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terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Israel devia pensar mais nos vizinhos e menos na violência


Benjamim Formigo |
9 de Dezembro, 2014

Á primeira vista parece um contra-senso que Israel pense nos seus vizinhos e cada vez menos na violência quando vive sob a paranóia da ameaça que considera os seus vizinhos.
A retórica inflamada que caracteriza há quase meio século as relações entre Israel e os seus vizinhos árabes só tem conduzido a novos surtos de violência, cada vez mais graves, e não trouxe à Palestina qualquer sentido de paz e segurança. Mas a situação pode piorar graças às estupidamente saudadas “Primaveras Árabes” e a desestabilização que ela trouxe para uma zona já historicamente instável.
Desde a subida ao poder dos conservadores de Netanyahu após o assassínio de Yitzhak  Rabin, o Primeiro Ministro que assinou os defuntos Acordos de Oslo com Yasser Arafat e que podiam ter conduzido a um desanuviamento israelo-palestiniano, à confiança e finalmente a uma solução politica, a situação tem-se agravado entre Israel e os palestinianos e entre Israel e os seus vizinhos.
O assassinato do Primeiro-Ministro trabalhista em 4 de Novembro de 1995 por um fundamentalista judaico ocorreu na sequência de uma retórica anti-trabalhista e em particular contra Yitzhak Rabin levada a cabo pelos conservadores do Likud, em particular Benjamin Netanyahu, muito criticado na altura. Passado o primeiro impacto do choque subiu ao poder o general Ehud Barak, também ele trabalhista, que levou por diante uma política de paz em troca de terra, devolvendo à Síria alguns territórios ocupados, suspendendo novos colonatos judeus em terra palestiniana e retomando o dialogo com o líder da facção palestiniana mais importante, Yasser Arafat.
De novo a retórica se sobrepôs ao raciocínio e Ariel Sharon não hesitou em passar à provocação passeando-se na Esplanada das Mesquitas, o terceiro lugar mais sagrado do Islão. Tanto bastou para que a acalmia se transformasse em instabilidade e surgisse a segunda Intifada que durou até 2005. Sharon foi Primeiro-Ministro como ambicionava mas vai ser recordado pela negativa.
A política do Governo israelita foi responsável pela divisão palestiniana com a Fatah, moderada, a perder o controlo da OLP um ano após a morte de Yasser Arafat em favor dos radicais do Hamas, que o falecido dirigente controlava de compromisso em compromisso, uma política que mais ninguém seria capaz de desenvolver, como se veio a verificar. O Hamas, fundado em 1987 durante a primeira Intifada, apoiado pelo Qatar e considerado um “primo” da Irmandade Muçulmana egípcia, capitalizou na intransigência de Israel para conquistar as camadas mais jovens e conseguir uma vitória eleitoral sobre a Fatah com quem se comprometia em vida de Yasser Arafat.
