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segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Brincar com fogo... com os russos não


Benjamim Formigo |
30 de Novembro, 2015

Em 2012, já em plena crise na Síria, um caça Phantom turco equipado para observação e guerra electrónica, ao que se soube na altura, violou o espaço aéreo sírio durante algum tempo e foi abatido por caças sírios dentro do seu território.
O Presidente Erdoğan, furioso, sustentou que “uma violação curta de espaço aéreo nunca poderia ser pretexto para um ataque”. Em seu apoio veio o então secretário-geral da OTAN, Anders Rassmussen, classificando o ataque como “mais um exemplo do desrespeito das autoridades sírias pela Lei Internacional”. Curioso não é?
Há cerca de uma semana um Sukhoi 24 russo aproximou-se e terá entrado em espaço aéreo turco, em pleno conflito contra o autoproclamado “estado islâmico, durante 17 segundos para ser abatido por dois F-16 turcos que o esperavam. De repente Erdoğan passou a considerar legítima e justificada a acção turca. Mais, assumiu que ele próprio deu a ordem! E a OTAN, conforme pôde lá veio em defesa de um dos seus membros embora, sem grande convicção. Sergei Labrov, na senda do Presidente Vladimir Putin, falou num acto de traição, numa emboscada, e uma acção injustificável. Soube-se que os russos haviam informado o Estado Maior americano da missão que ia ser executada pelo seu SU-34. Considerando o tempo – 17 segundos – que o SU-24 esteve em espaço turco não era possível interceptar a aeronave russa e abatê-la a menos que os F-16 estivessem já em posição à espera do Sukhoi. Não há aliança que possa resistir à desconfiança que se instalou em cima da que já existia.
Como é evidente a Rússia, na situação de granel que se vive naquela área, não deveria ter programado uma missão que se aproximasse tanto do espaço aéreo turco, mas lá em cima não existe uma linha de demarcação e só as ajudas rádio permitem a um piloto e o seu navegador saber exactamente onde estão, e o local não ajuda a uma navegação precisa num voo a alta velocidade. Também não é menos certo que a reacção turca foi exagerada, além das dúvidas que levanta, pondo em questão a fiabilidade do um Estado Maior americano em teatro de operação. O facto é que o SU atacava milícias turquemenas, contrárias a Assad, que Erdoğan quer ver partir. Acção que se enquadra na estratégia russa de atacar não só o “EI” como pretende dar espaço a Assad antes de negociar a transição de poder.
O certo é que ainda não há muito tempo a Turquia bombardeou milícias curdas que lutam contra o chamado “estado islâmico”, alegando que constituíam um risco para a sua fronteira. Nada disto ocorre isoladamente. Erdoğan não quer que no desfecho final os curdos possam reclamar o seu Curdistão, que se estende da Turquia ao Irão. Como não quer uma aliança que englobe russos, franceses e americanos sem que primeiro a partida de Assad esteja garantida e achou que a sua posição como membro da Aliança Atlântica iria forçar a mão aos russos. Se assim pensou está provavelmente errado. Não vivemos já o tempo da rivalidade dos Impérios Otomano e Russo, mas num ambiente confuso deixado pelo final da Guerra Fria e uma redistribuição e reconquista de áreas de influência.
O assunto só aparentemente está arrumado. Os riscos de confrontos entre aviação russa e turca subiram consideravelmente. Putin não retaliou militarmente, para já. Mas as consequências económicas para a Turquia vão sentir-se. As dificuldades à entrada de bens turcos na Rússia começa a colocar em causa a qualidade dos alimentos que esperam em camiões na fronteira para passarem para a Rússia. O petróleo e gás russo que mantém a  Turquia em funcionamento estão em causa e o gasoduto alternativo à Ucrânia que iria passar pela Turquia está suspenso, sem que a Rússia seja economicamente prejudicada, pois há alternativas para um novo pipeline. Mas o risco desespera a Alemanha e a UE que dependem largamente do abastecimento russo. O investimento será uma realidade que no final beneficia as indústrias russa, alemã e algumas europeias. O único prejudicado será a Turquia.
Do ponto de vista europeu Ancara não tem muitas saídas. Mesmo com o apoio das potências europeias um pequeno país como Chipre pode vetar tudo quanto diga respeito à Turquia. Ninguém fala nisso mas todos se lembram e sabem o problema que pode constituir a posição cipriota. Chipre conseguiu a sua independência ao fim de anos de guerrilha contra os ingleses.
A Turquia manipulou a situação dos cipriotas turcos, amedrontando-os, levando-os a fugir para a parte Norte da Ilha, depois invadiram o pequeno país violando a Lei Internacional e com a ocupação militar criaram nessa metade uma república cipriota turca que só Ancara reconhece. Que vive muito aquém da qualidade da parte cipriota e ainda por cima coloca à venda nos mercados, sobretudo no inglês, propriedades pertencentes a cidadãos cipriotas gregos que nunca foram formalmente expropriados. É difícil defender a posição de Ancara.
Hollande e Putin entenderam-se quanto à colaboração contra o dito “estado islâmico”, mantiveram de fora a questão Assad, como os americanos se parecem inclinar a fazer, pelo menos informalmente, estabelecido o interesse mútuo em derrotar o “EI”, na Síria e no Iraque. A Rússia continuará os ataques aos comboios de camiões tanque que contrabandeiam o petróleo das zonas capturadas pelo “EI” e que passam pela Turquia, onde muitos fazem fortunas com a sua compra ilegal e venda em mercados paralelos. Secar as fontes de financiamento dos terroristas não é só um objectivo russo. Mas será sobretudo uma tarefa russa dado ser o país com mais meios e melhor informação na região, além de ser o país que pode contar com forças da Guarda Revolucionária iraniana, curdas e resquícios do Exército regular sírio para ocupar o território deixado vago pelo “EI” na sequência das operações de ataque aéreo e apoio ao solo da aviação russa. Na garganta de americanos, em especial, e de alguns franceses como o ministro dos Estrangeiros, Laurent Fabius, fica um espinho: a forma de ataque a todos os inimigos de Assad que os russos estão a desenvolver.

