus e americanos foram contaminados e transportaram a doença para fora de África. Um soro e uma vacina experimentais e os media puseram de lado o drama africano, como se ele tivesse milagrosamente desaparecido. Continuam a morrer pessoas com ébola e não há notícias de que as vacinas estejam prontas e em distribuição. Apenas não se fala no assunto.
Este é o ano que se juntam os problemas que ficaram e os que já se desenham, bem com os que nem se adivinham.
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terça-feira, 26 de agosto de 2014

A morte do jornalista James Foley


Benjamim Formigo |
26 de Agosto, 2014

James Wright Foley, foto jornalista americano raptado a 22 de Novembro de 2012 no noroeste da Síria, foi decapitado a 19 de Agosto passado e as imagens de “uma mensagem à América” divulgadas no You Tube circularam por todo o mundo.
O vídeo não mostrava o assassínio em si mesmo, mas o seu corpo depois de ele ter lido uma mensagem claramente decorada ou lida de um teleponto qualquer. Pela primeira vez, fora da América Central dos anos 80, um jornalista é assassinado publicamente. Uma vida por um resgate, os duros recusaram negociar com terroristas ao contrário de alguns dos seus parceiros, ninguém se irá lembrar que a quantia paga não sustenta a guerra nem admitir que não fica diminuído por negociar.
Em Julho deste ano, Barack Obama autorizou uma operação de resgate com base num conjunto supostamente sólido de informações que levavam os serviços secretos americanos a acreditar que ele e outros reféns, todos jornalistas, estavam detidos em Ragga, no Leste da Síria.
A operação envolveu operações especiais dos vários ramos das Forças Armadas, o 160 º Regimento de Operações Especiais da Aviação, a célebre Força Delta, helicópteros e aviões de asa fixa. As forças americanas entraram em combate em território sírio contra forças do autoproclamado Estado Islâmico do Levante que sofreu, segundo o Pentágono, elevadas baixas.
Todavia a operação gorou-se, porque os reféns haviam sido mudados de local e aparentemente os “drones” usados nesta operação e sua preparação não deram pela mudança dos prisioneiros. Os raptos têm sido uma excelente fonte de financiamento para os extremistas islâmicos. Desde jornalistas a camionistas os resgates têm sido pagos. Desta vez foi um jornalista americano cuja família não tinha possibilidade de pagar os cem milhões de dólares exigidos e o Governo manteve-se firme na sua política (discutível) de não negociar com terroristas (o que parece não ser inteiramente verdade).
Outros Governos têm negociado libertações com sucesso. Mas a questão que aqui importa sublinhar é a transformação dos jornalistas de veículos de informação em alvo de rapto, o que aparentemente dá na sua fase final bem mais publicidade que as negociações de bastidores ou o relato de uma verdade que nem sempre agrada a um dos lados.
Os Estados Unidos têm agora, mesmo que não quisessem, de intervir. Porém Obama parece estar a considerar um ataque no Norte da Síria sob “controlo” do Estado Islâmico de consequências duvidosas.
Atacar o que é agora a rectaguarda dos extremistas é bem mais inútil que cortar-lhe as linhas de abastecimento e manter um apoio aéreo consistente às forças curdas que defendem o Curdistão iraquiano com escassos meios. Durante toda a semana os F-19 do porta aviões George H. Bush (pai de George W.) fizeram centenas de saídas a partir do Golfo Pérsico, onde o navio se encontra desde 31 de Julho. O problema americano é ter agido tarde demais, e não poder pedir à Turquia, sem a envolver no conflito sírio, o uso da base de Tikrit, o que colocava os F-18 e aviões de apoio mais perto do alvo e permitia um uso mais eficiente da aviação.
O apoio aéreo contra o Estado Islâmico do Iraque e da Síria (Califado Islâmico do Levante), ironicamente tem sido feito pela aviação síria que tem atacado posições do Estado Islâmico em território curdo.
Nas últimas horas, enquanto se prolonga sem fim à vista o conflito na Palestina, o ministro dos Estrangeiros iraquiano encontrou-se inesperadamente em Teerão com o seu homólogo iraniano. Do encontro não houve declarações oficiais, transpirando apenas uma hipotética ajuda iraniana ao Iraque se os EUA levantassem as sanções, o que significa que Teerão estaria na disposição de pressionar dentro da fraca influência que tem no Califado do Levante para uma solução negociada entre a minoria xiita e os sunitas, maioria da população e que controla o Governo. Nada é menos certo que Washington aproveite esta oportunidade para reatar o diálogo com o Irão.
Nada é também menos certo que as imagens da Palestina mudem e seja encontrada, pelo menos, uma trégua prolongada que permita um diálogo. Não enquanto Israel responder a um fogacho de morteiro com as bombas e mísseis dos F-16 e outras aeronaves.
Se o prazo de três anos dado esta semana pelo Papa Francisco, para cumprir a sua missão ou ver  resultados, se prende com estes dois conflitos, para não falar na Ucrânia e nos conflitos de baixa intensidade um pouco por todo o lado, então definitivamente Francisco está a prazo.
A Igreja tem muitos problemas por resolver e tem de os resolver apesar da oposição interna. Francisco tem apostado muito na política internacional, nas chamadas de consciência. Porém os políticos que gostam tanto de sublinhar que foram à missa não lêem as declarações do herdeiro de Pedro.
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quarta-feira, 14 de maio de 2014