Finalmente em 2011, o Hamas e a Fatah conseguiram um acordo sobre um Governo de gestão liderado por Mahmoud Abbas, Presidente da Autoridade Palestiniana até eleições no final deste ano. Contudo o Hamas tomou conta da Faixa de Gaza não e lançou dali ataques contra Israel. A resposta israelita foi imediata e desproporcionada.
 Israel não pode argumentar que a população civil era advertida antes dos ataques. Advertida para que? O Egipto fechou a passagem de Gaza para o Sinai, e Israel bloqueou o território por terra ar e mar, os civis nunca tiveram para onde fugir.
A violência tornou-se uma consequência inevitável da retórica. O sentimento de impunidade de Israel transmitido pelo apoio incondicional dos EUA afastou o risco de uma acusação pelo Tribunal Penal Internacional. Israel, como os seus vizinhos, têm uma nova preocupação: com a retirada americana do Iraque e o apoio de muitos países ocidentais à oposição armada síria surgiu no combate contra o regime de Assad uma estranha coligação integrando desde dissidentes, desertores do Exército regular, grupos ligados à Al Qaeda e o Califado Islâmico do Iraque e do Levante que rapidamente se autonomizou, recebeu apoio de pessoal treinado, de combatentes da Líbia e da África Central, da Europa, e se transformou numa ameaça a toda a região, da fronteira iraniana ao Mar Mediterrâneo.
Israel não está a salvo dessa ameaça nem mesmo com o seu arsenal único na região. Em teoria chegou o momento de chamar os russos e os iranianos, envolvê-los numa questão que também lhes diz respeito e fazer Israel entender que a ameaça, até agora bem-sucedida, da declaração do Estado Palestiniano, sem que os dois vizinhos litigantes se entendam, dá apenas ao autoproclamado califado trunfos junto dos vizinhos mais receosos dos homens de negro que do Estado israelita.
Até agora, com a “neutralidade” turca, têm sido os curdos a lutar contra o exército do califado, um arsenal de respeito, de origem americana, capturado em grande parte ao Exército iraquiano. Os ataques aéreos levados a cabo pelos americanos procuram não favorecer de forma alguma o Exército sírio cometendo um erro ao julgar que é possível isolar a situação no Iraque, no Curdistão iraquiano e junto da fronteira entre a Turquia e o Curdistão da situação na Síria, e agora no Líbano.
A defesa do Estado de Israel faz-se agora em território sírio, libanês e em breve jordano e iraquiano. Israel e o Irão dispõem dos maiores e melhores Exércitos na região, alem de o Irão ter interesses na defesa dos xiitas sob fogo das forças do chamado califado.
Se existisse alguma lógica no Médio Oriente era altura de Israel pensar nos seus vizinhos e ponderar até que ponto se podem tornar seus aliados em vez de os continuar a hostilizar e de prosseguir a sua inaceitável política relativamente a um Estado Palestiniano e reforçar por reacção a facção radical que desencadeia ataques tão inúteis como absurdos contra o território ocupado por Israel.
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segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Desprezo à comunidade mundial


