6 de Janeiro, 2013
As crises existem, acontecem, debatem-se quando vêm nos
jornais ou são objecto do interesse mediático das televisões, sobretudo
se e quando não estão em jogo os interesses económicos dos grandes
grupos.
A antiga colónia francesa, independente desde 1960, dispõe de consideráveis riquezas naturais, designadamente petróleo, urânio, ouro e diamantes, que estão pouco explorados, sendo o algodão a maior percentagem das exportações da RCA. Economicamente tem sido considerado sem interesse particular pois os sues recursos, ao contrário do que sucede noutros países e regiões, não são raros nem essenciais.
Daí que o país nunca tenha conhecido a estabilidade necessária ao desenvolvimento, apesar da pouca população (4,5 milhões). Nunca ninguém, além dos franceses que em 2003 apoiaram o golpe de Estado do general François Bozizé, que dois anos depois se instalou no poder pela força, convocou e ganhou eleições formando um Governo de curta duração. Tem de resto sido essa a história do país. Governado desde a independência por presidentes impostos pela força e até um imperador, só em 1993 houve uma eleição democrática.
A instabilidade na RCA tem efeitos transfronteiriços no Norte do Chade, Sudão e Sudão do Sul, Congo, República Democrática do Congo e Camarões. Toda uma região instável onde se cruzam interesses internacionais e conflitos regionais.
A revolta no Norte da República Centro-Africana tem provocado um considerável movimento de deslocados e criado uma situação humanitária complicada. As Nações Unidas assistem aparentemente indiferentes limitando-se a apelar a um entendimento nas conversações previstas entre o Governo, a oposição e o movimento armado Seleka, do Norte. Um entendimento que nada indicia seja fácil ou provável e é “apoiado” pela indiferença internacional.
O impacto deste conflito causou 150 mil refugiados, nos Camarões e no Chade (regiões já com problemas antigos, em especial o Chade), provocou 100 mil deslocados internos e 660 mil pessoas necessitam de ajuda humanitária. Muitos mais poderão carecer de auxílio se os rebeldes do Seleka fizerem nova ofensiva sobre a capital Bangui.
Já aqui se falou no direito a proteger e a ser protegido. Algumas potências invocaram esse direito recentemente para interferir na Líbia e não será surpresa se a Turquia pretender assim legitimar ou justificar uma intervenção na Síria.
A República Centro-Africana, longe dos interesses económicos e geoestratégicos, parece entregue a si mesma levantando mais uma vez a questão da necessidade do reforço, organização e credibilidade dos organismos regionais, designadamente da União Africana, que tarda em se afirmar.
Com o final da Guerra Fria seria de esperar que os organismos regionais assumissem um papel mais activo na mediação e resolução de conflitos que a macrocefalia da ONU e os interesses económicos que fazem mover Governos remetem para o oblívio.