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segunda-feira, 22 de junho de 2015

Grécia e ameaça de Putin


Benjamim Formigo |
22 de Junho, 2015

A crise grega está para ficar, depois de, no final da semana, os credores terem adiado para esta semana uma solução.
Enquanto o Eurogrupo se reunia sexta-feira e sábado em Bruxelas, Alexis Tsipras prorrogava a sua estada em Moscovo e as suas conversações com Vladimir Putin.
Os credores não conseguiram chegar a acordo com os gregos em Bruxelas, mas Alexis Tsipras e Vladimir Putin parecem ter concordado num novo traçado de gasoduto com o terminal situado na Grécia e, quem sabe, uma possível extensão no futuro.
Em primeiro lugar, é bom esclarecer que os patrões do euro passaram os últimos anos a transferir a dívida grega dos bancos privados, muitos deles alemães, para as instituições financeiras internacionais, o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Central Europeu (BCE) e outros órgãos ligados à Comissão Europeia.
Isto significa que, se a Grécia não pagar, se decidir abandonar o euro e, eventualmente, até a União Europeia, as instituições financeiras privadas não vão perder um cêntimo, porque a dívida aos privados foi paga com empréstimos institucionais.
Portanto, a Grécia deve aos contribuintes europeus, que foram metidos neste filme com a finalidade de “salvar” os bancos comerciais de problemas sérios.
Em segundo lugar, não é evidente que Atenas e os gregos tenham a perder com uma saída do euro ou mesmo da União Europeia.
Se os gregos resolverem dizer que não pagam nem têm medo de ninguém e, calmamente, forem introduzindo o velho dracma (antiga moeda grega) no sistema financeiro, a única coisa que as instituições credoras – o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Central Europeu (BCE) e a União Europeia podem fazer é fechar a torneira à economia grega, desvalorizar brutalmente o dracma e cortar o crédito institucional. Isto não significa que as instituições financeiras privadas façam o mesmo.
Em terceiro lugar, a economia grega não depende substancialmente de exportações, excepto, claro, o turismo considerado como tal, e portanto o impacto nos gregos pode não ser mais dramático do que a austeridade adicional que se lhes pretende impor.
Claro que nem tudo é assim tão linear, mas a tese ganha corpo entre muitos economistas europeus, incluindo alemães.
Um terminal de gasoduto russo junto de um porto grego é mais um acesso de Moscovo ao Mediterrâneo. É mais um ponto de venda do gás russo e, porventura, uma alternativa de distribuição de gás à Europa através do flanco Sul, beneficiando alguns países que não integram a União Europeia e não estão ligados ao gasoduto que atravessa a Ucrânia e dá à Alemanha e seus vizinhos o combustível que tem cuidadosamente sido mantido fora das sanções impostas pelos Estados Unidos e a União Europeia, apesar da relutância de Berlim.
Evidentemente que a Grécia beneficiaria financeiramente dessa infra-estrutura e as indústrias de ambos os países beneficiariam com a sua construção.
Mas como em política não há coincidências, os encontros russos, a forma como Tsipras ignorou ostensivamente a reunião do Eurogrupo (a que não tinha protocolarmente de estar presente) para prorrogar as suas conversas com Vladimir Putin, dão que pensar.
Talvez a  Rússia não esteja com os problemas financeiros que o Ocidente pretende fazer crer.
A resposta de Moscovo à intenção norte-americana de reforçar o flanco Norte da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e os arsenais posicionados na Europa Central, nos antigos países do Pacto de Varsóvia, foi algo demolidora.
O Presidente Vladimir Putin anunciou a modernização do arsenal nuclear russo e um investimento de centenas de milhões de dólares em armamento convencional.
Este tipo de anúncios por parte de Moscovo surgem normalmente quando a sua industria de defesa já está em movimento.
Por outro lado, tal como com nos Estados Unidos, o estímulo da indústria militar tem repercussões no relançamento da economia e do crescimento.
Mas uma coisa os russos podem ter por certa: as sanções não são eternas e a situação de crise económica na Europa pressiona o seu levantamento, muito em especial o impacto quem têm na economia alemã, onde as exportações para a Rússia representam uma fatia não negligenciável.
Correndo o risco de nos repetirmos, a dívida grega tornou-se uma questão geoestratégica e a Alemanha é um dos principais interessados. Ângela Merkel só espera um sinal grego que permita salvar a face a todos os envolvidos, os mais radicais dos quais são curiosamente os que mais sustentam as posições de Berlim, e começam a tornar-se um incómodo.
Berlim, como Bona no tempo da República Federal da Alemanha (RFA) e da República Democrática Alemã (RDA) não quer o seu território envolvido no teatro de operações europeu.
Kiev já recebeu de Angela Merkel os recados suficientes e sabe que a Ucrânia passou a ocupar o duvidoso estatuto de tampão face a uma propalada ameaça russa, como se estivéssemos a regressar ao “hard core” da Guerra Fria.
Mas ainda permanece um problema que Berlim quer ver resolvido: a amortização da dívida grega e a permanência da Grécia na União Europeia. Mas a aproximação de Atenas a Moscovo parece um facto consumado com o Governo de Alexis Tsipras.

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domingo, 14 de junho de 2015

Grécia uma crise na linha da frente



Benjamim Formigo

14 de Junho de 2015

A aparentemente inesgotável crise grega e a ameaça da sua saída do euro ou em caso extremo da União Europeia ultrapassam as fronteiras elitistas da Europa rica ameaçando relações comerciais da UE quer no seu interior quer no comercio com outros países, em especial as economias emergentes que sentem já efeitos de outras crises globais. Os europeus não falam porém na situação geopolítica e geoestratégica da Grécia na linha da frente do Médio Oriente e da Rússia com quem a UE conseguiu criar tensões consideráveis com a aventura ucraniana.

