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sábado, 19 de novembro de 2011

O pouco admirável Mundo Novo


Benjamim Formigo
19 de Novembro de 2011

O Século XXI não trouxe um Mundo Novo admirável. Dentro de si desenvolve-se como um polvo uma crise surda sem opositores. Mesmo os que estão conscientes do vazio optam pelo silêncio. Sem figuras com credibilidade e carisma o novo Século começa na época do politicamente correcto, da defesa violentada da carreira dos medíocres. NO domínio do financeiro, não eleito, sobre o politico, eleito.
O Século XX foi pleno de figuras de referência, de personalidades credíveis e carismáticas. Personalidades cujas declarações, em si mesmas, mobilizavam a sociedade. O final da Segunda Guerra Mundial trouxe consigo um imenso movimento de solidariedade transversal no Ocidente. A Guerra Fria foi gerida sem incidentes embora os riscos se acentuassem e muitas vezes tivessem atingido pontos críticos. Havia obviamente divisões e contestações politicas, mas existia sobretudo diálogo, debate de ideias e tolerância, exceptuando o esquecido período MacCartista nos Estados Unidos. A dinâmica gerada após a Segunda Guerra foi apenas ensombrada por dois regimes ditatoriais, em Portugal e Espanha.
Os últimos 15 a 20 anos do Século XX e os primeiros dez deste século viram progressivamente desaparecer a solidariedade social, o papel social da empresa. Viram cair o Muro de Berlim e assistiram às reformas de Mikhail Gorbatchov e ao desmoronar do Império Soviético, o fim do apartheid, o divórcio de veludo da Checoslováquia. A violência na antiga Jugoslávia, o separatismo checheno, o final da interminável guerra entre o Irão e o Iraque.
Aconteceu queda de Saddam Hussein, a nuclearização da Coreia do Norte, a ascensão do Irão a pré-potência nuclear, na senda da ameaça dos seus vizinhos Paquistão e Índia, ambos nucleares e com artificialmente insolúveis problemas. A China ascendeu a potencia económica e não esconde as suas ambições expansionistas, mas ao contrario dos expansionismos anteriores que davam primazia às armas, a nova China usa o dinheiro.
Com Ronald Reagan e a baronesa Thatcher, o Mundo começou a mudar caminhando para onde hoje se encontra. Da Casa Branca e do número 10 da Downing Street vieram as primeiras medidas de entrega do sector público à iniciativa privada, a emblemática destruição do serviço Nacional de Saúde britânico, as reduções nas prestações sociais norte-americanas e um empurrar da Europa, em particular da Comunidade Europeia para a adopção de tendências cada vez mais liberais.
Neste período os políticos começaram a entregar o seu poder aos financeiros e aos economistas, o sector privado foi-se tornando naquilo que hoje é: o patrão dos Governos. Nos parlamentos os deputados pensando pela sua própria cabeça cada vez mais passaram a votar pela cabeça do chefe.
Os Parlamentos, eleitos por sufrágio universal, directo, secreto, deixaram de representar os eleitores para se tornarem cada vez mais – com honrosas excepções pontuais – em caixas de ressonância dos governos. Uma espécie de selo branco para dar cobertura aos desejos governamentais. Desejos que, por seu turno reflectem aquilo que os governos dizem ser a vontade dos contribuintes.
Os “média” na generalidade abandonaram a força que tiveram, o poder de estabelecer as agendas politicas dos Governos, para na generalidade se tornarem produtos mercantis nivelando por baixo a sua qualidade. Não é necessário citar exemplos, basta constatar a mediocridade da programação das televisões e dos jornais. Onde está o jornalismo de investigação onde não era necessário dar a cara mas o jornalista ter tido acesso por várias fontes ou mesmo conseguido fotocópias de informações que afectam a integridade da politica ou da economia?
Claro que com esta situação não há cidadãos informados. O território de excelência para as manobras financeiras especulativas com dinheiros de fundos de investimento, dos depositantes ou simplesmente emprestado aos Bancos Centrais. Nada escapa à especulação, das moedas – designadamente dólar e euro -, dos títulos das dividas dos países e até a estabilidade desses países ou de regiões, como sucede agora na zona euro. Uma crise que se progride não se limitará à Europa do euro, as consequências serão bem mais extensas.
