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terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Um ano de continuidade sem brilho nem glória

Benjamim Formigo |
31 de Dezembro, 2013

O ano de 2013 termina como começou, sem brilho nem glória sem que o Mundo e o pensamento dominante se alterassem, nem a situação humanitária evoluísse para melhor.
Bem pelo contrário, a situação dos refugiados sírios agrava-se dramaticamente com a chegada do Inverno e a falta de recursos e no Sudão do Sul, onde a independência foi tema de celebração, os confrontos fazem retomar correntes de refugiados de há décadas.
Como escrevi há um ano: Apesar de bastante combalido, com uma baixa oximetria, saturação de CO2, dissimetrias sociais, sociogeográficas, excesso populacional, violência recorrente, erros outros e má fortuna, a Terra continua a fazer o que Galileu disse e roda em torno de Sol transportando os seus incompreensíveis passageiros.
Barack Obama foi reeleito, também ele sem brilho nem glória.
As chamadas “Primaveras Árabes” transitam do passivo de 2012 para o activo de 2013 que as passa a 2014 sem final à vista mesmo que a Rússia tenha in extremis conseguido travar a escalada do conflito, levando Damasco a aceitar um plano de entrega e destruição do seu arsenal químico. Um plano diplomático de Moscovo, aprovado pelo Conselho de Segurança da ONU e que teve o acordo do Governo sírio embora reservas da oposição no exílio.
O facto é que a chamada Conferência de Genebra não arrancou como era de esperar e os combates reacendem-se, como era previsível, na procura de posições estratégicas para uma negociação.
Por todo o Médio Oriente os acontecimentos evoluíram de mau para pior, resta saber se e quando melhoram. No Egipto o domínio da Irmandade Muçulmana levou os militares a destituírem um Presidente vinco dos militantes islâmicos, o que os levou a ir para as ruas onde os confrontos se multiplicam e agravam com alguns períodos de acalmia pelo meio.
O vazio de poder criado pela queda de Kadahfy continua dois anos depois por preencher e a oposição tornada poder mostrou-se incapaz de gerir os equilíbrios tribais que o Presidente assassinado controlou ao longo de mais de três décadas. Os bandos tribais combatentes da Líbia e extremistas islâmicos lançaram-se para Sul criando no Mali e outros países da região uma ameaça para os Governos seculares instituídos, desencadeando novos conflitos e levando nalguns casos à intervenção de forças estrangeiras, designadamente tropas francesas. Estendendo por África o conflito que varreu o Norte do continente.
O drama de África continua. O continente rico em matérias-primas é palco de interesses financeiros externos à região, que se sobrepõem à convivência e à moderação, antes optando por fomentar crises para manter discórdias e financiar a instabilidade. A crise no Sudão do Sul continuou a evoluir para uma guerra não reconhecida. A par com as instabilidades a Norte do Equador continua a crise na região dos Grandes Lagos e em particular na disputa pelas matérias primas do Congo Kinshasa. Em Moçambique a Renamo parece ter procurado reeditar, até agora sem sucesso, o regresso à guerra que a UNITA fez após as eleições de 92 e o processo de paz de Bicesse.
O final de 2013 viu desaparecer uma figura de referência mundial: Nelson Mandela.
A Europa desde a crise dos Balcãs não conhecia uma situação de instabilidade grave junto à porta como a que a Turquia sente nos últimos meses. Inicialmente pelas concessões, consideradas excessivas, feitas por Erdogan aos islamitas, depois, a encerrar o ano, em virtude de um escândalo de corrupção que obrigou o Primeiro-Ministro à substituição de 11 ministros do seu Governo.
Para que nem tudo seja negativo os EUA parecem ter, por uma vez, dado a possibilidade a um homem considerado moderado de o mostrar. O novo Presidente do Irão teve finalmente a hipótese que Washington nunca deu aos seus antecessores. O diálogo prevaleceu e algumas sanções foram levantadas em troca de concessões de Teerão sobre o seu programa nuclear, mesmo contra a vontade e os avisos de Israel e por razões diferentes da Arábia Saudita e seus aliados do Golfo.