As implicações de um afastamento grego, da eurozona ou mesmo da UE, não passam despercebidas no âmbito da NATO neste momento pouco confortável com a situação no Leste da Ucrânia e em simultâneo a continuada viragem islâmica do Governo, tradicionalmente secular, da Turquia. Ancara deixou de ser o aliado obediente, as ligações hoje são quase conjunturais com o apoio turco à oposição armada na Síria onde o autodenominado “estado islâmico” controla uma considerável parcela de território ao mesmo tempo que consegue sustentar um confronto no Iraque e exportar o conflito para várias zonas de África. Ninguém sabe seriamente se pode contar com a Turquia que continua uma situação de ocupação militar parcial de outro Estado da UE – Chipre – o que criou um conflito até agora insanável com a Grécia. Neste contexto Atenas tem uma importância geoestratégica que não pode ser ignorada. E isso mesmo deixou Obama implícito durante a ultima reunião do G-7 ao apelar ou recomendar uma solução de compromisso com o Governo grego.

Paris e Berlim têm também essa consciência razão pela qual Hollande e Merkel tem estado na primeira linha a pressionar por um acordo com o Governo do Primeiro Ministro Alexis Tsipras que procura evitar a situação de ruptura mas não pode fazer muito mais concessões sem correr riscos domésticos. Por outro lado durante um dos últimos picos da prolongada crise com os seus parceiros europeus Tsipras visitou Moscovo onde manteve longas conversações com Vladimir Putin. Conversações de que resultaram mais especulações do que informações. Entre as especulações possíveis, depois de os dos homens terem afastado a hipótese de um financiamento russo – o que não significa que assim seja – surge a de a Grécia estar a contar entre as suas opções no caso de um abandono da eurozona ou até da UE com uma conexão ao grupo euro-asiático que Putin procura por de pé em oposição ao bloco económico europeu. Mas não passa de especulações.

Para todos os efeitos a crise excessivamente prolongada com a Grécia tem de ter um final que traga estabilidade financeira à eurozona e aos sacrossantos mercados que determinam desastrosamente a politica. Na aparência um acordo qualquer que evite uma ruptura no final deste mês por a Grécia não pagar ao FMI não parece estar tão difícil após as concessões feitas por Atenas porém há demasiados actores a falar ao mesmo tempo e ninguém acaba por ouvir bem.

Uma saída da Grécia está a ser preparada pelo Eurogrupo mas a Grécia também terá a sua estratégia e de momento ninguém do aparelho politico da UE quer ver uma deriva de Atenas. Outra será a posição dos tecnocratas de Bruxelas, do Banco Central Europeu e em especial do dogmático FMI, que reconhece em relatório os erros cometidos mas na prática os continua.

Ao mesmo tempo em Washington o Pentágono estuda o pré-posicionamento de material de guerra nos países Bálticos, anteriormente parte da URSS, e em alguns Estados do Leste europeu, membros da NATO depois de terem sido parte do Pacto de Varsóvia, designadamente: Polónia, Roménia, Bulgária e possivelmente Hungria violando assim o espírito do acordo de 1997 entre a NATO e a Rússia.


A GRÉCIA, A UE, E A AMEAÇA DE PUTIN

Benjamim Formigo
21 de Junho de 2015

A crise grega está para ficar depois de no final da semana os credores terem adiado para esta semana uma solução. Enquanto o Eurogrupo reunia sexta-feira e sábado em Bruxelas, Alexis Tsipras prorrogava a sua estada em Moscovo e as suas conversações com Vladimir Putin. Os credores não conseguiram chegar a acordo com os gregos em Bruxelas mas Tsipras e Putin parecem ter concordado num novo traçado de gasoduto com terminal na Grécia e quem sabe possível extensão no futuro.

Em primeiro lugar será bom esclarecer que os patrões do euro passaram os últimos anos a transferir da divida grega aos bancos privados, muitos deles alemães, para as instituições financeiras internacionais, FMI, Banco Central Europeu e outros órgãos ligado à Comissão Europeia. Ou seja, se a Grécia não pagar, se decidir abandonar o euro e eventualmente até a União Europeia as instituições financeiras privadas não vão perder um cêntimo porque a dívida aos privados foi paga com empréstimos institucionais. Portanto a Grécia deve aos contribuintes europeus que foram metidos neste filme com a finalidade de “salvar” os bancos de problemas sérios.

Em segundo lugar não é evidente que a Atenas e os gregos tenham a perder com uma saída do euro ou mesmo da UE, ou seja se resolverem dizer que não pagam nem têm medo de ninguém e calmamente forem introduzindo o velho dracma no sistema financeiro a única coisa que as instituições, FMI, BCE e UE podem fazer é fechar a torneira à economia grega, desvalorizar brutalmente o dracma e cortar o crédito institucional. Isto não significa que as instituições financeiras privadas façam o mesmo.

Em terceiro lugar a economia grega não depende substancialmente de exportações, excepto claro o turismo considerado como tal, e portanto o impacto nos gregos poderá não ser mais dramático do que a austeridade adicional que se lhes pretende impor.

Claro que nem tudo é assim tão linear mas a tese ganha corpo entre muitos economistas europeus, incluindo alemães.

Um terminal de gasoduto russo junto de um porto grego é mais um acesso de Moscovo ao Mediterrâneo. É mais um ponto de venda do gás russo e porventura uma alternativa de distribuição de gás à Europa através do flanco Sul, beneficiando alguns países que não integram a UE e não estão ligados ao gasoduto que atravessa a Ucrânia e dá à Alemanha e seus vizinhos o combustível que tem cuidadosamente sido mantido fora das sanções impostas pelos EUA e a UE, apesar da relutância de Berlim. Evidentemente que a Grécia beneficiaria financeiramente dessa infra-estrutura e as industrias de ambos os países beneficiariam com a sua construção. Como em política não há coincidências os encontros russos, a forma como Tsipras ignorou ostensivamente a reunião do Eurogrupo (a que não tinha protocolarmente de estar presente) para prorrogar as suas conversas com Vladimir Putin dão que pensar. Porventura a Rússia não está com os problemas financeiros que o Ocidente pretende fazer crer.