E não existem figuras politicas com a credibilidade necessária para fazer face a esta crise. Nem figuras, nem estratégias, nem imaginação. Ignoradas as propostas de Jacques Delors sobre a Europa Social nada equilibra agora as assimetrias nem introduz medidas correctivas na crise. Não há Europa social. Há especuladores financeiros e políticos sem credibilidade.
A globalização era inevitável, já não era inevitável a libertinagem que a acompanhou. Com os EUA ainda com um pé na crise, a Europa afunda-se nela em total desgoverno e a China teme pelos seus mercados.
Os intelectuais e alguns políticos que pensam por si mesmos têm de adoptar uma de duas atitudes: ou falar, dizer o que realmente pensam e agir em consequência correndo o risco mais que certo de serem marginalizados ou optar pelo politicamente correcto. Os intelectuais discordantes escrevem uns artigos ou ensaios que sabem à partida serem inconsequentes ou, mais raramente remetem-se ao silêncio. Os políticos, na generalidade pretendem avançar na sua carreira, o que é legítimo. Mas ao contrário do que sucedia destacando-se pelas ideias alternativas e as criticas construtivas ao chefe preferem trocar oposições entre amigos e adoptar o discurso politicamente correcto. Existem felizmente excepções. Que é feito delas? São empurradas tolerantemente para um canto ou um lugar inócuo de onde continuam a pretender fazer ouvir-se.
Pela Europa como nos EUA temos evidentemente oposições que se fazem ouvir, mas de uma forma confusa. Muitos políticos de esquerda adoptaram os discursos e tomaram de assalto valores da direita, a direita vira aqui ainda mais à direita, ali inflecte para a esquerda e o contribuinte acaba por não dar credibilidade à crítica ou pura e simplesmente sente-se desligado da política.
As democracias correm o risco de se tornarem – e nalguns casos tornaram-se – ditaduras tolerantes e benevolentes. «Podem protestar, fazem o que eu quero», ou «As criticas serão devidamente tidas em consideração no projecto que será apresentado ao Parlamento», e o dito projecto é exactamente igual, igual, igual não! Pois inconsequentemente contempla de forma devidamente adaptada algumas considerações da crítica.
Até onde vão os políticos? Não muito longe. Quem manda são as grandes empresas, nacionais ou transnacionais. A liberalização retirou aos trabalhadores o proteccionismo. Concorrência. Os salários miseráveis e as condições de trabalho inaceitáveis da Ásia onde a rede social não existe. Na Europa as deslocalizações são inevitáveis e como na União Europeia não existe um Pacto Social que nivele os salários, regalias sociais e outras conquistas do pós-guerra, ela tornou-se também uma zona de deslocalizações. O desemprego crescente, o 28º Estado da União Europeia é financiado pelo sistema de Segurança Social, que inevitavelmente entra em ruptura. Tudo isto, na maioria dos casos com o apoio do Governo. As empresas têm de manter ou melhorar os seus valores nas bolsas.
O 28º estado ainda não encontrou uma forma transversal de se fazer representar e os sindicatos não são os veículos indicados.
O primeiro quartel do Século XXI apresenta desafios graves e para cuja solução tem de haver não só vontade como força politica, mobilização dos cidadãos, o que implica a existência de políticos prestigiados e credíveis.
Olhando por esse Mundo não encontramos hoje figuras como Franklin D. Roosevelt, Jacques Delors, François Miterrand, Felipe Gonzalez, Helmut Khol, Hans Dietrich Gensher, Bettino Craxi (apesar de tudo), Indira Ghandi, ou mesmo Margareth, Thatcher Ronald Reagan.
Para usar a politicamente correcta linguagem económica, são necessários valores mobiliários bem cotados, dificilmente derrotáveis ou atacáveis, com estatutos blindados, capazes de tirar proveito do terreno e da sua liderança. (Curiosamente esta linguagem também pode ser militar). Uma verdade de M. De La Palisse para que os graves desafios económicos, sociais não se tornem em conflitos ou para que os conflitos possam ser geridos inteligentemente, controlado e resolvidos.


