Mostrar mensagens com a etiqueta Globalização. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Globalização. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Globalização do miserabilismo


Benjamim Formigo |
10 de Setembro, 2015

Na última década os políticos dos países industrializados demitiram-se ou foram demitidos do seu papel de representantes dos eleitores em favor dos interesses económicos dominados mundialmente por duas centenas de empresas.
A bolsa tornou-se o santuário da globalização concentrando empresas aumentando insustentavelmente o poder de cada uma. Os trabalhadores tornaram-se peças descartáveis em função das necessidades de valorização de cotações. Transaccionam-se volumes inimagináveis de dinheiro em operações que reflectem interesses de casas financeiras e não o valor real de uma empresa.
Depois de durante décadas as empresas terem rosto e assumirem um papel social o neoliberalismo e os seus seguidores destituíram a iniciativa privada de qualquer outro objectivo que não seja ganhar dinheiro a curto prazo. O principal capital das empresas, o "know-how" dos seus trabalhadores, foi preterido em favor dos que estão dispostos a passar por cima de tudo para a obtenção de um lucro imediato, mesmo que a situação económica se torne insustentável a prazo.
Com o desenvolvimento das comunicações e da Internet poder-se-ia dizer que a informação é uma riqueza global. Todavia a Internet é um bem essencialmente urbano de uma elite que além do conhecimento informático e linguístico dispõe dos meios financeiros para as horas de navegação devidas aos ISP’s (Internet Service Providers) ou às empresas telefónicas. O interesse dos ISP’s é o desenvolvimento do “e-commerce”, do “e-business”. Se um ISP tem uma carteira interessante de clientes arrisca-se a ser absorvido, por fusão ou aquisição, por outra empresa que não tem de estar necessariamente no ramo. O pagamento aos accionistas é muitas vezes feito em transferência de acções, ou seja a custos virtuais. O Nasdaq tornou-se o mais importante dos indicadores. Os trabalhadores são substituídos por “call centers” subcontratados por uma empresa e onde jovens miseravelmente pagos trabalham à margem das leis laborais e outras de diferentes países.
Nas empresas o papel social foi substituído iniludivelmente pelo interesse dos accionistas, dos grandes accionistas. O "downsizing" que se segue a fusões ou a resultados menos favoráveis é uma regra para manter ou fazer subir cotações. Se antes havia um emprego para a vida e hoje existem vários empregos durante uma vida a verdade é que já se esboça a tendência para várias profissões durante uma existência humana.
A cidadania mundial, tão falada, é uma realidade virtual. Não pode existir se não tiver por base a cidadania nacional, que nada tem a ver com os nacionalismos dos extremistas de direita. A cidadania nacional não existe se os cidadãos que elegem um Parlamento e um Governo os considerarem impotentes perante regras globais, ditadas por organismos que não elegeu.
A revolta é inevitável. Os políticos dos países industrializados não podem continuar a submeter-se a esse jogo de benesses de curto prazo que se tornam presentes envenenados para o futuro.
A população mundial cresce e as novas tecnologias, reservadas aos desenvolvidos não conseguem substituir os empregos que extinguem. Os sindicatos promovem a sua própria obsolescência na luta vertical contra uma ameaça horizontal. Surgem por isso, embora timidamente, os primeiros movimentos horizontais de desempregados que não se sentem defendidos ou representados pelos sindicatos nem pelos políticos.
Read more ...

