16 de Setembro, 2012
Com estas coisas da alteração climatérica, ou dos ciclos
climáticos, conforme as correntes, as Primaveras já não são o que eram.
Tornaram-se imprevisíveis e muitas vezes agrestes.
De resto a Primavera clássica, aquela onde no nosso imaginário do século passado continuam a brotar as flores, os passarinhos a chilrear, as chuvas a darem lugar a um agradável Verão, é um período quase exclusivo do Norte e conhecido nas regiões mais excêntricas do Sul.
Os Governos dos chamados países ocidentais rejubilaram com as revoltas árabes, os seus mais dedicados funcionários chamaram-lhes logo “primavera árabe” e, apressados, os media apoderaram-se logo da expressão.
O marketing da “primavera árabe” espalhou-se quase tão depressa quanto as revoltas que de democrático e primaveril cedo se verificou terem consideravelmente pouco. Enquanto na Síria a tal primavera se tornou um campo de morte o final da semana passada o Norte de África, a Península Arábica e Es estados islâmicos por esse Mundo fora conheceram uma inédita coordenação de esforços contra os EUA mas também outros países desenvolvidos.
Mais exactamente a 11 de Setembro, onze anos após o atentado contra as torres gémeas em Nova Iorque, incidentes contra objectivos norte-americanos eclodiram quase em simultâneo em Benghazi, no Cairo, em Tunis, Sanaa (Iémen), Casablanca, Cartum, Teerão, e em geral Síria, Iraque, Argélia, Palestina, Indonésia e por aí fora.
De todos os incidentes os de maior relevância no contexto das tais primaveras serão sem dúvida os de Benghazi, de Tunis e do Cairo e até mesmo no Iémen. Sem falar no grupo beduíno armado que atacou a força multinacional estacionada no lado egípcio do Sinai.Em Benghazi, apelidada durante a guerra contra Kadahfy de capital da resistência, os protestos antiamericanos foram, como nas outras cidades, claramente concertados e da responsabilidade de fundamentalistas islâmicos.
Do ataque ao consulado dos EUA resultou a morte do embaixador americano e dois funcionários da segurança. Ao envio de um reforço de “marines” os “manifestantes” responderam com fogo de morteiro.
Em Tunis não foi apenas a missão diplomática, o ódio instalado levou ao ataque à Escola Americana, uma prestigiada instituição que quase foi destruída pelo fogo.
No Cairo o próprio Presidente egípcio, homem ligado à Irmandade Muçulmana, teve de intervier após uma séria advertência de Obama. Os ânimos acalmaram. Coincidência curiosa. No Iémen o Presidente e o Governo mantêm-se por apoio de Washington, directo ou através dos Estados vizinhos.
A justificação imediata foi uma longa-metragem medíocre, quase desconhecida, de um obscuro realizador norte-americano, considerado e com algum motivo insultuoso para os muçulmanos. Mas o filme nem sequer é novo. As manifestações ocorreram meses depois da sua revelação, e aconteceram precisamente a 11 de Setembro, quando os americanos recordavam os seus mortos de há onze anos. E ocorreram em simultâneo, ou quase, em partes tão diversas do planeta.
Os Estados Unidos estão a conhecer uma outra face da “primavera árabe” que só surpreende os que quiseram iludir-se com ela. Aquilo que resta saber é se para já foi uma inesperada trovoada de Primavera que caiu sobre as missões americanas ou se a “primavera árabe” está a passar rapidamente para o Inverno.