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sexta-feira, 3 de junho de 2016

Nuclear Trump? não obrigado


Benjamim Formigo
03 Junho 2006


A menos de seis meses das eleições para a Presidência dos Estados Unidos Donald Trump desenha-se como um sério candidato. Desapareceu das sondagens ponderadas o homenzinho de cabelo ridículo e ar nada presidenciável para em ser lugar surgir o mesmo individuo, sem tirar nem por, mas que está apenas 1,5 por cento atrás da putativa candidata democrata Hillary Clinton. O risco de virmos a ter o louro desbocado com a mala e os códigos nucleares à mão está a tornar-se uma realidade pouco reconfortante.


Claro que até ao lavar dos cestos é vindima. As primárias ainda não terminaram para os democratas mas Donald Trump está a correr já noutra pista e noutro campeonato. Ao contrario das  expectativas Bernie Sanders, o respeitado senador de Vermont, não se retirou da corrida democrata apesar das possibilidades ínfimas de ganhar a Hillary. Ao contrario também das expectativas os candidatos democratas, embora em versão “soft”, regressaram às criticas mutuas. O Partido Republicano muito a contragosto engole uma pastilha amarga chamada Trump vendo os seus candidatos, quer o mais clássico e oficial Marco Rubio quer o mais extremista do “Tea Party”, o texano Ted Cruz, abandonarem a corrida deixando um “outsider”, Donald Trump avançar como um “bulldozer” sobre os seus parceiros de partido, que literalmente chegou a insultar, e os democratas, em especial a Sr.ª Clinton e o senador Sanders.


Mas a diletância de Trump não se ficou pelos seus adversários políticos. Lançou-se num discurso xenófobo como não há memoria, defendendo desde a construção de um muro ao longo da fronteira com o México, atacando a comunidade hispânica, pretendendo a expulsão dos muçulmanos, o corte com o Irão, as sacões à China, o desentendimento com os aliados europeus da OTAN. Em politica externa o homem não deixou pedra sobre pedra causando uma desconfiança impar face a uma Administração Trump.


Contudo o Mundo foi olhando com uma certa displicência o discurso de um homem que não chegaria a candidato. Pois bem, chegou! Chegou e é para tomar a sério. Com as desistências dos candidatos “aceitáveis” que perdiam terreno dia a dia graças a um discurso contra o establishment de Washington, contra um Presidente que tirou o país que os seus bancos causaram em 2008, e com que o Mundo ainda se debate, contra toda a lógica que faria de Obama um Presidente aceitável na gestão da economia as classes menos educadas americanas preferem Trump e o seu discurso à dissertação mais sofisticada de Hillary Clinton e a sua experiencia politica. Ao chegar a esta situação os dirigentes republicanos perceberam que uma vitória democrata seria, ou será, uma travessia do deserto para o GOP e engolem sapos vivos para apoiarem Donald Trump unindo em torno dele o partido.


Do lado democrata não existem muitas duvidas que Hillary será a candidata. Mas o Congresso Democrata no final do mês, em Filadélfia, vai marcas deixar marcas e porventura impedir o “ticket” de sonho: Hillary / Sanders que uniria o partido mas que se afigura cada vez mais impossível.


Discretamente Barak Obama entra na corrida apoiando a sua antiga secretária de Estado Hillary Clinton. A tempo? Será útil a Clinton ter o apoio aberto de um Presidente irracionalmente impopular? Para já, na velha tradição anglo-saxónica Hillary tem o apoio aberto dos influentes “Washington Post” e “New York Times”, tem outro apoio de peso que se tem mantido me reserva: o seu marido Bill Clinton, um dos Presidentes que marcou os EUA económica e politicamente pela positiva nas ultimas décadas. Obama não cumpriu uma boa parte das promessas que fez mas conseguiu algumas importantes vitórias na luta contra o terrorismo. Contudo envolveu-se  mais no Iraque e na Líbia. Uma vitória iraquiana em Fallujah, a expulsão do autoproclamado “estado islâmico” daquele importante nó rodoviário e a abertura da estrada para Amã poderiam ter um peso importante a favor de Obama, da sua candidata Hillary Clinton e ajudar decisivamente os brinquedos nucleares da proximidade de Donald Trump. Além de trazer um pouco mais de estabilidade, em falta há muito tempo, mesmo que Hillary Clinton não seja a campeã do pacifismo.