O ano de 2014 será testemunho de um desenvolvimento que pode mudar muito os equilíbrios na região, uma mudança que pode ter vários sentidos em função das oposições que vão tentar torpedear as conversações. E o que se passar neste diálogo influencia as negociações dormentes sobre uma resolução política da situação na Síria.
Os problemas vão continuar, quer para Leste quer para Sul. A Leste Paquistão e Índia mantiveram-se relativamente calmos, dentro da anormalidade de relações entre Islamabad e Nova Deli com a Índia a progredir económica e demograficamente para o estatuto de gigante consolidando o estatuto de potência regional. No Paquistão a situação tem sido extremamente complicada dada a tradicional falta de autoridade do Governo nas províncias limítrofes com fronteiras com o Afeganistão, onde Obama tem ordenado a multiplicação de ataques com aviões não tripulados (drones). A área da Indochina e Malásia mantêm-se discretamente fora das noticias. Em Myanmar a libertação de Aung San Suu Kyi e as eleições intercalares em 2012 trouxeram alguma acalmia e reconhecimento internacional. Todavia na turística Tailândia os ânimos têm estado exaltados desde o início da crise política em 2008. A vitória eleitoral do PheuThai, por uma esmagadora maioria, em 2011, apenas abrandou a contestação que ressurgiu este ano e se reacendeu em Dezembro após a dissolução do Parlamento. À contestação política não é alheia a herança separatista do Sul após o final da II Guerra Mundial.
A China em 2013 mostrou-se determinada a afirmar a sua posição como potência económica e militar na cena internacional e em particular no Mar da China. Em Março um novo líder ascendeu ao poder em Pequim, Xi Jinping. O novo dirigente, eleito em Março passado, sublinhou a importância incontornável do país, sugerindo uma partilha de influência dos EUA que significava o final da hegemonia americana nos mares. Para os aliados de Washington na região, do Japão à Austrália, a situação financeira nos EUA levanta sérias questões sobre a capacidade americana de continuar a garantir as alianças militares e de defesa que existem desde o final da II Guerra Mundial e se multiplicaram e consolidaram durante a Guerra Fria.
A verdade é que ao longo do ano a marinha chinesa tem feito incursões em todas as zonas em que Pequim considera ter interesses estratégicos ou direitos territoriais, das Filipinas ao Norte do Mar da China, criando situações potencialmente conflituosas com o Japão o a Coreia do Sul. No arco Ásia Pacífico a grande incógnita mantém-se na Coreia do Norte e na sua atitude agressiva apoiada por um arsenal nuclear de dimensões desconhecidas. A América do Sul foi varrida por uma sucessão de acontecimentos dos quais salientamos a morte de Hugo Chávez, opositor do imperialismo e defensor da identidade sul-americana. Odiado pela direita, adorado pelo povo, desenquadrado de uma esquerda tradicional, Chávez fez estremecer o mundo financeiro. Ali perto o Brasil está a passar por uma sucessão de manifestações que põem em causa os partidos tradicionais e os políticos.
Um novo Papa parece querer dar uma nova imagem e porventura uma nova orientação à Igreja Católica. Mudar a Igreja Católica é bem mais difícil do que esperar modificações radicais no Kremlin. Yuri Andropov, após a morte de Brejnev, conseguiu algumas vitórias que abririam o caminho a Mikhail Gorbatchov. O Papa Francisco, em teoria, dispõe de mais tempo que Andropov e os católicos em geral sentem que a sua igreja tem de mudar.
Mudanças que o mundo financeiro não conheceu em 2013. O economia financeira parece não ter sofrido com  a crise económica mundial e está determinada a manter o rumo em 2014. As crises económicas na Europa e EUA apenas enriqueceram a economia financeira que emprestou dinheiro aos países em crise para se recomporem e com esses empréstimos vai ganhar dividendos chorudos nas próximas décadas.
Quanto ao ambiente exasperadamente pode-se dizer apenas que estamos conversados. Nem mesmo as catástrofes naturais de 2013 irão mudar o rumo definido pela economia financeira. O ano que termina só não foi um desapontamento porque os que o antecederam também foram absolutamente desapontadores.
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quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

