Mostrar mensagens com a etiqueta Nuclear. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Nuclear. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Nuclear iraniano teve um relatório por medida


Benjamim Formigo
14 de Novembro, 2011

Importa esclarecer antes do mais que não vejo os iranianos como meninos de coro nem a possibilidade de haver mais um país com armas nucleares é uma perspectiva simpática. Na verdade a ameaça apenas se adensa.
Dito isto não é possível ignorar que a Agência Internacional de Energia Atómica produziu um relatório sobre a probabilidade de o Irão estar a desenvolver, e em estágio aparentemente avançado, um programa nuclear militar que encaixa perfeitamente nas acusações americanas.
O relatório divulgado na passada terça-feira encontra finalmente aquilo que chama indícios sólidos de que o Irão está a desenvolver um programa militar, que procedeu a testes de detonadores específicos, que ultrapassou a fase de estudos teóricos e que “existem fortes indícios de um programa de desenvolvimento de armas nucleares”.
Nunca a AIEA foi tão longe exactamente por tirar conclusões sem denunciar um único laboratório ou local de produção dessas armas nem afirmar que o Irão domina a tecnologia.
Ao fim de dois anos de presidência da Agência por Yukira Amano, um antigo diplomata japonês, a AIEA produziu um relatório concorrente com análises da CIA sobre as alterações no programa nuclear iraniano e o seu carácter militar.
Essa coincidência levou os autores do relatório a ter uma especial preocupação na demonstração da sua credibilidade.
O programa nuclear iraniano não é um segredo. Não é de admirar que um país que se encontra junto a duas potências nucleares antagónica entre si (Paquistão e Índia) e perto de outra potência nuclear (Israel) procure ter a sua própria resposta. Se esse programa é uma ameaça de agressão ou uma dissuasão pode ser debatível. Por definição um arsenal nuclear é sempre uma ameaça. Com o final da Guerra Fria e os desvios da Administração Bush o Tratado de Não Proliferação ficou obsoleto e nada foi feito para a criação de mecanismos impeditivos da proliferação de armas nucleares. Com a colaboração directa e/ou indirecta – sublinhe-se das grandes potências. Não há inocentes.
Seja como for este relatório de uma agência das Nações Unidas faltava para legitimar uma escalada no debate sobre a posição face ao Irão. Estados Unidos e Israel, com a cobertura habitual da NATO, debatem, de acordo com o “New York Times”, se a melhor resposta será o aumento da pressão diplomática, novas sanções, sabotagem ou acção militar.
Nenhum dos países envolvidos neste debate tem qualquer capacidade diplomática junto do Irão que isolaram desde a queda do Xá. O maior erro em diplomacia é precisamente o corte de canais de influência política e económica, como sucedeu após a crise dos reféns americanos e se manteve depois disso. Nenhum dos países envolvidos tem capacidade de exercer mas sanções, nem o Irão e os iranianos parecem sensíveis às sanções. Uma sabotagem não é fácil pois nenhum local está claramente identificado e se fosse possível isso não iria pôr termo ao programa mas torná-lo ainda mais clandestino. Quanto a uma acção militar o Irão em si mesmo não é o Iraque ou o Afeganistão e a sua posição geoestratégica é bem complicada para este tipo de acção.
Curioso é que este relatório tenha sido concluído e entregue quando os Estados Unidos preparam a retirada do Iraque e do Afeganistão estudando o reposicionamento de pelo menos quatro mil homens na Península Arábica e reforçando a presença naval na região do Golfo. Os quatro mil homens seriam posicionados a partir do final do ano na Arábia Saudita, Qatar, Omã. A Quinta Esquadra, baseada no Bahrein, seria reforçada, em navios e aeronaves. Tal como sucedeu na Europa durante a Guerra Fria os EUA estudam o pré-posicionamento de material de guerra, desde munições a blindados, armas pesadas, etc., na região, facilitando deste modo qualquer operação aerotransportada de tropas para operarem o equipamento em caso de crise.
A Rússia e a China quase numa linguagem dos tempos da Guerra Fria advertiram que não aceitariam uma operação militar contra o Irão. Porém a Rússia também não quer mais uma potência nuclear à porta das traseiras. Ideia que também não é muito simpática para a Índia sobretudo se houver uma melhoria de relações entre o Irão e o Paquistão.
O reposicionamento militar norte-americano protege evidentemente os interesses no petróleo e os regimes favoráveis na região e que têm sido abalados pelas movimentações da chamada “primavera árabe”, um nome muito pouco apropriado para o que se tem passado.
Também não deixa de ser interessante que para além das coincidências já referidas os Estados Unidos se envolvam numa nova despesa federal que não facilita o combate ao défice, que seria cortado com a retirada do Iraque. Esta retirada vem obviamente libertar uma verba muito considerável num país cujo défice é muito superior ao da zona euro. As muitas críticas ao défice americano não serão extensivas à despesa deste reposicionamento militar. Os interesses em jogo são imensos e o complexo militar-industrial só tem a ganhar e com isso ganha o sector financeiro.
A crise financeira mundial necessita de um conflito, o tal salto em frente que por mais de uma vez no século passado e durante a Guerra Fria permitiu mudar o ciclo. Isso é porventura o factor conjuntural mais importante da gestão de alto risco que se desenha para a crise anunciada com o Irão. A Coreia do Norte e a sua proximidade com a China colocam esse problema noutro patamar.
Quem vai beneficiar, seja qual for o caminho, não são obviamente os países em desenvolvimento.

Read more ...