9 de Dezembro, 2014
Á primeira vista parece um contra-senso que Israel pense nos
seus vizinhos e cada vez menos na violência quando vive sob a paranóia
da ameaça que considera os seus vizinhos.
Desde a subida ao poder dos conservadores de Netanyahu após o assassínio de Yitzhak Rabin, o Primeiro Ministro que assinou os defuntos Acordos de Oslo com Yasser Arafat e que podiam ter conduzido a um desanuviamento israelo-palestiniano, à confiança e finalmente a uma solução politica, a situação tem-se agravado entre Israel e os palestinianos e entre Israel e os seus vizinhos.
O assassinato do Primeiro-Ministro trabalhista em 4 de Novembro de 1995 por um fundamentalista judaico ocorreu na sequência de uma retórica anti-trabalhista e em particular contra Yitzhak Rabin levada a cabo pelos conservadores do Likud, em particular Benjamin Netanyahu, muito criticado na altura. Passado o primeiro impacto do choque subiu ao poder o general Ehud Barak, também ele trabalhista, que levou por diante uma política de paz em troca de terra, devolvendo à Síria alguns territórios ocupados, suspendendo novos colonatos judeus em terra palestiniana e retomando o dialogo com o líder da facção palestiniana mais importante, Yasser Arafat.
De novo a retórica se sobrepôs ao raciocínio e Ariel Sharon não hesitou em passar à provocação passeando-se na Esplanada das Mesquitas, o terceiro lugar mais sagrado do Islão. Tanto bastou para que a acalmia se transformasse em instabilidade e surgisse a segunda Intifada que durou até 2005. Sharon foi Primeiro-Ministro como ambicionava mas vai ser recordado pela negativa.
A política do Governo israelita foi responsável pela divisão palestiniana com a Fatah, moderada, a perder o controlo da OLP um ano após a morte de Yasser Arafat em favor dos radicais do Hamas, que o falecido dirigente controlava de compromisso em compromisso, uma política que mais ninguém seria capaz de desenvolver, como se veio a verificar. O Hamas, fundado em 1987 durante a primeira Intifada, apoiado pelo Qatar e considerado um “primo” da Irmandade Muçulmana egípcia, capitalizou na intransigência de Israel para conquistar as camadas mais jovens e conseguir uma vitória eleitoral sobre a Fatah com quem se comprometia em vida de Yasser Arafat.
Finalmente em 2011, o Hamas e a Fatah conseguiram um acordo sobre um Governo de gestão liderado por Mahmoud Abbas, Presidente da Autoridade Palestiniana até eleições no final deste ano. Contudo o Hamas tomou conta da Faixa de Gaza não e lançou dali ataques contra Israel. A resposta israelita foi imediata e desproporcionada.
Israel não pode argumentar que a população civil era advertida antes dos ataques. Advertida para que? O Egipto fechou a passagem de Gaza para o Sinai, e Israel bloqueou o território por terra ar e mar, os civis nunca tiveram para onde fugir.
A violência tornou-se uma consequência inevitável da retórica. O sentimento de impunidade de Israel transmitido pelo apoio incondicional dos EUA afastou o risco de uma acusação pelo Tribunal Penal Internacional. Israel, como os seus vizinhos, têm uma nova preocupação: com a retirada americana do Iraque e o apoio de muitos países ocidentais à oposição armada síria surgiu no combate contra o regime de Assad uma estranha coligação integrando desde dissidentes, desertores do Exército regular, grupos ligados à Al Qaeda e o Califado Islâmico do Iraque e do Levante que rapidamente se autonomizou, recebeu apoio de pessoal treinado, de combatentes da Líbia e da África Central, da Europa, e se transformou numa ameaça a toda a região, da fronteira iraniana ao Mar Mediterrâneo.
Israel não está a salvo dessa ameaça nem mesmo com o seu arsenal único na região. Em teoria chegou o momento de chamar os russos e os iranianos, envolvê-los numa questão que também lhes diz respeito e fazer Israel entender que a ameaça, até agora bem-sucedida, da declaração do Estado Palestiniano, sem que os dois vizinhos litigantes se entendam, dá apenas ao autoproclamado califado trunfos junto dos vizinhos mais receosos dos homens de negro que do Estado israelita.
Até agora, com a “neutralidade” turca, têm sido os curdos a lutar contra o exército do califado, um arsenal de respeito, de origem americana, capturado em grande parte ao Exército iraquiano. Os ataques aéreos levados a cabo pelos americanos procuram não favorecer de forma alguma o Exército sírio cometendo um erro ao julgar que é possível isolar a situação no Iraque, no Curdistão iraquiano e junto da fronteira entre a Turquia e o Curdistão da situação na Síria, e agora no Líbano.
A defesa do Estado de Israel faz-se agora em território sírio, libanês e em breve jordano e iraquiano. Israel e o Irão dispõem dos maiores e melhores Exércitos na região, alem de o Irão ter interesses na defesa dos xiitas sob fogo das forças do chamado califado.
Se existisse alguma lógica no Médio Oriente era altura de Israel pensar nos seus vizinhos e ponderar até que ponto se podem tornar seus aliados em vez de os continuar a hostilizar e de prosseguir a sua inaceitável política relativamente a um Estado Palestiniano e reforçar por reacção a facção radical que desencadeia ataques tão inúteis como absurdos contra o território ocupado por Israel.