17 de Agosto, 2015
O inevitável parece estar a acontecer. Barack Obama, nos
últimos dias, falou na importância e utilidade de envolver o Irão numa
solução que ponha fim aos quatro anos de guerra na Síria.
Uma solução para a Síria não é obviamente para amanhã, os sauditas continuam a considerar Assad parte do problema e não da solução e fala-se na existência de uma nova coligação armada na Síria que tem infligido derrotas ao Exército regular, mas nada confirma essa coligação. Bashir Al Assad admitiu derrotas nas últimas semanas, porém a perda de território parece ter mais a ver com uma estratégia de garantir Damasco e a orla costeira. Todavia graças aos curdos e ao apoio aéreo americano o autoproclamado “Estado Islâmico” (EI) não tem conseguido ocupar as áreas deixadas vagas pela retirada governamental.
A atitude turca face aos curdos não ajudou a situação no terreno, a não ser na medida em que permitiu o uso das bases americanas no seu território contra o “Estado Islâmico”. Quando a poeira assentar – se assentar – na Síria veremos as consequências e a força conseguida internacionalmente pelos partidos curdos que reclamam um Curdistão independente. Para já o mais interessante é ver se Obama, no meio de uma guerra com o Congresso para impor o acordo multinacional com o Irão sobre armas nucleares, consegue envolver Teerão numa nova conferência regional, com participação dos membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU. Certo é que nem Paris, Berlim, Moscovo, Pequim se vão opor. Quanto à Grã-Bretanha a situação não é evidente. Damasco está desejosa dessa conferência mas tanto a Arábia Saudita como o Qatar não vêem com bons olhos a projecção internacional que o Irão potencialmente pode ter, mesmo quando em Teerão os sectores mais radicais se oponham a essa conferência. A iniciativa de paz para a Síria não tem necessariamente de partir de Barack Obama. François Hollande está sequioso de visibilidade mas não tem a força política desejável, embora tenha a capacidade e experiência na projecção de forças. A Sr.ª Merkel tem a força política, mas tradicionalmente a Alemanha mantém-se à margem destas iniciativas, o mesmo sucedendo com Pequim. Moscovo tem a força política mas falta-lhe a aceitação norte-americana. Portanto não é de excluir que tal iniciativa partisse de uma proposta de Resolução no Conselho de Segurança ou outra fórmula imaginativa.
Gostem ou não uns dos outros os países da região e os seus apoiantes têm de se sentar a uma mesa para discutir uma solução política. A dispersão da actividade do “Estado Islâmico” e o recurso a atentados suicidas não lhe retira a força e estamos para ver se não é apenas uma mudança táctica e não uma consequência de presumíveis êxitos da conjugação do apoio aéreo com uma mescla de forças terrestres que vai dos peshmergas curdos ao Exército iraquiano, aos militantes curdos turcos (na Síria), ao Hezbollah e até à Guarda Revolucionária iraniana, que agora parece garantir a orla costeira síria. Estes conflitos só terminam quando os seus financiadores determinarem o final. Todos parecem convencidos, excepção talvez do Qatar e da Arábia Saudita, enquanto Israel tem mantido um silêncio notável.
O envolvimento do Irão era há muito falado nos bastidores, todavia não veio à superfície até a assinatura do acordo nuclear para não introduzir nas conversações mais um elemento, este favorável ao Irão. Agora que o acordo é uma realidade, o Congresso americano tem de encarar um facto: existem múltiplos signatários – alguns aliados dos EUA – e na cena internacional chumbar o acordo seria o descrédito americano. Isso dá a Obama a margem que necessita para procurar obter na recta final da sua Presidência uma vitória política externa prestigiante que contrarie a imagem interna (artificialmente negativa).
Veremos se realismo e desejo não se vão confundir.