A resposta de Moscovo à intenção norte-americana de reforçar o flanco Norte da OTAN e os arsenais posicionados na Europa Central, nos antigos países do Pacto de Varsóvia, foi algo demolidora. Vladimir Putin anunciou a modernização do arsenal nuclear russo e um investimento de centenas de milhões de dólares em armamento convencional. Este tipo de anúncios por parte de Moscovo surgem normalmente quando a sua industria de defesa já está em movimento. Por outro lado, tal como com os Estados Unidos, o estímulo da industria militar tem repercussões no relançamento da economia e do crescimento. Uma coisa os russos podem ter por certa: as sanções não são eternas e a situação de crise económica na Europa pressiona o seu levantamento, muito em especial o impacte quem têm na economia alemã onde as exportações para a Rússia representam uma fatia não negligenciável.

Correndo o risco de nos repetirmos, a dívida grega tornou-se uma questão geoestratégica e a Alemanha é um dos principais interessados. Ângela Merkel só espera um sinal grego que permita salvar a face a todos os envolvidos, os mais radicais são curiosamente os que mais sustentam as posições de Berlim, e começam a tornar-se um incómodo. Berlim, como Bona no tempo da RFA e da RDA não quer o seu território envolvido no teatro de operações europeu. Kiev já recebeu da Sr.ª Merkel os recados suficientes e sabe que a Ucrânia passou a ocupar o duvidoso estatuto de tampão face a uma propalada ameaça russa como se estivéssemos a regressar ao “hard core” da Guerra Fria. Permanece um problema que Berlim quer ver resolvido: a amortização da dívida grega e a permanência da Grécia na UE, mas a aproximação de Atenas a Moscovo parece um facto consumado com o Governo de Alexis Tsipras.


UMA INFINDÁVEL TRAGÉDIA GREGA

Benjamim Formigo
1 de Julho de 2015

Desde Aristóteles (384 AC – 322 AC) colocam-se as mais variadas hipóteses sobre as origens da tragédia grega sem que os académicos cheguem a um acordo passados mais de dois milénios sobre o nascimento de Aeschylus (524 AC) aceite como pai da tragédia grega. Acordo geral é que homenageava Baco.

Nas ultimas semanas Alexis Tsipras, Ângela Merkel, François Hollande, Jean-Claude Junker, têm protagonizado uma infindável tragédia grega passando de cena em cena sem conseguirem terminar este “enésimo” acto aparentemente escrito por Eurípides (480 AC – 406 AC) que deixa de lado os deuses e a realeza e introduz as pessoas, o cidadão comum, o camponês lado a lado com o príncipe, questiona a posição dos escravos. Para ser franco já não sei bem em que acto estamos nesta tragédia, mas este ultimo acto tem sido especialmente comprido e até de algum modo determinante para o que se segue quando cair o pano para intervalo. Ninguém tenha a ilusão de acreditar que ultrapassada esta fase não estaremos senão num compasso até à subida do pano com a continuação da tragédia. A menos claro que o acto final desta peça termine com a saída da Grécia da união monetária.

Tsipras foi o camponês que ousou desafiar as elites europeias. Elites que desde o inicio em particular do inicio do euro, em Janeiro de 2002 a moeda entrava finalmente em circulação substituindo as moedas nacionais. Até lá a Comunidade Económica Europeia/ Comunidade Europeia/ União Europeia, foi elaborando as fundações do euro, designadamente o Tratado de Maastricht de 1992. O tratado não foi votado pela população europeia; apenas foi referendado em três países: França, Dinamarca e Irlanda. Em França foi aprovado pela margem mais estreita com 51,1 por cento dos votos, na Irlanda teve uma aprovação superior a 68 por cento e a Dinamarca chumbou o tratado tendo de repetir no ano seguinte o referendo para o ver aprovado. O mesmo se pode dizer relativamente à esmagadora maioria de documentos fundamentais na regência da Europa. Uma pseudo-elite burocrática elabora os documentos no maior secretismo para depois os fazer aprovar nos Conselhos Europeus. Os Governos evitam que os cidadão se pronunciem e os Parlamentos, quando os ratificam, fazem-no como caixas de ressonância dos partidos no poder ou que aspiram ao poder.

O erro de Tsipras foi acreditar que, como defendia Henri Lefebvre, tinha o direito à diferença. Que a tragédia era euripidiana quando afinal a influência do drama era ainda de Sófocles. Os príncipes, os burocratas não entendem que antes das questões financeiras têm de ser consideradas as ideológicas, as geoestratégicas, a geopolítica, e só depois disso, garantida a segurança nacional, mesmo que seja da UE, se podem definir outras questões, as que têm de dar suporte a essa politica. Tsipras teve um amigo, tímido e excessivamente discreto, com pouca influência – em especial depois dos problemas com os líderes europeus – Barack Obama. No fim de semana que antecedeu o incumprimento face ao FMI o Presidente americano desdobrou-se em telefonemas para Berlim e Paris enquanto o presidente do FED mantinha com os bancos centrais alemão, grego, francês, espanhol e italiano, pelo menos, um dialogo iniciado há meses para evitar a saída da Grécia do euro. Ambos esqueceram a força das elites burocratas europeias estupidamente decididas a não permitir um Governo fora da linha e menos ainda um referendo sobre matéria como as condições do auxilio financeiro europeu à Grécia. Como os burocratas não tem nem ideologia nem perspectiva histórica exigem dos gregos cortes tais que a situação pode culminar numa instabilidade social critica num pais onde os coronéis já intervieram sem quaisquer problemas. Exigiram ainda mais cortes na Defesa a um país que mantém há décadas um diferendo grava com o seu vizinho turco, mas mais do que isso, do ponto de vista americano, estão a empurrar um país membro na OTAN para Moscovo, adversário definido no âmbito da Aliança Atlântica e que está cada vez menos receptivo às manifestações musculadas do Ocidente, muto influenciado por antigos países do Pacto de Varsóvia. Depois do bravado militar de ambos os lados, esta semana o Procurador Geral russo deixou saber que os seus serviços estavam a investigar a legitimidade e legalidade da concessão de independência aos Estados Bálticos pela extinta URSS.

