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quarta-feira, 30 de março de 2016

A guerra e o cinismo da negação


Benjamim Formigo

30 de Março de 2016


Na sua homilia Pascal o Papa Francisco, como vem sendo habitual, não hesitou em colocar abertamente aquilo que se diz nas salas almofadadas das Chancelarias: o Mundo está em guerra. Francisco citou o caso mais recente de Bruxelas para depois chamar a atenção sobre Paris, e os atentados levados a cabo da Indonésia a África. De forma menos directa, a propósito da Síria recordou os fracassos das chamadas “primaveras árabes”  que transformaram o equilibro difícil do Norte de África e do Magrebe em zonas de confronto onde o Estado desapareceu, dando lugar a movimentos tribais rapidamente cooptados pela Al Qaeda e pouco depois pelo autoproclamado “estado islâmico”.


A posição internacional face à Síria tornou-se escandalosamente inaceitável e tem consequências que não só ultrapassam fronteiras com os milhares de refugiados obrigados a fugir da barbárie, como destrói o património histórico da Humanidade, desencadeia os ódios turcos aos curdos, sírios, iraquianos ou iranianos, a quem Islamabad pretende negar uma pátria. Os turcos, que em teoria fazem parte de um grupo de países que combate o “EI” e o seu terror, bombardeiam sem qualquer problema e impunemente as tropas curdas, únicas que até há pouco tinham, com a guarda iraniana, capacidade para travar e derrotar os terroristas que se acoitam no “EI”. Mas a contradição ocidental não se fica por aqui: os EUA consideram seus aliados nesta guerra ao terrorismo alguns Estados que directa ou indirectamente os financiam, designadamente a Arábia Saudita e o Qatar.


O desnorte é tão grande, a falta de coordenação e dialogo é tal que fracassada a tentativa de confronto na OTAN com a Rússia por causa da Ucrânia, a Turquia teve o atrevimento de abater um avião de combate russo da coligação contra o “EI” porque alegadamente violou o seu espaço aéreo alguns minutos – se tanto. Ninguém me diga que os F-16 turcos estavam no ar tão perto do Sukhoi russo que teve tempo para cobrir o espaço que o separaria, advertir da “violação” e abater o “Su” russo ainda em espaço turco. Será que alguém olhou um mapa para ver a meia dúzia de quilómetros de que estamos a falar? Ou será que Ancara acha que somos todos idiotas?


Falhada essa tentativa e os ataques contra os curdos aliados contra o “EI” e nem todos necessariamente pró regime de Assad, a Turquia tornou-se um passadouro de refugiados para território dos seus “não-amigos” gregos, não para a parte Norte de Chipre mais próxima do continente e ocupada militarmente pela Turquia, em desafio de múltiplas Resoluções da ONU mas para as ilhas paradisíacas do Sul cuja prosperidade vem do turismo. Para quem esteve na ilha, como eu, passar a linha de demarcação é mudar de país. Só as elites turcas têm uma vida melhor e por vezes vendendo a ingleses propriedades cuja posse por turcos está interditada pela ocupação ilícita definida pela ONU.


Para que não sejam só os turcos os maus da fita naquela guerra, expoente máximo da tal “primavera árabe”, há lugar na arena para toda a gente. Desde desapossados europeus – para usar um termo simpático – a lúmpen, a europeus enigmaticamente “convertidos” ao “Islão”, indescritivelmente violentos com as suas decapitações públicas que nem durante domínio nazi teve paralelo.


O factor imprevisto – há sempre um imprevisto – veio do frio: Vladimir Putin e a sua determinação em afastar o risco das suas fronteiras, estabelecer o lugar da Rússia na cena internacional e deixar um aviso inequívoco aos que olhavam sobranceiramente o colosso russo. Se esta semana em Genebra começaram os primeiros e insípidos diálogos deve-se ao poder de fogo lançado pelos russos contra o “EI” e na passada contra as forças que se opunham a Assad. Em semanas o equilíbrio no terreno mudou a favor do Presidente Assad que poderá mesmo negociar a sua saída nos melhores termos.


