14 de Novembro, 2011
Dito isto não é possível ignorar que a Agência Internacional de Energia Atómica produziu um relatório sobre a probabilidade de o Irão estar a desenvolver, e em estágio aparentemente avançado, um programa nuclear militar que encaixa perfeitamente nas acusações americanas.
O relatório divulgado na passada terça-feira encontra finalmente aquilo que chama indícios sólidos de que o Irão está a desenvolver um programa militar, que procedeu a testes de detonadores específicos, que ultrapassou a fase de estudos teóricos e que “existem fortes indícios de um programa de desenvolvimento de armas nucleares”.
Nunca a AIEA foi tão longe exactamente por tirar conclusões sem denunciar um único laboratório ou local de produção dessas armas nem afirmar que o Irão domina a tecnologia.
Ao fim de dois anos de presidência da Agência por Yukira Amano, um antigo diplomata japonês, a AIEA produziu um relatório concorrente com análises da CIA sobre as alterações no programa nuclear iraniano e o seu carácter militar.
Essa coincidência levou os autores do relatório a ter uma especial preocupação na demonstração da sua credibilidade.
O programa nuclear iraniano não é um segredo. Não é de admirar que um país que se encontra junto a duas potências nucleares antagónica entre si (Paquistão e Índia) e perto de outra potência nuclear (Israel) procure ter a sua própria resposta. Se esse programa é uma ameaça de agressão ou uma dissuasão pode ser debatível. Por definição um arsenal nuclear é sempre uma ameaça. Com o final da Guerra Fria e os desvios da Administração Bush o Tratado de Não Proliferação ficou obsoleto e nada foi feito para a criação de mecanismos impeditivos da proliferação de armas nucleares. Com a colaboração directa e/ou indirecta – sublinhe-se das grandes potências. Não há inocentes.
Seja como for este relatório de uma agência das Nações Unidas faltava para legitimar uma escalada no debate sobre a posição face ao Irão. Estados Unidos e Israel, com a cobertura habitual da NATO, debatem, de acordo com o “New York Times”, se a melhor resposta será o aumento da pressão diplomática, novas sanções, sabotagem ou acção militar.
Nenhum dos países envolvidos neste debate tem qualquer capacidade diplomática junto do Irão que isolaram desde a queda do Xá. O maior erro em diplomacia é precisamente o corte de canais de influência política e económica, como sucedeu após a crise dos reféns americanos e se manteve depois disso. Nenhum dos países envolvidos tem capacidade de exercer mas sanções, nem o Irão e os iranianos parecem sensíveis às sanções. Uma sabotagem não é fácil pois nenhum local está claramente identificado e se fosse possível isso não iria pôr termo ao programa mas torná-lo ainda mais clandestino. Quanto a uma acção militar o Irão em si mesmo não é o Iraque ou o Afeganistão e a sua posição geoestratégica é bem complicada para este tipo de acção.
Curioso é que este relatório tenha sido concluído e entregue quando os Estados Unidos preparam a retirada do Iraque e do Afeganistão estudando o reposicionamento de pelo menos quatro mil homens na Península Arábica e reforçando a presença naval na região do Golfo. Os quatro mil homens seriam posicionados a partir do final do ano na Arábia Saudita, Qatar, Omã. A Quinta Esquadra, baseada no Bahrein, seria reforçada, em navios e aeronaves. Tal como sucedeu na Europa durante a Guerra Fria os EUA estudam o pré-posicionamento de material de guerra, desde munições a blindados, armas pesadas, etc., na região, facilitando deste modo qualquer operação aerotransportada de tropas para operarem o equipamento em caso de crise.
A Rússia e a China quase numa linguagem dos tempos da Guerra Fria advertiram que não aceitariam uma operação militar contra o Irão. Porém a Rússia também não quer mais uma potência nuclear à porta das traseiras. Ideia que também não é muito simpática para a Índia sobretudo se houver uma melhoria de relações entre o Irão e o Paquistão.
O reposicionamento militar norte-americano protege evidentemente os interesses no petróleo e os regimes favoráveis na região e que têm sido abalados pelas movimentações da chamada “primavera árabe”, um nome muito pouco apropriado para o que se tem passado.
Também não deixa de ser interessante que para além das coincidências já referidas os Estados Unidos se envolvam numa nova despesa federal que não facilita o combate ao défice, que seria cortado com a retirada do Iraque. Esta retirada vem obviamente libertar uma verba muito considerável num país cujo défice é muito superior ao da zona euro. As muitas críticas ao défice americano não serão extensivas à despesa deste reposicionamento militar. Os interesses em jogo são imensos e o complexo militar-industrial só tem a ganhar e com isso ganha o sector financeiro.
A crise financeira mundial necessita de um conflito, o tal salto em frente que por mais de uma vez no século passado e durante a Guerra Fria permitiu mudar o ciclo. Isso é porventura o factor conjuntural mais importante da gestão de alto risco que se desenha para a crise anunciada com o Irão. A Coreia do Norte e a sua proximidade com a China colocam esse problema noutro patamar.
Quem vai beneficiar, seja qual for o caminho, não são obviamente os países em desenvolvimento.