11 de Julho, 2009
Os oito países mais industrializados foram incapazes de definir uma estratégia para uma recuperação económica sustentada, o combate ao desemprego que na União Europeia é crescente. Uma estratégia global para o relançamento económico. Ângela Merkel chegou mesmo a defender o rigor orçamental europeu quando se sabe que este é um impeditivo ao kenesianismo e que nesta altura os Estados têm de ser motores da economia. Barak Obama não gostou do que ouviu mas deu a volta para que o Congresso aprove o novo pacote de desenvolvimento que a Administração considera indispensável.
Posta de lado a crise económica, o G-8 lançou-se no caminho da ecologia. Já se tornaram um hábito as manifestações à porta destes encontros com militantes verdes e anti-globalização e anti-neoliberais protestando contra as políticas correntes.
Os países mais industrializados reconheceram, em especial Obama, que havia ainda muito caminho a percorrer na senda da revitalização económica e da confiança no sistema financeiro, e deram um salto substantivo relativamente ao ano passado ao, pela primeira vez, reconhecerem que um aumento da temperatura global não poderia ultrapassar em 2º C os níveis pré-industriais. Objectivo que obriga a uma redução de 80 por cento das emissões de dióxido e monóxido de Carbono até 2050. Todavia não chegaram a uma conclusão sobre a forma de ajudar os países em desenvolvimento a acederem à tecnologia que permitiria este “milagre”, nem conseguiram um firme compromisso da China. Porém o primeiro passo foi dado desde Kyoto.
A outra questão digna de nota foi o compromisso de disponibilizar 20 mil milhões de dólares para apoiar a segurança alimentar. Em todo o mundo, cem milhões de pessoas estão em risco de caír na mais profunda pobreza em consequência do aumento recorde de 40 por cento do preço da alimentação. Um apoio que pela primeira vez também reconhece a necessidade de ser considerado o auxilio de emergência e a ajuda ao desenvolvimento e auto sustentabilidade alimentar. Esta foi a grande vitória de Barak Obama, cuja exposição documentada tornava impossível recusar a iniciativa. Obama não se limitou a falar, anunciou um aumento considerável da ajuda americana que não podia deixar de ser seguida pelos seus parceiros.
Esta vitória antes da sua partida para o Ghana trouxe novo capital de confiança ao Presidente americano e aos Estados Unidos, que nunca conheceram grande popularidade em África. Basta recordar que Bill Clinton, apontado como um exemplo, não reconheceu a existência de um genocídio no Rwanda até ser demasiado tarde.
O novo Presidente americano foi efectivamente a estrela de um conjunto cinzento que não se distinguiu em nada, nem as desdobradas tentativas de Sarkozy faziam sentido, menos ainda o anfitrião italiano, os restantes europeus ou os asiáticos. Em contrapartida, a visita prévia de Obama a Moscovo permitiu que os russos abandonassem as suas tradicionais reservas e apoiassem a preocupação do G-8 face aos acontecimentos no Irão após as eleições e o apelo às responsabilidades iranianas na não proliferação de armas nucleares.
No Kremlin, Obama, mesmo depois das críticas da semana passada a Putin, conseguiu ultrapassar a desconfiança russa, ou pelo menos conquistar o benefício da dúvida. Um acordo sobre a redução de ogivas e vectores nucleares foi rubricado e não é de excluir que Washington concorde com a pretensão russa de um novo tratado SALT para o final do ano.
Em Moscovo, nem tudo foram sucessos. Obama teve de enfrentar e continua a enfrentar a oposição de Moscovo ao escudo antimíssil na Polónia e na República Checa. Considerado pelo Kremlin uma ameaça, tal como a adesão de alguns dos ex-satélites soviéticos á NATO. Barak Obama procurou diluir a questão colocando as relações entre os dois países não como de rivalidade “ultrapassada do tempo da Guerra-Fria”, mas de colaboração na paz, estabilidade e desenvolvimento.
Afastada a doença crónica da estagnação económica para outras cimeiras, aprovadas as boas intenções para suster as alterações climáticas e apoiar os países pobres, mesmo com uma recuperação da economia bastante longe, a limitação da proliferação nuclear acordada unanimemente pelo G-8 foi a cereja no topo do bolo.
No final da cimeira, a duvida permanecia: foi diferente, ninguém discute, se por influência de Obama, cuja popularidade mundial dá que pensar aos seus pares, ou se por falta de alternativas, soluções ou vontade de compromissos.
A novela prossegue nos próximos meses com novos episódios no final do ano.