28 de Maio, 2013
O final da Guerra Fria não foi motivo de reflexão. O Mundo
passou da bipolaridade em que vivia desde o final da II Guerra Mundial à
supremacia económica e militar dos Estados Unidos, relegando para
terceiríssimo plano a importância da Rússia e do arco do Pacífico, cuja
importância passou a ser essencialmente económica.
Nem Ronald Reagan nem Margareth Thatcher ousaram ir tão longe quanto se veio a constatar. Bill Clinton manteve, depois de George Bush (pai), alguma visão geoestratégica sem contudo travar a revolução neoliberal que da Europa alastrava para os Estados Unidos e destes outra neoliberalização se encaminhava para a Ásia. Valha porém a verdade: já no final do último mandato de Reagan os EUA tinham deixado de produzir os bens que as suas marcas fabricavam na Ásia/Pacífico e na Europa as grandes marcas faziam o mesmo. Um caso particular, na Grã Bretanha ainda se mantinha britânica alguma indústria automóvel e de defesa, sector que ainda existe, de forma tentativa e oscilante, em consórcios europeus incapazes de rivalizar com os EUA. Washington não só mantinha e vitalizava a sua indústria aeronáutica comercial (Boeing vs Airbus) como reforçava a sua indústria de defesa através de sucessivas aquisições de umas empresas pelas mais fortes.
Quando neste século se instalou a obsessão pela austeridade, o “hands off” do Estado, os americanos não deixaram de manter um orçamento de defesa consistente com a mundialidade de interesses de Washington. Os cortes fizeram-nos onde detêm “zonas tampão”, designadamente, na redução de interesse pela OTAN. A prioridade americana, e de algum modo global, quer nos países desenvolvidos quer nalguns dos países de economias emergentes, a prioridade centrou-se no terrorismo. A defesa propriamente dita, territorial e/ou de interesses estratégicos passou um pouco para segundo plano, até porque a crise latente foi afectando as economias em geral.
A situação geoestratégica evoluiu consideravelmente, com a Rússia a levantar-se do torpor em que viveu nos anos Yeltsin e a retomar progressiva mas firmemente o seu lugar na cena internacional.
Em paralelo, na Ásia levantava-se o gigante chinês, que se lançou na procura do controlo das matérias-primas através da abertura de gigantescas linhas de crédito a baixo juro às economias emergentes cuja riqueza natural garantia o retorno do investimento. Curiosamente, o desenvolvimento chinês foi beneficiou da sua adesão à OMC e a uma semiabertura de fronteiras a produtos dos Estados Unidos da União Europeia, etc. Produtos que acabariam por entrar em quantidades limitadas, dado que o verdadeiro mercado chinês não se estende aos seus 1.35 mil milhões de habitantes mas a uma limitada parte dos cerca de 150 a 200 milhões que concentram o poder de compra e preferem a origem chinesa nos produtos do dia-a-dia, deixando uma faixa para o mercado de topo de gama, esse sim importado.
A China, sem problemas de défice e com enormes excedentes, lançou-se num investimento de dois dígitos na indústria de defesa que objectivamente visam garantir a sua defesa convencional face ao vizinho russo (aliado aparente e de circunstância) e a supremacia no Pacífico. Esse objectivo de uma potência económica como a China preocupa a Índia, com más relações com o seu vizinho paquistanês, o Vietname (com quem a China teve vários confrontos fronteiriços), as Filipinas e a Formosa ou Taiwan. Daí que a Índia, com os seus 1,2 mil milhões de habitantes, que já passou de estado de economia emergente para o de potência económica, se ter lançado também no reforço não só da sua Marinha, que já esteve entre as cinco maiores e mais poderosas do mundo, como na renovação aeronáutica, não só através de contratos com Londres como com Paris. Na Formosa, desde a subida ao poder do Presidente Ma Ying-jeou, em 2008, verificou-se um aparente alivio de tensões com Pequim e desenvolveram-se laços comerciais consideráveis. Todavia, Taipé não abrandou as aquisições militares aos Estados Unidos, além de ter desenvolvido a sua própria indústria. A posição geoestratégica da Formosa é essencial tanto para a manutenção da supremacia norte-americana no Pacífico, como para a China travar essa supremacia.
A ilha faz parte de um conjunto que permite o domínio do Mar da China e a passagem para mar aberto, obstruindo a eventualidade de Washington projectar as suas forças no Pacífico Ocidental. O que vulnerabilizaria os aliados dos EUA na região.
O jogo chinês vai de facto bem longe com o apoio que presta a todos os que são intimidados por Washington, como é o caso do Irão, obrigando os americanos a dispersar as suas atenções.
No caso da Coreia do Norte, a situação já é bem diferente. Apesar de ter sido Pequim a fornecer a tecnologia nuclear a Pyongyang, o quase desaforo norte-coreano não serve os interesses chineses, arriscando um confronto junto das fronteiras da China.
Washington parece ter acordado agora para os eventuais riscos provocados pelo caminho que a chamada “Primavera Árabe” está a tomar; até na Síria os americanos já reconhecem que a ascensão dos radicais islâmicos com ligações à Al Qaeda é um factor preocupante.
Os europeus por seu turno estão preocupados com os défices e a austeridade e deixaram de contar no tabuleiro da geoestratégia internacional. O mais curioso na Europa, em matéria de Defesa, é que em 1982 a Senhora Thatcher, dinamizadora do liberalismo económico, teve capacidade financeira de fazer uma guerra no Atlântico Sul. É de duvidar que Davis Cameron pudesse hoje fazer o mesmo.
Os europeus têm um caminho que não querem tomar, enquanto os actuais dirigentes se mantiverem, a aliança comercial e o aprofundamento das relações com a Rússia. Seria um prolongamento natural e exequível, se Moscovo aceitasse.
Existe pois um imenso desafio no início da segunda década deste século e que os líderes mundiais, talvez à excepção dos americanos, parecem ignorar. Correr atrás do prejuízo é a gestão mais fácil e a mais danosa. Imaginação e visão, precisam-se.