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terça-feira, 29 de abril de 2014

A Rússia e as sanções do Ocidente


Benjamim Formigo
29 de Abril, 2014

O que se passa nas conversações entre a Rússia, os Estados Unidos e a União Europeia começa francamente a ser um quebra-cabeças, uma espécie de discórdia de comadres, de um disse que não disse, não fez o que prometeu e por aí fora.
Claro claro é que não vamos a lado nenhum com este tipo de “diplomacia”. Ou melhor vamos a caminho de um ambiente de cortar à faca que de facto e como todos entendem é precisamente aquilo que é necessário para impulsionar a saída da crise dos países desenvolvidos e evitar contágios dos emergentes.
A existência de tendências separatistas no Leste da Ucrânia, com uma importante, senão mesmo maioritária população russa ou russófona e russófila, não constituía novidade. Depois de a Crimeia se ter sublevado num referendo local que, mais dia menos dia, será aceite como um facto consumado, veio apenas atear a chama separatista que dormia nas principais cidades do Leste onde se situa a indústria ucraniana totalmente dependente das importações russas.
Depois de uma tentativa de acordo que fracassou no terreno a Rússia apresentou agora nova proposta extremamente simples, mas de difícil cumprimento: o desmantelamento dos acantonamentos na praça principal de Kiev em troca do recuo das tropas russas e da retirada dos militantes pró-russos dos edifícios governamentais que ocupam em várias cidades do Leste, designadamente Donetsk. A primeira tentativa falhou porque os militantes pró-russos recusaram abandonar posições. A segunda provavelmente pela mesma razão acrescida da retórica infeliz do Primeiro-Ministro ucraniano em exercício, que tem feito e dito mais asneiras que o permitido a um político mesmo inexperiente e provinciano. Declarar publicamente, como o fez a semana passada, que uma guerra com a Rússia encontraria tropas da NATO e apoio da Ucrânia (as palavras não foram estas mas sim o sentido) não só demonstra uma incomensurável inexperiência diplomática, uma tentativa propagandística bacoca, ou uma credulidade só explicável pelo desespero.
Se ainda existe uma possibilidade de encontrar uma solução diplomática não reside na retirada gratuita das tropas russas de junto da fronteira, nem nos ataques aos chamados “terroristas” pró-russos causando uma meia dezena de mortes que poderiam ter saído muito caras à Ucrânia. Kiev tem de enfrentar uma realidade: ninguém a vai ajudar; não vai porque não quer um conflito com Moscovo; não vai porque a Ucrânia foi apenas um peão num jogo de burocratas da União Europeia; não vai porque um confronto com a Rússia só seria possível com o envolvimento dos EUA e isso acrescia um risco de confronto nuclear táctico, de que a Europa e em particular a Ucrânia seriam as primeiras e principais vítimas. Não vai ainda porque uma guerra custa dinheiro e os EUA não estão em condições de manterem a supremacia na Ásia Pacífico contra a China cada vez mais armada e ousada; não vai porque a União Europeia tem muito a perder do ponto de vista económico e financeiro.
Quando existe uma possibilidade de uma saída diplomática o silêncio é sagrado e as fugas de informação cautelosamente ponderadas. O problema é que, como se disse, isso implicará cedências, se não territoriais, pelo menos autonómicas às regiões de influência russa. Isso sim é o que o jovem PM ucraniano receia e recusa em vez de pragmaticamente estudar a forma como isso poderá servir melhor o seu país, que agora vai cair nas mãos do FMI, BCE e Comissão Europeia num plano de resgate onde os financeiros já esfregam as mãos. Plano que só é possível com o alívio dos auxílios que estão a ser prestados à Europa e outra política monetária que o BCE e a Alemanha parecem finalmente dispostos a aceitar.