Benjamim Formigo|
4 de Agosto, 2014

Nas ultimas três semanas, o Governo israelita desencadeou uma ofensiva contra o território palestiniano de Gaza que já causou a morte a mais de 1.670 palestinianos e 65 israelitas, em ambos as casos maioritariamente civis.
Os vários cessar-fogos e tréguas acordadas nem chegam a entrar em vigor. Certo que, por vezes, por responsabilidade do Hamas, a maioria, porém, porque Benjamim Netanyahu determina ou dá luz verde a uma retaliação lançada sob o menor pretexto. Ataques que, pela inusitada violência e desproporção de meios usados, mais não são que massacres de populações civis inocentes, como na semana passada sucedeu com uma barragem de fogo de artilharia contra uma escola onde trabalhadores internacionais de organismos independentes garantiam não haver qualquer base do Hamas.
As Nações Unidas exigiram, por várias vezes e nos mais diversos tons, o cessar dos ataques israelitas, ao que Benjamim Netanyahu faz orelhas moucas, prosseguindo uma atrás da outra as ofensivas do Exército e da Aviação israelita.
O pretexto é conhecido: os ataques do Hamas contra a zona vizinha de Israel, nem sequer contra todo o país, e o objectivo anunciado era a destruição de uma rede de túneis por onde palestinianos fazem passar guerrilheiros e os abastecimentos que podem.
No Vietname os norte-americanos enfrentaram uma rede, sabe-se agora, bem mais sofisticada do ponto de vista defensivo dos vietcongues, usando os B-52 sem sucesso. Todavia, as imagens mostradas dos túneis de Gaza são de corredores por onde passa mais do que um homem ao mesmo tempo. No Vietname passava um, sem defesas contra armas químicas, que existiam no Vietname, nem curvas em ângulo recto que vulnerabilizavam qualquer atacante, como existiam no Sudeste Asiático.
Afinal, a ofensiva não tem a ver com os túneis apenas. Segundo a BBC, sábado à noite o Primeiro-Ministro israelita deixou saber que a ofensiva iria continuar, mesmo depois de destruídos os túneis, “em função das necessidades da defesa israelita”.
A complacência dos Estados Unidos face a Israel, comparada com a dureza e ameaças a russos e separatistas ucranianos é de um notável desequilíbrio. As várias tentativas egípcias de conseguir uma trégua ou um cessar fogo têm o mesmo destino das tomadas pelos órgãos das Nações Unidas, onde o Conselho de Segurança está sequestrado pelos EUA. E mesmo que não estivesse, era indiferente a Israel o que quer que fosse que o Conselho de Segurança decidisse, a menos que lhe fosse favorável.
O Hamas não é um conjunto de meninos de coro, mas é o Governo eleito que tenta dirigir Gaza sem ter mão nos seus radicais, como Yasser Arafat conseguia controlar as facções radicais da Fatah. A verdade é que mesmo quando Arafat conseguia, com custos políticos elevados, controlar as facções radicais, os Governos israelitas, excepção a dois ou três e que custou a vida a um Primeiro-Ministro israelita às mãos de um judeu radical, encontrava sempre um pretexto para o uso da força. Hoje, após tudo quanto se está a passar em Gaza, nada diferencia Benjamim Netanyahu do falecido Ariel Sharon, que invadiu e destruiu o Líbano acabando com a frágil paz e estabilidade, a pretexto de acabar com a Organização de Libertação da Palestina (OLP). Desde 8 de Julho que a aviação israelita bombardeia, com pouca precisão, alvos em Gaza, os danos colaterais ultrapassam os objectivos alcançados.
Israel tem o direito a existir em paz e segurança. Mas os seus dirigentes parecem ter uma forma sui generis de alcançar esse objectivo. Seria abusivo dizer que, com o Líbano em colapso, a Síria e o Iraque a serem divididos pelo Califado do Levante, os dirigentes actuais do Estado israelita se tornaram dirigentes judaicos em busca do Grande Israel.
Quem não quer ser lobo, não lhe veste a pele. Israel depende da economia da diaspora judaica, algumas vezes mais fundamentalista que os israelitas que vivem na Palestina dividida. Depende de ajuda militar norte-americana, porque a sua indústria militar não seria, por si só, suficiente. E depende das trocas comerciais com a União Europeia. Ou seja, o que falta de influência aos EUA e União Europeia na Ucrânia e na Rússia, sobra em Israel , mas ninguém faz nada. Os palestinianos estão, de facto, sós e mal acompanhados enquanto o Governo israelita mostra um profundo desdém pelo que a comunidade internacional pense ou diga.
Quantos palestinianos mais têm de morrer, e israelitas, para que Benjamim Netanyahu considere que a segurança de Israel está garantida. O Hamas já está de rastos e de Gaza irá restar o quê quando a artilharia e a aviação se calarem?
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terça-feira, 29 de julho de 2014