O euro está numa queda acentuada e admite-se que no prazo máximo de um ano valha 95 cêntimos do dólar. As bolsas ainda não se agitaram muito porque este jogo de propostas e contrapropostas, de dizes tudo e digo eu se vai prolongando por vezes com aspectos caricatos. Na passada quarta-feira Tsipras oferecia novas cedências em troca de serem mantidas algumas almofadas sociais e um novo pacote de auxilio por dois anos. A Sr.ª Merkel, com quem Obama insistiu mais de uma vez sobre a necessidade de manter a Grécia no euro e lhe devolver alguma dignidade, fez ressoar um rotundo “nein” a novas negociações, condicionando-as para depois do referendo de domingo que ela própria condenava. Aléxis Tsipras não tem na verdade incentivos europeus para se manter no euro, mas a União tem estado a ser fortemente pressionada pelos EUA para que não deixe a Grécia derivar, em especial quando Vladimir Putin já assinou com a Grécia um contrato para a construção de um novo gasoduto garantindo com isso não só mais uma via de escoamento do seu gás natural mas acesso a portos gregos dando mais um passo em frente agora com uma base de apoio na Crimeia. Por coincidência a Gazprom anunciou o corte do fornecimento de gás à Ucrânia após um fracasso de conversações trilaterais com os ucranianos e a UE que tem conseguido dos russos contratos de curta duração para o abastecimento da Ucrânia.

Ficamos à espera da próxima cena que talvez seja a ultima deste acto: o referendo e/ou o que se lhe seguirá a abrir o próximo acto. Mas essa de Tsipras pretender referendar uma proposta dos burocratas! Que péssimo exemplo numa União que vive em permanente défice de democracia!


UM RESULTADO ANÚNCIADO

Benjamim Formigo
6 de Julho de 2015

O resultado do referendo de domingo na Grécia só foi surpresa para quem queria andar distraído. Os gregos pronunciaram-se e a bola passou para os parceiros europeus, em particular os do eurogrupo. A decisão não é técnica. Implica fundamentos técnicos mas essencialmente será uma decisão política se a União Europeia não quer de facto pôr em causa as economias dos seus parceiros comerciais, e em geral dos Estados com quem tem relações de natureza económica. Em última análise poderá atingir a própria estabilidade do sistema financeiro que há demasiado tempo está suspenso à espera que a poeira assente na Europa.

Os gregos pronunciaram-se pelo óbvio, não é possível viver num regime de austeridade já lá vão cinco anos e não ter perspectivas de recuperação. O próprio FMI o reconhece num relatório que surpreendentemente na semana passada, em plena campanha do referendo, divulgou considerando a dívida grega impagável e abordando a necessidade de um perdão parcial. O relatório teve pouca divulgação na Europa à excepção claro da Grécia. Sendo o FMI um dos maiores críticos de Tsipras e em larga medida responsável pela actual ruptura é lícito interrogamo-nos sobre o "timming". Para muitos a mão dos EUA esteve por trás desta publicação. Washington tem manifestado repetidamente preocupação com uma eventual saída grega do euro ou mesmo da UE. Daí as conversas de Obama com Merkel e Hollande e do presidente do FED com os governadores dos bancos centrais e até mesmo do Banco Central Europeu (BCE). Não porque a Casa Branca tenha particular simpatia por Tsipras mas porque a Administração americana não está mesmo nada disposta a enfrentar uma nova crise é muito menos uma aproximação de Atenas a Moscovo.

As maiores dificuldades a um acordo entre a Grécia e os seus credores vêem dos seus parceiros europeus. Tsipras pretendeu recomeçar negociações na segunda-feira manifestando assim disponibilidade negocial e emprenho no euro, mesmo que domingo, quando o PM grego fez este anúncio não se conhecesse qualquer proposta em apreciação.

Angela Merkel, tal como François Hollande, Jean-Claude Junker, ou o radical ministro das Finanças holandês que preside ao eurogrupo mantiveram-se em silêncio apesar de um porta-voz do Governo alemão fazer coro com o presidente do eurogrupo rematando de novo a bola para o campo grego ao afirmarem que cabia a Atenas apresentar novas propostas. Merkel limitou-se a deixar saber que entendia não estarem reunidas as condições para uma reestruturação da dívida grega. Na verdade nestas circunstâncias quanto menos se falar melhor. O clima de tensão entre a Grécia e os seus parceiros europeus subiu demasiado e é necessário que os ânimos arrefeçam e quanto mais depressa melhor. Os partidos europeus tradicionais nesta fase do campeonato já se deviam ter apercebido de que os eleitores estão abertos a novas propostas alternativas, veja-se o que sucedeu na Grécia com a vitória do Sirisa, em Espanha com a votação no "Podemos", em Itália, ou em França onde a extrema direita isolacionista ganha terreno dia a dia. Possivelmente ainda não perceberam.