Travar o sucesso da Al Qaeda


Benjamim Formigo
14 de Maio, 2014

A Al Qaeda tornou-se desde o 11 de Setembro (ataque às torres gémeas em Nova Iorque) um “franchising” de sucesso que faz tocar alarmes em todas as capitais.
O seu segredo deriva da falta ou insuficiência de políticas sociais dos Estados vítimas de ataques terroristas.Desde que com a “Primavera Árabe” a Líbia foi desmembrada os radicais islâmicos dispersaram-se pela zona do Saara e do Sahel juntando-se a outras facções islamitas, as expulsas da Argélia na década de 90 do século passado, e aos tuaregues sem o controlo de Kadhafi.
Da costa atlântica de África até à Somália os grupos islâmicos têm-se multiplicado e aproveitado de vazios de poder para se instalarem, criarem bases e lançarem ataques como o de há três semanas no Norte da Nigéria, onde foram raptadas 200 raparigas de uma escola.
O grupo Boko Haram estabeleceu-se há um ano na floresta de Sambisa ao longo da fronteira com os Camarões após uma ofensiva governamental no Norte do país. É uma zona de grande potencial económico que não tem sido suficientemente aproveitado para travar o avanço dos grupos de militantes através de uma melhor distribuição social da riqueza.
A falta de investimento dos países da região em Educação, Saúde, promoção de empresas industriais ou agrícolas de toda e qualquer dimensão deixa o caminho aberto às ideias dos militantes radicais e da sua muito peculiar interpretação do Corão. Pouco depois do rapto dirigentes do Boko Haram afirmaram que as raparigas iam ser vendidas e que isso era o castigo por andarem na escola em vez de casarem.A semana passada na África do Sul, o ANC regressou ao poder com uma maioria esmagadora de votos. Muito está por fazer no país e o presidente reeleito Jacob Zuma enfrentou graves acusações durante a campanha.
Contudo o ANC tem lançado as bases para um Serviço Nacional de Saúde, mesmo contra a pressão da indústria privada de saúde. conseguiu aprovar e pôr em marcha a atribuição de subsídios sociais aos desempregados e mais desfavorecidos apesar da situação económica do país já ter conhecido melhores dias.
O ANC luta contra um sector privado que não parece querer investir e com isso criar empregos e dinamizar a economia. Todavia os eleitores, mesmo os chamados “born free” (nasceram depois do fim do apartheid), desculpabilizam o partido afirmando que 20 anos não são suficientes para alcançar as metas apontadas pelo falecido Presidente Nelson Mandela na primeira campanha eleitoral com participação da maioria negra.
Mesmo que o sistema educativo na República África do Sul não seja suficiente, e haja uma oposição que conseguiu mais de 20 por cento dos votos, o Governo, por entre críticas, tem um plano de desenvolvimento.
Por pequena que seja a formação escolar há uma medida de compreensão. Não é eterna, obviamente, mas existe.
Na África Central e Ocidental, como na Somália e no Sudão as situações são bastante diversas da África Austral. A pressão dos grupos radicais islâmicos aliada a dos tuaregues é cada vez maior. Acresce que para muitos que vivem nessa região o conhecimento dos trilhos do deserto tornou-se uma fonte de rendimentos para vários tráfegos e actividades ilícitas de que beneficiam financeiramente e através das quais os grupos militantes se financiam. A esta pressão acresce a ausência de uma política de desenvolvimento económico e social. O problema da distribuição da riqueza coloca-se com maior acuidade.
A tudo isto acresce a já falada incapacidade de uma força de intervenção africana que apoie os exércitos nacionais contra estes grupos consideravelmente equipados e armados e isentos de qualquer ética ou limites morais. Abrem-se pois dois caminhos. Um à intervenção externa, a França já interveio no Níger e na República Centro Africana, e prepara-se para intervir no Norte da Nigéria em coordenação com o Governo nigeriano.
As tropas francesas reforçam os seus efectivos estacionados na zona e criam uma base logística na Costa do Marfim. Outro à livre movimentação e expansão dos grupos islâmicos radicais que se ligam a uma entidade, a Al Qaeda, dando-lhe um peso e uma disseminação que nunca conseguiria por si mesma.
A necessidade de travar esse “franchising” do terrorismo é cada vez maior porquanto os Governos dos países mais fracos ficam reféns dos países poderosos no que se refere à estabilidade interna, estabilidade de fronteiras e à sua própria defesa.

