Mostrar mensagens com a etiqueta Irão. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Irão. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Obama defende Irão


Benjamim Formigo
17 de Agosto, 2015

O inevitável parece estar a acontecer. Barack Obama, nos últimos dias, falou na importância e utilidade de envolver o Irão numa solução que ponha fim aos quatro anos de guerra na Síria.
Ao mesmo tempo fugas de informação dão conta de um diálogo directo entre Rihad e Moscovo acerca da mesma questão e não são certamente coincidências os avanços governamentais, com apoio saudita, no Iémen, cuja guerrilha tem sido apoiada por Teerão.
Uma solução para a Síria não é obviamente para amanhã, os sauditas continuam a considerar Assad parte do problema e não da solução e fala-se na existência de uma nova coligação armada na Síria que tem infligido derrotas ao Exército regular, mas nada confirma essa coligação. Bashir Al Assad admitiu derrotas nas últimas semanas, porém a perda de território parece ter mais a ver com uma estratégia de garantir Damasco e a orla costeira. Todavia graças aos curdos e ao apoio aéreo americano o autoproclamado “Estado Islâmico” (EI) não tem conseguido ocupar as áreas deixadas vagas pela retirada governamental.
A atitude turca face aos curdos não ajudou a situação no terreno, a não ser na medida em que permitiu o uso das bases americanas no seu território contra o “Estado Islâmico”. Quando a poeira assentar – se assentar – na Síria veremos as consequências e a força conseguida internacionalmente pelos partidos curdos que reclamam um Curdistão independente. Para já o mais interessante é ver se Obama, no meio de uma guerra com o Congresso para impor o acordo multinacional com o Irão sobre armas nucleares, consegue envolver Teerão numa nova conferência regional, com participação dos membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU. Certo é que nem Paris, Berlim, Moscovo, Pequim se vão opor. Quanto à Grã-Bretanha a situação não é evidente. Damasco está desejosa dessa conferência mas tanto a Arábia Saudita como o Qatar não vêem com bons olhos a projecção internacional que o Irão potencialmente pode  ter, mesmo quando em Teerão os sectores mais radicais se oponham a essa conferência. A iniciativa de paz para a Síria não tem necessariamente de partir de Barack Obama. François Hollande está sequioso de visibilidade mas não tem a força política desejável, embora tenha a capacidade e experiência na projecção de forças. A Sr.ª Merkel tem a força política, mas tradicionalmente a Alemanha mantém-se à margem destas iniciativas, o mesmo sucedendo com Pequim. Moscovo tem a força política mas falta-lhe a aceitação norte-americana. Portanto não é de excluir que tal iniciativa partisse de uma proposta de Resolução no Conselho de Segurança ou outra fórmula imaginativa.
Gostem ou não uns dos outros os países da região e os seus apoiantes têm de se sentar a uma mesa para discutir uma solução política. A dispersão da actividade do “Estado Islâmico” e o recurso a atentados suicidas não lhe retira a força e estamos para ver se não é apenas uma mudança táctica e não uma consequência de presumíveis êxitos da conjugação do apoio aéreo com uma mescla de forças terrestres que vai dos peshmergas curdos ao Exército iraquiano, aos militantes curdos turcos (na Síria), ao Hezbollah e até à Guarda Revolucionária iraniana, que agora parece garantir a orla costeira síria. Estes conflitos só terminam quando os seus financiadores determinarem o final. Todos parecem convencidos, excepção talvez do Qatar e da Arábia Saudita, enquanto Israel tem mantido um silêncio notável.
O envolvimento do Irão era há muito falado nos bastidores, todavia não veio à superfície até a assinatura do acordo nuclear para não introduzir nas conversações mais um elemento, este favorável ao Irão. Agora que o acordo é uma realidade, o Congresso americano tem de encarar um facto: existem múltiplos signatários – alguns aliados dos EUA – e na cena internacional chumbar o acordo seria o descrédito americano. Isso dá a Obama a margem que necessita para procurar obter na recta final da sua Presidência uma vitória política externa prestigiante que contrarie a imagem interna (artificialmente negativa).
Veremos se realismo e desejo não se vão confundir.
Read more ...

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Os limites do acordo com o Irão


