9 de Dezembro, 2013
Mais do que a morte de um homem de Estado, escassos nos dias
que correm, com a morte de Nelson Mandela desapareceu uma das últimas
referências morais não só de África como da Humanidade em geral.
Preso pelo regime do apartheid e enviado para a prisão da Ilha das Focas em 1964 permanecendo encarcerado até 1990. No cárcere enviou mensagens e escreveu livros que clandestinamente foram passados para o exterior e divulgados sobretudo fora da África do Sul. Mandela, como ele escreveu, tornou-se o preso mais conhecido sem nunca ser visto em público. Da sua mensagem ficou clara a intenção de construir uma Nação onde todos tivessem lugar. Profundo conhecedor da História do seu país fez um enquadramento político do futuro sem esquecer o passado e sabendo relativizar as situações.
Em Agosto de 1990 o Presidente José Eduardo dos Santos usou a sua influência na SADC e junto dos Países da Linha da Frente para que o último Presidente branco da África do Sul tivesse uma oportunidade de mudar pacificamente o regime. “A África do Sul é um país em mudança. O Presidente De Klerk tem manifestado boas intenções e até tem dado alguns passos que fazem crer que está em condições de as realizar.
A nossa posição nesta altura é a de apoiar todos os esforços dos governantes da África do Sul orientados para a abolição do ‘apartheid’, a democratização do Estado e da sociedade sul-africana e, naturalmente, apoiar todas as forças patrióticas do ANC que durante todos estes anos lutaram para que chegasse este momento de contactos, conversações e discussões políticas com os representantes do governo, para o estabelecimento de uma nova ordem na África do Sul.”, afirmou-me numa longa entrevista em que abordou várias questões de política internacional.
Angola foi um dos países que mais sentiu os efeitos da luta do apartheid para sobreviver. Desde a independência, em 1975, o regime de Pretória efectuava raids em território angolano através da fronteira com a Namíbia ocupada ilegalmente, invocando o direito de perseguir os guerrilheiros do ANC apoiados por Angola, mais tarde o envolvimento do regime do apartheid com a UNITA sustentou a guerra no país durante décadas.
Com a independência da Namíbia F.W. De Klerk, Presidente da África do Sul, conseguiu ganhar o benefício da dúvida que permitiu a libertação de Nelson Mandela. De Klerk não estava seguro do apoio do seu próprio partido, o Partido Nacional, às reformas que iniciara. Mas necessitava de um interlocutor representativo e respeitado pela maioria negra, como necessitava de uma abertura internacional que viria através de Luanda e sem a qual a transição teria sido extremamente difícil.
Nelson Mandela mostrou rapidamente o seu valor moral e político para que o seu país conhecesse uma transição tranquila, ou relativamente tranquila.Dois anos depois da sua libertação e da legalização do ANC e outros partidos Mandela viu De Klerk cumprir a primeira etapa do desmantelamento do apartheid: a 17 de Março de 1992 o referendo entre a minoria branca onde o fim do regime segregacionista foi aprovado por 68,73 por cento contra 31,27 por cento, uma percentagem que só foi possível por uma parte considerável dos afrikaners (boers) ter votado contra o apartheid.
Mais uma vez a moderação, o bom senso e o conhecimento histórico do país de Nelson Mandela foi imprescindível para que uma considerável percentagem de boers tivesse votado para pôr termo ao regime do apartheid.
A transição não era, nem foi fácil e só a paciente calma de Mandela e a confiança por ele conquistada conseguiu travar os mais apressados. Dois anos depois em Abril de 1994 realizou-se o sonho de Nelson Mandela, um homem um voto, as primeiras eleições livres e democráticas sul-africanas que levaram o ANC ao Governo e o próprio Mandela à Presidência, um cargo que desde logo anunciou iria ocupar por um só mandato. Quatro anos depois passou a Presidência a Thabo Mbeki. Retirou-se oficialmente para se dedicar a obras sociais, contudo Nelson Mandela estava por detrás dos acontecimentos sempre que uma crise se adivinhava ou quando era necessário intervir internacionalmente.
Durante a sua Presidência teve início o trabalho da Comissão da Verdade e Reconciliação. Nelson Mandela contornou os desejos de vingança de alguns através desta comissão independente que ouviu e convocou a depor os responsáveis dos excessos cometidos pelo regime separatista. Todavia essa comissão não visava acusar e condenar. Visava apenas apurar a verdade, obrigar cada um a assumir as suas responsabilidades e viver publicamente com elas. Por utópico que pudesse parecer resultou.
Nelson Mandela, talvez contra a sua vontade, tornou-se o símbolo da consciência da Nação e a sua reserva moral mas também uma boa consciência da África. Muitos são os que já disputam a sua herança moral, poucos os que a merecem.