Quanto a Putin, ao contrário de Boris Ieltsin, não deve nem quer dever nada ao Ocidente, apenas pretende manter as suas relações económicas. Ao contrário de Gorbatchov, não necessita de mostrar abertura, pois estão todas feitas. A ameaça de sanções económicas contra individualidades russas ou a degradação de rating das agências não parece preocupar o maior produtor de petróleo do Mundo e entre os maiores de outros minérios nobres, para não falar no gás natural.
O que sucederia às petrolíferas europeias e norte-americanas se os russos baixassem o preço do barril para, por exemplo, 10 dólares? E às economias que vivem da exportação de petróleo? Claro que o mercado seria indiferente a sanções e corria ao petróleo russo. Importa assim tanto avaliar as sanções que o Ocidente possa impor? Quanto tempo aguentariam as empresas petrolíferas? Quanto teriam de cortar a sua produção para combater os efeitos do dumping russo? Quem cederia primeiro: as reservas monetárias de um colosso do petróleo ou empresas e países dependentes desta matéria-prima? E quem acarretaria com as perdas financeiras desta operação? É ridículo falar em impor sanções à Rússia. Claro que no limite Putin não se está a portar bem pelos padrões ocidentais, mas não pelos padrões russos nem face aos interesses geoestratégicos da China.
As trocas comerciais entre a Europa e a Rússia, em 2012, atingiram 370 mil milhões de dólares (a maioria produtos alemães). Para a UE sanções relevantes seriam um suicídio económico. Por isso a UE em vez de se comprometer no comunicado do G-7 deixou para mais tarde a divulgação das suas próprias sanções. Os EUA estão numa situação mais fácil já que as trocas comerciais não ultrapassaram 26 mil milhões de dólares no mesmo ano, nem 10 por cento do valor eurorusso.
As empresas europeias, designadamente as do sector energético, têm feito uma enorme pressão sobre os seus Governos para evitar sanções sérias. Mas não só as do sector energético, pois outras estão envolvidas no capital da Gazprom e outras empresas russas e não querem ser arrastadas. A degradação da notação russa tem algum efeito nos investidores institucionais que compram dívida do Estado russo? Provavelmente muito pouco. O facto de o rublo cair pode ser benéfico na balança com o estrangeiro, diminuem as importações russas de bens europeus, a maior fatia e até podem manter as exportações energéticas favorecendo a Rússia. A subida das taxas de juro internas pode mesmo canalizar alguma poupança para o Tesouro russo. São sanções absurdas se ultrapassarem algumas individualidades. O Ocidente aposta na fuga de capitais da Rússia para o Ocidente, ora o que parece suceder é o contrário, com receio de verem os seus bens congelados no exterior os russos fazem retornar o seu capital.
Se o tempo perdido com os burocratas tivesse sido usado por políticos com um mínimo de visão, provavelmente a crise ucraniana teria sido evitada e hoje não pairaria a maior das dúvidas sobre a integridade territorial do país. Se em vez de pensarem menos em sanções, se Obama não tentasse esconder os erros domésticos através de uma política canhestra, se estudassem um pouco a História da Rússia e a sua cultura, talvez fosse possível obter algumas concessões. Desiludam-se os que pensam que EUA e UE vão defender a Ucrânia e Moscovo sabe-o perfeitamente. Desiludam-se também os que pensam que manobras conjuntas perto da fronteira russa para manter a prontidão podem intimidar o Kremlin.
As tropas russas, hoje, quando se movimentam junto da fronteira com a Ucrânia não estão em manobras para manter a prontidão das tropas, estão apenas a advertir, para não dizer intimidar. Só ninguém sabe onde é que Vladimir Putin traçou a tal linha vermelha. E é bom que não se venha a saber.
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quinta-feira, 20 de março de 2014