Benjamim Formigo |
15 de Julho, 2015

Ao contrário do que os sectores conservadores anunciavam no meio da crise grega os negociados do Irão, EUA, França, Grã Bretanha, Alemanha, Rússia, China conseguiram esta semana um acordo traduzindo um compromisso entre o exigido há vinte meses atras – o desmantelamento do programa nuclear iraniano – e a realidade.
O Irão não tem de desmantelar o seu programa nuclear, como Israel, a Arábia Saudita e os mais conservadores pretendiam, mas vai reduzir substancialmente o número de centrifugadores – que enriquecem o urânio até níveis de uso militar se assim quiserem – das actuais 19 mil para apenas seis mil e o nível de enriquecimento não pode ir acima de 3,67 por cento, muito abaixo do necessário ao fabrico de armas nucleares.
Claro que o acordo não põe fim ao programa, que continua para fins civis, mas atrasa em pelo menos 15 anos a capacidade de o Irão ter um arsenal nuclear. Um concessão iraniana substancial se tivermos em conta que o país estava perto de poder fabricar um engenho de fraca potência.
Por outro lado, os stocks de urânio baixamente enriquecido, cerca de 12 mil quilogramas, são reduzidos para 300 quilos e provavelmente comprados pela Rússia e outros signatários do acordo que assistirão o Irão na reconversão do reactor de água pesada de Arak, com capacidade para a produção de plutónio, outro elemento químico que permite a construção de armas nucleares.
Todo o restante material, designadamente as centrifugadoras, será com o apoio de Moscovo reconvertido para a produção de isótopos sem fins militares.
Se os europeus, tal como a Rússia e China vêem chegar ao fim de forma satisfatória um processo de 20 meses, já Barack Obama dá agora início a um outro processo, bem complicado em período eleitoral, de levar o Congresso a aprovar o acordo. Obama deixou já claro que iria vetar qualquer legislação que vise entravar o acordo.
Na verdade horas depois de anunciada em Viena uma conclusão positiva dos trabalhos, já congressistas conservadores protestavam e criticavam o documento. Agora têm vinte dias para o apreciar e decidir. Verdade é que em Março um grupo de 47 senadores republicanos divulgava uma carta ameaçando torpedear qualquer acordo. Se tal sucedesse os EUA perderiam toda a credibilidade internacional em futuras conversações.
Obama deixou claro que o acordo não se baseava em confiança mas na verificação, retirando assim um dos argumentos dos seus opositores.
De facto, a Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) deve aferir do cumprimento pelo Irão do que foi acordado em Viena. Só depois disso as sanções poderão começar a ser levantadas.
Mas a AIEA pode ainda efectuar inspecções surpresa e requerer acesso a qualquer instalação incluindo militar. Uma recusa por parte de Teerão será vista como uma violação do acordo.
O passo seguinte não apresenta, ao que indica o bom senso, problemas especiais: trata-se de transformar esse acordo numa resolução do Conselho de Segurança que integre todas as sanções impostas em diversas resoluções e crie os mecanismos de levantamento ou reposição quase automática em caso de incumprimento denunciado sempre pela AIEA.
Não é de esperar que Moscovo ou Pequim, signatários do documento de Viena, levantem problemas a este mecanismo automático. Ficam de fora as sanções impostas pela União Europeia que tem agora de proceder ao seu levantamento gradual. Esse levantamento tem início logo que a AIEA dê como concluída a primeira fase de desactivação que os iranianos afirmam ser possível em poucas semanas apesar das estimativas técnicas coloquem o final deste ano como data mais provável.
A curto prazo o Irão pode repor o seu petróleo no mercado criando uma situação já em si mesmo complicada pelos baixos preços do petróleo bruto.
É de admitir porém que apesar da necessidade de entrada de divisas Teerão coordene o aumento das suas vendas por forma a não criar animosidades nem uma queda acentuada nos preços.
A prazo mais longo está a ambição iraniana de se juntar às forças que combatem o autoproclamado exército do “estado islâmico”, acção que vem desenvolvendo com considerável sucesso no Iraque e na Síria.
Contudo, o apoio de Teerão ao Governo de Damasco colocam-no no campo oposto ao grupo que tem apoiado a queda de Bashir Al Assad. Ter uma palavra sobre o Médio Oriente, onde está profundamente envolvido seria positivo mas muito improvável dada a posição peremptória de Israel e a sua influência na politica externa americana. Afinal, são os EUA quem lidera o grupo contra o regime sírio.
A terminar, apenas duas palavras sobre a Europa.
Tsipras venceu como resistente mas perdeu politicamente. Se houve acordo em Bruxelas, conta a vontade dos nórdicos e do Leste, foi porque França e Itália designadamente, derem um murro na mesa, porque os Estados Unidos da América pressionaram os seus aliados do Leste conscientes de que a sua defesa depende de Washington.
Para muitos, a União Europeia, como concebida por Helmut Kohl, Jacques Delors, Willy Brandt, François Mitterrand ou Bettino Craxi, acabou.
Read more ...