Uma guerra infindável e a fórmula para a coexistência


Benjamim Formigo |
29 de Julho, 2014

O confronto entre israelitas e palestinianos há mais de 50 anos que conhece apenas tréguas e períodos de não guerra, sem a menor perspectiva de uma fórmula que permita a coexistência de dois povos e dois países.
Judeus e palestinianos partilharam a mesma terra durante séculos. Não adianta historiar o conhecido nem tão pouco adianta fugir à realidade no terreno em nome do que quer que seja. Israel existe, é um facto. Enquanto não existir uma Palestina independente não há paz nem regressa a coexistência pacífica de dois povos que na antiguidade estiveram juntos.
Os milhares de mortos nos confrontos naquela região exigem que seja encontrada uma solução de compromisso, e o compromisso, como o termo indica, tem de implicar cedências dos dois lados. Perderam-se oportunidades enquanto Yasser Arafat foi vivo, perdeu-se uma oportunidade única com o assassínio por um fundamentalista judeu do Primeiro-Ministro Yitzhak Rabin, um pragmático que conseguira encontrar um começo de entendimento para o que poderia ser uma solução duradoura.
A Comunidade Internacional desde a II Guerra Mundial deixou a questão aos norte-americanos e, secundariamente, aos soviéticos, que controlavam uma mancha sua aliada na região. Os norte-americanos, fundamentalmente em virtude dos seus próprios motivos eleitorais – voto e financiamento dos judeus norte-americanos – deixaram que a política dos EUA da região fosse determinada por Israel.
Israel é um país profundamente dividido por causa do confronto com os palestinianos e do que vêem como “ameaça árabe”. A divisão, porém, termina quase sempre quando a ameaça se torna real. A resposta militar israelita é habitualmente desproporcionada relativamente à ameaça ou a retaliação apenas sublinha o poderio militar israelita e traduz ao mesmo tempo aquilo a que os Governos israelitas chamam sempre “determinação” de se defenderem. Retaliação não é defesa, é meramente retaliação.
Esquece-se, à medida que o tempo passa, que os palestinianos capazes de serem moderados chegam ao fim da vida e que ascendem a lugares de poder homens e mulheres nascidos em campos de refugiados, criados por entre intifadas e violência.
A violência que Israel permitiu em Sabra e Shatila tornou-se um estandarte contra a palavra dos israelitas. Esquece-se ou ignora-se que a maioria do povo israelita se insurgiu contra os massacres feitos pelos seus aliados com consentimento do seu Governo.
A situação que se foi criando em torno de Israel, com as chamadas “primaveras árabes”, inexplicavelmente bem recebidas pelo Ocidente, não só foi de isolamento como acentuou a noção de ameaça. Assad (pai e filho) eram inimigos de Israel, mas apesar de tudo continham-se, como se continha Saddam Hussein, ou mesmo os religiosos que assumiram o poder no Irão. O Egipto passou a ter um papel preponderante e influência notável com Mubarak. A sua queda e o “intermezzo” da Irmandade Muçulmana no poder só favoreceu e permitiu a radicalização do Hamas.
O golpe militar no Cairo e o novo poder, reprimindo a Irmandade, fechou a comunicação de Gaza através do Sinai. O Hamas, ao estar nas boas graças da Irmandade Muçulmana, é objecto de desconfiança do novo poder no Egipto, que é no fundo a continuidade de Hosni Mubarak. Mesmo o entendimento de Hamas com a mais moderada Fatah, do falecido Yasser Arafat, aliviou as dúvidas dos egípcios. Mesmo o Cairo propôs uma fórmula de cessar-fogo que, embora não tivesse sido aceite pelo Governo de Israel, foi recusada liminarmente pelo Hamas, que, note-se, está no poder através de eleições. O cessar-fogo e as tréguas dos últimos dias da semana passada e de domingo têm sido apenas um abrandamento dos combates e das incursões militares israelitas ou do lançamento dos rockets do Hamas contra Israel. Não vale a pena ter ilusões.
A paz urge há muito tempo na região e os palestinianos há muito que esperam justiça. O actual ambiente internacional, em especial na região, com o autoproclamado Califado do Levante, dividindo Iraque e Síria, nunca foi tão desfavorável a um entendimento. Isso, porém, não implica o uso desproporcionado da força usada por Israel como elemento dissuasor. Uma solução como a que se falou durante décadas de uma conferência internacional, que debatesse integradamente os problemas regionais e encontrasse um entendimento, nunca esteve perto, mas nunca esteve tão longe.
Para a resolução de questões complicadas como esta são necessárias vontade e força política, ambiente internacional, imaginação e homens com prestígio. Não há. O mais a que é possível aspirar é uma cessação de hostilidades, e algum tempo para recuperar. Ninguém espere que esse tempo sirva para encontrar fórmulas para uma resolução, mesmo que provisória.
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domingo, 30 de setembro de 2012