A Europa mudou para uma neutralidade activa. Hoje muitos, mesmo muitos europeus têm vergonha de mostrar um passaporte da União Europeia. Assustados por um lado pelos ataques terroristas na capital europeia: Bruxelas, pressionados por um eleitorado cada vez mais xenófobo – o medo tem destas coisas – os burocratas de Bruxelas, que ninguém elegeu, como a Comissão Europeia, preocupam-se com os défices e não com a Defesa e Segurança ou um dos pilares fundamentais da construção europeia: Schengen. Fecham-se fronteiras, recambiam-se refugiados para a Turquia a troco de dinheiro. A UE pode estar a chegar ao fim se em Genebra não surgir a solução: o final do conflito e o investimento na reconstrução da Síria. Mas a situação não irá melhorar se Washington, com medo de Donald Trump e da sua retórica, continuarem a afastar o Irão, agora a pretexto de testar mísseis balísticos. Tudo está ligado. O Paquistão é uma ameaça ao Irão, dispõe de armas nucleares que ninguém obrigou a desmantelar. Simplesmente o Paquistão, as suas Forças Armadas e de Segurança apoiam as madrastas e os talibãs que desestabilizam o Afeganistão, ou seja embriões do “EI”. Pelos vistos o Irão não tem o direito a se defender.


O Santo Padre tem razão quando diz que o Mundo está em guerra, até onde não há (ainda) terror nem tiros. Os Estados têm de se defender, mesmo que exageradamente pois ninguém ainda aventou uma hipótese de como conseguir senão a paz pelo menos a não-guerra.
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quinta-feira, 16 de abril de 2015

O estado de guerra chegou ao Médio Oriente


Benjamim Formigo |
16 de Abril, 2015

Na Cidade do Panamá a Cimeira das Américas foi a ocasião oportuna para Barak Obama e Raul Castro se sentarem frente a frente e discutirem o futuro das relações entre os dois países que conheceram uma nova fase quando a 17 de Dezembro os dois Presidentes a­nunciaram uma nova fase nas relações após a Casa Branca ter levantado algumas das restrições que sufocavam Cuba.
O encontro no Panamá, independentemente dos seus resultados, foi uma lufada de ar fresco no ambiente bafioso das relações entre os dois países e uma noticia positiva nos acontecimentos internacionais em geral. Torna-se de conseguir o mais fácil: resolver um absurdo que durou mais tempo que as memorias dos pântanos do Vietname e onde os americanos perderam mais tropas.
 Cuba ainda está na lista dos EUA dos países que alegadamente apoiam o terrorismo. Uma inclusão um pouco difícil de entender pois nunca houve noticia de que Havana desse guarida, apoio, treino ou financiasse o terrorismo. Uma daquelas coisas que só realmente os americanos sabem fazer. Esperemos agora para ver até onde Obama consegue ir com um Congresso republicado determinado em ganhar eleições em detrimento dos interesses dos EUA e dos seus aliados, seja em Cuba ou no Irão.
No Irão o ayatollah Ali Khamenei afirmou que não haverá acordo em final de Junho se as sanções não forem levantadas. As declarações do líder religioso iraniano são vistas mais como uma manobra para manter os radicais à distancia enquanto as conversações prosseguem mas ao mesmo tempo não deixa de ser um alerta sobretudo para os aliados europeus de Washington, pouco dispostos a continuar as sanções, e um apelo à Rússia e China, partes do grupo de contacto e com direito de veto no Conselho de Segurança.
