30 de Julho, 2013
A situação de instabilidade crescente desde que os militares
afastaram o Presidente Mohamed Morsi acentuou-se no último fim de
semana no Egipto e espalhou-se à Tunísia e à Líbia, como seria de
esperar pela influência histórica do Egipto no mundo muçulmano.
A vitória da Irmandade após a deposição de Hosni Mubarak não foi uma surpresa. Após um longo período banida, a organização regressou à actividade política, ainda com Mubarak, e era a única força, fora do ciclo político do poder, que tinha a organização necessária para concorrer e vencer eleições, capitalizando mesmo no descontentamento entre os que sustentavam um governo laico. Como não foi uma surpresa a reacção dos militares quando o poder começou a introduzir regras religiosas num regime que supostamente seria laico.
A capacidade de mobilização da Irmandade Muçulmana, apesar de os militares terem detido uma parte dos seus líderes, trouxe para a rua tantos milhares de pessoas quantos os que apoiavam a pronunciamento que depôs o Presidente Mursi. Não espanta pois que nas ruas se fale tanto em “morrer como mártir”.
A interpretação que os novos islamitas fazem do Corão clama por esses mártires.Enquanto no Cairo o regime é deposto pelas Forças Armadas, na Tunísia o segundo opositor laico ao regime foi assassinado e o crime atribuído ao partido no poder, considerado islâmico e moderado. As ruas de Túnis encheram-se e em frente ao Parlamento manifestantes favoráveis ao regime confrontam-se com grupos laicos opositores, obrigando à intervenção das forças de segurança. A Tunísia foi o primeiro país em 2011 a conhecer as mudanças da chamada “primavera árabe”. As mudanças, tal como no Egipto e pior ainda na Líbia, não trouxeram qualquer melhoria na qualidade de vida dos tunisinos, nem na qualidade política do sistema. Pelo contrário, a exemplo do que sucedeu no vizinho Egipto, as receitas turísticas – de que o país dependia fortemente – caíram a pique. Há cinco meses atrás foi assassinado um opositor laico do regime, e na semana passada outro, este de maior peso político e prestígio pessoal. Entraves que eram a uma islamização, mesmo que tímida, das regras do jogo político. Na Líbia uma manifestação promovida pela Irmandade Muçulmana do país gerou uma situação que permitiu a fuga de um milhar de prisioneiros encarcerados perto de Benghazi. Uma situação extremamente confusa que vem apenas complicar ainda mais as dificuldades que o Governo em Trípoli tem em controlar as milícias armadas que se espalham pelo país. Milícias que estiveram na primeira linha para derrubar Kadhafi e que de facto controlam parcelas do país onde as forças de segurança têm enorme dificuldade em se impor, apesar do apoio que têm recebido na rua de manifestações em seu favor.
A pergunta permanece: será possível um Islão político e democrático? A resposta demora a surgir, leva a intervenções militares na ordem pública, e estas, quando ocorrem, não têm, nunca ou só muito raramente, a moderação que se pretende das forças da ordem. Uma questão de treino em função de objectivos. O objectivo das Forças Armadas é a defesa, e não a ordem pública.