29 de Abril, 2014
O que se passa nas conversações entre a Rússia, os Estados
Unidos e a União Europeia começa francamente a ser um quebra-cabeças,
uma espécie de discórdia de comadres, de um disse que não disse, não
fez o que prometeu e por aí fora.
A existência de tendências separatistas no Leste da Ucrânia, com uma importante, senão mesmo maioritária população russa ou russófona e russófila, não constituía novidade. Depois de a Crimeia se ter sublevado num referendo local que, mais dia menos dia, será aceite como um facto consumado, veio apenas atear a chama separatista que dormia nas principais cidades do Leste onde se situa a indústria ucraniana totalmente dependente das importações russas.
Depois de uma tentativa de acordo que fracassou no terreno a Rússia apresentou agora nova proposta extremamente simples, mas de difícil cumprimento: o desmantelamento dos acantonamentos na praça principal de Kiev em troca do recuo das tropas russas e da retirada dos militantes pró-russos dos edifícios governamentais que ocupam em várias cidades do Leste, designadamente Donetsk. A primeira tentativa falhou porque os militantes pró-russos recusaram abandonar posições. A segunda provavelmente pela mesma razão acrescida da retórica infeliz do Primeiro-Ministro ucraniano em exercício, que tem feito e dito mais asneiras que o permitido a um político mesmo inexperiente e provinciano. Declarar publicamente, como o fez a semana passada, que uma guerra com a Rússia encontraria tropas da NATO e apoio da Ucrânia (as palavras não foram estas mas sim o sentido) não só demonstra uma incomensurável inexperiência diplomática, uma tentativa propagandística bacoca, ou uma credulidade só explicável pelo desespero.
Se ainda existe uma possibilidade de encontrar uma solução diplomática não reside na retirada gratuita das tropas russas de junto da fronteira, nem nos ataques aos chamados “terroristas” pró-russos causando uma meia dezena de mortes que poderiam ter saído muito caras à Ucrânia. Kiev tem de enfrentar uma realidade: ninguém a vai ajudar; não vai porque não quer um conflito com Moscovo; não vai porque a Ucrânia foi apenas um peão num jogo de burocratas da União Europeia; não vai porque um confronto com a Rússia só seria possível com o envolvimento dos EUA e isso acrescia um risco de confronto nuclear táctico, de que a Europa e em particular a Ucrânia seriam as primeiras e principais vítimas. Não vai ainda porque uma guerra custa dinheiro e os EUA não estão em condições de manterem a supremacia na Ásia Pacífico contra a China cada vez mais armada e ousada; não vai porque a União Europeia tem muito a perder do ponto de vista económico e financeiro.
Quando existe uma possibilidade de uma saída diplomática o silêncio é sagrado e as fugas de informação cautelosamente ponderadas. O problema é que, como se disse, isso implicará cedências, se não territoriais, pelo menos autonómicas às regiões de influência russa. Isso sim é o que o jovem PM ucraniano receia e recusa em vez de pragmaticamente estudar a forma como isso poderá servir melhor o seu país, que agora vai cair nas mãos do FMI, BCE e Comissão Europeia num plano de resgate onde os financeiros já esfregam as mãos. Plano que só é possível com o alívio dos auxílios que estão a ser prestados à Europa e outra política monetária que o BCE e a Alemanha parecem finalmente dispostos a aceitar.
Quanto a Putin, ao contrário de Boris Ieltsin, não deve nem quer dever nada ao Ocidente, apenas pretende manter as suas relações económicas. Ao contrário de Gorbatchov, não necessita de mostrar abertura, pois estão todas feitas. A ameaça de sanções económicas contra individualidades russas ou a degradação de rating das agências não parece preocupar o maior produtor de petróleo do Mundo e entre os maiores de outros minérios nobres, para não falar no gás natural.
O que sucederia às petrolíferas europeias e norte-americanas se os russos baixassem o preço do barril para, por exemplo, 10 dólares? E às economias que vivem da exportação de petróleo? Claro que o mercado seria indiferente a sanções e corria ao petróleo russo. Importa assim tanto avaliar as sanções que o Ocidente possa impor? Quanto tempo aguentariam as empresas petrolíferas? Quanto teriam de cortar a sua produção para combater os efeitos do dumping russo? Quem cederia primeiro: as reservas monetárias de um colosso do petróleo ou empresas e países dependentes desta matéria-prima? E quem acarretaria com as perdas financeiras desta operação? É ridículo falar em impor sanções à Rússia. Claro que no limite Putin não se está a portar bem pelos padrões ocidentais, mas não pelos padrões russos nem face aos interesses geoestratégicos da China.
As trocas comerciais entre a Europa e a Rússia, em 2012, atingiram 370 mil milhões de dólares (a maioria produtos alemães). Para a UE sanções relevantes seriam um suicídio económico. Por isso a UE em vez de se comprometer no comunicado do G-7 deixou para mais tarde a divulgação das suas próprias sanções. Os EUA estão numa situação mais fácil já que as trocas comerciais não ultrapassaram 26 mil milhões de dólares no mesmo ano, nem 10 por cento do valor eurorusso.
As empresas europeias, designadamente as do sector energético, têm feito uma enorme pressão sobre os seus Governos para evitar sanções sérias. Mas não só as do sector energético, pois outras estão envolvidas no capital da Gazprom e outras empresas russas e não querem ser arrastadas. A degradação da notação russa tem algum efeito nos investidores institucionais que compram dívida do Estado russo? Provavelmente muito pouco. O facto de o rublo cair pode ser benéfico na balança com o estrangeiro, diminuem as importações russas de bens europeus, a maior fatia e até podem manter as exportações energéticas favorecendo a Rússia. A subida das taxas de juro internas pode mesmo canalizar alguma poupança para o Tesouro russo. São sanções absurdas se ultrapassarem algumas individualidades. O Ocidente aposta na fuga de capitais da Rússia para o Ocidente, ora o que parece suceder é o contrário, com receio de verem os seus bens congelados no exterior os russos fazem retornar o seu capital.
Se o tempo perdido com os burocratas tivesse sido usado por políticos com um mínimo de visão, provavelmente a crise ucraniana teria sido evitada e hoje não pairaria a maior das dúvidas sobre a integridade territorial do país. Se em vez de pensarem menos em sanções, se Obama não tentasse esconder os erros domésticos através de uma política canhestra, se estudassem um pouco a História da Rússia e a sua cultura, talvez fosse possível obter algumas concessões. Desiludam-se os que pensam que EUA e UE vão defender a Ucrânia e Moscovo sabe-o perfeitamente. Desiludam-se também os que pensam que manobras conjuntas perto da fronteira russa para manter a prontidão podem intimidar o Kremlin.
As tropas russas, hoje, quando se movimentam junto da fronteira com a Ucrânia não estão em manobras para manter a prontidão das tropas, estão apenas a advertir, para não dizer intimidar. Só ninguém sabe onde é que Vladimir Putin traçou a tal linha vermelha. E é bom que não se venha a saber.