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quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Políticos dizem que desigualdade é causa da estagnação económica


Benjamim Formigo |
28 de Janeiro, 2015

No final da semana passada, em Davos, dirigentes políticos e económicos concordaram que a desigualdade social impede a retoma económica, fizeram um diagnóstico quase unânime mas não passaram a escrito a receita.
As reuniões inconclusivas dos fóruns internacionais que reúnem o poder (político e/ou económico) começam a ser aberrantes. O poder de decisão mundial reúne dias na mesma sala, debate os assuntos que domina e que tem uma capacidade única de influenciar, faz um diagnóstico quase, senão mesmo, consensual, discutem as receitas para uma saída da situação que se arrasta desde a crise de 2007/2008, até fazem declarações públicas e voltam todos para casa sem que um conjunto de recomendações – que teriam um peso político considerável – seja elaborado e tornado público.
Isso obviamente forçaria Governos e a comunidade de negócios a tomar os remédios prescritos ou ignorando-os assumir a responsabilidade perante o público. O silêncio, pelo contrário, não ofende ninguém nem coloca interrogações incómodas. No encerramento do encontro chegou a notícia já esperada de que na Grécia o Syriza, um até aqui pequeno partido da esquerda radical, havia ganho as eleições com uma maioria confortável baseando a sua campanha na renegociação da dívida (e/ou eventual perdão de uma parte) com os credores internacionais.
A Grécia é um caso paradigmático do fracasso do dogma da austeridade que em Davos foi acusado de ser responsável pelo fosso crescente entre ricos e pobres, o aumento dos pobres e a estagnação da economia mundial mesmo com preços de petróleo a rondar os 50 dólares o barril, ou seja metade de Junho do ano passado.
Nos países sujeitos à austeridade, por força da imposição da troika (FMI, Comissão Europeia e Banco Central Europeu (BCE)) ou nos que a auto-impuseram por estarem à beira de uma situação grave, as taxas de juro dispararam e a dívida das famílias cresceu em flecha, arrastando para o fosso uma parte considerável da classe média de quem o consumo, e portanto o desenvolvimento da economia dependem.
Atenas poderá, se o Syriza se mantiver fiel às promessas eleitorais, fazer finca pé numa renegociação da dívida, juntar-se à Irlanda que fala nisso há semanas e levar consigo outros países europeus menos dominados pelo neoliberalismo, como a Itália e a Espanha, a França é um caso mais complicado e Portugal mantém-se, pelo menos na última semana, irredutível quanto a uma renegociação que a oposição defende.
Pior é que o BCE já vinha descendo as taxas de juro há meses sem que isso se reflectisse no aumento do consumo, na procura de bens, na retoma económica; nem a conjugação das baixas taxas de juro com a descida dos preços do crude estão a ter qualquer impacto positivo na economia mundial e arriscam arrastar para uma crise financeira os países produtores em geral.
A recente decisão do BCE conjuntamente com as descidas das taxas de juro e a queda nos preços do petróleo veio criar uma janela de oportunidade onde os Governos poderiam usar os fundos de 60 mil milhões de euros que o BCE injectará mensalmente na economia para investirem em infra-estruturas e outras obras com efeito directo sobre o emprego, a geração de riqueza, que permitiriam a retoma a médio prazo. Contudo nem todos os Governos europeus, e designadamente Espanha e Portugal, estão na disposição de usar aumentando os quadros do Estado e arriscando o crescimento da dívida, independentemente do retorno fiscal que os empresários envolvidos trariam tal como os postos de trabalho criados e o consumo por eles estimulado. Isso permitia também subir as necessidades de crude e pressionar a subida de preços, o que ao aumentar a riqueza dos produtores se iria reflectir nas exportações dos países ditos desenvolvidos.
Em Davos tudo isto ficou claro. Até Christine Lagarde ou Martin Sorrell concordaram que o dogma do FMI tinha mudado e que esta janela de oportunidade poderia estreitar o fosso entre ricos e pobres, fortalecer a classe média e ter reflexos positivos nos países em desenvolvimento.
Concordaram que o efeito multiplicador positivo na economia era maior se houvesse um enriquecimento dos desfavorecidos do que no actual contexto que continua a centralizar a riqueza numa minoria cujos impostos e consumo não têm impacto relevante na retoma económica mundial. Não menos importante a coordenação de políticas fiscais que garantissem uma estabilidade na competição fiscal tornando-se o “know how” o factor decisivo.
De igual modo o fim dos paraísos fiscais, segundo foi dito em Davos, faria entrar na economia 80 mil milhões (triliões na designação anglo-americana) de dólares que neste momento estão parados e escapam aos fiscos.
Outro princípio daria o de recompensar as empresas, porventura por via fiscal, pela sua iniciativa, resultados, investimentos e criação de emprego – não de postos de trabalho mal pagos. Segundo Sorrell as empresas têm parados nas suas contabilidades sete mil milhões de dólares sem estímulo para serem investidos.
O que se passa na Europa, como o que se passa, em menor grau nos EUA, tem reflexos que podem ser de longo prazo nas economias emergentes e em especial nas que dependem em grande medida do petróleo. A crise nestes países, em especial na Rússia, Venezuela e Nigéria, pode ter um efeito multiplicador e por isso são muitos os que neste momento apoiam o fim da austeridade e o aproveitamento da conjuntura para pôr a máquina em movimento.
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quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Guerra sem soluções políticas