Israel e as sanções ao Irão


Benjamim Formingo
30 de Setembro, 2012

Quinta-feira passada, na abertura da Assembleia Geral da ONU, o PM israelita  moderou substantivamente o seu discurso remetendo uma eventual intervenção militar israelita contra as instalações nucleares iranianas para meados do próximo ano, ao mesmo tempo que oficialmente era revelada a nova posição de Israel a favor de mais sanções.
Quinta-feira passada, na abertura da Assembleia Geral da ONU, o PM israelita  moderou substantivamente o seu discurso remetendo uma eventual intervenção militar israelita contra as instalações nucleares iranianas para meados do próximo ano, ao mesmo tempo que oficialmente era revelada a nova posição de Israel a favor de mais sanções.
No final do primeiro trimestre deste ano Israel pressionava a Comunidade Internacional e deixava saber que Maio seria um limite. Todavia uma aventura militar contra o Irão não é o mesmo que fomentar as chamadas “primaveras árabes” e com a situação na Síria em permanente degradação ninguém queria ser arrastado para esse conflito.
Menos do que todos os Estados Unidos que face a uma eventual retaliação ver-se-iam na contingência de intervirem ao lado de Israel.
A Administração Obama foi deixando isso claro e os seus aliados também se colocaram de fora através de um conjunto de sanções de efeitos duvidosos.
Com a aproximação das eleições de Novembro e a vantagem que Obama vai somando nas sondagens face a Mitt Romney desde o início de Setembro, passadas as convenções, Netanyahu achou por bem moderar o seu discurso mais em linha com a Casa Branca.
Esta mudança deixa porém ver mais uma situação em que a opinião pública internacional estava a ser enganada.
Quando no primeiro trimestre deste ano se dizia que o programa nuclear iraniano seria invulneravelmente deslocado para instalações subterrâneas, sabe-se agora que esse prazo, segundo fontes oficiais israelitas, só se esgota entre a próxima Primavera e Verão. Sabe-se de fontes americanas que o enriquecimento de urânio para fins militares está ainda longe.
Fontes israelitas argumentam agora que as sanções devem ser aumentadas pois estarão a causar graves distúrbios na economia, contudo é mais duvidoso que esteja a desestabilizar o regime.
E se estivesse a desestabilizar o regime iraniano seria duvidoso que tal pudesse trazer alguma vantagem no meio da instabilidade que traria à região.
Outra primavera? Em tempo de alteração climatérica ou de ciclos de clima nada há de mais duvidoso.
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quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