Enquanto os sinais de desanuviamento surgem do outro lado do Mundo, no Médio Oriente, ­vivem-se duas situações dramáticas transformadas já em desastres humanitários: Síria e Iémen.
No Iémen a aviação saudita tem uma interpretação demasiado lata de danos colaterais e os seus ataques contra a guerrilha houthi, apoiada pelo Irão, atingem indiscriminadamente civis, numa tentativa de impedir o controlo do Golfo de Aden pelos houtis e a queda da capital. O Iémen está literalmente cercado, bloqueado por terra e mar pelos sauditas e seus aliados do Golfo e sob intensos bombardeamentos que impedem a retirada ou o socorro aos civis encurralados por terra e ar.  O Irão tem na região vários navios de guerra sob o pretexto de exercícios navais em águas internacionais mas não é de esperar que se envolva num confronto directo com os sauditas neste momento em que negoceia o levantamento das sanções.
O Paquistão, ou melhor o Parlamento paquistanês teve o bom senso de manter o país fora daquele conflito uma vez que o envio de tropas iria causar uma tensão fronteiriça com o Irão e demonstrar que Teerão tem razão ao pretender armas nucleares, não para atacar Israel, mas para equilibrar forças com o seu vizinho paquistanês detentor de armas nucleares.
Como será possível sair da situação criada no Iémen é uma incógnita tão grande como saber como vai ser possível suster os grupos armados do autoproclamado estado islâmico do Iraque e do Levante (EIIL) que se encontram às portas de Damasco. Grupos que atacaram e tomaram um imenso campo de refugiados palestinianos a pouco quilómetros da capital.
Desta vez não houve apoio aéreo americano aos grupos que procuravam suster o avanço do (EIIL). A verdade porém é que é suicida aceitar que o EI tome conta da Síria, então sim a ameaça a Israel seria bem real e grave. O EI tem vindo a massacrar populações, aldeias inteiras na sua campanha de terror. Ninguém quase se opõe aos homens de negro que decapitam os resistentes ou simplesmente decapitam e torturam sem outro motivo que infundir o terror.
Quem criou este monstro em nome da renuncia e/ou queda do Governo de Bashir Al Assad? Agora é tarde para voltar atrás e suspender os auxílios a uma chamada oposição moderada que deixou que vários grupos radicais se apoderassem de armas e financiamentos e se viessem a juntar a um bando de radicais que nem a Al Aqueda aceita.
Isolar o campo palestiniano. Com que custos humanos? Negociar com quem não quer negociar? Responder com a força à custa da vida de centenas ou milhares de civis inocentes parece ser o preço a pagar (por outros) pelos erros das democracias ocidentais. Resta esperar que alguém com imaginação encontre um plano de cortar a retaguarda ao EI e de o enfraquecer ou descubra uma facção moderada disposta a negociar. Isso ou um crescendo de violência.
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quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Guerra sem soluções políticas


