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segunda-feira, 17 de março de 2014

Brisa fresca na Igreja Católica


Benjamim Formigo
17 de Março, 2014

A igreja de Jorge Bergoglio, arcebispo de Buenos Aires, estará a desenhar o mapa a seguir pela igreja do Papa Francisco?
 E será essa igreja próxima da igreja dos pobres, uma moderada versão da defendida por Leonardo Boff e que na década de 80 do século passado ganhou apoiantes da América Central e Latina? Se assim fosse teríamos uma curiosa coincidência de pontos de vista entre jesuítas, o Papa, e franciscanos, Leonardo Boff. É cedo para dizer mas não deixa de ser curioso o nome escolhido pelo antigo arcebispo de Buenos Aires quando se sentou na cadeira de Pedro em Roma.
Seja como for o novo Papa desde o início que se tem afastado do conservadorismo tradicional de Igreja Católica no Vaticano para onde parece levar a visão que do Mundo têm outros Continentes e outros povos. Até agora todos os Papas foram europeus. Mas não só, muitos foram conservadores, e mesmo bastante conservadores. As excepções mais visíveis terão provavelmente sido Leão XIII que em 1891, quando as teorias de Karl Marx ganhavam terreno na Europa, condenou “a desolação e miséria” que “oprime a classe trabalhadora”; mais tarde no Concilio do Vaticano II, em 1962, o Papa João XXIII abriu as janelas para refrescar o ar pesado da Igreja Católica. Depois dele muito se falou no Concilio ao mesmo tempo que o conservadorismo regressou e se agravou dentro do Vaticano. Os jesuítas no Terceiro Mundo sofreram quando o Papa João Paulo II deixou que o cardeal Ratzinger, director da Congregação da Doutrina da Fé, chamasse Leonardo Boff ao Vaticano sempre que algum acontecimento marcante iria ocorrer afastando a liderança da igreja dos pobres do centro da previsível contestação. Boff foi apenas o nome mais visível dos prelados silenciados pelo Vaticano.
Agora uma brisa fresca, porventura mais ousada que a de João XXIII, e em tempos difíceis para a Igreja Católica e o Mundo, faz-se sentir em Roma. Francisco herdou de Bento XVI uma Igreja em crise, envolvida em escândalos, sexuais ou financeiros, carente de vocações, e de crentes convictos. Em paralelo outras seitas religiosas cresceram e espalharam-se, especialmente entre os pobres e os mais desfavorecidos dos países em desenvolvimento enquanto nos desenvolvidos os fiéis se tornaram cada vez menos, incluindo nos bastiões tradicionais da Igreja Católica. O discurso de Francisco poderia ser olhado como oportunista, face à situação da Igreja Católica, se ele não estivesse na linha das suas tomadas de posição enquanto padre jesuíta na Argentina e depois arcebispo de Buenos Aires, se o seu procedimento no Vaticano, em Roma, divergisse do que era o seu comportamento na Argentina.
 O novo Papa recentemente numa mensagem à conferência dos ricos em Davos enviou a mesma mensagem da sua primeira encíclica Evangelii Gaudium: “enquanto os proveitos de uma minoria crescem exponencialmente abre-se também o fosso que separa a maioria da prosperidade de que beneficiam alguns” (...) “o Papa ama a todos mas em nome de Cristo tem de recordar que é obrigação dos ricos ajudarem os pobres”, disse na sua encíclica. Na mensagem a Davos congratulou o sucesso, a criatividade, a inovação acrescentando “Agora é necessário enfrentar os problemas dos que são sistematicamente excluídos”.
O ar fresco está a entrar pelas janelas que Francisco abriu. A Igreja porém não é apenas o Vaticano. Importa refrescar os lugares bafientos agora que a voz do sucessor de Pedro ultrapassa o perímetro dos seguidores do catolicismo. O Mundo agradece.
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