A probabilidade e possibilidade do ataque israelita ao Irão


Benjamim Formigo |

9 de Fevereiro, 2012

Os primeiros indícios de que Israel pode estar perigosamente perto de desencadear um ataque preventivo contra o Irão surgiram o mês passado quando o ministro da Defesa, Ehud Barak, pediu a Washington o adiamento de manobras militares conjuntas que se deveriam iniciar em Março e prolongar até Maio, alegando que esta Primavera Israel não podia dedicar meios a esses exercícios anuais.
A possibilidade desse ataque foi acentuada quinta-feira da semana passada por Barak ao afirmar perante a comunidade de informações israelita que se estava a esgotar o tempo para uma intervenção militar que pudesse afectar o desenvolvimento do programa nuclear iraniano. Mesmo que, como foi admitido, a acção militar só atrasasse esse programa e pudesse ter de ser repetida dentro de algum tempo não especificado. O “bluff” não é de excluir.
Na reunião, em Herzliya, o ministro da Defesa Ehud Barak e outros altos responsáveis militares, incluindo o chefe dos serviços de informação militar, General Aviv Kochavi, afirmaram que a janela de oportunidade para um ataque se estava a fechar e Kochavi esclareceu que o governo iraninao teria já suficiente material fissível para construir uma ou duas armas nucleares dentro de um ano.
Para os responsáveis israelitas que se pronunciaram, em especial o ministro Barak, existe uma janela de oportunidade para afectar, não destruir, o programa nuclear iraniano antes de estar consumada a mudança dos laboratórios de enriquecimento de urânio para bunkers nas profundezas de uma montanha perto da cidade de Qom.
O governo israelita esperam uma retaliação iraniana, bem como acções dos gurpos Hezbollah e do Hamas a partir do Sul do Líbano e da faixa de Gaza.
Os Estados Unidos afirmam a sua preocupação por um lado porque Israel recusa aceitar avisar previamente Washington, por outro porque receiam que o conflito provoque o disparar do preço do petróleo afectando a frágil economia mundial. Ao mesmo tempo os americanos sustentam que se manterão à margem do conflito mas que se verão compelidos a intervir se os seus interesses forem atacados ou se populações civis israelitas forem atingidas na retaliação.
Se a primeira é algo debatível não existe qualquer dúvida quanto à inevitabilidade da segunda. Por isso a resposta é: os Estados Unidos irão intervir no conflito.
Israel tem de facto todas as possibilidades de levar a cabo um ataque preventivo adiando o programa iraniano. Se os Estados Unidos da América têm interesse em que isso aconteça não é tão claro, mas os interesses americanos naquela região do globo, há uma eternidade que são ditados pelos israelitas.
A probabilidade da acção militar é mais complicada.
Ehud Barak é de longe o militar mais qualificado de Israel, o mais condecorado e um homem de enorme coragem física e política.
Mas no passado mostrou-se sempre um homem com visão. A sua conduta foi muitas vezes de uma condescendência calculada com limites bem definidos. Teve a coragem de retirar do Sul do Líbano em 1999/2000, quando foi primeiro-ministro trabalhista, cumprindo uma promessa antiga de Israel. Mas nunca hesitou em posições extremamente duras quando foi necessário. Recentemente abandonou o Partido Trabalhista e aceitou fazer parte do Governo de Benyamin Netanyahu, por quem na década de 90 nutria pouca simpatia.
Neste momento o único aliado iraniano na região, o Governo da Síria, está sob fogo e fragilizado.
O Irão está a perder os meios de acesso ao Mediterrâneo e ao Líbano através da Síria.
As sanções económicas contra Teerão têm colocado imensa pressão no país, com falta de alimentos, restrições de divisas, etc.
A população iraniana vive um sentimento de pré-conflito, o que pode ter o efeito contrário do que os Estados Unidos desejariam, uma visão que é discutida e contestada pelos que vêm a população a virar-se contra o regime. Uma visão que a prevalecer, sobretudo no poder israelita, aumenta as probabilidades de um ataque.
Em Israel são muitos os que acreditam que haverá um ataque e também são muitos os que discordam. Na ausência porém de uma alternativa, a tese do ataque preventivo surge com alguma consistência. Israel já sofreu ataques do Iraque durante a guerra do Golfo na década de 90 e contou com a eficiência dos mísseis “Patriot” para detê-los. Será que pode contar com essa defesa mais de duas décadas depois quando as tecnologias evoluíram?
O confronto teria consequências económicas provavelmente menores que se anuncia. No entanto, o facto é que a Marinha iraniana está fora dos portos, onde poderia ser facilmente neutralizável. Fechar Ormuz seria uma táctica suicida do Irão, pois o poderio da 5ª Esquadra naval dos EUA, apoiada pela Royal Navy, a Marinha francesa e a aviação estacionada na península arábica facilmente neutralizariam os iranianos. Uma razão que aumenta a probabilidade do ataque israelita.
Em síntese, qualquer que seja a posição dos Estados Unidos, a menos que o Irão reaja passivamente no caso de ser atacado, Israel poderá contar com importantes apoios exteriores se levar a cabo o que mais ninguém quer fazer: atacar alvos específicos no Irão.
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quarta-feira, 25 de maio de 2011