Sanções mas sem magoar


Benjamim Formigo |
20 de Março, 2014

Quando na manhã de segunda-feira, os ministros dos Estrangeiros dos 28 países membros da União Europeia se reuniram em Bruxelas era já evidente que a montanha iria parir um rato.
Após algumas horas de reunião,  o Conselho anunciava a imposição da proibição de viajar para a União Europeia e o congelamento de bens de 21 individualidades, cujos nomes não foram revelados. No Twitter, o ministro dos Negócios Estrangeiros lituano anunciava que outras medidas seriam de esperar nos próximos dias.
Este foi o castigo da União Europeia – o dos EUA é, provavelmente, semelhante  –  à realização do referendo sobre a independência da Crimeia ou sua associação à Federação Russa, na sequência da crise política em Kiev que levou o Presidente eleito Viktor Yanukovich a abandonar o país, abrindo caminho à sua deposição e substituição pelo Parlamento. Washington e Bruxelas apressaram-se a reconhecer o novo poder interino, Moscovo recusa-lhe qualquer legitimidade e representatividade.
Graças ao tempo que levou a tomar esta decisão, os atingidos já, possivelmente, retiraram o seu dinheiro da União Europeia e dos EUA e também, muito provavelmente, num processo negocial, que em teoria deveria ter agora lugar, os políticos dos EUA e União Europeia  terão de conversar com os banidos!
O facto é que a União Europeia cometeu um erro estratégico relativamente à Ucrânia: o pacto de associação com Kiev, que desencadeou a presente crise. Os políticos deixaram que os tecnocratas da Comissão Europeia elaborassem a proposta de documento de associação. Como bons tecnocratas, estes olharam apenas para números e resultados teóricos de negócios sem curar de saber as implicações geoestratégicas e geopolíticas de afrontar a Rússia. Uma associação, qualquer que fosse, com um Estado com uma fronteira tão extensa com a Rússia e com a idiossincrasia da Ucrânia deveria ter tido em linha de conta a História do território, as relações (proximidades e divisões) culturais a as características políticas e sociológicas. Isso, para os tecnocratas de Bruxelas, são diversões. Mais grave é que alguns ministros dos Negócios Estrangeiros europeus mostraram, também, uma infinita ignorância em relações internacionais, e Berlim não deixou de fazer sentir isso mesmo.
Se os ucranianos esperavam que os Estados Unidos e a União Europeia fizessem mais, enganaram-se, ou deixaram-se enganar redondamente. Nem apoio armado nem sanções. Se a situação económica da Rússia não é brilhante, a dos Estados Unidos e da União Europeia também não. Contudo, sanções económicas a sério, ao contrário do que sucederia na União Europeia, afectariam muito pouco os EUA, dada a irrelevância das trocas comerciais.
Na União Europeia, em particular na Alemanha, essas sanções iriam causar problemas. Em 2012, as exportações europeias para a Rússia atingiram 171 mil milhões de dólares. Mais de sete mil empresas alemãs têm intensos laços comerciais com a Rússia, de onde a Alemanha importa 30 por cento do gás natural que consome.
Uma questão põe-se agora com mais acuidade que nunca: saber qual o alcance da estratégia de Vladimir Putin quando em regiões fronteiriças, como Donetsk, Lugansk, Kharkiv, as maiorias russas se movimentam exigindo um tratamento igual, ou seja, um referendo como o efectuado na Crimeia.
Uma coisa é permitir, fomentar, propiciar ou ser simplesmente passivo relativamente à Crimeia – que historicamente sempre foi russa e numa noite de vodka e boa disposição, em 1954, Nikita Kruchev ofereceu à República Socialista Soviética da Ucrânia – outra é redesenhar as fronteiras deste país nascido da queda do Muro de Berlim e do final da Guerra Fria.
Ao erro estratégico dos tecnocratas europeus se associaram a políticos de Leste, ainda ressentidos com os tempos do Pacto de Varsóvia, e a alguns ocidentais sequiosos de visibilidade, que empurraram o poder da rua a sobrepor-se a um acordo envolvendo norte-americanos e russos, levaram o Parlamento a nomear um Chefe de Estado e, consequentemente, um Governo interino que, previsivelmente, não seria reconhecido por Moscovo, tornando uma situação difícil numa missão impossível.
A pragmática Alemanha da “realpolitik” – uma coisa que os europeus parece terem esquecido – terá refreado os ímpetos dos que, como o ministro dos Negócios Estrangeiros polaco, afirmavam que “a Rússia precisa do nosso dinheiro”, ao manter o diálogo com Putin, mesmo sublinhando o seu desacordo com o referendo de domingo, e apontando para um grupo de contacto, eventualmente no âmbito da Organização de Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), a fim de, no mínimo, evitar o retorno à Guerra Fria.
Espantoso também é que uma situação potencialmente perigosa na Ucrânia tenha escapado aos serviços de informação europeus, à CIA e à NSA. Como espantosa está a ser a incompreensão dos desígnios de Vladimir Putin ou o vislumbre daquilo que é a sua estratégia. Ao certo, ninguém honestamente pode afirmar que o Presidente russo esteve por detrás da crise em Kiev, apostando na “revolta” da Crimeia ou não. Como nenhum responsável parece ter uma estratégia para evitar o agravamento da situação.
A Rússia reagiu como seria de esperar: mostrou as garras através de importantes exercícios militares ao longo da fronteira. Se isso faz parte de um plano amplo para dividir a Ucrânia, duvido que alguém possa fazer mais do que especular. Mas uma coisa é certa: o Parlamento russo já tem planos para a entrada da Crimeia na Federação se for essa a vontade de Putin, conhecida a posição da população na Península.
O Primeiro Acto está, assim, encerrado. Esperemos que, no Segundo Acto, a “realpolitik” se imponha à retórica inconsequente e que Putin não se sinta tentado.
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segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Acordo sobre armas químicas deixa conflito em aberto