A verdade é que se a Grécia está entre a espada e a parede com o esgotamento do dinheiro e pode ter de cair numa saída do euro não é menos verdade que o eurogrupo deixando isso suceder está a dar um sinal de fragilidade que terá consequências graves bem para lá da Europa. Do ponto de vista estratégico, já o escrevemos várias vezes, está a favorecer Moscovo, um contra-senso numa União que, com a sua política face à Ucrânia, parece ter feito da Rússia um adversário à semelhança dos EUA. Sem esquecer claro que existe uma sobreposição entre membros da OTAN e da UE. Portanto se a Grécia está numa posição difícil o resto da União não está menos. Pagar pela permanência da Grécia ou pagar os custos da sua saída. Basicamente é a escolha que o eurogrupo, sob liderança alemã, terá de fazer. Pagar reestruturando a dívida grega, levar Atenas a concordar com a fuga à evasão fiscal e os gregos a contribuir para a sua própria economia transitando da economia paralela para a institucional. Não serve de nada injectar na economia grega biliões que apenas para pagar dívidas antigas e juros, o dinheiro futuro terá de entrar na economia real, propiciar o desenvolvimento e o crescimento e deste modo reduzir o desemprego e aumentar as receitas fiscais. A alternativa é deixar cair a Grécia facilitar ou estimular a sua saída do euro e quiçá da UE. Neste caso essa UE terá de enfrentar as consequências da crise que vai abrir. Uma crise que vai atingir o euro e portando reduzir o poder de compra do mercado europeu afectando as economias de fornecedores de matéria prima pela contracção de importações desses mercados ao mesmo tempo que o valor da moeda europeia estimula as importações de bens europeus.

Não é necessário especular muito para recear as consequências.


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segunda-feira, 3 de março de 2014

A Ucrânia e a paciência de Putin


Benjamim Formigo |
3 de Março, 2014

Moscovo tem o seu dispositivo militar montado. Há mais de uma semana que cerca de 150 mil militares apoiados por centenas de tanques e aviões de combate estão a realizar manobras perto da fronteira da Ucrânia.
Os seus militares destacados na sua base naval e militar de Sebastopol estarão aparentemente a ocupar todas as posições estratégicas na cidade e mesmo na Crimeia. Em Simferopol, capital da República Autónoma da Crimeia (parte da Ucrânia, onde se encontra estacionada a frota russa do Mar Negro) a opinião maioritária veiculada pelas cadeias de televisão internacionais era de tranquilidade e segurança pela presença dos estimados 15 a 20 mil militares russos.
Em Bruxelas a OTAN reunia de emergência para concluir que houvesse o que houvesse os Estados Unidos e a OTAN não iriam enviar tropas para a Ucrânia para combater uma eventual invasão e ocupação russa. Ao contrário do que os novos senhores da Ucrânia foram levados a acreditar, o Ocidente não empenhará um soldado na sua defesa. Não é surpresa. Os interesses russos limitam-se à manutenção das suas bases na Crimeia e a garantias para a população russa e russófona da região autónoma, berço dos cossacos. No entanto Moscovo não se limita às manobras militares que colocaram as suas tropas a um passo da fronteira. Os militares russos movimentam-se na região como se esta estivesse sob a sua autoridade legal. O que traduz, de jure, uma violação da soberania ucraniana. Mas tudo indica que se ficarão por aí desde que Kiev se acalme.
Desde o início da reunião de emergência da OTAN ficou claro que não há medidas de contingência para os Estados Unidos ou a OTAN intervirem para além da defesa legal da soberania da Ucrânia. As sanções parecem estar na primeira linha de medidas da União Europeia e da OTAN; mesmo antes da reunião começar o Canadá, seguido dos EUA, anunciou que abandonava as reuniões preparatórias da próxima reunião do G-8 prevista para a Rússia. Mas em paralelo a OTAN tem consciência de que o grau de radicalismo em Kiev é excessivo e que a inexperiência política do novo Governo provisório pode levar a consequências desastrosas. Daí que ao mesmo tempo que decorria a reunião da Aliança Atlântica em Bruxelas o secretário dos Estrangeiros britânico voava para Kiev para conversações com o PM interino Arseniy Yatsenkuy, que no sábado afirmava no Parlamento que as movimentações russas eram uma declaração de guerra à Ucrânia. Ao certo qual o grau de controlo do actual Governo ucraniano sobre as Forças Armadas é pouco claro, sabendo-se porém que entre os militares existem muitos apoiantes da integração com a Rússia, em especial nas forças estacionadas na República Autónoma da Crimeia. As inflamadas declarações anti-russas que a rua (que se tornou a nova instituição de poder na Ucrânia) insiste em proferir já provocaram confrontos e agressões a movimentações pró-russas que se têm espalhado lentamente por outras regiões da Ucrânia, o que aumenta os receios de que as agressões contra cidadãos russos ou populações russófilas constitua a provocação esperada por Vladimir Putin para agir alegadamente em defesa da população russa, russófona e russófila. O Presidente russo deixou a ameaça bem clara ao pedir a ambas as câmaras do Parlamento russo autorização para o uso de tropas russas com esse fim na Ucrânia.
Com a possibilidade de um confronto entre a OTAN e a Rússia por causa da Ucrânia fora de questão, Kiev reconhece que não tem forças para enfrentar o Exército russo. Até ao momento a Rússia tem apenas um mínimo de forças na Crimeia, suficiente para mostrar os músculos. Se houver provocações que dêem à Rússia razões para o uso do que chama o seu “direito de intervir para defender as populações de língua russa ou os russos” que vivem na Ucrânia e na Crimeia a intervenção militar será um desastre para a situação internacional. Como já se disse nem os EUA nem a NATO intervirão, mas será um desastre diplomático e um problema convencer a Rússia a retirar do país que ocupa. Já sucedeu na Geórgia, na Ossetia, em 2008 , quando uma crise semelhante ocorreu. Os russos cruzaram a fronteira com a Ossétia, a Geórgia confrontou-os militarmente e foi um desastre para a Geórgia. A situação levou anos a normalizar.
Barack Obama e Vladimir Putin estiveram sábado ao telefone durante hora e meia. Não se sabe quem telefonou a quem. Sabe-se que Obama exprimiu, segundo a Casa Branca, “profunda preocupação pela violação clara da soberania da Ucrânia e receia pela sua integridade territorial, apelando a Putin para que faça regressar as suas tropas para as bases na Crimeia  e refrear-se de agir. Se a Rússia está preocupada com a segurança dos seus cidadãos na Ucrânia e minorias, a forma de encarar o assunto é através de observadores internacionais”. Não se sabe, mas presume-se o que Putin, como os observadores em geral, pensam dos observadores internacionais numa situação de pré-conflito. Sabe-se porém que Vladimir Putin não falou em retirar e esclareceu Obama de que o próximo movimento da Rússia dependia da atitude de Kiev.
Para já o evidente é que é absolutamente necessário fazer entender aos poderes ucranianos, seja o Governo, o Parlamento ou a rua, de que não têm capacidade para confrontar a Rússia, de que nem a OTAN e muito menos a União Europeia se envolverão militarmente. É necessário que entendam que não é do seu interesse uma guerra com a Rússia, e que a manutenção do “status quo” seria a melhor solução. O bravado da rua não tem correspondência militar. Neste momento mesmo a movimentação de tropas ucranianas perto da fronteira pode ser mal interpretada. É a lei do mais forte, mesmo que em 1994 o Ocidente se tenha comprometido a garantir a soberania da Ucrânia em troca de este país, formado em 1991, entregar as armas nucleares ali estacionadas durante o tempo da URSS.
Estados Unidos e União Europeia têm pouca margem de manobra. Os grupos extremistas de direita rasgaram um acordo político assinado entre o antigo Presidente, agora na Rússia, e os partidos parlamentares, mediado pela Alemanha, França e Polónia, ainda a tinta não havia secado. Azar, o acordo tinha o apoio de Barack Obama e de Vladimir Putin. Agora é legítimo que os russos se interroguem sobre o controlo governamental da situação política e possa garantir a segurança dos russos que vivem na Ucrânia e em especial da República Autónoma da Crimeia, onde para o final deste mês o Parlamento local convocou um referendo sobre os destinos da Crimeia face à Ucrânia e à Rússia.
Na impossibilidade de oferecerem a Vladimir Putin uma solução satisfatória para os erros de cálculo cometidos pelo novo poder de Kiev, apoiado pela UE e EUA, resta à OTAN e à UE ameaçar a Rússia com sanções. Começando pela ameaça de expulsão do G-8, um grupo de que a Rússia não fazia parte e onde tem um estatuto de convidada. Foi Bill Clinton quem em 1998 endereçou a Boris Ieltsin o convite para se juntar ao G-7, o grupo dos sete países mais industrializados e ricos do Mundo. Até às sanções económicas tudo estará em aberto. Domingo alguns políticos puseram a circular uma ideia um tanto peregrina de atingir a Rússia economicamente, obrigando à descida dos preços do petróleo. Descida que afectaria em primeiro lugar todos os países produtores a menos que houvesse um boicote à compra de petróleo russo. A Rússia é o maior exportador e produtor de petróleo, o principal exportador de gás natural e o segundo produtor mundial. Note-se que a UE recebe da Rússia, através do gasoduto que atravessa a Ucrânia, a maioria do gás natural que consome.
Em síntese, os aprendizes de feiticeiros que vêem a política internacional como mais uma componente dos mercados, e a eles subordinada, enganaram-se. Ao tentarem pôr fim à União Euro Asiática de Vladimir Putin lançaram na Europa e no Mundo a crise mais complicada e de consequências mais graves provavelmente desde a Primeira Guerra Mundial, que começou vai fazer em breve 100 anos.
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terça-feira, 13 de agosto de 2013

