25 de Julho, 2011
As acções atribuídas a um jovem norueguês de 32 anos, inicialmente reivindicadas por um pseudo grupo islâmico, poderiam ser minimizadas como um acto isolado. Aparentemente pelo menos o Primeiro-Ministro (PM) norueguês, Jens Stoltenberg, está a ver um pouco mais longe e parece consciente dos riscos da tentação de impor medidas restritivas à liberdade a pretexto de prevenir o terrorismo.
A análise dos atentados na Noruega está no início e é muito incipiente. As centrais de informação veiculam a ideia de que foram levados a cabo por um só indivíduo. A polícia, mais prudente, não afasta a possibilidade de haver cúmplices. Na realidade é difícil entender como um único homem possa cometer um atentado da dimensão do que se verificou junto do gabinete do PM norueguês, seguir calmamente para uma ilha a 40 km da capital e andar hora e meia aos tiros matando nove dezenas de jovens. Muito está por explicar. A verdade é que na Escandinávia e nos países nórdicos os movimentos de extrema-direita representados por partidos têm conseguido com uma retórica demagógica ascender à legitimidade através do voto dos cidadãos permeáveis ao discurso xenófobo. É assim que se apresentam como forças parlamentares com uma palavra a dizer na Finlândia, Dinamarca, Suécia e Noruega. O exemplo do Front National francês espalha-se a países onde os problemas sociais são meros incidentes quando comparados com o resto da Europa.
Os políticos que dominam a Europa, como Merkel, Sarkozy e lateralmente David Cameron rejeitaram um por um o multiculturalismo que caracterizou a Comunidade Europeia. Mas isso não chegou, face a anos de propaganda da extrema-direita, e provavelmente só trará mais problemas num Continente de asilo e acolhimento e que necessita de mão-de-obra imigrante.
Jens Stoltenberg pareceu consciente de todos os riscos que estes ataques envolvem e logo nas primeiras horas advertiu para a ameaça que ele coloca ao tecido social da Noruega, o seu apego às liberdades individuais e sentimento de segurança que o país vivia. O debate que se terá de seguir não pode levar a um estado policial. O PM tem agora de gerir uma contradição entre os seus concidadãos: a vontade de terem fronteiras mais fechadas e as vantagens que 80 por cento vêm na convivência escolar dos seus filhos com os filhos de imigrantes e portanto outras culturas, outros hábitos.
Os serviços secretos europeus e obviamente os noruegueses (não esqueçamos que o pais é membro da NATO e tem tropas no Afeganistão e um envolvimento remoto na Líbia) seguem as tendências da CIA, em particular após o 11 de Setembro. O inimigo designado é o fundamentalismo islâmico e os recursos, humanos e financeiros, são orientados na recolha e tratamento dessa informação. O crescimento de uma extrema-direita parlamentar fez esquecer uma outra extrema-direita radical não exclusivamente neonazi.
Na Alemanha, supostamente atenta a esses movimentos desde o final da II Guerra Mundial, o jornal “Berliner Zeitung” denunciou um aumento de ataques violentos de movimentos neonazis a instalações de partidos de extrema-esquerda, em particular na antiga Alemanha do Leste. Não se conhecem medidas.
Na Europa, ao contrário dos anos de chumbo das décadas de 60 e 70, os perpetradores dos actos terroristas de hoje não visam objectivos políticos específicos. Visam unicamente espalhar o medo e servir-se dele. As sociedades abertas são por definição vulneráveis e não existe de facto um sistema de segurança absolutamente eficiente, a menos que os direitos e as liberdades individuais sejam coarctados. Os Governos sentem a obrigação de proteger os seus cidadãos e manter a ordem que permita o progresso institucional, muitas vezes divergente do progresso e bem-estar dos cidadãos. Aqui surge a janela de oportunidade. O cidadão europeu hoje é um elemento descontente, indignado e mesmo revoltado com a situação da economia europeia afogada pelas exigências da Finança.
O sentido de revolta tolda o raciocínio e acaba por deixar passar as vozes e até acções extremistas. Essa revolta tem origens diversas mas a sua energia converge na radicalização. Na Noruega a rede social é exemplar, o sistema de saúde universal, a escolaridade excepcional. Nos restantes paíss nórdicos a situação é semelhante. Isso não impede uma revolta que está por estudar em profundidade, pois é bem mais complexa que a grega, a indignação espanhola e as que se vierem a seguir nos países endividados da zona euro e no Leste europeu. O primeiro ano deste Milénio ficou marcado pela irracionalidade do medo após o atentado do 11 de Setembro. Nos Estados Unidos o “habeas corpus” foi limitado e criadas prisões especiais fora do território americano (Guantânamo) para que legalmente os detidos nessas prisões não fossem abrangidos pelas garantias constitucionais norte-americanas. Conseguirá a Europa resistir às mesmas tentações?
Até agora os defensores das liberdades fundamentais têm-se insurgido em vão contra detenções que consideram arbitrárias, leis de excepção que se pretendem introduzir, ou a eventual limitação das garantias individuais de defesa, nomeadamente do “habeas corpus”. As primeiras baixas desta luta têm sido as liberdades fundamentais. O medo, natural perturbador do raciocínio, inibiu a defesa intransigente dos valores que o terrorismo procura destruir e as autoridades instituídas se têm mostrado dispostas a limitar, ironicamente, em defesa da luta contra o terrorismo.
O aviso fica, se houver cedências e as autoridades optarem pela forma mais fácil de dificultar o terrorismo, ou seja restringir as liberdades dos cidadãos, então o terrorismo estará a ganhar.