Benjamim Formigo |
1 de Outubro, 2014

Ainda a crise provocada na Ucrânia está por resolver já os Estados Unidos e os seus parceiros europeus se envolvem numa outra bem mais complicada: a guerra contra o auto intitulado “Estado Islâmico”. Num caso como no outro os envolvimentos euro-americanos ocorreram sem uma estratégia de saída.
Na Ucrânia a guerra não foi (é) transfronteiriça, mas sim um confronto de vontades com a Rússia e a saída está a ocorrer, parece, de uma forma natural, por si mesma, com a existência de uma zona desmilitarizada (ZDM) entre o Leste do país, russófono, e o resto da Ucrânia. O futuro dirá onde conduzirá essa autonomia e essa ZDM, de facto um tampão entre duas culturas do mesmo país.
No Iraque levanta-se a grande incógnita. Os Estados Unidos procuraram cooptar e conseguiram o apoio tácito ou activo de vários Estados árabes e dos seus parceiros da OTAN. Uma excepção notável a distanciação da Turquia que obriga os americanos a operar a partir de porta-aviões ou de bases distantes em países do Golfo em vez de Incirlik, a base mais usada nas guerras do Golfo.
A Turquia negociou com o auto designado “Estado Islâmico” a libertação de cidadãos seus e tem uma extensa fronteira com a Síria e o Iraque, notavelmente o Curdistão iraquiano. O envolvimento turco ao lado da oposição síria armada coloca Ancara numa situação incómoda, já que uma boa parte dessa oposição deserta para se juntar às forças do “Estado Islâmico”, o movimento radical que quase derrubou o Governo de Bagdad, derrotou o Exército iraquiano apoderando-se de sofisticado material de guerra fornecido pelos Estados Unidos. A França seguiu no encalço dos EUA, apressando-se a atacar alvos o EI a partir de porta-aviões; Bélgica e Dinamarca anunciaram o envio de caças F-16 sem especificar onde irão estacionar; a Grã Bretanha, depois de consultado o Parlamento, fez entrar em acção, para já de reconhecimento, os seus Tornados estacionados nas bases que mantém em Chipre, enclaves territoriais na costa Sul da ilha que Londres recusou entregar à soberania cipriota quando cedeu a independência a Chipre. Os Emiratos Árabes Unidos agiram já contra o “Estado Islâmico” tal como outros Estados árabes, mas as correntes operações estão longe de uma coligação como a que em 1990 foi estabelecida para a guerra contra o Iraque.
A questão de fundo é o que pretendem EUA e os seus aliados no final desta intervenção. Não se conhece uma estratégia de saída. Atacar as forças do “Estado Islâmico” pode parecer louvável quando se fazem em defesa de populações que fogem aos milhares procurando refúgio na Turquia. É um facto que o movimento que se intitula “Estado Islâmico do Iraque e do Levante” é o grupo mais brutal que alguma vez actuou naquela região e o que mais estrangeiros recrutou, designadamente europeus e americanos, numa aparente conversão a um Islão brutal repudiado pelos imãs em geral. A Al Qaeda parece um grupo de meninos de coro ao lado do EI. As decapitações de europeus e americanos gravadas em vídeo e difundidas são apenas uma pequena parcela da mentalidade desse grupo. Ao conseguirem deitar a mão a bastante material de guerra americano que equipava o Exército iraquiano tornou-se imparável no seu avanço. Esse ímpeto ofensivo atraiu muitos dos opositores ao Presidente Assad da Síria que militavam noutros grupos. Alguns com ligações à Al Qaeda engrossando os seus efectivos para cima de quatro mil homens.
Os ataques aéreos que se irão intensificar podem impedir o avanço das forças do EI que agem como um exército convencional desde que possuem armamento pesado e blindados. Podem limitar a acção do EI mas não conseguem derrotá-lo no terreno. Os curdos, mais do que o Exército iraquiano, têm conseguido com o apoio aéreo conter algumas ofensivas convencionais do grupo. O guerreiros curdos conseguiram mesmo alguns avanços territoriais no Iraque para suster o EI fora do Curdistão, mas na prática o facto é que o Curdistão iraquiano aumentou o seu território, uma questão para debater no final. Um final que ninguém antevê como vai ser. David Cameron nos Comuns deixou claro que é uma campanha para anos. Ninguém tem uma ideia clara do que fazer no final desta campanha, apenas a decisão de que o auto denominado “Estado Islâmico do Iraque e do Levante” é um perigo real, claro e presente e que não pode continuar a dominar territórios, a controlar zonas petrolíferas e refinarias, a financiar-se através da comercialização do petróleo no mercado negro.
A presente crise põe em destaque a necessidade de abordar a situação de uma forma global. Desde o diálogo de Israel com a Autoridade Palestiniana e o fim dos ataque indiscriminados que ainda recentemente Israel levou a cabo, até a uma aproximação ao Irão com quem é necessário dialogar e integrar na política regional. Não é realista manter à margem uma potência regional, ainda por cima quando parece disponível a debater o seu programa nuclear. O petróleo da Arábia Saudita ou do Qatar tem feito fechar os olhos aos financiamentos sauditas a grupos radicais. A Rússia tem uma palavra estratégica na região. Não se vê em lado algum a consideração de todos estes factores. Como ninguém tem uma proposta para o dia a seguir, é bom ter presente que EUA, França e Grã-Bretanha foram o apoio aéreo das forças que derrubaram Kaddhafy. Hoje, graças à ausência de uma estratégia a Líbia está o que se sabe.
Os países ocidentais em geral, os EUA em particular, têm de tomar consciência de que mesmo sendo potências militares e ou económicas estão em declínio e o Mundo deixou de ser fácil de gerir. Os problemas enfrentados no Médio Oriente têm soluções geracionais e se não forem encarados como tal entraremos num ciclo vicioso de soluções falsas e envolvimentos militares na resolução de novos problemas.
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terça-feira, 2 de julho de 2013