Barack Obama e Putin recordam a guerra-fria


Benjamim Formigo |
13 de Agosto, 2013

Desde sempre que os democratas têm as piores relações com Moscovo. Ao contrário dos republicanos, os democratas têm uma tendência quase abismal para mostrarem o seu conservadorismo através da dureza com o Kremlin. Nunca resultou.
Ao recusar o convite de Putin para um encontro à margem do G-20 no próximo mês de Setembro, Obama recusa também uma oportunidade de debater com Putin a situação na Síria e no Médio Oriente, de analisar em privado a situação da economia real do mundo, a proliferação de armas nucleares e o caso Snowden.
Na ultima cimeira em que Obama se encontrou com o antecessor de Putin, Dimitri Medvedev, a indiscrição das câmaras deixou conhecer um recado de Obama “depois das eleições” e a receptividade russa “direi isso a Vladimir”. Parecia então que Obama fazia o papel de duro para consumo interno e estava aberto a debater com os russos as questões pendentes desde a queda do Muro de Berlim, uma das quais a instalação de um sistema antimíssil na Europa que Moscovo vê como uma ameaça.
O anticlímax foi total. A Europa anulou-se, os antigos satélites soviéticos encostam-se à OTAN como se o inimigo sempre tivesse estado a Leste. Os Estados Unidos gozando da sua supremacia militar envolveram-se em acções militares que nos tempos da URSS não ousariam fazer. As relações, ou melhor a pobreza ou a falta de qualidade nas relações entre Washington e Moscovo tem sido um dos obstáculos à concertação de esforços para a prevenção de problemas na cena internacional.
O caso Snowden é apenas o último episódio de uma cadeia de acontecimentos que não teriam ocorrido com um Presidente que não necessitasse de reafirmar o seu conservadorismo, que não tivesse o complexo democrático de ser visto como um falcão. Não sei o que se teria passado com George W. Bush, mas se virmos as relações durante o período George Bush (pai) ou mesmo Clinton, em nada se comparam à situação actual que recorda os tempos da Guerra-Fria.
A realidade é que o caso Snowden não trouxe nada de novo ao que se sabia desde o Echelon. Os Estados Unidos espiavam (vamos chamar as coisas pelos nomes) os seus próprios aliados. Motivos comerciais, é evidente, mas as questões de segurança também estão na agenda nas agências americanas. E se (ou quando) Washington escuta os seus aliados fá-lo porque a sua segurança sempre esteve acima dos aliados. A própria OTAN e o empenho americano na Europa durante a Guerra-Fria são o exemplo mais acabado. A Europa, e designadamente a então República Federal da Alemanha eram o campo de batalha avançado dos americanos. Os mísseis nucleares de médio alcance eram um meio de manter uma escalada nuclear fora do território americano e do soviético. Snowden apenas foi um embaraço porque disse publicamente aquilo que os Governos sabiam e calavam numa cumplicidade de conveniência com os Estados Unidos. Dadas as relações entre EUA e Rússia que desceram para um patamar quase do tempo da Guerra-Fria, Vladimir Putin não teve qualquer hesitação em dar ao antigo funcionário da NSA (o topo da informação norte-americana) o apoio que entendeu necessário e suficiente. Assim, e sem pretender abraçar qualquer teoria da conspiração, não se pode deixar de olhar quase como pueril, o alerta terrorista em que Washington colocou durante uma semana algumas das suas missões diplomáticas, ajudados por alguns europeus que embandeiraram em arco.
Na realidade, desde o início que se levantou a interrogação sobre os motivos que levaram Washington a fazer tanto alarde da alegada intercepção de mensagens entre células da Al Qaeda que há uma eternidade estavam silenciosas. Ao fazê-lo os americanos fizeram o que criticam em Snowden: revelaram o tipo de mensagens que interceptam e deram novas indicações das suas capacidades. Snowden ao fazê-lo colocou alegadamente em causa a segurança dos Estados Unidos.
Para os aliados escutados receber essas informações, e de forma tão publica, terá sido a evidência da preocupação de Washington com a segurança dos amigos. Seria hipócrita não questionar o que se passou e está a passar.
A questão de fundo permanece. Os Estados Unidos não conseguiram desde a queda do Muro de Berlim e após o folclore de Boris Ieltsin ter um Presidente que na linha de conservadores americanos foram capazes de lidar e negociar com o Kremlin. Todas as outras razões que são apontadas não passam de música celestial apesar de no Kremlin não ser hábito haver meninos de coro.
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terça-feira, 6 de março de 2012