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quarta-feira, 16 de novembro de 2011

A (falta de) qualidade dos lideres que há

Benjamim Formigo


16 de Novembro de 2011

No passado século o Mundo pagou o preço da ambição expansionista alemã por várias vezes.
Na Primeira Grande Guerra, em 1914 – 1918, pagou a Europa a destruição e a reconstrução. Na Segunda Guerra Mundial, 1939 – 1945, a Europa, o Norte de África e por esse Mundo fora, o expansionismo de Hitler custou bem caro, em vidas humanas e em bens materiais. O Mundo, em particular os Estados Unidos, pagou a reconstrução alemã e o realçamento da economia do país.
Com a queda do Muro de Berlim, e a unificação da Alemanha, formalizada a 3 de Outubro de 1990, o Mundo, directamente a Comunidade Europeia e os Estados Unidos, voltou a pagar os custos da unificação. Os principais pagadores foram sem duvida os europeus inseridos da economia comunitária.
Para trás ficaram eventualmente perdoadas mas não esquecidas as guerras que arrasaram a Europa, entraram pela África e tentaram redesenhar as suas fronteiras, e deixaram entre o povo judeu uma recordação que, essa sim, nunca será perdoada: o holocausto. Recordação que determinou nos judeus uma decisão de sobrevivência que hoje alimenta as graves injustiças ao Povo Palestiniano. Sem esquecer a este propósito que quando da criação do Estado de Israel resquícios de organizações nazis sobreviventes contribuíram para a animosidade árabe face ao novo Estado. Seria simplista esquecer a resistência britânica em conceder a libertação da Palestina em moldes que prevenissem os problemas que hoje subsistem e outros factores. Mas seria exaustivo e o espaço determina que fiquem lacunas neste ensaio de enquadramento.
Se os portugueses têm um antigo ditado, porventura exagerado, que “de Espanha nem bom vento nem bom casamento” os franceses e o resto da Europa podem sentir o mesmo relativamente à Alemanha, em especial os franceses.
François Mauriarc, romancista, jornalista , Prémio Nobel de literatura em 1952, escreveu na sua coluna “bloc-note” do “l’Express”: “J’aime tellement l’Allemagne que je préfère qu’il y en ait deux!”. Para François Mauriarc a existência de duas Alemanhas, ou seja da Alemanha dividida no pós guerra era uma garantia de segurança na Europa e para a França em particular.
Aqui será porém da mais elementar justiça salientar a importância da Republica Federal Alemã na construção europeia através de homens como Konrad Adenauer, Helmut Schmidt, Helmut Kohl e o incompreensivelmente esquecido ministro dos Estrangeiros de Kohl, Hans-Dietrich Genscher. Estadistas que colaboraram intimamente com Charles de Gaulle, Valery Giscard d’Estaing e François Mitterrand. Foi o tempo áureo da construção europeia e dos projectos da Europa solidária de Jean Monet ou Jacques Delors. Solidária entre si e consequentemente forte para ser solidária com o Terceiro Mundo. Foi o tempo do entusiasmo pelo investimento na periferia europeia, na ajuda da desenvolvimento. Não exclusivamente por razões altruístas mas porque promover o desenvolvimento no Terceiro Mundo era investir na expansão da economia europeia e na segurança da CE.
Com o Tratado de Maastricht, o Pacto de Estabilidade e Crescimento e o desaparecimento de uma geração marcada pelo pós guerra na Europa, tudo mudou. A Europa social foi atirada pela janela, com a ajuda da hoje baronesa Thatcher, Ronald Reagan e o novo poder alemão.