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terça-feira, 23 de abril de 2013

As bombas de Boston e as vitórias insidiosas do terrorismo


Benjamim Formigo|
23 de Abril, 2013

Os actos criminosos de Boston enquadram-se na mais pura definição de terrorismo, um terrorismo sem objectivos, porque inconsequente, um terrorismo sem alvos, porque só atingiu civis inocentes, um terrorismo criminoso, porque apenas espalhou confusão, medo, morte.
As bombas de Boston tiveram contudo uma consequência numa lógica perversa que se vem desenhando desde o 11 de Setembro: a tolerância e convivência entre comunidades e credos sofreu mais um rombo. As vitórias insidiosas que o terrorismo vem alcançando são precisamente nos princípios que se esperariam estimados e consagrados na Declaração Universal de Direitos Humanos. Desde que as Torres Gémeas, em Nova Iorque, se tornaram um símbolo do poder terrorista temos assistido a uma consentida e até apoiada degradação de princípios gerais e elementares do Direito. O terrorismo vence insidiosamente quando as pessoas toleram, aceitam, apoiam restrições à liberdade de informação – oficiais ou não – intolerância inter-comunitária, negação de presunção de inocência, privação de liberdade sem culpa formada, tortura, etc.
O verdadeiro terror psicológico infundido pelos actos de violência indiscriminada levam muitos a prescindir de princípios teoricamente inabaláveis e pelos quais lutaram gerações e se travaram guerras.
A forma como alguns “media” mais conservadores se apoderaram, na década de 60 e 70 do século passado, da terminologia do poder abriu as portas a uma confusão inaceitável. Os movimentos de libertação que desde essa altura lutaram à margem dos confrontos tradicionais (caso da OLP) ou na guerrilha (de Chipre, onde foram executados pela forca dezenas de combatentes, a Angola) foram facilmente qualificados como terroristas. Agora o mesmo termo se aplica a radicais islâmicos e até a criminosos como os de Boston. Ora é importante ter presente que existe uma diferença fundamental entre os primeiros e os últimos, afinal a radicalização conservadora dos termos levou a uma perigosa confusão. Uns lutavam pela liberdade a independência, valores consagrados internacionalmente. Os outros apenas levam os cidadãos a destruir ou deixar que se destruam as liberdades e os direitos adquiridos ao longo de mais de meio século.
Para além do Direito o terrorismo tem conseguido de facto uma outra vitória dentro das sociedades. A sua identificação árabe, muçulmana e/ou islâmica está a estigmatizar comunidades pela sua origem e/ou prática religiosa. Não se trata de uma “guerra santa” de cristãos contra muçulmanos ou vice-versa, conforme o ambiente maioritário, trata-se da instalação inconsciente do medo e ódio decorrentes de actos criminosos indiscriminados.
A luta contra este terrorismo não está apenas nas mãos do Poder. O Cidadão enquanto comunidade tem de assumir essa guerra e não permitir que o seu património moral seja delapidado.
A continuarem estas vitórias insidiosas ir-se-ão acentuando os actos discriminatórios raciais e a estigmatização religiosa; a Imprensa perderá a sua objectividade abrindo as portas ao discurso do poder, em especial a televisão.
A informação/espectáculo, tanto do agrado das televisões, é uma arma que os terroristas, e sobretudo os seus mentores, sabem aproveitar a seu favor. Boletins informativos directos dos acontecimentos transformaram a informação em espectáculo. Do outro lado do ecrã, em doentio encantamento, o espectador “vive” o que são os verdadeiros momentos de glória do acto de terror. No dia seguinte o cidadão está pronto para aceitar ou votar medidas que limitam os seus direitos preparado para olhar com desconfiança para outras raças e credos. Esta é a verdadeira forma de cercear as vitórias insidiosas do terrorismo. Vitórias bem mais perigosas que o acto criminoso.
O acto criminoso extingue-se com a acção; as vitórias insidiosas têm efeitos de médio prazo que perduram a muito longo prazo.
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segunda-feira, 2 de abril de 2012

