4 de Dezembro, 2011
O problema do euro, ou melhor da crise da dÍvida soberana europeia, não é já uma questão do Velho Continente. O sistema neoliberal globalizou, interligou, intrincou de tal modo países, continentes, empresas e economias que uma borboleta ao bater asas na China pode provocar um furacão na América do Sul. A Teoria do Caos, tão querida de matemáticos e físicos como incompreensível para leigos, está instalada no nosso quotidiano através da crise da dívida soberana europeia e da crise financeira dos Estados Unidos.
Claro que existe uma diferença. Nos EUA, o Federal Reserve Board (FED) foi livre de intervir no mercado, libertando-o do lixo e dando uma ilusão de saneamento. Na Europa, a dívida é objecto de múltiplas reuniões e conferências sem que se encontre uma solução firme, credível e duradoura. O Banco Central Europeu, ao contrário do FED, não pode, por força dos tratados da União, intervir, imprimir moeda e comprar títulos das dívidas soberanas. Não pode, nem se vislumbra que possa, a menos que essa seja a moeda de troca da Alemanha para os restantes 16 países da Zona Euro aceitarem uma fiscalização orçamental supranacional.
A realidade é que se o mercado consumidor norte-americano se retraiu desde 2008, não é menos verdade que o mercado europeu, bastante maior que o americano, se encontra também em contracção. Os dois big spenders passaram a consumir muito abaixo do habitual. Como essa redução se faz sentir tanto no consumo de bens produzidos internamente como no consumo de bens importados, o efeito multiplicador de risco desta (s) crise (s) não é negligenciável. O Mundo, globalmente, se não está, pode vir a estar a curto ou médio prazo em crise. Os países produtores de bens que tinham nos mercados europeu e norte-americano os principais canais de escoamento da produção, estão já a sentir a retracção de consumo. Tal é, por exemplo, o caso da China ou da Índia. EUA e Europa, sobretudo a Europa, reduzem o consumo nos mercados externo e interno e em paralelo reduzem também a produção, uma vez que o mercado interno é a base de sustentação produtiva.
Acossados pelas medidas de austeridade, os europeus – que ao contrário dos EUA não podem lançar mão de medidas expeditas e portanto credíveis – consomem cada vez menos por não terem dinheiro, porque o desemprego aumenta e consequentemente reduz o número de consumidores, porque se volta a instalar o hábito de poupança. Uma poupança tardia, parca e forçada.
As consequências da redução do consumo geram dificuldades, por vezes fatais, às empresas, que fecham ou despedem, alimentando assim o ciclo vicioso. Paralelamente, não existe em nenhum plano de recuperação de nenhum país da Zona Euro uma disposição propiciadora do crescimento económico e sem este a espiral depressionária começa a transformar-se num buraco negro, com a diferença que os buracos negros regem-se por leis universais e a crise por acontecimentos imprevisíveis. Dos efeitos depressivos na zona euro-americana, surgem os efeitos nos países em desenvolvimento, podendo mesmo pôr em causa a vitalidade das economias emergentes. Europa e EUA vão comprar menos petróleo, menos matérias-primas, sobretudo matérias-primas raras. A China, mais do que a Índia, já está a sentir um abrandamento da sua economia e a prazo vai reduzir a sua procura no mercado energético. Os sinais mais evidentes da gravidade desta situação surgiram a 23 de Novembro, quando a Alemanha não conseguiu colocar no mercado a totalidade da sua dívida a juros mais elevados do que pagava. A estratégia da chanceler alemã transformou em crise política e de confiança política a crise da dívida soberana. Mas o facto é que pode ter sucesso na reunião do dia 9 se conseguir um compromisso dos seus parceiros de que os 17 membros da Zona Euro aceitam uma revisão dos tratados. A demora de uma revisão, que não agrada aos mercados, pode ser compensada por um compromisso formal de aceitação de um conjunto de regras.
O ideal era mesmo que a Alemanha aceitasse nessa negociação, que se espera seja aberta até antes da cimeira europeia, a emissão de euro bonds defendida pelo Presidente da Comissão, Durão Barroso, e outros técnicos europeus e um papel mais interventivo do BCE, mas era esperar demais.
Até agora, os tratados do euro têm encarado do mesmo modo todos os países da Zona Euro. É como se existissem 17 Alemanhas. Os mercados durante anos e anos encararam assim a Zona Euro. Foi assim que a dívida grega foi financiada à mesma taxa do que a alemã. Mas essa igualdade permitia em simultâneo um euro com dois custos: um mais elevado na Europa central e Norte, outro mais baixo no Sul. Esse era um dos equilíbrios que evitou a subida do euro que a especulação atirou para valores irrealistas. O euro vai acabar? Sobrevive ao tempo que Merkel e Sarkozy necessitam para passarem as suas eleições? Ou como dizem os americanos: “o euro é como o Hotel Califórnia, pode-se fazer check in mas nunca se consegue fazer check out”. Presumivelmente, os custos elevadíssimos do fim do euro são uma boa razão para o salvar, como os custos de o salvar são também uma boa razão para ele acabar.
Apesar de tudo, pelas consequências globais quero acreditar que se vai salvar, com custos financeiros e sociais e eventualmente humanos elevados.