Benjamim Formigo |
16 de Setembro, 2013

Americanos e russos conseguiram chegar a um acordo sobre as armas químicas na Síria. O acordo é sem dúvida relevante, não só na região mas na adesão e cumprimento do tratado sobre a proibição de posse e uso de armas químicas, mas deixa em aberto o conflito que causou mais de 110 mil mortos com armas convencionais.
Pela primeira vez Moscovo e Washington estiveram de acordo desde o início desta guerra em 2011. Não é porém de excluir que exista convergência quanto às conversações políticas que se espera se iniciem em Genebra quanto mais depressa melhor.
Em final de Agosto nestas páginas fez-se referência à proposta avançada por Lorde Owen, antigo secretário britânico dos Estrangeiros. Curiosamente a resposta dada pelo secretário de Estado americano John Kerry numa conferência de imprensa e imediatamente agarrada pelos russos ia precisamente ao encontro da proposta de David Owen. A proposta avançada pelo ministro dos Estrangeiros russo Serguey Lavrov concorria precisamente no mesmo sentido. Não importa debater se Lavrov e/ou Kerry estavam, ao contrário dos “media”, atentos a propostas que pudessem ser construtivas. Importa que houve um acordo para que a Síria entregue ainda esta semana a relação dos seus efectivos químicos bem como a sua localização, que as equipas da ONU, designadamente do grupo responsável pela verificação da convenção sobre a proibição destas armas estejam no terreno e que se defina a estratégia para a sua destruição.
As informações sobre a adesão do Governo sírio à convenção são contraditórias. As primeiras notícias, não desmentidas pela ONU, diziam que Damasco já havia manifestado a sua intenção se aderir ao tratado, ainda Kerry e Lavrov negociavam a solução encontrada. Posteriormente alguns meios de informação questionam sobre a adesão de Bashar Al Assad ao acordo conseguido sábado passado com base na proposta russa. A guerra de contrapropaganda e da contrainformação não tem parado e agora intensificou-se procurando lançar dúvidas sobre o sucesso dos esforços diplomáticos que parece terem finalmente arrancado.
As críticas a Obama não se fizeram esperar. Por um lado da parte de alguns senadores republicanos que, como McCain, que se opunha à intervenção e agora entende que o Presidente dos Estados Unidos se deixou enredar numa manobra de Vladimir Putin, por outro os franceses que procuram apresentar a solução americano-russa, primeiro avançada por David Owen, do mesmo modo, como uma manobra do Presidente Putin que pode, sustentam, barrar qualquer intervenção dos Estados Unidos. De facto a solução encontrada remete para o Conselho de Segurança da ONU as medidas a tomar caso o Governo sírio não cumpra o acordo que esta semana será transformado numa Resolução do CS. Há que notar que Moscovo aceitou pela primeira vez a referência ao Capítulo VII da Carta das Nações Unidas, também há que notar que sob o chapéu do Capitulo VII estão expressamente previstas sanções que podem ir do bloqueio económico à intervenção militar e que a Rússia tem direito de vetar qualquer Resolução que implique o uso da força. Mas também há que notar que ao abrigo do que foi decidido na conferência de Chefes de Estado e de Governo sobre o dever de proteger e o direito de ser protegido os Estados Unidos poderão agir sempre unilateralmente. O defensores de uma linha dura pretendiam que o que agora foi acordado contivesse uma referência explícita a uma intervenção militar caso houvesse uma violação da Resolução do CS-ONU que traduzirá o que John Kerry e Serguey Lavrov acordaram sábado, 14 de Setembro, e em simultâneo querem fazer cair o regime sírio. Nesse caso a intervenção militar poderia ser automática. Como o Mundo não pode ser visto a preto e branco há que ter em conta um conjunto imenso de factores antes de desencadear uma operação militar. Em primeiro lugar só parece estar assente que foram usadas armas químicas mas nada está provado cientificamente quem as usou.
Só as análises que os inspectores da ONU estão a fazer em laboratórios europeus podem determinar precisamente o que foi usado e com algum grau de fiabilidade o vector que serviu para o ataque químico. A determinação desse vector, ou seja tipo de arma usada para desencadear o bombardeamento, será essencial para poder apontar o dedo a uma das partes em conflito. E a verdade é que já foi determinado por observadores da ONU que ambos os lados cometeram atrocidades com armas convencionais. A prudência é pois essencial na avaliação das medidas a tomar.
A prudência e o bom senso. Se os EUA ou a NATO contribuírem para a queda de Assad, como fizeram com Kadhafi, quem irá substituir o regime de Damasco? Como será possível garantir que não vai suceder na Síria o que sucedeu na Líbia? Com a agravante de a Síria ser um caso bem mais complicado que a Líbia. Notável foi também, apesar de relegado para segundo plano, o apoio de Teerão à solução que se encontrou.
Sem dúvida que a ameaça de intervenção militar contribuiu decisivamente para que Damasco aceitasse a solução proposta por Lavrov. Mas a execução automática de uma intervenção militar em caso de violação do que ainda está para ser acordado em definitivo é um risco demasiado sério.
Sem garantias absolutas de que os rebeldes não têm acesso a armas químicas ou outras de destruição massiva seria correr o risco de um acto provocatório que levasse à intervenção militar externa desequilibrando o teatro de operações a favor dos rebeldes.Sem dúvida que a ameaça de intervenção militar é um dissuasor para que o Governo sírio faça batota com as armas de destruição massiva.
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segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Rússia intransigente domina Conselho de Segurança