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Acordo com Irão muda mercados


Benjamim Formigo |
9 de Abril, 2015

Como se esperava o acordo de princípio entre o Irão e as potências ocidentais não foi publicitado nem comentado em 1 de Abril, o dia das mentiras ou “fool’sday” (dos tolos ou dos enganos, em inglês) e apenas na segunda-feira, 2 de Abril, foi abertamente anunciado e comentado.
Este acordo político tem de ser acompanhado de outro de carácter técnico, que tem de estar concluído até ao fim de Junho, que garanta que o Irão não pode produzir armas nucleares no curto ou mesmo médio prazo. Somente então, com um acordo técnico que contemple uma moratória nuclear iraniana por dez anos, as sanções, incluindo a importação de crude do Irão, são levantadas.
Em Lausanne, Estados Unidos, Grã-Bretanha e França de um lado, Rússia, China e Irão do outro, com a Alemanha numa posição que pode ter sido decisiva, conseguiram o acordo político anunciado em 2 de Abril. O 1 de Abril estava excluído do calendário para a assinatura ou anúncio de qualquer acordo. Sendo em língua inglesa, o “fool’sday” era uma paródia para os republicanos norte-americanos ou para o primeiro-ministro israelita, Benyamin Netanyahu, que se opõem a qualquer entendimento com o Irão.
As partes devem definir o programa e calendário técnico que há-de vigorar para dar consistência ao acordo político de Lausanne. A ideia geral é conseguir uma estrutura técnica neste acordo que impeça o Irão de produzir armas nucleares durante a próxima década.
Como contrapartida as sanções são levantadas de uma forma progressiva, mas relativamente rápida. No Irão, as celebrações populares não esperaram pelo protocolo técnico, razão que vai fazer pensar os meios radicais iranianos antes de procurarem bloquear o protocolo que deve estar pronto até 30 de Junho. Sabe-se à partida que nestas negociações somente existe uma data limite rígida se não houver perspectivas de uma solução, pelo que não é de admirar que o 30 de Junho seja prorrogado se precisarem de ser limadas todas as arestas.
O acordo conseguido o Irão volta ao mercado exportador de petróleo num período de deflação dos preços. Nos dias anteriores ao entendimento, os preços do crude caíram para novos mínimos e apenas recuperaram quando se percebeu que havia novo período de conversações. Entre 31 de Março e 7 de Abril o crude (WTI) subiu de USD 47,52 para 53,35 apesar de uma queda no dia 2 para 49,25 dólares o barril. O regresso do Irão, for concretizado o acordo, faz entrar muito rapidamente no mercado cerca de 600 mil barris diários e em pouco mais de um ano a produção pode passar para 1,3 milhões diários.
Sabe-se que as autoridades iranianas têm mantido os poços em boas condições de funcionamento e que por isso a qualquer momento podem “abrir as torneiras” e aumentar a produção. Uma vez levantadas as sanções económicas é muito difícil fazer passar nova resolução no Conselho de Segurança, onde o veto chinês e russo são decisivos. Por outro lado, a Alemanha e a Umião Europeia dificilmente retomam as sansões que adoptaram relutantemente.
Se a Arábia Saudita não cortar a produção e continuar a guerra de mercados com o ­petróleo barato resultante do “fracking” norte-americano então os preços podem sofrer uma queda muito significativa pondo mesmo em risco as economias emergentes dependentes daquele produto e a fraca recuperação da Europa e dos Estados Unidos. Mas, há noticias que referem que a produção norte-americana de “fracking” diminuiu até porque aos actuais preços estão demasiado perto do “break even”, o que desagrada aos bancos que financiam esta operação.
A situação a médio e longo prazo também não é animadora. Nos países desenvolvidos houve um abrandamento no investimento das energias alternativas e há indícios que aquela tendência determinada pelos baixos preços do crude pode estar a inverter-se. A diversificação económica é por tudo isto um imperativo para os produtores de petróleo. O Irão e Arábia Saudita continuam no Iémen a guerra indirecta. Os sauditas pelo reforço do poder sunita e os iranianos a apoiar os grupos xiitas. Na verdade, criam pressão sobre Ryiadh para descer a produção petrolífera.
Como se não bastasse, a região vive sob a presão do Estado Islâmico que ameaça seriamente a capital e o Governo sírio, propaga a influência pelo Iraque e chega às portas da Jordânia. A volatilidade da região deixa obviamente enorme incerteza sobre o caminho que pode seguir o preço do crude, mas ates do mais constituiu uma tragédia humanitária sem antecedentes na zona, que ameaça a estabilidade de um conjunto de países e se espalha pela costa ocidental de África.
Read more ...

