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quinta-feira, 21 de abril de 2011

Os autoproclamados senhores do mundo


Benjamim Formigo |
21 de Abril, 2011


Voltamos ao mesmo. Para além do desastre nuclear no Japão, cuja real dimensão ainda está por determinar, a actualidade internacional e a manipulação de massas a que se assiste faz com que a questão líbia continue na ordem do dia. As reuniões da passada semana, em particular a da OTAN em Berlim (estranho, a sede da NATO é em Bruxelas!), e a mistificação que foi a carta assinada por Barak Obama, Nicholas Sarkozy e David Cameroon (publicada simultaneamente no “Le Fígaro”, “The Times” e “International Herald Tribune”) exigem um pouco de reflexão.
Os senhores que desencadearam a Resolução 1973 do Conselho de Segurança da ONU, França, EUA e Grã Bretanha, deixaram a claro em Berlim e na referida carta à opinião publica que afinal os seus verdadeiros objectivos vão muito para alem da R 1973. A sua firme intenção de proteger populações, como se esperava não era mais do que uma cobertura para outro fim: o coronel Kadhaffy tem de partir. Isso mesmo foi dito em Berlim e escrito em três jornais europeus.
Em Berlim, Sarkozy exigia mais aviões contra a Líbia, Cameroon fazia coro, os EUA abanavam a cabeça num discreta, e talvez relutante concordância.
Os restantes países da Aliança Atlântica diziam que sim mas não disponibilizavam, nem disponibilizaram os meios.
Paralelamente nos corredores criava cada vez mais forma a ideia que as negociações seriam a única forma de pôr termo ao conflito interno que França, Grã-Bretanha e EUA exacerbaram.
Ainda a tinta dos jornais estava húmida e já Barak Obama numa entrevista à Associated Press deixava saber que afinal a participação norte-americana ia continuar a limitar-se a missões de apoio após uma primeira fase em que aviões e navios americanos bombardearam posições governamentais na Líbia. Obama foi mesmo mais longe reconhecendo o inevitável: sem tropas no terreno a interdição do espaço aéreo não iria resolver nada. E as suas palavras apontavam para uma solução politica fazendo prudência a contra corrente de Sarkozy e de Cameroon que insistiam (insistem) na queda de Kadhaffy.
Na realidade sem tropas no terreno e com uma oposição sediada em Benghazi e de representatividade desconhecida não é possível saber quem vai negociar com quem. A pressão militar continua mas dentro da OTAN saiu uma decisão implícita, a de passar ao grupo de contacto, que inclui representantes da Liga Árabe e da União Africana a iniciativa politica que salve a face dos “Senhores do mundo”.
A tal solução politica que é necessário encontrar.
Se China, Brasil, Índia, Rússia e África do Sul, na reunião do BRICS, fizeram saber do seu desagrado pela actividade militar sobre a Líbia, a Rússia individualmente chamou a atenção à cimeira da OTAN em Berlim de que “estava a ser ultrapassado o âmbito da Resolução 1973” do Conselho de Segurança. A Resolução não autoriza acções militares contra o regime, apenas a protecção de populações em risco. Não tem sido isso que França e Grã-Bretanha e de forma diferente os EUA têm feito. Ora perante isto, o reconhecimento de Obama da necessidade de haver tropas no terreno, e uma situação de impasse e indisponibilidade de Washington em se empenhar mais na Líbia, perante o anunciado objectivo de Sarkozy de fazer cair o coronel Kadhaffy, seria necessária uma nova Resolução do CS para legitimar outro tipo de acção.
Não vão ter mais nenhuma Resolução do Conselho de Segurança. O veto russo ou chinês são ameaça suficiente para que as tais potencia que se sentiram no direito de determinar quem fica e quem parte não arrisquem nova iniciativa. O facto é que apenas com a Resolução 1973 a tal “coligação” ou os “aliados” estão em violação do Direito Internacional ao intervirem sem legitimidade num conflito interno de um país soberano e que não punha em causa a estabilidade dos seus vizinhos. Como sair da situação? Para já os Estados Unidos já se colocaram à margem.
Sarkozy insiste irracionalmente e David Cameroon, decidido a ser o mais conservador quer estar ao lado do Presidente francês. No seu Parlamento afirma que a Grã-Bretanha não pretende imigração de massas mas de qualidade, fechando as portas aos refugiados dos confrontos no Norte de África. Negociar é preciso. A dificuldade é encontrar outro parceiro além de Kadhaffy. A Líbia é um conjunto de tribos.
Quem representa o quê é a grande indeterminação que não foi levantada antes de os aviões descolarem para uma aventura determinada pelos autoproclamados senhores do mundo.
A batata quente passa para o Grupo de Contacto, mas em especial para os representantes da Liga Árabe e da União Africana desenhando-se assim cada vez mais a importância de as organizações regionais se imporem à Comunidade Internacional prevenindo ou dificultando a vida aos “senhores do mundo”.
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