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quarta-feira, 7 de abril de 2010

Tentar compreender o incompreensível

Benjamim Formigo |
7 de Abril, 2010


O dia não podia ter sido mais bem escolhido pelos militares da Guiné-Bissau: 1º de Abril! No dia das mentiras os militares guineenses decidiram sair à rua mais uma vez para uma incompreensível fantuchada que em nada prestigia o país africano e cria ainda mais dificuldades ao que pretendem ajudar.
Se o termo “fantuchada” pode parecer forte ou inapropriado para esses actos, a verdade é que chegou o momento de chamar as coisas pelos seus nomes.
A CPLP e a sua missão exploratória, a missão da União Africana, e da Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) estão em Bissau desde a primeira hora a tentar perceber o que se passou e como ajudar o Governo guineense, nas palavras quer do Secretário Executivo da CPLP quer do embaixador de Portugal proferidas após reuniões com o Primeiro-Ministro e o Presidente da Republica.
Os militares saíram à rua pela “enésima” vez desde a independência. Prendem o Primeiro-Ministro, libertam o Primeiro-Ministro, destituem o Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas e autoproclamam um novo chefe, não conseguem explicar o seu objectivo mas reiteram que respeitam o Poder Politico, o próprio Primeiro-Ministro vem falar em normalidade, o Secretário Executivo da CPLP de outros membros da missão dizem que tudo está longe de ser normal. É um facto.
A explicação para esta atitude dos militares existe seguramente. Mas, mais do que encontrar uma explicação para este novo “golpe” (“por assuntos internos dos militares”, de acordo com o cabecilha do grupo) é altura da Comunidade Internacional dizer basta!
Um país não é governável no ambiente que a Guiné-Bissau tem vivido desde a independência e a mensagem tem de ser passada não só aos militares guineenses como aos países fronteiriços que sempre gostaram de se imiscuir nos assuntos internos do país. Porém, esta mensagem tem de ir bem mais além, tem de chegar aos cartéis da droga que, segundo agências da ONU e serviços de inteligência internacionais elegeram a Guiné-Bissau como um ponto de trânsito entre a América do Sul e a Europa.
A combinação de factores que parecem entrecruzar-se num dos países mais pobres de África, desestabilizando o seu caminho, o seu povo e criando-lhe a reputação de um Estado sem lei onde o assassínio político se banalizou ou esconde outro tipo de motivo que nada tem de político.
Ao lado do chefe insurrecto que depois de prender e libertar o Primeiro-Ministro, ameaçar a Presidência, e dizer que respeita o poder politico, António Indjai, estava o almirante José Américo Bubo Na Tchuto, que os “revoltosos” foram buscar às instalações da ONU onde se encontrava refugiado à espera de ser entregue às autoridades por alegado envolvimento noutra tentativa de golpe militar. Almirante que, por coincidência, é apontado como um dos homens ligados aos cartéis da droga.
De acordo com o diário francês “Le Monde”, a droga é transportada a partir da América do Sul, designadamente da Venezuela, e largada na zona dos Bijagós.
Aí é recolhida por embarcações que a encaminham depois para a Europa.
A confirmarem-se as alegações que múltiplas agências de combate à droga têm feito relativamente aos militares e até políticos guineenses, o problema deixa de ser uma questão interna da Guiné-Bissau para passar a ser da Comunidade Internacional. Se a estas alegações se acrescentarem as conhecidas rivalidades no partido do poder e as ambições entre os militares, estamos a ter um quadro sinistro do futuro do país.
As várias missões podem procurar encontrar as explicações para o que se passa e exprimir-se na labiríntica linguagem diplomática. Permanece uma questão de fundo: os direitos do povo guineense que lutou pela sua independência e luta pelo seu futuro.
Ao contrário do que afirmou o Secretário Executivo da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, o guineense Domingos Simões Pereira, após um encontro com o Primeiro-Ministro Carlos Gomes Júnior, uma força de manutenção de paz da CPLP tem plena justificação. Os povos têm o direito a ser defendidos mesmo dos que detêm o poder nos seus países. Os políticos têm divergências até quando estão no mesmo partido, é por isso que são políticos e têm obrigações com os seus povos, a primeira das quais a defesa. Sem estabilidade não pode haver auxílio económico nem planos de desenvolvimento. O turismo, uma boa fonte de rendimento do país, vai-se. Os turistas não gostam de tiros nem de instabilidade. Normalmente nestas circunstâncias mesmo os mais liberais dizem “um charro? Não obrigado!” Por tudo isso é altura de dizermos: Basta!
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