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Modesto acordo com o Irão


Benjamim Formigo
25 de Novembro, 2013

A nova ronda de conversações em Genebra, iniciada na passada semana, entre os Estados Unidos e o Irão levou a um acordo temporário sobre o programa nuclear iraniano e à suspensão de partes importantes da sua potencial componente militar, culminando assim a primeira fase de seis meses de diplomacia secreta entre Washington e Teerão.
Com este acordo intermédio, os Estados Unidos e a maior parte dos seus aliados esperam ganhar tempo para nas conversações que se ainda se seguem levarem Teerão a reverter os avanços feitos que poderiam ter utilização militar, designadamente, a redução ou inutilização das centrifugadoras de urânio, a desistência do reactor nuclear de água pesada que permite a produção de plutónio e tem o arranque previsto para o próximo ano.
A contrapartida dessa desistência, que colocaria de lado os riscos da entrada do Irão no grupo dos países com armas nucleares, é o levantamento das sanções à compra de petróleo iraniano, que provocou uma redução de 50 por cento nas receitas do país.
Se os aliados europeus de Washington apoiam o acordo provisório ou intermédio, a que se chegou ontem, o mesmo não se pode dizer de Israel, que continua a sustentar que o risco não é menor por causa do acordo e que este coloca em causa a sua segurança, nem da Arábia Saudita, que ameaça desenvolver o seu próprio programa nuclear. Os sauditas, historicamente, vêem uma ameaça na Pérsia (Irão). Apoiaram Saddam Hussein quando o Iraque declarou guerra ao Irão. Apoiam os rebeldes armados sírios, por oposição interposta ao Irão e à sua influência na região, como apoiaram no Afeganistão um Bin Laden contra os soviéticos. Mais: o programa nuclear do Paquistão foi financiado substancialmente pelos sauditas. Vizinho do Irão, o Paquistão nuclear, por antagonismo com a Índia, seria sempre útil face à antiga Pérsia.
Se os sauditas decidirem recorrer a um programa nuclear, é o potencial descalabro numa região instável, onde quanto menos armas houver melhor e se não houver armas nucleares a paz ainda tem uma hipótese. Como financiadores do programa paquistanês, não será difícil aos sauditas obterem, através do Paquistão, a tecnologia necessária. Isto – a simples ameaça de se poder tornar uma realidade – levará o Irão islâmico a não recuar, quaisquer que sejam os incentivos e aumentará a dimensão do risco para Israel. A acrescer a uma situação já em si mesmo complicada, nos Estados Unidos, Obama, menos de 24 horas depois do acordo, já está consciente que tem de convencer os “falcões” do Capitólio a recuar num conjunto de sanções com que pretendem responder ao programa nuclear iraniano, agora perto de uma situação de congelamento.
No Irão, os radicais da Guarda Revolucionária acham que se obteve uma bagatela pelo acordo actual, que poucas sanções levanta e não limpa o orgulho nacional. Acrescente-se que, realmente, pouco aliviam as dificuldades do iraniano comum, descontente com as pressões internacionais.
Seis meses a um ano de conversações não são muito para se conseguir aproximar as várias partes e, em paralelo, “segurar os cavalos”, os vários “cavalos” que se opõem às negociações. Provavelmente, deveria haver um alívio mais significativo das pressões, por exemplo, a União Europeia podia recomeçar, mesmo gradualmente, as compras de petróleo iraniano, decisão que não passa por Washington, onde qualquer alívio é um problema para os negociadores do Departamento de Estado e da Casa Branca.
Estes próximos seis meses são cruciais para um acordo final com o Irão e o desanuviamento na região, mesmo que isso custe aos sauditas e aos israelitas falta de tranquilidade nos meses que se seguem. Sem precipitações nem receios prematuros, a diplomacia tem uma hipótese, no Irão e na Síria, tanto mais que o acordo obtido já foi apoiado pelos principais actores, incluindo a OTAN em geral, a Rússia e a China.
Read more ...

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Paranóia moderada


Benjamim Formigo
5 de Agosto, 2013

De cada vez que num país de importância geoestratégica para o Ocidente, e com quem o caldo anda entornado, sobe ao poder um novo líder, os vários analistas recebem “informações fidedignas” que vêm nesse homem (ou mulher) um homem moderado.
Esta leitura tornou-se uma verdadeira paranóia dos países ocidentais que nunca colocam na equação uma constante: a sua própria posição inabalável relativamente às divergências existentes. Portanto não é difícil que os tais líderes moderados se radicalizem ao fim de algum tempo. Ou porque são mesmo moderados que não podem lutar ao lado dos adversários dos seus próprios países ou porque de facto ideologicamente nunca divergiram nem estiveram longe da corrente dominante. Desta feita, o novo moderado é o recém-eleito Presidente iraniano Hassan Rohani. As suas credenciais moderadas advêm das suas declarações de campanha contra a intransigência e o isolamento internacional e, talvez mais ainda, de em 2003 ter negociado com a Alemanha, França e Grã-Bretanha uma suspensão da actividade nuclear iraniana. Um acordo de pouca duração, pois por razões multilaterais o Irão retomou  o programa de enriquecimento de urânio. A desconfiança de parte a parte instalou-se e tem-se agravado cada vez mais.
Em vésperas da tomada de posse do Presidente Hassan Rohani – e quando já se falava dele como um moderado - a Câmara dos Representantes dos EUA, certamente para o estimular e o apoiar na sua moderação, aprovou o mais penalizador pacote de novas sanções económicas contra o Irão. Se o Senado as confirmar as dificuldades do país serão ímpares. A diplomática decisão do Congresso dos Estados Unidos acresce às sanções já anteriormente impostas tanto por Washington como pela União Europeia. A economia iraniana está a ser estrangulada como provavelmente nunca nenhuma outra foi e o país está sob uma explícita ameaça de ataque israelita.
Os líderes de países europeus convidados à tomada de posse do novo Presidente boicotaram em conjunto o convite. Contudo, hipocritamente, altos funcionários desses mesmos países, e da Administração americana, procuram fazer passar a mensagem do carácter moderado do novo líder iraniano.
Por muito boas que possam ser as suas relações com o ayatolah Ali Kahmenei não existem quaisquer motivos para que Hassan Rohani procure conseguir junto do líder religioso do país uma abertura, uma mudança política. Por espantosa que possa ter sido a sua eleição à primeira volta não se pode vender a um eleitorado esmagado pelas sanções estrangeiras a ideia de cedências em troca de uma mão cheia de nada. Acontece que os moderados só o podem ser se tiverem condições para isso. E essas condições não são apenas a sua vontade pessoal, a disponibilidade interna. Essas condições passam essencialmente pela manifestação extrema de abertura. Passa, em síntese, por os Estados moderados abrandarem, no mínimo, as suas posições radicais.
Não vale de nada nem serve ninguém descobrir moderados entre os adversários se aquilo que se pretende é a sua rendição.
Read more ...