O regresso previsível de Putin


Benjamim Formigo|
6 de Março, 2012

A vitória de Vladimir Putin, o seu regresso à Presidência da Federação Russa, era esperada desde o momento em que o Presidente Dimitri Medvedev anunciou a candidatura do actual Primeiro-Ministro.
A vitória de Vladimir Putin, o seu regresso à Presidência da Federação Russa, era esperada desde o momento em que o Presidente Dimitri Medvedev anunciou a candidatura do actual Primeiro-Ministro. Uma candidatura que não foi surpreendente, confirmando o que sempre se disse: Putin estava apenas em intervalo constitucional.
O antigo coronel do KGB foi o segundo Presidente da Federação Russa, entre 2000 e 2008, sucedendo a Boris Ieltsin, que se retirou deixando o país numa crise de crescimento económico. A economia e a estabilidade foram as principais prioridades de Putin. O crescimento económico do país somou 72 por cento nos nove anos que se seguiram ao início do seu primeiro mandato. Putin conseguiu implementar um sistema fiscal que beneficiou não só desse crescimento como do aumento do emprego e da subida média de salários e nível de vida.
A Constituição Russa limita os mandatos presidenciais a dois períodos, o que o levou em 2008 a afastar-se, propondo para a Presidência o seu Primeiro-Ministro, Dimitri Medvedev. Este, uma vez Presidente, designou Putin para a chefia do Governo. A troca de cadeiras e a idade dos dois homens fazia supor desde logo que se tratava de um intervalo constitucional e que Putin regressaria.
A atenção dada pelos media às manifestações de protesto que se desenrolaram desde as eleições parlamentares de Dezembro passado excedeu a que foi dada à análise das alternativas, e todas eram piores. Num país em que o poder está cristalizado em torno da imagem de Putin recaíram sobre ele alegações de manipulação dos resultados eleitorais de 2011. Críticas que se prolongaram e atingiram as eleições presidenciais.
Os especialistas na análise política da Rússia sustentam que Putin é provavelmente o único político, neste momento, capaz de encontrar o equilíbrio entre as diferentes facções económicas e mesmo militares, como sustentou esta semana o Prof. Allen Linch, do Centro de Estudos Russos da Universidade de Virgínia, citado pela CNN.
As alternativas a Vladimir Putin desenhavam apenas uma figura à sua esquerda, o comunista Gennady Zyuganov, eterno candidato e com algumas possibilidades de ultrapassar os dez por cento. Os restantes candidatos eram figuras consideradas conotadas com a direita chauvinista e xenófoba e, ainda segundo o Prof. Allen, nenhum apresentava um verdadeiro programa eleitoral. As acusações de fraudes eleitorais eram esperadas.
Vladimir Putin foi entretanto eleito à primeira volta com números convincentes (60,60 por cento dos votos), evitando-se assim um período que se esperava instável. O grande desafio que se coloca ao Presidente eleito é conseguir aproveitar o desempenho económico, que tem mantido a Rússia à margem do furacão que atinge a Europa, e modernizar o país e a sociedade.
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domingo, 22 de janeiro de 2012

