15 de Agosto, 2011
No próximo mês de Setembro os países da OTAN vão reavaliar a controversa acção militar que alguns países da Aliança têm estado a desenvolver em apoio do grupo rebelde líbio. Se Obama não enfrenta uma questão delicada, o mesmo não podem dizer Sarkozy e Cameroon.
A acção militar na Líbia nunca foi um assunto pacífico dentro da OTAN. Sarkozy avançou sozinho na aventura procurando um lugar na cena internacional. Claro que os ingleses nunca deixariam que os franceses assumissem um papel liderante, e entraram no baile. Os americanos, por arrasto, enviaram umas fragatas, lançaram uns mísseis e puseram-se a andar. Aos franceses e ingleses uma presença simbólica de alguns países europeus e um comando entregue à OTAN veio salvar as aparências. O que se passou até agora demonstrou a total incompreensão dos chamados países ocidentais face à região. O Egipto não consegue estabilidade, na Tunísia a situação é apenas ligeiramente melhor. A Síria está a passar por um processo complicado e numa zona consideravelmente sensível.
Na Líbia, porém, a situação é particularmente sensível para alguns países: os que se envolveram no conflito em apoio daquilo que viria a ser supostamente aglutinado pelo Conselho Nacional de Transição, e os que precipitadamente acorreram ao reconhecimento internacional deste Conselho.
O reconhecimento parou subitamente com o assassinato do general Abdul Fattah Younes, antigo apoiante de Kadahfi, que conseguiu dar alguma organização às milícias tribais que foram mobilizadas contra o dirigente líbio.
A seguir ao assassínio, a tribo de Younes insurgiu-se ameaçando ainda mais o Conselho Nacional de Transição. Este, por seu turno, viu-se obrigado há dias a proceder a uma remodelação substancial dos seus membros para tentar evitar as revoltas tribais, o que está longe de estar garantido.
Um pouco por todo o lado surgem relatos de actos de vingança tribal, do reacender de rivalidades que até aqui eram geridas pelo coronel Kadahfi.
A chamada “Primavera Árabe” está, de facto, longe de ser algo consistente, em particular na Líbia, onde ao fim de seis meses de confrontos os rebeldes só conseguem qualquer progresso quando têm apoio aéreo da França ou da Grã-bretanha. A violência mantém-se e a instabilidade aumenta. Uma instabilidade que não beneficia ninguém, muito menos os revoltosos.
As lealdades mudam rapidamente de campo se e quando o momento chegar. O momento pode muito bem estar perto. Muammar Kadahfi, apesar de todos os seus erros e defeitos, transformou num país aquilo que era um território dividido pelas tribos beduínas. A mão de ferro com que geriu essas rivalidades e o desenvolvimento que proporcionou ao país garantiram uma estabilidade precária. A intervenção externa, mais do que a nebulosa rebelião, puseram essa estabilidade em causa.
Setembro era a data limite das operações da NATO. Com os Estados Unidos de fora há já meses, e com os problemas financeiros da França e Grã-Bretanha, muito dificilmente as acções militares poderão continuar.
Por outro lado, há meses atrás o Conselho Nacional de Transição conseguira apresentar-se com uma imagem transparente, que vai ficando bastante turva à medida que se revelam as suas fragilidades intrínsecas e que é evidente a sua falta de controlo sobre as milícias, que se apresentam novamente como milícias tribais, e não a força organizada que o malogrado general pretendeu, e minimamente conseguiu.
Ambos dirigentes europeus estão com problemas internos difíceis. David Cameroon teve uma semana negra com os distúrbios em Londres e outras cidades, e que só ao fim de quatro dias foram controlados graças à intervenção de 16 mil polícias. Nicholas Sarkozy tem as presidenciais à vista, um défice excessivo, e uma França pouco disposta a gastar dinheiro com uma guerra que ainda não percebeu.
O maior problema para estes dois homens que tentaram estabelecer uma credibilidade externa com esta acção militar, sobretudo Sarkozy, é a forma como vão sair da aventura em que se meteram. Os restantes que se precipitaram a reconhecer o Conselho Nacional de Transição como legítimo representante da Líbia, vão ficar no mato e sem cachorro. Talvez isso dê mais algum tempo às acções militares, mas não porá fim às rivalidades tribais que despertam.