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terça-feira, 10 de junho de 2014

Os dois pesos e duas medidas no Mundo


Benjamim Formigo |
10 de Junho, 2014

A política internacional tem destas coisas: o que é legitimado, aprovado ou meramente tolerado a uns, é impiedosamente condenado a outros.
Na última semana tivemos eleições presidenciais na Síria e no Egipto, em situações similares, com resultados idênticos e reacções internacionais diferentes. No caso egípcio uma tolerância cúmplice, no caso sírio a condenação pouco convicta, diga-se em abono da verdade.
No Egipto, o vencedor das eleições presidenciais foi o antigo chefe de Estado-Maior, general Abdel Sisi, que há um ano, num golpe de Estado, derrubou o Presidente Mohamed Mursi.
Na Síria, onde também a população foi chamada a eleições, venceu como se esperava Bashar Al Assad. Sisi prometeu mão-de-ferro na oposição, leia-se nos sectores radicais muçulmanos, Al Assad teve o apoio do Hezbollah, inimigo jurado de Israel.
Sisi, segundo as indicações que se podem tirar dos seus encontros com representantes dos interesses petrolíferos, irá abrir as portas a investimentos nas reservas de gás natural existentes. Precisamente no momento em que a Europa procura reduzir a sua dependência de gás natural vindo da Rússia, para já através da ligação da rede Ibérica de gás vindo do Norte de África para a rede europeia, depois com a utilização de gás vendido por empresas norte-americanas – que sempre fica mais em conta se tiver de atravessar o Mediterrâneo em vez do Atlântico.
A Síria, embora Assad tenha pela frente os militantes da Al Qaeda, é um aliado russo e iraniano, constitui por definição uma ameaça a Israel e não existem acordos económicos com o Ocidente.
Pior ainda, a Síria tem sido apoiada diplomaticamente (e através do fornecimento de armas) por Moscovo, que não aprende a portar-se bem face à União Europeia e aos grandes interesses económicos que ela representa. Os interesses financeiros voltam a falar. Um elemento novo pode estar a surgir nesta visão “2D” da política internacional. No dia 6 de Junho, durante o 70º aniversário do desembarque Aliado na Normandia, houve conversações à margem das cerimónias entre Vladimir Putin e alguns líderes europeus, designadamente, a Chanceler alemã Ângela Merkel e até um breve encontro de Putin com o recém eleito Presidente da Ucrânia.
As eleições europeias da semana antepassada deixaram claro que o eleitorado está em rejeição dos partidos tradicionais e da forma de fazer política, especialmente da sua política.  O novo Parlamento Europeu tem dentro de si a oposição dos eurocépticos e dos extremistas do espectro político, incluindo neofascistas e neonazis.
Tudo isto vai influir no relacionamento futuro com o Leste. As influências das mudanças políticas na União Europeia podem reflectir-se, a prazo não muito longo, nas relações com a Rússia respondendo assim de forma “soft” à contenção do Kremlin nos confrontos no Leste da Ucrânia.
Os interesses económicos vão falar novamente.
Nada disto implica uma mudança relativamente à questão síria, a não ser uma possível redução progressiva de apoio à oposição armada até que esta se afaste definitivamente dos grupos radicais e Assad venha a fazer concessões.
Para isso, importa saber qual o papel reservado ao Irão, apoiante do Hezbollah. Assad tem dias extremamente difíceis pela frente, bem mais do que os do general Sisi, que agradou com a repressão à Irmandade Muçulmana, mas desagrada com os controlos que pretende impor nos “media” sociais.
Dois pesos e duas medidas. Na posição face a dois ditadores, que se fizeram legitimar nas urnas, e na posição futura em função dos interesses geoestratégicos, políticos e financeiros.
Nada que, de resto, não seja conhecido em África.
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terça-feira, 29 de janeiro de 2013