A dupla Putin - Medvedev e o nacionalismo pragmático


Benjamim Formigo |
22 de Janeiro, 2012

A era governativa iniciada por Vladimir Putin e seguida por Medvedev e que agora vai, tudo indica, regressar a Putin, revelou-se radicalmente diferente da do homem a quem sucedeu, Boris Ieltsin. A Rússia entrou num novo período, cujo objectivo final é devolver ao país o estatuto que tinha antes da queda do Muro de Berlim.
Vladimir Putin e o seu sucessor Dimitri Medvedev não confiam. Mantiveram sempre uma política reservada e sentiram recentemente, com os acontecimentos na Líbia, a violação de uma Resolução negociada do Conselho de Segurança que a sua falta de confiança tem sustentação. Prosseguiram, por isso uma, linha, primeiro de endurecimento, depois de coexistência, mas sem perder de vista o regresso da Rússia.
Boris Ieltsin governava com os olhos postos nas parcerias e amizades com o Ocidente, privilegiava a promoção da sua imagem externa e promovia uma clique de amigos, fervorosos adeptos do neoliberalismo, de honestidade e integridade duvidosas.
Vladimir Putin mostrou-se sempre particularmente preocupado com a vulnerabilidade externa da Rússia, a afirmação do país na cena internacional, com um mínimo de concessões e nunca em áreas que considerasse de interesse estratégico. O antigo e provável novo Presidente russo mudou a estrutura da economia do país e realçou o mercado interno. Afastou ou limitou os barões de Ieltsin (mesmo que para isso recorresse à Polícia), e, tal como o sucessor designado, procurou tornar o país menos dependente das exportações petrolíferas.
Na cena internacional Vladimir Putin e o sucessor colocaram as relações com os Estados Unidos numa posição perigosamente semelhante à da Guerra-Fria depois da vitória de George W. Bush e de serem conhecidas as principais figuras da sua Administração vistas por Moscovo como do passado, guerreiros da Guerra-Fria, falcões para quem a Rússia não é “um amigo e muito menos um aliado”.
Com o tempo, a aproximação do final do mandato Bush e depois a eleição de Obama, a dupla Putin-Medvedev foi recolocando as relações em termos cooperantes, mas sem antes procurar estabelecer novas alianças e abrir portas na cena internacional que pudessem pressionar Washington em caso de necessidade.
Bill Clinton, na sua relação especial com Boris Ieltsin, preocupava-se mais em consolidar a posição interna de Ieltsin e menos com a democracia e o desenvolvimento económico da Rússia. Clinton conseguiu com essa estratégia personalista promover a consolidação dos Estados Unidos no mundo unipolar e tornar o país potência indispensável.A estratégia norte-americana foi posta em causa por Putin imediatamente após entrar no Kremlin. Não hesitou, e continua a dar indícios claros que não mudava de rumo, aproximou-se de antigos rivais como a China e o Irão, fez reviver amizades dos tempos da Guerra-Fria reaproximando-se de Cuba e do Vietname, retomando os tratados militares com a Índia sem deixar de piscar o olho ao Paquistão.
Putin declarou a oposição à expansão da OTAN à Polónia, Hungria e República Checa e uma eventual abertura da Aliança Atlântica aos estados bálticos que podia ter agravado o sentimento de cerco, herdado da Guerra-Fria e que a Rússia reviveu.
Ele e Medvedev usaram o petróleo e o gás para pressionarem os relutantes vizinhos ucranianos, o único escudo que lhe resta na frente Oeste. O Afeganistão tornou-se de novo inimigo por causa da Chechénia e desta vez um inimigo para os dois lados. As tropas russas deslocaram-se para a antiga Ásia Central soviética, prevenindo qualquer acção de guerrilha islâmica. Mas essa posição não se traduziu no sancionamento das intervenções americanas no Afeganistão e no Iraque.
Não lhe foi difícil encontrar na China um aliado de ocasião contra a hegemonia americana, primeiro, e depois contra a nova “Guerra das Estrelas” que George W. Bush defendeu. Moscovo e Pequim assinaram um tratado de cooperação impensável durante as últimas décadas. Mas a visão externa de Putin não se ficou por um virtual eixo de cooperação com Pequim. O Kremlin suavizou a posição quanto aos recursos do Mar Cáspio admitindo a exploração por todos os estados ribeirinhos. O Irão tornou-se um elemento da política externa de Putin e de Medvedev, o Kremlin abriu as portas a um negócio “multimilionário” de venda de armas ao Irão, depois da venda de capacidade electronuclear, que Washington acusa de ser usada para fins militares. Irão e Rússia dificilmente se podem considerar aliados numa região onde competem pela influência. Os interesses estratégicos de Putin e Medvedev em contrariar a hegemonia americana determinaram um apaziguamento e eventual reavaliação desse equilíbrio.
Os negócios multimilionários que a Rússia tem feito com a venda de material de guerra à China, Irão e Índia, vão servir para financiar parcialmente a reestruturação e reequipamento das forças convencionais russas. Afastada, pelo menos congelada, parece ter ficado a decisão de uma drástica redução dos efectivos militares russos nos últimos anos.
A Rússia da dupla Putin-Medvedev amplificou os laços económicos com a Europa cada vez mais ansiosa do petróleo e do gás siberianos. Afinal, o gasoduto foi o único factor que em plena Guerra-Fria dividiu europeus e americanos,designadamente opôs Thatcher a Ronald Reagan, o que é indiciador da sua importância estratégica para a Europa.
Putin trouxe à política externa russa um vinco profundamente nacionalista, afastando definitivamente a cambaleante e errática acção externa dos dias de Ieltsin. Vinco de que o sucessor nunca se afastou. Em paralelo, iniciou na frente interna um programa para devolver aos russos a auto estima e a reconstrução da imagem de superpotência, pelo menos militar, que continua a ter capacidade para destruir os Estados Unidos e o resto de Mundo numa escassa meia hora.
Isto não significa que Putin ignore a importância do Ocidente na sua segurança, nem que minimize a importância dos vizinhos mais desenvolvidos e ricos na recuperação económica da Rússia.
Homem do KGB, tem a perfeita consciência e claro conhecimento das necessidades, fraquezas e potencialidades da Rússia e da utilidade dos vizinhos. Putin e Medvedev são os gémeos nascidos em dias diferentes e, depois de Mikhail Gorbachev, os primeiros líderes do Kremlin a saberem para onde querem ir e como lá chegar.
Em breve é o momento de Medvedev se retirar para ceder lugar ao antecessor Vladimir Putin. Há muito quem não goste dessa continuidade, mas é puro aventureirismo tentar na Rússia algo semelhante às chamadas “primaveras árabes”. O urso ainda tem garras.
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