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sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Basta de bestialidade na Hungria


Benjamim Formigo |
18 de Setembro, 2015

Os acontecimentos desta semana em vários locais da fronteira entre a Sérvia e a Hungria, com a polícia de choque húngara a agredir refugiados à bastonada e com gás lacrimogéneo, representam uma intolerável manifestação de bestialidade que Bruxelas não pode consentir tal como o fizeram já o Conselho da Europa e a Sérvia, Croácia, Áustria, entre outros.
A União Europeia falhou um acordo esta semana dada a oposição intransigente dos antigos países do Pacto de Varsóvia que alegam ver nos refugiados uma potencial infiltração do autoproclamado Estado Islâmico, escamoteando razões xenófobas e receios de que os refugiados ocupem, na Alemanha e outros países do Norte, postos de trabalho que pretendem ver ocupados pelos seus nacionais, beneficiando das exportações de divisas que eles façam.
A acusação cega à União Europeia, que eu próprio por vezes adopto, é uma simplificação de um problema mais complicado do caldo de culturas e fossos geracionais na Europa. A Europa dos Quinze foi apanhada pela queda do Muro de Berlim, a unificação alemã e com ela a necessidade alemã de ter novos mercados nos países do Leste, simultaneamente um excelente mercado para os Quinze, que podiam expandir investindo na modernização das economias dos antigos membros do Pacto de Varsóvia, recrutando mão de obra mais barata que entre os Quinze, onde a mesma era deficitária. Muito mais se poderia dizer sobre o processo que levou a um alargamento dificilmente gerível numa União onde o consenso é imperativo para a adopção de qualquer política. Em paralelo no seio das novas gerações do Leste, como nalguns países do grupo dos Quinze, designadamente em França e mais tarde na Grã Bretanha, acentuaram-se os movimentos radicais de direita, na Alemanha o problema dos neonazis intensificou-se como a repressão policial à xenofobia que promoviam.
A Hungria, onde hoje ocorrem os mais vergonhosos distúrbios da Europa Comunitária, esqueceu, ignora, a sua História mais recente quando milhares de húngaros tiveram de fugir da guerra ou da repressão e foram recebidos pelos seus vizinhos europeus, sustentados por eles, e integrados até os que quiseram tivessem condições para regressar ao seu país. O mesmo sucedeu durante o conflito dos Balcãs e hoje Sérvia e Croácia recebem e apoiam os refugiados de guerra sírios no seu trânsito para a Europa do Norte e os outros países que, mesmo sem acordo no Conselho de ministros do Interior, decidiram abrir as suas portas sem o receio das eventualmente possíveis infiltrações do autoproclamado “Estado Islâmico”. Existem riscos associados, mas eles existem em qualquer país de Schengen e até nos que, como a Grã-Bretanha, não assinaram o Tratado sobre a livre circulação.
A conjugação de uma ignorância histórica, dos princípios fundadores emanados do Tratado de Roma é, sem dúvida, mais acentuada a Leste. Porque o princípio da governação europeia assenta no consenso – recusadas que têm sido sempre as propostas de decisão maioritária – daí a extrema dificuldade europeia em adoptar uma política activa, passando o tempo a reagir aos acontecimentos, sem os antecipar e preparar planos para os enfrentar. O egocentrismo de alguns dirigentes levou também a acções unilaterais ou coligações mal amanhadas com os Estados Unidos, como foi o caso da Líbia ou o apoio mal informado à coligação contra Bashir Al Assad e outros erros. A responsabilidade da Europa não se esgota nos refugiados, eles são parte integrante de uma responsabilidade maior: a de encontrar uma saída para a guerra na Síria e um travão ao chamado “Estado Islâmico”.
Quanto ao problema mais premente, o dos refugiados e a atitude húngara, a Europa tem mecanismos para travar o quase neofascista Governo de Budapeste, basta fechar a torneira dos fundos comunitários. A Hungria não pode ver na introdução do controlo fronteiriço na Alemanha e na Áustria um fecho de fronteiras. O muro de arame farpado ao longo da fronteira com a Áustria estava em execução antes da decisão de Berlim. A Alemanha está a receber milhares e milhares de refugiados diariamente e necessita de controlar o seu registo, processar o seu encaminhamento, e não o pode fazer com o fluxo ao ritmo anterior. O controlo fronteiriço na Áustria ajuda a que a corrente de refugiados abrande, dando tempo para processar os que já lá se encontram e encaminhar os que chegam. Uma coisa é controlar com mais ou menos eficiência o afluxo de pessoas, outra é agredi-las e escorraçá-las depois do êxodo porque passaram. Esta Hungria não tem lugar na Europa, como não têm os que fecham o asilo aos que fogem de uma guerra.
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