Benjamim Formigo
30 de Março de 2016
Na sua homilia Pascal o Papa Francisco, como vem sendo habitual, não hesitou em colocar abertamente aquilo que se diz nas salas almofadadas das Chancelarias: o Mundo está em guerra. Francisco citou o caso mais recente de Bruxelas para depois chamar a atenção sobre Paris, e os atentados levados a cabo da Indonésia a África. De forma menos directa, a propósito da Síria recordou os fracassos das chamadas “primaveras árabes” que transformaram o equilibro difícil do Norte de África e do Magrebe em zonas de confronto onde o Estado desapareceu, dando lugar a movimentos tribais rapidamente cooptados pela Al Qaeda e pouco depois pelo autoproclamado “estado islâmico”.
A posição internacional face à Síria tornou-se escandalosamente inaceitável e tem consequências que não só ultrapassam fronteiras com os milhares de refugiados obrigados a fugir da barbárie, como destrói o património histórico da Humanidade, desencadeia os ódios turcos aos curdos, sírios, iraquianos ou iranianos, a quem Islamabad pretende negar uma pátria. Os turcos, que em teoria fazem parte de um grupo de países que combate o “EI” e o seu terror, bombardeiam sem qualquer problema e impunemente as tropas curdas, únicas que até há pouco tinham, com a guarda iraniana, capacidade para travar e derrotar os terroristas que se acoitam no “EI”. Mas a contradição ocidental não se fica por aqui: os EUA consideram seus aliados nesta guerra ao terrorismo alguns Estados que directa ou indirectamente os financiam, designadamente a Arábia Saudita e o Qatar.
O desnorte é tão grande, a falta de coordenação e dialogo é tal que fracassada a tentativa de confronto na OTAN com a Rússia por causa da Ucrânia, a Turquia teve o atrevimento de abater um avião de combate russo da coligação contra o “EI” porque alegadamente violou o seu espaço aéreo alguns minutos – se tanto. Ninguém me diga que os F-16 turcos estavam no ar tão perto do Sukhoi russo que teve tempo para cobrir o espaço que o separaria, advertir da “violação” e abater o “Su” russo ainda em espaço turco. Será que alguém olhou um mapa para ver a meia dúzia de quilómetros de que estamos a falar? Ou será que Ancara acha que somos todos idiotas?
Falhada essa tentativa e os ataques contra os curdos aliados contra o “EI” e nem todos necessariamente pró regime de Assad, a Turquia tornou-se um passadouro de refugiados para território dos seus “não-amigos” gregos, não para a parte Norte de Chipre mais próxima do continente e ocupada militarmente pela Turquia, em desafio de múltiplas Resoluções da ONU mas para as ilhas paradisíacas do Sul cuja prosperidade vem do turismo. Para quem esteve na ilha, como eu, passar a linha de demarcação é mudar de país. Só as elites turcas têm uma vida melhor e por vezes vendendo a ingleses propriedades cuja posse por turcos está interditada pela ocupação ilícita definida pela ONU.
Para que não sejam só os turcos os maus da fita naquela guerra, expoente máximo da tal “primavera árabe”, há lugar na arena para toda a gente. Desde desapossados europeus – para usar um termo simpático – a lúmpen, a europeus enigmaticamente “convertidos” ao “Islão”, indescritivelmente violentos com as suas decapitações públicas que nem durante domínio nazi teve paralelo.
O factor imprevisto – há sempre um imprevisto – veio do frio: Vladimir Putin e a sua determinação em afastar o risco das suas fronteiras, estabelecer o lugar da Rússia na cena internacional e deixar um aviso inequívoco aos que olhavam sobranceiramente o colosso russo. Se esta semana em Genebra começaram os primeiros e insípidos diálogos deve-se ao poder de fogo lançado pelos russos contra o “EI” e na passada contra as forças que se opunham a Assad. Em semanas o equilíbrio no terreno mudou a favor do Presidente Assad que poderá mesmo negociar a sua saída nos melhores termos.
A Europa mudou para uma neutralidade activa. Hoje muitos, mesmo muitos europeus têm vergonha de mostrar um passaporte da União Europeia. Assustados por um lado pelos ataques terroristas na capital europeia: Bruxelas, pressionados por um eleitorado cada vez mais xenófobo – o medo tem destas coisas – os burocratas de Bruxelas, que ninguém elegeu, como a Comissão Europeia, preocupam-se com os défices e não com a Defesa e Segurança ou um dos pilares fundamentais da construção europeia: Schengen. Fecham-se fronteiras, recambiam-se refugiados para a Turquia a troco de dinheiro. A UE pode estar a chegar ao fim se em Genebra não surgir a solução: o final do conflito e o investimento na reconstrução da Síria. Mas a situação não irá melhorar se Washington, com medo de Donald Trump e da sua retórica, continuarem a afastar o Irão, agora a pretexto de testar mísseis balísticos. Tudo está ligado. O Paquistão é uma ameaça ao Irão, dispõe de armas nucleares que ninguém obrigou a desmantelar. Simplesmente o Paquistão, as suas Forças Armadas e de Segurança apoiam as madrastas e os talibãs que desestabilizam o Afeganistão, ou seja embriões do “EI”. Pelos vistos o Irão não tem o direito a se defender.
O Santo Padre tem razão quando diz que o Mundo está em guerra, até onde não há (ainda) terror nem tiros. Os Estados têm de se defender, mesmo que exageradamente pois ninguém ainda aventou uma hipótese de como conseguir senão a paz pelo menos a não-guerra.