domingo, 30 de setembro de 2012

Israel e as sanções ao Irão


Benjamim Formingo
30 de Setembro, 2012

Quinta-feira passada, na abertura da Assembleia Geral da ONU, o PM israelita  moderou substantivamente o seu discurso remetendo uma eventual intervenção militar israelita contra as instalações nucleares iranianas para meados do próximo ano, ao mesmo tempo que oficialmente era revelada a nova posição de Israel a favor de mais sanções.
Quinta-feira passada, na abertura da Assembleia Geral da ONU, o PM israelita  moderou substantivamente o seu discurso remetendo uma eventual intervenção militar israelita contra as instalações nucleares iranianas para meados do próximo ano, ao mesmo tempo que oficialmente era revelada a nova posição de Israel a favor de mais sanções.
No final do primeiro trimestre deste ano Israel pressionava a Comunidade Internacional e deixava saber que Maio seria um limite. Todavia uma aventura militar contra o Irão não é o mesmo que fomentar as chamadas “primaveras árabes” e com a situação na Síria em permanente degradação ninguém queria ser arrastado para esse conflito.
Menos do que todos os Estados Unidos que face a uma eventual retaliação ver-se-iam na contingência de intervirem ao lado de Israel.
A Administração Obama foi deixando isso claro e os seus aliados também se colocaram de fora através de um conjunto de sanções de efeitos duvidosos.
Com a aproximação das eleições de Novembro e a vantagem que Obama vai somando nas sondagens face a Mitt Romney desde o início de Setembro, passadas as convenções, Netanyahu achou por bem moderar o seu discurso mais em linha com a Casa Branca.
Esta mudança deixa porém ver mais uma situação em que a opinião pública internacional estava a ser enganada.
Quando no primeiro trimestre deste ano se dizia que o programa nuclear iraniano seria invulneravelmente deslocado para instalações subterrâneas, sabe-se agora que esse prazo, segundo fontes oficiais israelitas, só se esgota entre a próxima Primavera e Verão. Sabe-se de fontes americanas que o enriquecimento de urânio para fins militares está ainda longe.
Fontes israelitas argumentam agora que as sanções devem ser aumentadas pois estarão a causar graves distúrbios na economia, contudo é mais duvidoso que esteja a desestabilizar o regime.
E se estivesse a desestabilizar o regime iraniano seria duvidoso que tal pudesse trazer alguma vantagem no meio da instabilidade que traria à região.
Outra primavera? Em tempo de alteração climatérica ou de ciclos de clima nada há de mais duvidoso.
Read more ...