Benjamim Formigo |
1 de Outubro, 2014

Ainda a crise provocada na Ucrânia está por resolver já os Estados Unidos e os seus parceiros europeus se envolvem numa outra bem mais complicada: a guerra contra o auto intitulado “Estado Islâmico”. Num caso como no outro os envolvimentos euro-americanos ocorreram sem uma estratégia de saída.
Na Ucrânia a guerra não foi (é) transfronteiriça, mas sim um confronto de vontades com a Rússia e a saída está a ocorrer, parece, de uma forma natural, por si mesma, com a existência de uma zona desmilitarizada (ZDM) entre o Leste do país, russófono, e o resto da Ucrânia. O futuro dirá onde conduzirá essa autonomia e essa ZDM, de facto um tampão entre duas culturas do mesmo país.
No Iraque levanta-se a grande incógnita. Os Estados Unidos procuraram cooptar e conseguiram o apoio tácito ou activo de vários Estados árabes e dos seus parceiros da OTAN. Uma excepção notável a distanciação da Turquia que obriga os americanos a operar a partir de porta-aviões ou de bases distantes em países do Golfo em vez de Incirlik, a base mais usada nas guerras do Golfo.
A Turquia negociou com o auto designado “Estado Islâmico” a libertação de cidadãos seus e tem uma extensa fronteira com a Síria e o Iraque, notavelmente o Curdistão iraquiano. O envolvimento turco ao lado da oposição síria armada coloca Ancara numa situação incómoda, já que uma boa parte dessa oposição deserta para se juntar às forças do “Estado Islâmico”, o movimento radical que quase derrubou o Governo de Bagdad, derrotou o Exército iraquiano apoderando-se de sofisticado material de guerra fornecido pelos Estados Unidos. A França seguiu no encalço dos EUA, apressando-se a atacar alvos o EI a partir de porta-aviões; Bélgica e Dinamarca anunciaram o envio de caças F-16 sem especificar onde irão estacionar; a Grã Bretanha, depois de consultado o Parlamento, fez entrar em acção, para já de reconhecimento, os seus Tornados estacionados nas bases que mantém em Chipre, enclaves territoriais na costa Sul da ilha que Londres recusou entregar à soberania cipriota quando cedeu a independência a Chipre. Os Emiratos Árabes Unidos agiram já contra o “Estado Islâmico” tal como outros Estados árabes, mas as correntes operações estão longe de uma coligação como a que em 1990 foi estabelecida para a guerra contra o Iraque.
A questão de fundo é o que pretendem EUA e os seus aliados no final desta intervenção. Não se conhece uma estratégia de saída. Atacar as forças do “Estado Islâmico” pode parecer louvável quando se fazem em defesa de populações que fogem aos milhares procurando refúgio na Turquia. É um facto que o movimento que se intitula “Estado Islâmico do Iraque e do Levante” é o grupo mais brutal que alguma vez actuou naquela região e o que mais estrangeiros recrutou, designadamente europeus e americanos, numa aparente conversão a um Islão brutal repudiado pelos imãs em geral. A Al Qaeda parece um grupo de meninos de coro ao lado do EI. As decapitações de europeus e americanos gravadas em vídeo e difundidas são apenas uma pequena parcela da mentalidade desse grupo. Ao conseguirem deitar a mão a bastante material de guerra americano que equipava o Exército iraquiano tornou-se imparável no seu avanço. Esse ímpeto ofensivo atraiu muitos dos opositores ao Presidente Assad da Síria que militavam noutros grupos. Alguns com ligações à Al Qaeda engrossando os seus efectivos para cima de quatro mil homens.
Os ataques aéreos que se irão intensificar podem impedir o avanço das forças do EI que agem como um exército convencional desde que possuem armamento pesado e blindados. Podem limitar a acção do EI mas não conseguem derrotá-lo no terreno. Os curdos, mais do que o Exército iraquiano, têm conseguido com o apoio aéreo conter algumas ofensivas convencionais do grupo. O guerreiros curdos conseguiram mesmo alguns avanços territoriais no Iraque para suster o EI fora do Curdistão, mas na prática o facto é que o Curdistão iraquiano aumentou o seu território, uma questão para debater no final. Um final que ninguém antevê como vai ser. David Cameron nos Comuns deixou claro que é uma campanha para anos. Ninguém tem uma ideia clara do que fazer no final desta campanha, apenas a decisão de que o auto denominado “Estado Islâmico do Iraque e do Levante” é um perigo real, claro e presente e que não pode continuar a dominar territórios, a controlar zonas petrolíferas e refinarias, a financiar-se através da comercialização do petróleo no mercado negro.
A presente crise põe em destaque a necessidade de abordar a situação de uma forma global. Desde o diálogo de Israel com a Autoridade Palestiniana e o fim dos ataque indiscriminados que ainda recentemente Israel levou a cabo, até a uma aproximação ao Irão com quem é necessário dialogar e integrar na política regional. Não é realista manter à margem uma potência regional, ainda por cima quando parece disponível a debater o seu programa nuclear. O petróleo da Arábia Saudita ou do Qatar tem feito fechar os olhos aos financiamentos sauditas a grupos radicais. A Rússia tem uma palavra estratégica na região. Não se vê em lado algum a consideração de todos estes factores. Como ninguém tem uma proposta para o dia a seguir, é bom ter presente que EUA, França e Grã-Bretanha foram o apoio aéreo das forças que derrubaram Kaddhafy. Hoje, graças à ausência de uma estratégia a Líbia está o que se sabe.
Os países ocidentais em geral, os EUA em particular, têm de tomar consciência de que mesmo sendo potências militares e ou económicas estão em declínio e o Mundo deixou de ser fácil de gerir. Os problemas enfrentados no Médio Oriente têm soluções geracionais e se não forem encarados como tal entraremos num ciclo vicioso de soluções falsas e envolvimentos militares na resolução de novos problemas.
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