Bem cedo a Alemanha, já unificada, esqueceu a sua meia promessa de manter a capital e o Governo em Bona. Uma Europa Central sob controlo da economia e finança alemãs foi mais forte. A capital mudou-se para Berlim e com ela o Bundestag (parlamento). A quadriga da Porta de Bradengurg, no cruzamento da Unter den Linden e a Ebertstraßeo, antiga RDA está virada a Leste território sem pré ambicionado pela Alemanha. Pouco importa que tenha sido mandada construir como um símbolo de paz por Frederico II da Prússia. No seu topo uma quadriga conduzida pela deusa da paz faria crer que após Frederico II da Prússia a Alemanha não teria aspirações expansionistas. Nada mais falso e a quadriga foi erroneamente vista como o movimento alemão para Leste.
Com Maastricht a Alemanha abria mão do seu Deutsh Mark em troca pelo Euro. Mas o Banco Central Europeu seria e é gerido sob o modelo do Bundesbank (banco central alemão).
O eixo Paris - Bona que durante o pós guerra e com homens como Adenauer e De Gaulle, Giscard d’Estaing e Schmidt, Mitterrand e Kohl, permitiu o desenvolvimento da Comunidade Europeia e o empenhamento comunitário no Mundo, acabou.
Ângela Merkel controla com mão de ferro a economia europeia, ou pretende. Nicolas Sarkozy, o Presidente francês sem memorias da França ocupada orbita em torno da Sr.ª Merkel esquecendo a História. Como no passado Sarkozy vira-se para a Grã-Bretanha pedindo-lhe auxilio para o Euro ou Obama para que compareça no G8. Alinha com Ângela Merkel no ataque aos países periféricos, como a Grécia, Irlanda, Portugal e Espanha convencido que no papel do Governo de Vichy beneficiará face ao seu vizinho huno.
A realidade porém é bem diferente. Os especuladores não deixam o euro. Os países periféricos são o elo mais fraco da cadeia. Quando o momento chegar se necessário for a Alemanha não hesitará em agir só, determinada como está em recuperar a sua economia, a menos afectada da união Europeia.
Ao contrario do que sucedeu na Segunda Guerra Mundial a França não será socorrida pela Grã Bretanha ou os Estados Unidos. Ambos a braços com os seus próprios graves problemas.
A economia mundial está numa crise sem precedentes. A recuperação depende de dois gigantes: EUA e UE. Mas se os EUA não conseguem sozinhos relançar a economia mundial, o contravapor determinado pela Sr.ª Merkel e a conivência de Sarkozy não serão os colaboradores necessários.
A UE, em particular a Alemanha, agarra-se ao Tratado de Maastricht e ao seu Pacto de Estabilidade e Crescimento. Milton Friedman continua a ser preferido a Keynes num momento em que Keynes parece bem estar na ordem do dia. A inflação não é uma ameaça, a deflação e o desemprego são-no.
Se a Europa do euro continua o caminho alemão os próprios EUA não têm parceiro num “tandem” de desenvolvimento. Mais grave é que a retracção de consumo europeu e norte-americano estão já a afectar as economias emergentes, os países do Terceiro Mundo em geral.
O paradigma esgotou-se e a Alemanha de Merkel nem quer ouvir falar de um substituto. Será porventura injusto assacar todas as responsabilidades à Sr.ª Ângela Merkel, mas falta-lhe o carisma de Kohl, Schmidt ou Adenauer. Faltam-lhe os parceiros franceses ou europeus, e os Estados Unidos enfrentam uma grave crise.
Barak Obama não hesitou em mudanças que lhe irão custar caro. A UE não quer ouvir falar de mudanças. Esperam que a China venha pagar a crise com os seus excedentes, mas nem o novo gigante o consegue se o mercado for “Deus ex machina”, se a desregulamentação continuar a ditar leis e as agências de notação continuarem a assumir esse inacreditável papel de Todo Poderoso da finança sempre ao lado dos fortes e pagos por estes.


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