A teimosia irracional de Netanyahu


Benjamim Formigo|
25 de Maio, 2011

O Primeiro-Ministro israelita Netanyahu parece empenhado numa rota suicida recusando as bases de negociação com a Autoridade Palestiniana propostas por Barack Obama na semana passada. A recusa como princípio bloqueia qualquer negociação levando a acreditar que Netanyahu de facto não pretende encontrar uma solução política de paz duradoura definitiva à custa dos palestinianos.
Se os palestinianos pagam a maior parte de factura social e humana da situação de conflito que dura desde 1948, a verdade é que o povo israelita nada mais ganha que uma segurança efémera, relativa e tensa, perdendo no seu potencial de desenvolvimento económico, na sua imagem internacional.
Não menos importante, numa visão de longo prazo, é o papel que Israel não pode assumir no Médio Oriente, se a confiança entre árabes e israelitas se tornasse um dia possível. Esse dia nunca chegará se a questão palestiniana não for resolvida de forma justa e duradoura.
Como se explica a falta de visão de longo prazo de homens reconhecidamente inteligentes? A divisão dos próprios eleitores judeus, a cultura de medo em que vivem e que é não só causada pela bravata árabe, como pela desinformação e apaixonada discussão interna, dificulta uma solução, favorecendo os políticos mais conservadores que não hesitam, como o fez Ariel Sharon, em desencadear uma crise com os palestinianos para ganharem votos.
Se os israelitas vivem nessa divisão os palestinianos sentem o mesmo e pelas mesmas razões. São uma imagem invertida da vivência israelita. Barack Obama apresentou e continua a insistir numa realidade: os recentes acontecimentos no Mundo Árabe podem ser uma oportunidade de mudança da situação na Palestina, muito especialmente porque um dos mais incómodos vizinhos de Israel, a Síria, sente também a onda de instabilidade. A questão é saber para onde irá de facto essa mudança. Daí que, embora a oportunidade exista, se possa entender as reservas israelitas em geral. Contudo, já é menos compreensível que o PM israelita recuse em princípio quaisquer conversações. O Presidente dos Estados Unidos regressou à Resolução 242, de que já quase ninguém falava, regressou às fronteiras de 1967 como ponto de partida para o relançamento do diálogo. Obama deixou, porém, claro aquilo que todos sabemos: existe uma considerável diferença entre o ponto de partida de um processo negocial e o seu conteúdo final. Por isso se trata de um processo negocial. As fronteiras de 1967 são, como disse Netanyahu, indefensáveis. Mas nas declarações o Presidente americano estavam já contempladas modificações. As trocas de terras entre os territórios definidos pela ONU como fronteiras de Israel e do Estado Palestiniano estão ultrapassadas. Pelo tempo, pela situação de facto criada pelo conflito armado e as ocupações ilegais com consequente aumento de colonatos. Obama falou em Estados em territórios contínuos e daí a troca de terras. Mais importante, falou num Estado Palestiniano desmilitarizado. Netanyahu ignorou deliberadamente as contrapartidas colocadas por Obama, ignorou que se trataria de um processo negocial, ignorou a possibilidade de uma resposta ambígua que não fechasse as portas a conversações. Recusou liminarmente o discurso do seu anfitrião apesar de tudo e mesmo quando foi evidente que Obama deixou de lado duas questões essenciais: o estatuto final da cidade de Jerusalém e a questão dos refugiados.
O Hamas reagiu mais discretamente mas também em tom de recusa, esquecendo que o seu radicalismo é o pretexto ideal para menos moderados de Israel. Obama na Europa esta semana procura apoios para que na próxima Assembleia Geral da ONU não ocorra uma votação que pode perfeitamente reconhecer de facto e de jure a existência do Estado Palestiniano. Um reconhecimento que, talvez excepção feita à Grã-Bretanha, os Estados europeus seriam capazes de endossar ou deixar passar com a abstenção. Sobretudo se não tomassem qualquer acção diplomática junto dos seus amigos e aliados. Existe realmente na Assembleia Geral uma maioria capaz de aprovar esse reconhecimento.
Esta semana vai ser crucial para Obama conseguir apoios internacionais, designadamente da União Europeia e do G-8, à sua tentativa de fazer arrancar o processo israelo-palestiniano do impasse em que vive. O auxílio ao Egipto e Tunísia anunciado por Obama vai depender também da contribuição europeia, que já há semanas estuda essa questão como forma de estabilizar o Norte de África e também de travar a imigração ilegal para a União Europeia. A Casa Branca tem evitado condenar Bashir Al-Assad pedindo a sua resignação como fez com Kadhafi. Obama pede-lhe que "lidere a mudança". Como faz no Iémen e no Bahrein mais discretamente. O apoio financeiro que sair do périplo europeu de Obama e da reunião do G-8 ao desenvolvimento no Norte de África e do Médio Oriente será uma importante componente da estabilidade. A outra, talvez mesmo chave, será o posicionamento de Israel, que, queira ou não, é cada vez mais o guardião da chave.
A questão palestiniana não se pode manter no presente impasse. Deixar passar os ventos de mudança e não os tentar influenciar, abandonar aliados ou alienar simpatias é simplesmente perder uma oportunidade de tentar a mudança.
Deixar a situação congelada é arriscar que assim fique mais algumas décadas. Não se defende que existe uma oportunidade real neste momento. Apenas que existe qualquer coisa de diferente que merece ser explorada num momento em que a crise financeira se agrava com as crises políticas e as sociais. Por isso valeria a pena tentar, seja qual for a real motivação de Barack Obama.
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