Eleições e a cobertura de actos terrorismo


Benjamin Formigo |
2 de Abril, 2012

Assistimos a uma inesperada subida nas sondagens do candidato à Presidência francesa Nicholas Sarkozy. Em situação normal não era por si só notícia, mas apenas uma das voltas que uma campanha eleitoral dá.
A notícia está no facto da subida se dever a um conjunto de actos terroristas, à gestão presidencial dessa crise e à utilização dos órgãos de comunicação social.
França foi palco de um conjunto de atentados terroristas, o ultimo dos quais, ignominioso envolvendo crianças. O Governo fez apenas a obrigação e fê-lo eficientemente. Demasiado até, embora não seja claro se o terrorista não podia ter sido capturado, interrogado e julgado. À sua neutralização seguiu-se uma considerável operação de captura e neutralização de um grupo que alegadamente tinha ligações com o homem que aterrorizou a França.
Até aqui nada aparentemente errado a não ser o facto de nas operações estarem câmaras de TV que não surgiram acidentalmente. Nada de errado a não ser o facto de ninguém questionar o elementar: este tipo de rede não costuma colocar anúncios nos jornais, nem ser descuidada, portanto ou houve uma imensa eficiência da Policia e dos serviços secretos, que em menos de 48 horas encontraram e desmantelaram a rede, ou sabiam dela e se sabiam não puderam agir em tempo útil. Se assim foi isso devia ser assumido publicamente. As autoridades terem informações, mas não saberem onde o ataque vai ocorrer, acontece muitas vezes, e por isso não o podem impedir.
O terrorismo é um jogo em que o terrorista tem, em princípio, a vantagem e as autoridades são apenas reactivas.O candidato Sarkozy soube aproveitar bem a ocasião. Não deixou a comunicação a qualquer dos seus ministros e apareceu publicamente a dar conta das operações e do evoluir da situação.
Sarkosy acentuou o discurso contra os imigrantes em França, apelando a um eleitorado normalmente fiel aos Le Pen, mas também a um certo chauvinismo que os franceses não conseguem vencer e isso para quem já ameaçou pôr em causa o Tratado de Schengen sobre a livre circulação na União Europeia é grave.
O seu rival socialista, François Hollande, que capitalizava no descontentamento com o actual Presidente, tal como Marine Le Pen, caiu, perdeu a vantagem e, com Sarkozy a montar o cavalo na batalha contra o terrorismo e os estrangeiros indesejáveis, vai ter grande dificuldade em recuperar. Strauss-Kahn que o podia ajudar está neutralizado por múltiplos escândalos. Marine Le Pen também desceu com a deslocação da direita para Sarkozy.
Hollande nunca foi um bom candidato, mas o possível para os socialistas. Mesmo com esse “handicap” o socialista liderou as sondagens. Não significa isto que Sarkozy esteja inevitavelmente reeleito, não significa que os franceses aceitem a interferência (que provavelmente não vai haver) de Angela Merkel ao lado do amigo francês. Muito ainda pode mudar.
A questão é a forma como se tornou possível a manipulação dos órgãos de comunicação social.
Obama também teve a sua quota-parte. Numa conversa não muito circunstancial, nem no local certo, com Medvedev, revelou a sua maleabilidade sobre o sistema antimíssil que preocupa os russos, após as eleições. Não notou que os microfones estavam, ou tinham sido ligados. A confidência foi pública com os media a revelarem as palavras do Presidente americano ao seu homologo russo.
Objectivamente o que Obama disse é noticia. Objectivamente também os Presidentes falavam de uma questão geoestratégica sensível. Põe-se pois uma questão ética: revelar assim uma posição presidencial ou perder o mediatismo do directo da TV real e fazer soar a informação bem trabalhada junto de várias fontes políticas e depois fazer uma notícia desenvolvida evitando problemas numa situação geoestratégica importante.
A reflexão tem de ser feitas e não podemos, nem devemos, eximir-nos a essa responsabilidade.
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sexta-feira, 6 de maio de 2011