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

A urgência de uma estratégia global de estabilidade


Benjamim Formigo |
21 de Janeiro, 2015

Nos últimos dias de 2014 e no início deste ano grupos minoritários bem treinados, alguns fortemente armados, outros isolados de uma cadeia de comando mas todos eles sem uma estrutura de poder lançaram uma onda de ataques propícia à adopção de medidas coercivas da liberdade, seja de expressão e associação seja de movimento, que alguns Governos se sentem tentados a adoptar, unilateralmente ou em grupo, numa altura em que a polícia reclama maiores poderes e os cidadãos receiam o futuro.
Desde os atentados às Torres Gémeas, em Nova Iorque, os Estados Unidos colocaram restrições à entrada de estrangeiros, indo ao ponto de em nome da segurança nacional criarem uma lista que inclui cidadãos americanos que não podem entrar num avião. Comunidades inteiras, em particular muçulmanas, foram estigmatizadas, identificadas com o terrorismo. Um estigma que passou rapidamente e conscientemente ou não se tem espalhado pelo Mundo não muçulmano onde se confunde o islão com o islamismo radical. O terrorismo teve as suas primeiras vitórias sobre os Estados de Direito e a liberdade de expressão e associação.
Os radicais da Al Qaeda ou do chamado Estado Islâmico descobriram que têm maior visibilidade internacional se atacarem na Europa ou nos Estados Unidos. Porém nos EUA a máquina oleada da comunidade de informações complica a sua entrada e a sua movimentação. Contudo não impede a acção através dos simpatizantes ou militantes que já lá se encontram.
Muito menos na Europa onde vivem há gerações e capitalizam no descontentamento dos europeus. Perante uma situação financeira que continua em crise, o aumento do desemprego e a incapacidade da União Europeia se unir numa política comum os eleitores voltam-se para os partidos antes minoritários ou os “outsiders” das correntes políticas tradicionais, frequentemente também eles radicais mas xenófobos e racistas.
Na Ásia a situação mantém-se tensa, com o aumento de atentados e um crescendo de contestações a Governos tradicionalmente estáveis. De notar que o maior país euro-asiático depois da Rússia, a Turquia se vai afastando do laicismo governamental da separação entre Governo e religião. O Irão, vital no actual contexto, continua marginalizado por pressão do Congresso americano dominado por conservadores que pretendem impor ainda mais sanções quando Teerão mostra abertura.
África é o território mais atingido e menos falado. A Imprensa ignorou completamente ou quase os massacres do Boko Haram na Nigéria, contrastando com o destaque dado aos atentados de Paris. As asneiras ocidentais na chamada “primavera árabe” estão a ser pagas com sangue no continente africano à medida que os grupos terroristas, locais ou não, alimentados pela fragmentação na Líbia, pelos erros no Egipto ou no Iémen, na Península Arábica e por aí fora, vão ganhando espaço.
A Comunidade Internacional não consegue pôr termo ao conflito no Congo (Kinshasa), não conseguiu até agora desarmar e desmobilizar grupos que até estão concentrados em zonas definidas pela ONU; mas a ONU não tem os meios para implementar pela força, se necessário, os acordos assinados e que deveriam comprometer os vários países que têm fomentado o conflito no Leste do Congo.
A estabilidade começa em Angola e o país é de facto um tampão ao avanço da desordem que reina a Norte, como a Zâmbia e Moçambique (este em risco de retroceder se a Renamo não respeitar as eleições). O problema da estabilidade não é já um problema regional ou vários problemas regionais. Trata-se de uma questão tão mundializada quanto a globalização permite. A solução tem portanto de ser encarada a nível mundial com um diálogo consequente, em princípio no âmbito das Nações Unidas. A outra possibilidade é existir uma primeira estratégia regional com que outras regiões sejam confrontadas e levadas a debater e melhorar a primeira estrutura. É sempre mais fácil dar um primeiro passo no âmbito regional que no Mundial. Todavia não são as soluções americanas quase já abraçadas pelo Governo de Cameron (que eventualmente tem de decidir se pertence à UE ou se liga aos EUA) como não serão as soluções que a União Europeia irá debater e que neste momento arriscam-se a pôr fim ou limitar o Acordo de Schengen, o fechar de fronteiras, as medidas repressivas. Claro que tem de haver medidas repressivas, mas penais e não policias e menos ainda sociais.
Claro que a situação social ao nível global tem de ser abordada. Os países produtores de petróleo enfrentam uma situação complicada com a conjugação do “fracking” americano com o “dumping” saudita. Apesar de os preços do crude terem caído 60 por cento desde Junho do ano passado não há retoma económica nem à escala regional nem à escala mundial.
Os riscos de instabilidade crescem e não há uma estratégia global para enfrentar e contrariar a situação. Sobretudo não há líderes políticos à altura do momento.
Read more ...