29 de Julho, 2014
O confronto entre israelitas e palestinianos há mais de 50
anos que conhece apenas tréguas e períodos de não guerra, sem a menor
perspectiva de uma fórmula que permita a coexistência de dois povos e
dois países.
Os milhares de mortos nos confrontos naquela região exigem que seja encontrada uma solução de compromisso, e o compromisso, como o termo indica, tem de implicar cedências dos dois lados. Perderam-se oportunidades enquanto Yasser Arafat foi vivo, perdeu-se uma oportunidade única com o assassínio por um fundamentalista judeu do Primeiro-Ministro Yitzhak Rabin, um pragmático que conseguira encontrar um começo de entendimento para o que poderia ser uma solução duradoura.
A Comunidade Internacional desde a II Guerra Mundial deixou a questão aos norte-americanos e, secundariamente, aos soviéticos, que controlavam uma mancha sua aliada na região. Os norte-americanos, fundamentalmente em virtude dos seus próprios motivos eleitorais – voto e financiamento dos judeus norte-americanos – deixaram que a política dos EUA da região fosse determinada por Israel.
Israel é um país profundamente dividido por causa do confronto com os palestinianos e do que vêem como “ameaça árabe”. A divisão, porém, termina quase sempre quando a ameaça se torna real. A resposta militar israelita é habitualmente desproporcionada relativamente à ameaça ou a retaliação apenas sublinha o poderio militar israelita e traduz ao mesmo tempo aquilo a que os Governos israelitas chamam sempre “determinação” de se defenderem. Retaliação não é defesa, é meramente retaliação.
Esquece-se, à medida que o tempo passa, que os palestinianos capazes de serem moderados chegam ao fim da vida e que ascendem a lugares de poder homens e mulheres nascidos em campos de refugiados, criados por entre intifadas e violência.
A violência que Israel permitiu em Sabra e Shatila tornou-se um estandarte contra a palavra dos israelitas. Esquece-se ou ignora-se que a maioria do povo israelita se insurgiu contra os massacres feitos pelos seus aliados com consentimento do seu Governo.
A situação que se foi criando em torno de Israel, com as chamadas “primaveras árabes”, inexplicavelmente bem recebidas pelo Ocidente, não só foi de isolamento como acentuou a noção de ameaça. Assad (pai e filho) eram inimigos de Israel, mas apesar de tudo continham-se, como se continha Saddam Hussein, ou mesmo os religiosos que assumiram o poder no Irão. O Egipto passou a ter um papel preponderante e influência notável com Mubarak. A sua queda e o “intermezzo” da Irmandade Muçulmana no poder só favoreceu e permitiu a radicalização do Hamas.
O golpe militar no Cairo e o novo poder, reprimindo a Irmandade, fechou a comunicação de Gaza através do Sinai. O Hamas, ao estar nas boas graças da Irmandade Muçulmana, é objecto de desconfiança do novo poder no Egipto, que é no fundo a continuidade de Hosni Mubarak. Mesmo o entendimento de Hamas com a mais moderada Fatah, do falecido Yasser Arafat, aliviou as dúvidas dos egípcios. Mesmo o Cairo propôs uma fórmula de cessar-fogo que, embora não tivesse sido aceite pelo Governo de Israel, foi recusada liminarmente pelo Hamas, que, note-se, está no poder através de eleições. O cessar-fogo e as tréguas dos últimos dias da semana passada e de domingo têm sido apenas um abrandamento dos combates e das incursões militares israelitas ou do lançamento dos rockets do Hamas contra Israel. Não vale a pena ter ilusões.
A paz urge há muito tempo na região e os palestinianos há muito que esperam justiça. O actual ambiente internacional, em especial na região, com o autoproclamado Califado do Levante, dividindo Iraque e Síria, nunca foi tão desfavorável a um entendimento. Isso, porém, não implica o uso desproporcionado da força usada por Israel como elemento dissuasor. Uma solução como a que se falou durante décadas de uma conferência internacional, que debatesse integradamente os problemas regionais e encontrasse um entendimento, nunca esteve perto, mas nunca esteve tão longe.
Para a resolução de questões complicadas como esta são necessárias vontade e força política, ambiente internacional, imaginação e homens com prestígio. Não há. O mais a que é possível aspirar é uma cessação de hostilidades, e algum tempo para recuperar. Ninguém espere que esse tempo sirva para encontrar fórmulas para uma resolução, mesmo que provisória.