A miopia domina a política internacional


Benjamim Formigo
29 de Janeiro, 2013

Na ONU, em Nova Iorque, o secretário-geral da organização notabiliza-se por dizer banalidades e estar a exercer um dos consulados mais apagados dos últimos anos quando as relações internacionais se encontram em território muitas vezes virgem e têm necessidade, ao menos, de uma consciência crítica.
Na ONU, em Nova Iorque, o secretário-geral da organização notabiliza-se por dizer banalidades e estar a exercer um dos consulados mais apagados dos últimos anos quando as relações internacionais se encontram em território muitas vezes virgem e têm necessidade, ao menos, de uma consciência crítica.
A situação que se desenvolveu na República Centro Africana e no Mali, como a que continua a desestabilizar a região do Kivu, ou as escaramuças fronteiriças inter-sudanesas, a violência na Síria, para não ser exaustivo, são uma demonstração da miopia que domina as relações internacionais e as estratégias politicas internacionais.
Se na ONU se não vislumbram as águias pairando atentas sobre os acontecimentos que escrutinam com apurado olhar, o resto do Mundo parece necessitar de óculos sempre que o assunto não é ganhar uns cobres. A União Africana, o CEDEAO, a nível regional, acompanham a incapacidade da ONU; do lado das Américas ninguém se importa se não envolver os “gringos” ou os seus interesses económicos e comerciais; na União Europeia a ideia de Defesa tornou-se uma anedota; e os Estados Unidos pensam e pensam e pensam para agirem, quando agem, tarde e a más horas. Imagine-se que depois da paixão intervencionista de Ronald Reagan, empenhado em provar que “America is back”, e dos Bush(es), a Casa Branca estuda agora as implicações legais, Guantánamo à parte. No Mali, face à inércia internacional, à situação humanitária, ao risco de desestabilizar ainda mais o país e a região, ao risco de o Norte ser perdido para os fundamentalistas, o risco de se criar um conflito tuaregue dentro de um outro conflito, a França não teve dúvidas em intervir.
O único dirigente europeu falado é Ângela Merkel e pelas razões erradas. O Presidente francês, François Hollande, parece ter dado sinais de uma liderança de que se duvidava. Enquanto Paris empenha cerca de três mil homens numa acção que estaria cometida à CEDEAO, com cobertura da ONU e, pelo menos envolvimento tácito da União Africana, os restantes países da União Europeia dão mostra da sua falta de visão, da miopia política com que olham para além da austeridade, das metas orçamentais, da sacrossanta estabilidade da invenção que foi a Zona Euro.
O Mundo, para os europeus, começa e acaba em Berlim. Os 27 da União Europeia, num momento de crise, não conseguem ir além de uma vaga ideia de “treinar” as forças do Mali, que se encontram no teatro de guerra ao lado das tropas francesas. A solidariedade inter-europeia limita-se a garantir que nada será feito para prejudicar o esforço da França. Quanto ao resto, Hollande tem de se “desenrascar”.
A Europa mostra assim, “urbi et orbi”, que não é um aliado credível. Torna-se uma edição barata dos Estados Unidos fechados sobre si mesmos. Uns Estados Unidos que discutem, imagine-se, a legalidade de irem além de fornecer informação a Paris e tem reservas no envio de aviões tanque que reabasteçam em voo os aparelhos franceses. Obama parece estar, como dizem os brasileiros, “no mato sem cachorro”. Eventualmente, está mesmo.
Para a Washington a Sul do Rio Grande, os fundamentalistas da Al Qaeda, que importa empurrar para Guantánamo, substituíram os comunistas.
A guerra dos “drones” inventada pelos americanos para atingirem a Al Qaeda e seus associados no Paquistão, e outros países “amigos” e antigos aliados, fica-se por ali. Se os europeus tinham, e os dirigentes políticos europeus têm, a ilusão de que na sua defesa podem contar com a OTAN e os Estados Unidos, estão a iludir-se mais uma vez.
Desde que o poder económico e financeiro se sobrepôs ao poder político, desde que a Europa começou a ser dominada pela paranóia do défice, a única região que perspectivava a sua política externa reduziu os seus horizontes ao visível da Frederick Straßen, da Unter den Linden e da quadriga de Bradenburg.
Em política internacional existe hoje uma miopia inaceitável, um desprezo profundo pelo Terceiro Mundo – onde, curiosamente, estão as matérias-primas -, uma incapacidade de antecipar.
Pouco se faz para prevenir os conflitos ou apoiar, e muito menos pela força, a sua resolução. Faz-se bem menos que se fazia há uma década. Que o diga Angola, que se viu só num processo de agressões externas e violência interna. Em política internacional, hoje, faz-se pouco, tarde e mal.
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