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

A probabilidade e possibilidade do ataque israelita ao Irão


Benjamim Formigo |

9 de Fevereiro, 2012

Os primeiros indícios de que Israel pode estar perigosamente perto de desencadear um ataque preventivo contra o Irão surgiram o mês passado quando o ministro da Defesa, Ehud Barak, pediu a Washington o adiamento de manobras militares conjuntas que se deveriam iniciar em Março e prolongar até Maio, alegando que esta Primavera Israel não podia dedicar meios a esses exercícios anuais.
A possibilidade desse ataque foi acentuada quinta-feira da semana passada por Barak ao afirmar perante a comunidade de informações israelita que se estava a esgotar o tempo para uma intervenção militar que pudesse afectar o desenvolvimento do programa nuclear iraniano. Mesmo que, como foi admitido, a acção militar só atrasasse esse programa e pudesse ter de ser repetida dentro de algum tempo não especificado. O “bluff” não é de excluir.
Na reunião, em Herzliya, o ministro da Defesa Ehud Barak e outros altos responsáveis militares, incluindo o chefe dos serviços de informação militar, General Aviv Kochavi, afirmaram que a janela de oportunidade para um ataque se estava a fechar e Kochavi esclareceu que o governo iraninao teria já suficiente material fissível para construir uma ou duas armas nucleares dentro de um ano.
Para os responsáveis israelitas que se pronunciaram, em especial o ministro Barak, existe uma janela de oportunidade para afectar, não destruir, o programa nuclear iraniano antes de estar consumada a mudança dos laboratórios de enriquecimento de urânio para bunkers nas profundezas de uma montanha perto da cidade de Qom.
O governo israelita esperam uma retaliação iraniana, bem como acções dos gurpos Hezbollah e do Hamas a partir do Sul do Líbano e da faixa de Gaza.
Os Estados Unidos afirmam a sua preocupação por um lado porque Israel recusa aceitar avisar previamente Washington, por outro porque receiam que o conflito provoque o disparar do preço do petróleo afectando a frágil economia mundial. Ao mesmo tempo os americanos sustentam que se manterão à margem do conflito mas que se verão compelidos a intervir se os seus interesses forem atacados ou se populações civis israelitas forem atingidas na retaliação.
Se a primeira é algo debatível não existe qualquer dúvida quanto à inevitabilidade da segunda. Por isso a resposta é: os Estados Unidos irão intervir no conflito.
Israel tem de facto todas as possibilidades de levar a cabo um ataque preventivo adiando o programa iraniano. Se os Estados Unidos da América têm interesse em que isso aconteça não é tão claro, mas os interesses americanos naquela região do globo, há uma eternidade que são ditados pelos israelitas.
A probabilidade da acção militar é mais complicada.
Ehud Barak é de longe o militar mais qualificado de Israel, o mais condecorado e um homem de enorme coragem física e política.
Mas no passado mostrou-se sempre um homem com visão. A sua conduta foi muitas vezes de uma condescendência calculada com limites bem definidos. Teve a coragem de retirar do Sul do Líbano em 1999/2000, quando foi primeiro-ministro trabalhista, cumprindo uma promessa antiga de Israel. Mas nunca hesitou em posições extremamente duras quando foi necessário. Recentemente abandonou o Partido Trabalhista e aceitou fazer parte do Governo de Benyamin Netanyahu, por quem na década de 90 nutria pouca simpatia.
Neste momento o único aliado iraniano na região, o Governo da Síria, está sob fogo e fragilizado.
O Irão está a perder os meios de acesso ao Mediterrâneo e ao Líbano através da Síria.
As sanções económicas contra Teerão têm colocado imensa pressão no país, com falta de alimentos, restrições de divisas, etc.
A população iraniana vive um sentimento de pré-conflito, o que pode ter o efeito contrário do que os Estados Unidos desejariam, uma visão que é discutida e contestada pelos que vêm a população a virar-se contra o regime. Uma visão que a prevalecer, sobretudo no poder israelita, aumenta as probabilidades de um ataque.
Em Israel são muitos os que acreditam que haverá um ataque e também são muitos os que discordam. Na ausência porém de uma alternativa, a tese do ataque preventivo surge com alguma consistência. Israel já sofreu ataques do Iraque durante a guerra do Golfo na década de 90 e contou com a eficiência dos mísseis “Patriot” para detê-los. Será que pode contar com essa defesa mais de duas décadas depois quando as tecnologias evoluíram?
O confronto teria consequências económicas provavelmente menores que se anuncia. No entanto, o facto é que a Marinha iraniana está fora dos portos, onde poderia ser facilmente neutralizável. Fechar Ormuz seria uma táctica suicida do Irão, pois o poderio da 5ª Esquadra naval dos EUA, apoiada pela Royal Navy, a Marinha francesa e a aviação estacionada na península arábica facilmente neutralizariam os iranianos. Uma razão que aumenta a probabilidade do ataque israelita.
Em síntese, qualquer que seja a posição dos Estados Unidos, a menos que o Irão reaja passivamente no caso de ser atacado, Israel poderá contar com importantes apoios exteriores se levar a cabo o que mais ninguém quer fazer: atacar alvos específicos no Irão.
Read more ...