O Mundo que herdamos com a crise


Benjamim Formigo
8 de Dezembro, 2010


Uma vintena de anos depois do fim da Guerra Fria, da divisão do Mundo em blocos de influência, da estratégia do conflito indirecto entre superpotências, estamos prestes a legar aos nossos filhos e netos um Mundo bem mais complicado e instável.
A crise financeira, da responsabilidade de duas centenas de “famílias empresariais”, ou seja, menos de 200 mil pessoas, está a atingir, há mais de dois anos, o Mundo como um todo. A situação agrava-se quando os autoproclamados especialistas nos dizem e pregam aos quatro ventos que o fim da crise não é para amanhã, nem para depois, ou depois. As agências de notação classificam Governos, países, bancos, empresas, como se fossem porta-vozes divinos. Na semana passada, os especuladores ganharam fortunas com as dívidas soberanas dos Estados e as populações pagam ficando cada vez mais pobres e descapitalizadas.
O problema não é do mundo desenvolvido. É global. Dizia-se dantes que quando a economia dos Estados Unidos se constipava o Mundo apanhava uma pneumonia. O problema é que a doença atinge, em simultâneo, as economias americanas e europeia. Setecentos milhões de consumidores, é disso que estamos a falar. De 700 milhões de consumidores, um universo simultaneamente de aforradores e de pequenos investidores. Acrescentemos agora o Japão a essa crise. Temos de facto um belo panorama.
A crise porém não se fica pelos EUA, UE e Japão. A China, a grande potência económica, sedenta de mercados para escoar produtos e de energia o mais barata possível para os produzir bem como mercados onde possa investir para rentabilizar o seu enorme excedente, não vai escapar à crise.
A China lançou-se na produção intensiva de produtos baratos, graças à sua disponibilidade, quase inesgotável, de uma mão-de-obra barata. Os consumidores, na Europa – o maior cliente da China – e nos Estados Unidos lançaram-se na procura de produtos chineses baratos e, por isso mesmo, substituíveis com maior facilidade mesmo que o seu prazo de vida útil possa ser inferior.
Os mercados chineses, abertos ao investimento estrangeiro, nunca se abriram ao consumo dos bens produzidos pelos parceiros comerciais, excepto os de alta tecnologia. Assim, os chineses caminham para uma situação em que a sua produção tem de ser dramaticamente reduzida, uma vez que o mercado consumidor não tem capacidade financeira para a absorver. As crises lançadas sobre os países têm sempre o consumir/contribuinte como objecto mais afectado.
O consumidor/contribuinte retrai as despesas, deixa de programar investimentos, mesmo os pequenos, guarda a sua liquidez para os dias mais frios que receia.
Quem vai pagar a crise e durante quanto tempo? Ou será melhor colocá-la na coluna dos incobráveis? Claro que para os países em desenvolvimento, as chamadas economias emergentes, esta crise tem custos extremamente elevados. Não só não conseguem atingir os níveis dos chamados desenvolvidos como vêm as receitas diminuídas e o desenvolvimento afectado. Um dos encantos da globalização. O Ambiente, até há um Dia Mundial do Ambiente. Se avaliássemos as perspectivas do ambiente pelo número de conferências e protocolos seríamos levados a acreditar que é uma das maiores preocupações globais e que estaríamos a caminho de recuperar a destruição ambiental que ao longo do último século foi feita. O que sobra em número de reuniões, acordos de princípio, protocolos, falta em qualidade e cumprimento.
A destruição do ambiente é um produto global, um problema global, embora a contribuição para a degradação seja assimétrica. As soluções, porém, nunca conseguem um apoio global. Todos os acordos têm um SE ou um MAS em qualquer lado, introduzido por um ou outro país ou conjunto de países que permite o incumprimento.
Enfim, no final de 2010 não estamos melhor, longe disso, do que em 2009 e é necessário ser muito ingénuo para acreditar que estas linhas estarão desactualizadas no final de 2011. Talvez seja da idade, mas não vejo grandes motivos para ser optimista. Pelo contrário, existem, sim, motivos para lutar.
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