Benjamim Formigo
6 de Fevereiro, 2012

A Rússia está de volta à cena internacional com uma posição de defesa intransigente do que entende serem os seus interesses e de não abandono dos seus amigos tradicionais, marcando a diferença com os Estados Unidos e a União Europeia.
A Rússia está de volta à cena internacional com uma posição de defesa intransigente do que entende serem os seus interesses e de não abandono dos seus amigos tradicionais, marcando a diferença com os Estados Unidos e a União Europeia. O período de recolhimento pós-soviético parece acabado, precipitado talvez pela forma como a Rússia e a China foram literalmente enganadas com a situação líbia. No caso da Síria os russos desde o início balizaram a eventual aceitação de uma proposta de resolução viável.
A proposta de Resolução sobre a situação na Síria que os EUA queriam ver votada quinta-feira no Conselho de Segurança da ONU assentava no plano da Liga Árabe recusado pela Rússia. Esta proposta teria anunciadamente sido reformulada várias vezes e renegociada antes de ser levada sábado ao Conselho de Segurança. Parece um tanto exótico que a diplomacia não conseguisse evitar o anunciado “niet”. Rússia e China vetaram pela segunda vez em quatro meses propostas sobre a Síria.
Desde que surgiu o primeiro “draft” de resolução os russos deixaram saber que a versão traduzindo o plano da Liga Árabe era inaceitável. O Kremlin sublinhou que só seria aceitável se: primeiro, ­garantisse que não iria haver intervenção estrangeira, em especial militar; segundo, não colocasse a queda de Bashar Al-Assad como condição prévia para uma solução; terceiro, não incluísse sanções económicas, designadamente embargos incluindo de armas. Satisfeitas estas condições a Rússia poderia vir a deixar passar a proposta, no que seria acompanhada pela China.
Os russos anunciaram antecipadamente que o titular dos Estrangeiros Sergueï Lavrov se deslocaria – como vai suceder - no próximo dia 7 a Damasco em representação do Presidente Medvedev para dialogar com o Presidente Al-Assad e preparar o caminho para mediar, inicialmente em Moscovo, uma solução entre as duas partes. Porém a oposição recusou de imediato colocando condições prévias que se supõe terem, como a própria oposição, apoios fora da Síria. O Kremlin antes da votação tinha já assumido internacionalmente a responsabilidade de negociar uma alternativa política que pusesse fim à violência extrema e inaceitável que o país está a viver. Seria de esperar um compromisso que desse uma chance à diplomacia.
Após o veto russo de sábado e dada a conhecida falta de unidade da oposição e a violência dos confrontos a intervenção diplomática russa, embora se mantenha, está dificultada. Com o veto o ministro Lavrov representa para a oposição síria um aliado do inimigo o que complica a já de si problemática intercessão.
Em rigor a proposta nunca deveria ter ido ao Conselho de Segurança sem estar assegurada a sua aprovação. O veto russo era esperado sem um compromisso sério difícil de negociar a contra relógio. Exigia tempo e uma confiança bastante abalada após a interpretação feita pelos EUA, França e Grã-Bretanha da Resolução 1973 sobre a Líbia.
Se existem no cenário internacional situações requerendo uma enorme rapidez de acção esta não era uma delas, apesar da violência que se acentuou nos dias que antecederam o voto. A situação que se foi criando na Síria sugeria uma grande prudência diplomática e muito silêncio. Precisamente o contrário do que sucedeu.
Durante os dias que precederam o voto a Imprensa internacional foi dando conta de compromissos que aparentemente não existiram. Não se pode excluir hoje que todas as notícias sobre cedências e ajustes não tivessem sido mais do que uma manobra de relações públicas. Os media, americanos e europeus, anunciaram uma evolução do “draft” ao encontro da posição ­russa. Assim teriam sido incluídas: a condenação de toda a violência viesse de onde viesse (abrangendo os dois lados do conflito); a defesa de uma solução política e sua condução pelos próprios sírios; o documento seria omisso quanto à partida de Bashar Al-Assad (contrariamente à proposta inicial decalcada do relatório da Liga Árabe); a proposta acentuaria a necessidade de uma resolução pacífica (afastando qualquer possibilidade de intervenção militar), para não deixar ambiguidades como no caso líbio. Em síntese, nos jornais apareceram todos os ingredientes aceitáveis para russos e chineses.
A seguir ao voto no Conselho constatou-se que afinal o argumento era decalcado do plano traçado pela Liga Árabe, assentava na partida de Bashar Al-Assad, e incluía disposições que tanto o ministro Sergueï Lavrov, como o embaixador russo na ONU e os chineses haviam recusado liminarmente. A generalidade da proposta vetada pouco teria a ver com o que foi tornado público pelas fugas de informação.
Moscovo não tem hesitado desde a Resolução 1973 sobre a Líbia, em manifestar a sua oposição às posturas dos EUA e da UE sendo secundada pela China que em Outubro passado acompanhou a ­Rússia no veto de outra proposta sobre a Síria. No caso concreto de Damasco está em causa não só um aliado de muitas décadas como interesses económicos russos.
Com o país a viver uma situação de extrema violência seria de esperar exemplar prudência e a procura de um consenso mais alargado possível para abrir uma janela de oportunidade que encontrasse uma solução negociada para o fim da violência, se esse era como será de acreditar o objectivo do Conselho de Segurança. Bashar Al-Assad aceitara o princípio das conversações através dos russos, tratava-se de conseguir um documento mais modesto que colocasse alguma pressão sem comprometer o diálogo e tirando partido da influência russa em Damasco.
Claro que cinicamente se poderia dizer que a Síria é a testa de ponte do Irão no Mediterrâneo, o único país árabe a manter boas relações com o Irão e que este está na mira de americanos e israelitas. Não chega. Não existe uma “primavera” síria, como hoje se percebe que não existiu uma “primavera” árabe. Não é difícil falar a favor dos direitos humanos e em defesa da população. O difícil é ser consequente com esse discurso colocando antes de mais o interesse dos povos.
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domingo, 22 de janeiro de 2012