A guerra e impasse na Síria


Benjamim Formigo |
2 de Julho, 2013
Fotografia: AFP
Quem se lixa, já se sabe, é o mexilhão.
 Depois de Moscovo e Washington terem manifestado um acordo de princípio para a obtenção de uma solução política para a violência que se instalou na Síria, seria de esperar um “scale down” dos apoios militares que têm afluído ao país e que em nada contribuíram para uma saída negociada.
No Qatar, na semana passada, os “amigos da Síria”, Estados Unidos, União Europeia, Qatar e outros aliados árabes por onde não passou (mas receiam) a tal primavera, optaram pela continuidade de apoio aos rebeldes – a uma facção considerada “moderada” – sem descurarem a tal solução política, nem as críticas unilaterais ao Presidente Assad e ao seu regime.
As cadeiras não tinham ainda sido retiradas da sala da conferência e já algumas vozes na União Europeia faziam saber que iria aumentar o fornecimento de armas aos rebeldes. Contrariamente ao que se esperava, Obama não ficou atrás, deixando saber que Washington faria o mesmo. Como seria de esperar, Moscovo protestou de imediato, garantindo que se tal sucedesse aumentaria também o seu apoio em material militar ao regime de Bashar Al Assad.
Os EUA têm vindo a tentar evitar que mísseis portáteis, do tipo “Stinger”, guiados por infravermelhos, fossem enviados para os rebeldes sírios, com receio que viessem a cair nas mãos de organizações que constam da sua lista de terroristas que operam na Síria ao lado da rebelião contra o Governo.
Os apelos e as advertências americanas de pouco serviram. Desde o início deste ano existem informações de vários serviços secretos de que o Qatar tem usado redes clandestinas para fazer chegar estes mísseis aos rebeldes. Segundo o “New York Times”, pelo menos dois carregamentos teriam sido entregues. Através da extensa fronteira turca têm passado armas de diferentes tipos e sabe-se que muitos lotes têm ido parar às mãos de grupos islâmicos radicais, alguns mesmo considerados com ligações ao terrorismo e à Al Qaeda. Mais discretos, os russos, como os iranianos, compensam o Governo de Assad com novo material.
A Síria, de facto, está a ser o teatro de operações de um conflito indirecto que envolve os Estados Unidos, o Irão e a Rússia. Os políticos, porém, não assumem um conflito com Moscovo, antes sublinhando uma colaboração recente nos corredores da ONU e na sala do Conselho de Segurança.
Moscovo não quer perder uma área de influência no Médio Oriente e Mediterrâneo, muito menos para os radicais islâmicos, melhor organizados e mais ofensivos que as restantes milícias, tal como o Irão não pretende perder a sua porta na região.
Washington, por seu lado, definiu uma estratégia que passa por travar o Hezbollah, o Hamas e outros grupos com influência desde o Golfo ao Líbano no território sírio. O problema é que não parece ter ideia de como travar a influência islâmica depois de Bashar Al Assad. Os actores exteriores à região parece terem-se entendido sobre a inevitabilidade de uma solução política, mas não sabem como. Do mesmo modo, Moscovo e Washington não querem outro Egipto e menos ainda outra Líbia, mas também não sabem ou não se entendem sobre como evitar, sobretudo, quando o diálogo com o Irão (indispensável) é impensável para os Estados Unidos, que não esquecem a crise dos reféns nem o desaire da tentativa do seu resgate.
 O mesmo não se pode dizer, claro, de já terem esquecido o empurrãozinho iraniano que concordou em só libertar os reféns depois de Ronald Reagan ser eleito e que foi uma fonte de abastecimento de armas para os “Contras” da Nicarágua, o caso “Irangate”. Teerão tem de ser chamado a representar nesta peça dramática, se de facto quiserem chegar a uma transição política controlada.té lá, os actores externos vão fornecendo a ambos os lados as armas necessárias e suficientes para que nenhum dos lados consiga a supremacia militar. Assim, é inevitável o prolongamento do confronto até todos estarem de acordo, ou até à exaustão de um povo, ou até uma intervenção cada vez menos provável de uma Turquia com problemas internos crescentes.
Os refugiados e os deslocados crescem dia a dia. Quem se lixa, já se sabe, é o mexilhão.

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segunda-feira, 16 de agosto de 2010

