Benjamim Formigo|
23 de Junho, 2014
Se nos últimos anos, e em particular desde Janeiro, não
fosse cada vez mais evidente que o clima mundial se ia tornar cada vez
mais tenso, até podíamos pensar numa sinistra conspiração determinada a
fazer vir ao de cimo o que de pior existe nas relações entre homens e
nações.
Não é infelizmente assim. Incúria, incompetência ou
um plano cuidadosamente elaborado trouxeram-nos ao ponto a que chegámos.
A Guerra Fria acabou, viva a Guerra Fria.
Na última semana o Papa
Francisco, na senda do que vem sendo o seu posicionamento público, não
deixou dúvidas sobre os receios com que encara o futuro e as reservas
que tem face ao actual sistema. A entrevista transmitida na íntegra pela
estação portuguesa SIC Notícias deu uma visão mais política que
teológica daquilo que o Mundo enfrenta. Pouco habituados que estamos a
ver os homens da igreja, de qualquer igreja, a olhar o Mundo como ele é e
não como se espera que por intervenção divina venha a ser, o Vigário de
Cristo não escondeu o receio da quase inevitabilidade de as condições
económicas e do peso da economia sobre a política se tornarem
catastróficas. A economia, disse Francisco, deve preocupar-se com o
Homem, tê-lo como o centro dos seus interesses e não um servo deles como
sucede. As declarações de um homem que não se assume como político,
sentado na cadeira de Pedro onde se fez política desde a Idade Média até
à Idade Contemporânea quando igreja e capital se tornaram, excepção
feita a alguns representantes de Pedro, mais discretamente cúmplices,
são de facto uma lufada de ar fresco nos corredores do Vaticano.
Ouvir
as declarações do novo Papa não é um acto religioso, é ouvir a verdade
que deveria ser veiculada por homens como o Secretário Geral da ONU que,
sem poder nem carisma e muito menos fiéis, optam por um silêncio
cúmplice com os desmandos deste período que se pensava ser de transição
para um Mundo mais calmo. Um Mundo que de calmo nada tem e onde a
riqueza se concentra cada vez mais, onde o desemprego dos jovens se
torna em desespero e os Velhos são esquecidos. Como disse Francisco, um
Mundo que desperdiça a força de uma juventude e a sapiência dos Velhos.
Ouvir o Papa jesuíta é um acto político quase subversivo.
Deixemos
para lá os desmandos neoliberais que trouxeram apenas instabilidade
social, e ainda estamos para ver o que vem aí. Deixemos mesmo de lado a
crise financeira para a qual o FMI voltou esta semana a chamar a atenção
um pouco na linha dos diagnósticos menos maus e das terapêuticas
desastrosamente desajustadas. Atentemos apenas na linha moral dos
dirigentes, dos líderes do Mundo Ocidental e por definição democrático e
civilizado. Em nome dos Direitos Humanos propiciaram uma onda
demolidora com a chamada primavera árabe que está longe de acabar.
Provavelmente está a abrir um novo ciclo ainda mais complicado. O arco
do Mediterrâneo está como o conhecemos, com uma pequena nuance, sejamos
discretos ao menos, o tal arco já está no Paquistão, passa pelo
Afeganistão, reacende-se no Iraque, inflama-se na Síria, salpica a
Europa, corre ao longo do Norte de África, vai até à Nigéria, passa
através da África Central para se estender da Somália ao Quénia e ao
Sudão, incluindo o recém independente Sudão do Sul. E nem vale a pena
falar no caldinho que se vai cozinhando no arco Ásia Pacífico onde a
história é outra.
A Europa, como é evidente, não escapa com uma crise
que parece estar mesmo a fugir ao controlo tanto dos burocratas de
Bruxelas que olharam para a Ucrânia como um mercado esquecendo que é uma
posição geoestratégica fundamental para a Rússia, esquecendo mesmo por
inépcia ou a pura arrogância dos ignorantes que a União Europeia tem
também interesses estratégicos que coincidem com Moscovo. Fazer da
Ucrânia uma vítima? De modo algum; fazer da Ucrânia um actor na Europa
Central sem hostilizar o vizinho com quem se tem excelentes relações
económicas apesar de subsistirem divergências que o diálogo ia
resolvendo. Se alguém pensa que houve políticos experientes envolvidos
nesta alhada desiluda-se. Andam por aí uns pequenos que sabem tudo
excepto as questões essenciais da Guerra Fria, já para não falar no
espanto com que devem ter olhado para o desperdício de dinheiro no 70º
aniversário do desembarque na Normandia. É assim, eles olham para essa
época como uma imensa oportunidade de negócio da construção civil e da
indústria de Defesa e de resolução de crises económicas e financeiras.
Claro que é um exagero mas já me passaram pelas mãos estagiários de
Relações Internacionais que pensavam que o Presidente da Junta Argentina
que desencadeou uma guerra no Atlântico Sul em 1982 era membro do
Politburo do PCUS. Não, parece mas não é anedota.
Eleito um novo
Presidente da Ucrânia, devidamente convidado pelos dirigentes europeus
para as celebrações do dia D, fez-se a tal diplomacia discreta. Não se
contava que o génio já estivesse fora da garrafa. Os separatistas
russófonos mesmo pressionados por Putin não querem depor as armas e o
Presidente ucraniano não pode perder a face. E agora? Agora resta a
esperança, essa que morre sempre no fim, de uma solução de 23ª Hora,
muita paciência de Putin e muito empenho da Sr.ª Merkel.
Mas não
acaba aqui. No Iraque ignorara-se os sinais de risco que se acentuavam
desde Janeiro e temos os sunitas, expulsos do poder pelos americanos, às
portas de Bagdade e a controlarem importante parte do petróleo
iraquiano com satisfação dos “marchands” que esquecem que na frágil
conjuntura financeira um aumento substancial do crude pode ser a
recessão mundial. Na Europa já existem sinais de deflação que a
consolidarem-se vão ter um impacto global. Mas também não acaba aqui.
Barack Obama, que não deve ter a menor ideia de como vai ficar na
História, já está a ver a retirada do Afeganistão comprometida, ou no
mínimo uma embrulhada para o seu sucessor, e fala no envio de 300 não
combatentes para o Iraque, uma ajudinha a um Governo xiita que já pediu
apoio aéreo a Washington. Leia-se uns “dronezinhos” para ajudar a suster
os maus da fita, homens da facção religiosa de Saddam Hussein. Mas para
os drones serem eficientes têm de dispor de informação que os conduza
aos alvos. Daí ao envolvimento operacional dos tais 300 formadores é um
passo. E enquanto isso na Síria o Governo sente-se livre para pisar o
risco, o grupo do Estado Islâmico Iraque Síria vai complicando a
situação no Curdistão iraquiano, zona rica em petróleo, aumentando a
influência na Síria eventualmente sem benefícios para o Irão – que podia
exercer uma influência interessante neste momento.
Tudo em nome da PAX democrática, sacrossanto sistema.
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