A dupla Putin - Medvedev e o nacionalismo pragmático


Benjamim Formigo |
22 de Janeiro, 2012

A era governativa iniciada por Vladimir Putin e seguida por Medvedev e que agora vai, tudo indica, regressar a Putin, revelou-se radicalmente diferente da do homem a quem sucedeu, Boris Ieltsin. A Rússia entrou num novo período, cujo objectivo final é devolver ao país o estatuto que tinha antes da queda do Muro de Berlim.
Vladimir Putin e o seu sucessor Dimitri Medvedev não confiam. Mantiveram sempre uma política reservada e sentiram recentemente, com os acontecimentos na Líbia, a violação de uma Resolução negociada do Conselho de Segurança que a sua falta de confiança tem sustentação. Prosseguiram, por isso uma, linha, primeiro de endurecimento, depois de coexistência, mas sem perder de vista o regresso da Rússia.
Boris Ieltsin governava com os olhos postos nas parcerias e amizades com o Ocidente, privilegiava a promoção da sua imagem externa e promovia uma clique de amigos, fervorosos adeptos do neoliberalismo, de honestidade e integridade duvidosas.
Vladimir Putin mostrou-se sempre particularmente preocupado com a vulnerabilidade externa da Rússia, a afirmação do país na cena internacional, com um mínimo de concessões e nunca em áreas que considerasse de interesse estratégico. O antigo e provável novo Presidente russo mudou a estrutura da economia do país e realçou o mercado interno. Afastou ou limitou os barões de Ieltsin (mesmo que para isso recorresse à Polícia), e, tal como o sucessor designado, procurou tornar o país menos dependente das exportações petrolíferas.
Na cena internacional Vladimir Putin e o sucessor colocaram as relações com os Estados Unidos numa posição perigosamente semelhante à da Guerra-Fria depois da vitória de George W. Bush e de serem conhecidas as principais figuras da sua Administração vistas por Moscovo como do passado, guerreiros da Guerra-Fria, falcões para quem a Rússia não é “um amigo e muito menos um aliado”.
Com o tempo, a aproximação do final do mandato Bush e depois a eleição de Obama, a dupla Putin-Medvedev foi recolocando as relações em termos cooperantes, mas sem antes procurar estabelecer novas alianças e abrir portas na cena internacional que pudessem pressionar Washington em caso de necessidade.
Bill Clinton, na sua relação especial com Boris Ieltsin, preocupava-se mais em consolidar a posição interna de Ieltsin e menos com a democracia e o desenvolvimento económico da Rússia. Clinton conseguiu com essa estratégia personalista promover a consolidação dos Estados Unidos no mundo unipolar e tornar o país potência indispensável.A estratégia norte-americana foi posta em causa por Putin imediatamente após entrar no Kremlin. Não hesitou, e continua a dar indícios claros que não mudava de rumo, aproximou-se de antigos rivais como a China e o Irão, fez reviver amizades dos tempos da Guerra-Fria reaproximando-se de Cuba e do Vietname, retomando os tratados militares com a Índia sem deixar de piscar o olho ao Paquistão.
Putin declarou a oposição à expansão da OTAN à Polónia, Hungria e República Checa e uma eventual abertura da Aliança Atlântica aos estados bálticos que podia ter agravado o sentimento de cerco, herdado da Guerra-Fria e que a Rússia reviveu.
Ele e Medvedev usaram o petróleo e o gás para pressionarem os relutantes vizinhos ucranianos, o único escudo que lhe resta na frente Oeste. O Afeganistão tornou-se de novo inimigo por causa da Chechénia e desta vez um inimigo para os dois lados. As tropas russas deslocaram-se para a antiga Ásia Central soviética, prevenindo qualquer acção de guerrilha islâmica. Mas essa posição não se traduziu no sancionamento das intervenções americanas no Afeganistão e no Iraque.
Não lhe foi difícil encontrar na China um aliado de ocasião contra a hegemonia americana, primeiro, e depois contra a nova “Guerra das Estrelas” que George W. Bush defendeu. Moscovo e Pequim assinaram um tratado de cooperação impensável durante as últimas décadas. Mas a visão externa de Putin não se ficou por um virtual eixo de cooperação com Pequim. O Kremlin suavizou a posição quanto aos recursos do Mar Cáspio admitindo a exploração por todos os estados ribeirinhos. O Irão tornou-se um elemento da política externa de Putin e de Medvedev, o Kremlin abriu as portas a um negócio “multimilionário” de venda de armas ao Irão, depois da venda de capacidade electronuclear, que Washington acusa de ser usada para fins militares. Irão e Rússia dificilmente se podem considerar aliados numa região onde competem pela influência. Os interesses estratégicos de Putin e Medvedev em contrariar a hegemonia americana determinaram um apaziguamento e eventual reavaliação desse equilíbrio.
Os negócios multimilionários que a Rússia tem feito com a venda de material de guerra à China, Irão e Índia, vão servir para financiar parcialmente a reestruturação e reequipamento das forças convencionais russas. Afastada, pelo menos congelada, parece ter ficado a decisão de uma drástica redução dos efectivos militares russos nos últimos anos.
A Rússia da dupla Putin-Medvedev amplificou os laços económicos com a Europa cada vez mais ansiosa do petróleo e do gás siberianos. Afinal, o gasoduto foi o único factor que em plena Guerra-Fria dividiu europeus e americanos,designadamente opôs Thatcher a Ronald Reagan, o que é indiciador da sua importância estratégica para a Europa.
Putin trouxe à política externa russa um vinco profundamente nacionalista, afastando definitivamente a cambaleante e errática acção externa dos dias de Ieltsin. Vinco de que o sucessor nunca se afastou. Em paralelo, iniciou na frente interna um programa para devolver aos russos a auto estima e a reconstrução da imagem de superpotência, pelo menos militar, que continua a ter capacidade para destruir os Estados Unidos e o resto de Mundo numa escassa meia hora.
Isto não significa que Putin ignore a importância do Ocidente na sua segurança, nem que minimize a importância dos vizinhos mais desenvolvidos e ricos na recuperação económica da Rússia.
Homem do KGB, tem a perfeita consciência e claro conhecimento das necessidades, fraquezas e potencialidades da Rússia e da utilidade dos vizinhos. Putin e Medvedev são os gémeos nascidos em dias diferentes e, depois de Mikhail Gorbachev, os primeiros líderes do Kremlin a saberem para onde querem ir e como lá chegar.
Em breve é o momento de Medvedev se retirar para ceder lugar ao antecessor Vladimir Putin. Há muito quem não goste dessa continuidade, mas é puro aventureirismo tentar na Rússia algo semelhante às chamadas “primaveras árabes”. O urso ainda tem garras.
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sexta-feira, 20 de outubro de 2006