As guerras escondidas


Benjamim Formigo |
16 de Agosto, 2010


O silêncio que desde o final de Guerra Fria, em 1991, se abateu sobre os conflitos que subsistiram a esse confronto pelo domínio da influência política e os que surgiram nos últimos 19 anos é ensurdecedor.
Nos jornais ou nas televisões em geral escasseiam as notícias dos muitos conflitos que subsistem ou proliferaram nas duas décadas desta “nova era” de desordem internacional. A menos que o confronto tenha lugar no chamado “Primeiro Mundo”, como sucedeu com o colapso da antiga Jugoslávia, ou envolva países como os Estados Unidos ou a Aliança Atlântica, as guerras foram varridas para debaixo do tapete. Como se ninguém se importasse, nem tivesse o direito a ser informado, com os confrontos que matam diariamente em vários pontos do globo, designadamente em África.
Os conflitos de que não se fala nem serão certamente debatidos na Assembleia Geral da ONU que abrirá daqui a cerca de dois meses. Talvez o Secretário-Geral, por inerência de funções, sinta que seja excessivo contribuir para a conspiração de silêncio e aborde os problemas que subsistem, a guerra, a falta de alimentos, a água e os ambiente. A sua voz será no entanto abafada pelas preocupações americanas com o combate ao terrorismo e o coro que se erguerá em apoio desse combate, dos programas nucleares do Irão e da Coreia do Norte.
No Médio Oriente os vários conflitos não têm soluções à vista, novos conflitos desenham-se já, e o combate ao terrorismo estendeu-se ao Iémen de forma encoberta. Poucos se deram conta que desde Maio os Estados Unidos intervieram militarmente no Iémen, com apoio (aparentemente posterior) do Governo do país. As intervenções, em Maio passado, seguiram-se a outras no Norte de África, no Tajiquistão, Somália, etc., que passaram bem mais despercebidas.
O diário “New York Yimes”, na edição de passado dia 14 de Agosto publicava um extenso artigo dando conta dessas operações militares esclarecendo que os ataques no Iémen haviam começado em Dezembro de 2009, bem como haviam escalado as operações contra a Al Qaeda no Paquistão.
A guerra estava a afastar-se do Afeganistão e do Iraque através de acções militares autorizadas, segundo o “New York Times” por “uma directiva secreta”, assinada pelo General David Petraeus, enquanto comandante das forças americanas no Médio Oriente, ordenando a “expansão da actividades militares clandestinas em países hostis, bem como aliados, ou amigos, visando obter informações que permitissem montar operações que perturbem a actividade dos militantes e reconhecimentos que possibilitem considerar intervenções militares no Irão”.  A notícia não teve, até agora, eco significativo fora dos EUA. Contudo, é perturbador saber que as operações secretas até agora da competência da CIA se estenderam ao Pentágono. A decisão, conforme a legislação americana, nada tem de ilegal ou ilícito.
No passado, as operações da CIA tinham de ser previamente autorizadas pelo Presidente dos EUA e o seu desenrolar passava o crivo das comissões competentes do Congresso. As operações militares, mesmo as deste tipo, não têm de ter aprovação formal do Presidente, nem estão sujeitas ao controlo do Congresso.
Pode-se duvidar, e já existem motivos para isso, da eficácia dessas operações militares. Os ataques no Iémen não produziram os resultados desejados pelos seus responsáveis senão num primeiro tempo. O sentimento antiamericano pode reforçar-se e os militantes islâmicos radicais encontram nesses ataques mais matéria de propaganda. Uma propaganda que transforma a sua luta, seja ela pelo que for, numa cruzada contra cristãos. Precisamente aquilo que é necessário evitar é que os radicais islâmicos se possam apresentar como guerreiros de uma Jihad.
As operações visando a recolha de informações são também preocupantes. Por um lado, colocam os militares na posição de espiões, o que em caso de captura lhes retira a protecção da Convenção de Genebra. Acresce a notícia preocupante, também veiculada pelo “New York Times”, segundo a qual funcionários do Pentágono teriam contratado empresas privadas para levarem a cabo missões de espionagem em território inimigo e mesmo em países amigos. O Pentágono já esclareceu que havia uma investigação em curso visando investigar mesmo eventuais crimes de desvio de fundos para esses contratos. Todavia, uma enorme sombra continua a esconder o que se passou com esses alegados contratos.
Barak Obama corre o risco de se ver aliado a elementos menos desejáveis, como sucedeu com muitos dos seus antecessores durante a Guerra Fria. Foi a Amnistia Internacional quem denunciou o uso de mísseis de cruzeiro equipados com bombas de fragmentação contra as bases dos militantes fundamentalistas no Iémen. O que acabou por ser reconhecido e explicado com o empenho de outros meios telecomandados na zona cinzenta do Paquistão/Afeganistão.
Esta guerra veio a público, mas até agora não teve o eco que seria de esperar. A Imprensa norte-americana, para já, não está a reagir às revelações, quer dos contratos de espionagem com empresas privadas, quer as operações secretas do general Petraeus.
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