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

As sanções e o intrincado labirinto nuclear iraniano

 
 Benjamim Formigo |
30 de Janeiro, 2012


O agravamento das sanções económicas ao Irão era uma questão de tempo desde a entrega e divulgação do novo relatório das Nações Unidas confirmando as avalizações que vinham sendo feitas pela CIA relativamente ao programa nuclear iraniano.
Ninguém ficou certamente surpreendido por os Estados Unidos e a União Europeia terem decidido separadamente manter e reforçar as sanções contra aquele país. Era a solução óbvia e simples para lidar com uma situação que parece ultrapassar as capacidades da diplomacia convencional.
O programa nuclear iraniano e a capacidade adquirida de o transformar num programa militar tornou-se inaceitável para Israel e uma potencial ameaça aos seus vizinhos árabes produtores de petróleo. Esse programa, que até agora não se demonstrou ser militar mas apenas pode ser usado para fins militares (e não é difícil aceitar que esteja ou venha a ser orientado nesse sentido) devia ter colocado as relações com o regime iraniano no topo das agendas. Não sucedeu assim. Não foi definida uma estratégia concertada de melhoramento dos laços diplomáticos, de abertura de diálogo, de levantamento de sanções anteriores, de cooperação. Verdade, também, é que as contradições no interior do sistema iraniano, os seus avanços e recuos, a luta pelo poder entre moderados e fundamentalistas pouco ajudou a definir um interlocutor. Não é, porém, menos verdade que caberia aos Estados com maior estabilidade política investir tempo e recursos numa estratégia de médio e longo prazo que agora se faz sentir.
Quase vinte meses depois da última reunião do Conselho de Segurança da ONU ter aprovado sanções ao Irão, por causa do seu programa nuclear, os Estados Unidos viram inviabilizada pela Rússia e pela China uma tentativa de reforçar essas sanções. Foi pois necessário, graças à disponibilidade europeia, recorrer à imposição de sanções bilaterais.
Pouco depois de Washington decretar novas sanções o Conselho Europeu de Assuntos Gerais aprovou um embargo petrolífero e a produtos petrolíferos provenientes do Irão. Mais, a União Europeia decretou o congelamento dos bens do banco central iraniano em instituições europeias. Contudo, os europeus não só diferiram a entrada em vigor das sanções para o dia 1 de Julho como deixaram aberta uma excepção para as empresas credoras do Estado iraniano poderem recuperar as dívidas através da importação de petróleo.
Pela experiência passada não é nada evidente que esta seja a melhor forma de lidar com uma situação complicada, grave e sensível. O Irão mostrou-se dialogante em dado momento de alívio de sanções, mas retraiu-se por razões internas e os seus interlocutores internacionais não tiveram a “souplesse” necessária para lidar com a situação reagindo com ameaças e fechando o diálogo.
A convivência com um Irão nuclear é tão inevitável como aceitar o Japão com capacidade de fabricar armas nucleares ou mesmo a existência de uma Índia e de um Paquistão nuclearizados. A alternativa, se as sanções não levarem Teerão à mesa das conversações, é a acção militar directa ou através de Israel. Em qualquer dos casos, Estados Unidos e União Europeia estariam envolvidos no confronto.
As sanções económicas europeias, a entrar em vigor dentro de seis meses, são as que mais afectam o Irão. Já com alguns problemas com a imposição de anteriores limitações, nomeadamente o desinvestimento das petrolíferas estrangeiras, o país sente algumas dificuldades que se agravam com o embargo europeu e americano. Contudo, como sucedeu noutros locais, estes embargos têm um efeito de ricochete. As dificuldades internas provocadas do exterior levam a um cerrar de fileiras e a um apoio popular ao regime. Basta constatar que até a oposição iraniana no exílio manifesta reservas a esta estratégia.
A União Europeia é o segundo cliente iraniano, absorvendo um quarto das suas exportações. No actual ambiente recessivo da economia mundial, a Europa já reduz o seu consumo, como de resto os outros países. Outros grandes clientes iranianos, como o Japão e a Coreia do Sul, não parecem inclinados a abraçar embargos, e a China e a Índia, outros grandes importadores de crude iraniano, não necessitam de aumentar as suas importações, uma forma de compensar as perdas provocadas quando o embargo europeu se juntar às sanções americanas.
Resta, obviamente, o recurso à subida dos preços do petróleo. Daí a ameaça iraniana de recorrer à estratégia de bloquear o Estreito de Ormuz. Uma ameaça que Teerão tem dificuldade em executar. O bloqueio de Ormuz foi usado pela primeira vez no início do século XVI pelo português Afonso de Albuquerque, então Vice-Rei da Índia, como forma de controlar o comércio em toda a zona. Tal foi possível no século XVI dado o poderio naval português. Hoje, tal como na época, um bloqueio deste tipo exige um poder naval, de que o Irão não dispõe, e que foi facilmente contrariado na década de 80, durante a guerra Irão–Iraque pela 5ª Esquadra norte-americana, agora reforçada por forças navais da França e Grã-Bretanha.
As sanções podem “encurralar” economicamente o Irão, provocando a aceleração do vector nuclear do seu programa, o que teria como consequência provável, ou um ataque israelita (que arrastaria americanos e europeus para um conflito) ou um ataque americano (que arrastaria europeus e israelitas).
Poucas coisas podem ser mais instáveis que uma crise na zona do Golfo e em plena campanha eleitoral nos Estados Unidos. O grau de instabilidade do região desaconselharia uma gestão de risco, mesmo de alto risco como aquela em que EUA e União parecem prontos a embarcar.
Decretar sanções não é complicado. E depois?
Read more ...