A Rússia e os benefícios da divisão europeia


Benjamim Formigo 
  | 20 Outubro 2006

 Amanhã em Lahti, na Finlândia, os líderes europeus encontrar-se-ão num jantar informal com o Presidente russo Vladimir Putin. O encontro estava previsto desde o Verão, contudo ...
O encontro estava previsto desde o Verão, contudo os Vinte e Cinco foram até ontem incapazes de encontrar uma posição comum perante o líder russo que vai ter a vida facilitada nas suas ambições de acesso ao mercado energético europeu ou, em alternativa, o jantar de trabalho será inconclusivo.
O núcleo tradicional europeu, ou seja os Quinze, vêm a Rússia como um parceiro estratégico de cuja energia necessitam. Cerca de 25 por cento do gás natural consumido na UE vem da Rússia através de um imenso "pipe line" que nem Ronald Reagan conseguiu travar, talvez a única vontade do velho actor-presidente que a Baronesa Thatcher contrariou. Não só do gás mas também do petróleo.
A Rússia por seu turno não se refaz psicologicamente da perda dos seus satélites do Pacto de Varsóvia e torna-se extremamente melindroso abordar questões ligadas particularmente à Ucrânia. Um país chave para Moscovo mas também para a UE pois através dele passa o "pipe line" transiberiano que alimenta parte do consumo europeu.
Quando em Dezembro do ano passado Moscovo decidiu não renegociar o trânsito do gás pelo "pipe line", de cujos proveitos a Ucrânia também beneficia, os Vinte e Cinco estiveram à beira de conhecer uma crise energética se Putin tem mantido o bloqueio. Porém o antigo funcionário do KGB que hoje preside à Rússia conhece a vantagem deste negócio com a Europa.
Se as vantagens são mútuos não haveria em teoria razões para desacordos. Mas Putin tem questões internas que não pode ignorar, como a Chechénia, ou o pretenso ascendente russo sobre a Abkasia e a Geórgia, aproveita os interesses europeus para ultrapassar as linhas de comportamento usualmente aceites pela Europa Comunitária.
Desta vez a UE, alargada aos antigos membros do Pacto de Varsóvia, debate-se com uma posição comum que Javier Solana defende e a que Durão Barroso exorta. O jantar de trabalho foi agendado no Verão e não é estranho à crise entre Rússia e Ucrânia, contudo a União não conseguiu até à reunião dos MNE’s na passada terça-feira no Luxemburgo, encontrar um consenso. O comunicado saído dessa reunião era um compromisso mal disfarçado. Condenava as medidas retaliatórias russas face a Tbilissi e criticava a Geórgia pela presença das suas tropas na região separatista da Abkasia.
A Polónia insiste numa posição "firme e dura" perante o comportamento de Moscovo face aos antigos territórios da URSS e é apoiada pelos Estados Bálticos e antigos membros do Pacto. Paris e Berlim não partilham desta posição, tendo o apoio de Javier Solana, e vêem Moscovo como um "vizinho e parceiro estratégico" indiferentes há muito às violações de Direitos Humanos na Chechénia, que consideram mal documentados. Vladimir Putin pode ser um "vizinho e parceiro estratégico" mas não deixa de ser incómodo o seu comportamento, um comportamento que, sublinhe-se, herdou de Boris Ieltsin.
A questão de fundo, porém, é que a União Europeia deixou, desde a crise de Dezembro de 2005, passar duas presidências e entrou na terceira presidência sem que tivesse definido a sua posição de princípio relativamente à Rússia como "vizinho e parceiro estratégico", e a sua necessidade de acomodar os princípios com o pragmatismo ditado pelas necessidades energéticas e comerciais.
A escassas 72 horas do encontro a Imprensa europeia falava nos desentendimentos e na busca de uma posição comum. Vladimir Putin nem necessita de serviços secretos para saber, quando se sentar à mesa com os seus anfitriões, qual a posição deles e o quanto ela é frágil. Por seu turno Putin não teve de procurar consensos na sua democracia relativa. Sabe muito bem aquilo que quer em troca do acesso de investimentos europeus às reservas energéticas russas: o acesso aos consumidores europeus.
A Rússia de Putin tornou-se incontornável quer no sector energético quer no plano geoestratégico. Se a Rússia se tem de acomodar à nova realidade pós URSS, os antigos satélites da URSS têm de se acomodar à nova realidade geopolítica da Europa. A UE não pode adiar a avaliação das realidades que enfrenta há quase vinte anos nem adiar a definição da sua estratégia face ao Leste europeu. Devia tê-lo feito a Doze, já não seria fácil; perdeu a oportunidade de o fazer a Quinze, ainda era mais difícil. Agora terá de o fazer a Vinte e Cinco, dez dos quais olham para Moscovo com a maior desconfiança. Barroso e Solana parece terem uma missão impossível que não podem adiar se não querem que a UE continue a ser uma minúscula voz que contrasta com a sua importância económica na cena internacional.
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