31 de Março, 2014
Uma breve notícia num canal de televisão internacional dava
sexta-feira conta, de passagem, que os combates no recém independente
Sudão do Sul haviam já causado cerca de um milhão de refugiados. Nem os
30 segundos de fama foram dedicados a mais um dos dramas herdados
pelos povos africanos.
O Sudão do Sul alberga neste momento de guerra 235.035 refugiados oriundos da República Centro Africana, Sudão, República Democrática do Congo e Etiópia, além disso os confrontos provocaram 708.900 deslocados internos. Para o exterior do Sudão do Sul fugiram 261.310 pessoas, designadamente para a Etiópia, Quénia, Sudão e Guante, num movimento insano de pessoas que se deslocam de uma zona de conflito para se refugiarem noutra zona de segurança duvidosa ou mesmo onde existem confrontos. Só este ano de 2014 o ACNUR estima que serão necessários 390.118.424 dólares para assegurar a subsistência dos refugiados; os fundos até agora garantidos ficam-se pelos 8.988.872 USD, um défice de 381.129.552 USD.
Na região desenha-se já o risco de um novo conflito interno no Burundi. Começou o retorno dos exilados nos países vizinhos, para onde fugiram durante a guerra étnica entre hutus (apoiados pelo Ruanda) e tutsis que causou cerca de 300 mil mortos. No regresso os antigos refugiados encontram as suas terras ocupadas por outros que entretanto se apoderaram desses terrenos férteis e abandonados para o cultivo. Com uma economia essencialmente agrícola e com uma imensidade de pessoas vivendo da agricultura de subsistência não foi preparado nem um plano de retorno e redistribuição de terras, nem mecanismos de mediação entre “proprietários” e “ocupantes”. Numa região onde as tensões abundam, a violência banalizou-se e a terra é um bem essencial à vida, seria de esperar algum planeamento que seguramente seria economicamente mais rentável que as intermináveis reuniões do Conselho de Segurança da ONU e da União Africana se o conflito eclodir. Para não falar já nos custos humanos e humanitários. Na República Centro Africana, como no Mali, a situação está quase sob tutela francesa.
Na República Democrática do Congo os confrontos, que envolveram forças de nove países africanos e vinte grupos armados, mataram directa e indirectamente (malária, doenças respiratórias, mal nutrição) 5,4 milhões de pessoas (47 por cento crianças com menos de cinco anos), parece desenhar-se uma acalmia conseguida através de duas vertentes: a presença de tropas estrangeiras em apoio de Kabila e oposição da guerrilha apoiada pelo Ruanda e Uganda, e o boicote das empresas electrónicas à compra de coltan, um minério precioso no fabrico de certos componentes. No Congo estima-se que estejam 70 por cento das reservas mundiais. Este minério era extraído à margem do Governo congolês e vendido através do Uganda e do Ruanda por “patrões” dos grupos armados que combatiam o Exército regular e controlavam regiões ricas neste e noutros minérios, afectando também as economias de países vizinhos.
Se um milhão de refugiados não são notícia nos media internacionais, a realidade é que as necessidades de África só assumem importância quando é conveniente ou necessário saquear as suas riquezas naturais, mesmo que sob um manto diáfano de cooperação e amizade sem tradução numa contribuição prática para a estabilidade e enriquecimento de uma população desfavorecida.