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Nuclear iraniano teve um relatório por medida


Benjamim Formigo
14 de Novembro, 2011

Importa esclarecer antes do mais que não vejo os iranianos como meninos de coro nem a possibilidade de haver mais um país com armas nucleares é uma perspectiva simpática. Na verdade a ameaça apenas se adensa.
Dito isto não é possível ignorar que a Agência Internacional de Energia Atómica produziu um relatório sobre a probabilidade de o Irão estar a desenvolver, e em estágio aparentemente avançado, um programa nuclear militar que encaixa perfeitamente nas acusações americanas.
O relatório divulgado na passada terça-feira encontra finalmente aquilo que chama indícios sólidos de que o Irão está a desenvolver um programa militar, que procedeu a testes de detonadores específicos, que ultrapassou a fase de estudos teóricos e que “existem fortes indícios de um programa de desenvolvimento de armas nucleares”.
Nunca a AIEA foi tão longe exactamente por tirar conclusões sem denunciar um único laboratório ou local de produção dessas armas nem afirmar que o Irão domina a tecnologia.
Ao fim de dois anos de presidência da Agência por Yukira Amano, um antigo diplomata japonês, a AIEA produziu um relatório concorrente com análises da CIA sobre as alterações no programa nuclear iraniano e o seu carácter militar.
Essa coincidência levou os autores do relatório a ter uma especial preocupação na demonstração da sua credibilidade.
O programa nuclear iraniano não é um segredo. Não é de admirar que um país que se encontra junto a duas potências nucleares antagónica entre si (Paquistão e Índia) e perto de outra potência nuclear (Israel) procure ter a sua própria resposta. Se esse programa é uma ameaça de agressão ou uma dissuasão pode ser debatível. Por definição um arsenal nuclear é sempre uma ameaça. Com o final da Guerra Fria e os desvios da Administração Bush o Tratado de Não Proliferação ficou obsoleto e nada foi feito para a criação de mecanismos impeditivos da proliferação de armas nucleares. Com a colaboração directa e/ou indirecta – sublinhe-se das grandes potências. Não há inocentes.
Seja como for este relatório de uma agência das Nações Unidas faltava para legitimar uma escalada no debate sobre a posição face ao Irão. Estados Unidos e Israel, com a cobertura habitual da NATO, debatem, de acordo com o “New York Times”, se a melhor resposta será o aumento da pressão diplomática, novas sanções, sabotagem ou acção militar.
Nenhum dos países envolvidos neste debate tem qualquer capacidade diplomática junto do Irão que isolaram desde a queda do Xá. O maior erro em diplomacia é precisamente o corte de canais de influência política e económica, como sucedeu após a crise dos reféns americanos e se manteve depois disso. Nenhum dos países envolvidos tem capacidade de exercer mas sanções, nem o Irão e os iranianos parecem sensíveis às sanções. Uma sabotagem não é fácil pois nenhum local está claramente identificado e se fosse possível isso não iria pôr termo ao programa mas torná-lo ainda mais clandestino. Quanto a uma acção militar o Irão em si mesmo não é o Iraque ou o Afeganistão e a sua posição geoestratégica é bem complicada para este tipo de acção.
Curioso é que este relatório tenha sido concluído e entregue quando os Estados Unidos preparam a retirada do Iraque e do Afeganistão estudando o reposicionamento de pelo menos quatro mil homens na Península Arábica e reforçando a presença naval na região do Golfo. Os quatro mil homens seriam posicionados a partir do final do ano na Arábia Saudita, Qatar, Omã. A Quinta Esquadra, baseada no Bahrein, seria reforçada, em navios e aeronaves. Tal como sucedeu na Europa durante a Guerra Fria os EUA estudam o pré-posicionamento de material de guerra, desde munições a blindados, armas pesadas, etc., na região, facilitando deste modo qualquer operação aerotransportada de tropas para operarem o equipamento em caso de crise.
A Rússia e a China quase numa linguagem dos tempos da Guerra Fria advertiram que não aceitariam uma operação militar contra o Irão. Porém a Rússia também não quer mais uma potência nuclear à porta das traseiras. Ideia que também não é muito simpática para a Índia sobretudo se houver uma melhoria de relações entre o Irão e o Paquistão.
O reposicionamento militar norte-americano protege evidentemente os interesses no petróleo e os regimes favoráveis na região e que têm sido abalados pelas movimentações da chamada “primavera árabe”, um nome muito pouco apropriado para o que se tem passado.
Também não deixa de ser interessante que para além das coincidências já referidas os Estados Unidos se envolvam numa nova despesa federal que não facilita o combate ao défice, que seria cortado com a retirada do Iraque. Esta retirada vem obviamente libertar uma verba muito considerável num país cujo défice é muito superior ao da zona euro. As muitas críticas ao défice americano não serão extensivas à despesa deste reposicionamento militar. Os interesses em jogo são imensos e o complexo militar-industrial só tem a ganhar e com isso ganha o sector financeiro.
A crise financeira mundial necessita de um conflito, o tal salto em frente que por mais de uma vez no século passado e durante a Guerra Fria permitiu mudar o ciclo. Isso é porventura o factor conjuntural mais importante da gestão de alto risco que se desenha para a crise anunciada com o Irão. A Coreia do Norte e a sua proximidade com a China colocam esse problema noutro patamar.
Quem vai beneficiar, seja qual for o caminho, não são obviamente os países em desenvolvimento.

Read more ...