Uma morte real e vitória virtual


Benjamim Formigo
6 de Maio, 2011


Ao fim de mais de dez anos de perseguição e de muitos milhares de milhões de dólares, os Estados Unidos conseguiram finalmente exorcizar um dos seus fantasmas. Osama Bin Laden, o homem que planeou o ataque contra as Torres Gémeas em Nova Iorque, foi localizado pela CIA e morto numa operação secreta levada a cabo por Comandos especiais, os “Navy Seals”.
O exorcismo, porém, não chega para afastar os espíritos que alimentam a violência dos radicais islâmicos. Matou o símbolo mas não destruiu os corpos.
Barak Obama, na mesma semana em que se viu obrigado a responder a perguntas sobre o seu local de nascimento e a perder o seu tempo com intrigas e inutilidades políticas, teve o seu momento de glória e consagrou-se perante o eleitorado. “Yes, we can”. Poucos presidentes dos EUA tiveram decisões tão complicadas pela frente. Esta foi uma decisão que Obama teve de tomar sozinho perante opiniões divergentes no grupo restrito envolvido nas alternativas operacionais.
Os Estados Unidos não avisaram ninguém – nem tinham de o fazer – desta operação cuja finalidade declarada seria capturar o líder da Al Qaeda coisa que objectivamente seria excessivamente arriscado. Nem sequer o Governo ou o Presidente do Paquistão foi informado previamente da acção, o que se compreende quando são conhecidas as cumplicidades entre altos funcionários do aparelho de Estado paquistanês e a Al Qaeda. Para que conste, não existe qualquer disposição no Direito Internacional que legitime a operação militar do fim de semana. Mas ela era inevitável, tão inevitável quanto o secretismo que a rodeou.
A morte de Osama Bin Laden é uma vitória virtual. O símbolo do demónio foi morto, ainda por cima em combate, mas Osama era há muito apenas isso mesmo: um símbolo. O poder operacional estava no seu número dois, o médico egípcio Ayman al-Zawahiri. E a Al Qaeda tornou-se uma espécie de “franchising”, descentralizada em células e micro células independentes, com comandos e objectivos próprios, vagamente ligadas pelo “jihadisno” e a figura simbólica de Osama Bin Laden.
A excepção é talvez o braço da Al Qaeda que opera no Iémen, onde o Presidente, sob forte contestação, é um dos maiores aliados dos EUA na luta contra os militantes islâmicos. Presume-se que Ayman al-Zawahiri e outros importantes dirigentes da Al Qaeda tenham trocado há algum tempo o Afeganistão e o Paquistão pelo Iémen. Daí a importância do actual Presidente. Na Síria, a contestação violenta a Al Assad não acrescenta nada à luta contra o radicalismo islâmico, mesmo sendo Assad apoiado pelo Irão, país onde a Al Qaeda não goza de simpatias.
Ao afirmar que a morte de Osama Bin Laden é virtual pretendo apenas sublinhar que o real – a militância radical islâmica – é o inimigo real que, como se referiu, apenas tinha no saudita uma figura de referência. Mais do que isso, as acções da Al Qaeda no Mundo Árabe, acusando inúmeros mortos entre muçulmanos, e o surgimento de uma geração que contesta Governos em nome da liberdade e não do Islão, fez recuar as simpatias de que a Al Qaeda gozava e os adeptos que conquistava.
Mas é necessário não tomar a nuvem por Juno. A nova geração da contestação não é a população em geral. São na generalidade jovens informados que constituem uma elite que leva atrás de si uma contestação multigeracional. Na sombra ficam os militantes radicais islâmicos e os seus representantes políticos.
O caso do Egipto é paradigmático. A Irmandade Muçulmana mudou publicamente a sua visão política, surgindo nos últimos anos como um grupo moderado. Será? A verdade é que, desde o afastamento de Mubarak, a Irmandade Muçulmana veio crescendo e poderá muito bem ganhar as eleições, o mesmo se aplicando ao seu braço tunisino. Ganhas as eleições nada é menos certo que a Irmandade se mantenha como um movimento moderado e que pretenda um Governo laico. Os seus dirigentes são os mesmos ou nunca repudiaram princípios antigos.
A Al Qaeda deixou de fazer falta para a tomada de poder e por isso a sua influência foi diminuindo, o que não significa que não tenha entrado num estágio muito mais perigoso de profunda clandestinidade.
As suas células existem e estão a digerir a morte do seu ídolo, da sua referência. Osama Bin Laden morto pelos “Seals” americanos em combate sairá um mártir. Ninguém tem muitas dúvidas de que os militantes radicais vão retaliar, nem que a Al Qaeda irá continuar enquanto tiver terreno fértil onde se alimentar. E esse terreno está nas iniquidades globais e em particular no conflito israelo-palestiniano. A solução deste conflito que se estava a desenhar com um entendimento entre a Fatah e o Hamas necessita da colaboração de Israel, o que dificilmente sucederá com o actual Governo conservador.
A Europa e os Estados Unidos reforçaram as medidas de segurança em zonas sensíveis. As células dispersas e autónomas dessa organização descentralizada que é a Al Qaeda dificilmente deixarão passar em claro a morte do seu ícone, independentemente da estratégia do sucessor de Bin Laden.
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