27 de Setembro, 2015
O Bispo de Roma atravessou o Atlântico para visitar os dois
países cujo desanuviamento mediou por vezes mesmo envolvendo-se
pessoalmente, Cuba e Estados Unidos.
Em Havana Francisco iria encontrar uma população que nunca cedeu completamente ao ateísmo marxista como se viu nas visitas de João Paulo II e Bento XVI. Mas o Papa Francisco não é nenhum dos seus antecessores, tem uma visão quase militante do cristianismo e do papel da Igreja. Sendo argentino os seus passos e as suas palavras não iriam passar despercebidas numa América do Sul onde seitas alternativas têm vindo a proliferar, procurando preencher o espaço outrora exclusivo da Igreja Católica, em especial desde que João Paulo II em plena crise política centro-americana mudou o Geral dos Jesuítas por uma figura bem mais conservadora e esmagou a Teologia da Libertação de Leonardo Boff. Um fenómeno que se tem repetido um pouco por vários continentes onde cresce a desilusão com o Vicariato de Roma.
Francisco, recebido como seria de esperar, quase apoteoticamente por dezenas de milhares de populares, o Presidente Raul Castro em pessoa, sabia que ia navegar em águas difíceis na política cubana. Talvez por isso tenha começado as suas intervenções por encorajar ao diálogo e fim dos conflitos na América Latina, designadamente os transfronteiriços, para depois falar metaforicamente mas também abertamente sobre a situação cubana. Ajudou, e de que maneira, o seu encontro de mais de meia hora com Fidel de Castro, ajudou as suas críticas ao cerco económico que só agora os EUA começaram a levantar. Não foi por acaso que o fizeram nem duas semanas antes da visita do Papa.
De Havana o Papa Francisco seguiu para os EUA onde o esperavam desafios bem importantes e difíceis. Por um lado os escândalos que envolveram bispos e outros prelados em actos de pedofilia e que abalaram a confiança na Igreja; por outro era a visita a um país maioritariamente protestante e com uma ala religiosa ultra conservadora bem forte e implantada. Mais uma vez o Vaticano mostrou que dispõe da maior, melhor e mais antiga diplomacia do Mundo.
O discurso genérico de Francisco nas suas homilias em Roma e noutros locais, os princípios que defende, tocaram mesmo ateus e agnósticos que em Washington se juntaram a católicos a quem protestantes se haviam juntado também. O carisma deste Papa é transversal e claramente capaz de concitar consensos e acordos entre diferentes ramos religiosos e talvez religiões. Estamos para ver.
Na Casa Branca não só apoiou abertamente as iniciativas ecológicas de Barack Obama como falou dos desprotegidos. Se na Casa Branca o Papa estava “em casa” no Congresso a situação era bem mais complicada. Não deixa porém de ser curioso que Francisco se tornou o primeiro Bispo de Roma a se dirigir a uma Sessão conjunta do Congresso dos Estados Unidos; Câmara dos Representantes e Senado sentaram-se para o receber, levantaram-se para o aplaudir. Numa Câmara tão dividida como o actual Congresso dos Estados Unidos o Papa teve de usar de particular sensibilidade para abordar as questões que mais divisões suscitam. Tal como em Cuba falou do cristianismo como qualquer coisa bem maior e acima da política, de princípios que qualquer um bem formado aceita sem hesitações; depois entrou no terreno minado defendendo uma vez mais uma melhor repartição da riqueza para a seguir falar da importância da família, o escândalo do dinheiro sujo de sangue com a venda de armas, e o direito à vida, sem contudo referir o aborto, as liberdades individuais, sem referir o casamento homossexual e a tradicionalidade da família em contraponto.
Horas depois no Capitólio os dois lados confrontavam-se de novo com os republicanos tentando bloquear uma iniciativa presidencial. Mas o Congresso já não é o que era. Segundo o jornal “New York Times”, há vários congressistas católicos praticantes.
Francisco deu na América uma lição de humanismo e tolerância. Não se pense que o futuro desta visita é amanhã, mas as sementes foram lançadas e o eleitorado americano está farto de políticos enfeudados aos grupos financeiros que sustentam as suas campanhas e carreiras. A referência à promiscuidade entre política e finanças foi retirada pelo Papa da sua intervenção, mas deixada nas cópias entregues à Imprensa. Um porta-voz do Vaticano disse que o Papa saltou inadvertidamente essa passagem largamente difundida pelos “media” americanos e que não passou ao lado da atenção dos eleitores. Uma lição interessante de como a política séria se faz a longo prazo.
Em Nova Iorque e Filadélfia, como na sede da ONU, o Papa fez a defesa de políticas ambientais sustentáveis e foi contundente quanto à necessidade de uma melhor distribuição da riqueza e justiça social não só nos EUA mas no Mundo em geral, deixando implícita a falência social que as políticas neoliberais estão a causar com a finança e a assumir primazia sobre a política, senão mesmo o seu controlo.