Mostrar mensagens com a etiqueta Euro. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Euro. Mostrar todas as mensagens

domingo, 4 de dezembro de 2011

A sobrevivência do euro pode estar no seu elevado custo


Benjamim Formigo |
4 de Dezembro, 2011

Depois de múltiplas e incontáveis reuniões, e em vésperas de mais um encontro entre a chanceler alemã, Ângela Merkel, e o Presidente francês, Nicholas Sarkozy, os economistas ao fazerem contas são quase unânimes em aceitar que é menos gravoso manter o euro que deixá-lo cair.
O problema do euro, ou melhor da crise da dÍvida soberana europeia, não é já uma questão do Velho Continente. O sistema neoliberal globalizou, interligou, intrincou de tal modo países, continentes, empresas e economias que uma borboleta ao bater asas na China pode provocar um furacão na América do Sul. A Teoria do Caos, tão querida de matemáticos e físicos como incompreensível para leigos, está instalada no nosso quotidiano através da crise da dívida soberana europeia e da crise financeira dos Estados Unidos.
Claro que existe uma diferença. Nos EUA, o Federal Reserve Board (FED) foi livre de intervir no mercado, libertando-o do lixo e dando uma ilusão de saneamento. Na Europa, a dívida é objecto de múltiplas reuniões e conferências sem que se encontre uma solução firme, credível e duradoura. O Banco Central Europeu, ao contrário do FED, não pode, por força dos tratados da União, intervir, imprimir moeda e comprar títulos das dívidas soberanas. Não pode, nem se vislumbra que possa, a menos que essa seja a moeda de troca da Alemanha para os restantes 16 países da Zona Euro aceitarem uma fiscalização orçamental supranacional.
A realidade é que se o mercado consumidor norte-americano se retraiu desde 2008, não é menos verdade que o mercado europeu, bastante maior que o americano, se encontra também em contracção. Os dois big spenders passaram a consumir muito abaixo do habitual. Como essa redução se faz sentir tanto no consumo de bens produzidos internamente como no consumo de bens importados, o efeito multiplicador de risco desta (s) crise (s) não é negligenciável. O Mundo, globalmente, se não está, pode vir a estar a curto ou médio prazo em crise. Os países produtores de bens que tinham nos mercados europeu e norte-americano os principais canais de escoamento da produção, estão já a sentir a retracção de consumo. Tal é, por exemplo, o caso da China ou da Índia. EUA e Europa, sobretudo a Europa, reduzem o consumo nos mercados externo e interno e em paralelo reduzem também a produção, uma vez que o mercado interno é a base de sustentação produtiva.
Acossados pelas medidas de austeridade, os europeus – que ao contrário dos EUA não podem lançar mão de medidas expeditas e portanto credíveis – consomem cada vez menos por não terem dinheiro, porque o desemprego aumenta e consequentemente reduz o número de consumidores, porque se volta a instalar o hábito de poupança. Uma poupança tardia, parca e forçada.
As consequências da redução do consumo geram dificuldades, por vezes fatais, às empresas, que fecham ou despedem, alimentando assim o ciclo vicioso. Paralelamente, não existe em nenhum plano de recuperação de nenhum país da Zona Euro uma disposição propiciadora do crescimento económico e sem este a espiral depressionária começa a transformar-se num buraco negro, com a diferença que os buracos negros regem-se por leis universais e a crise por acontecimentos imprevisíveis. Dos efeitos depressivos na zona euro-americana, surgem os efeitos nos países em desenvolvimento, podendo mesmo pôr em causa a vitalidade das economias emergentes. Europa e EUA vão comprar menos petróleo, menos matérias-primas, sobretudo matérias-primas raras. A China, mais do que a Índia, já está a sentir um abrandamento da sua economia e a prazo vai reduzir a sua procura no mercado energético. Os sinais mais evidentes da gravidade desta situação surgiram a 23 de Novembro, quando a Alemanha não conseguiu colocar no mercado a totalidade da sua dívida a juros mais elevados do que pagava. A estratégia da chanceler alemã transformou em crise política e de confiança política a crise da dívida soberana. Mas o facto é que pode ter sucesso na reunião do dia 9 se conseguir um compromisso dos seus parceiros de que os 17 membros da Zona Euro aceitam uma revisão dos tratados. A demora de uma revisão, que não agrada aos mercados, pode ser compensada por um compromisso formal de aceitação de um conjunto de regras.
O ideal era mesmo que a Alemanha aceitasse nessa negociação, que se espera seja aberta até antes da cimeira europeia, a emissão de euro bonds defendida pelo Presidente da Comissão, Durão Barroso, e outros técnicos europeus e um papel mais interventivo do BCE, mas era esperar demais.
Até agora, os tratados do euro têm encarado do mesmo modo todos os países da Zona Euro. É como se existissem 17 Alemanhas. Os mercados durante anos e anos encararam assim a Zona Euro. Foi assim que a dívida grega foi financiada à mesma taxa do que a alemã. Mas essa igualdade permitia em simultâneo um euro com dois custos: um mais elevado na Europa central e Norte, outro mais baixo no Sul. Esse era um dos equilíbrios que evitou a subida do euro que a especulação atirou para valores irrealistas. O euro vai acabar? Sobrevive ao tempo que Merkel e Sarkozy necessitam para passarem as suas eleições? Ou como dizem os americanos: “o euro é como o Hotel Califórnia, pode-se fazer check in mas nunca se consegue fazer check out”. Presumivelmente, os custos elevadíssimos do fim do euro são uma boa razão para o salvar, como os custos de o salvar são também uma boa razão para ele acabar.
Apesar de tudo, pelas consequências globais quero acreditar que se vai salvar, com custos financeiros e sociais e eventualmente humanos elevados.
Read more ...

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

A reunião do fracasso anunciado e a crise na Zona do Euro


Benjamim Formigo
7 de Novembro, 2011

Em Cannes não aconteceu nada que não fosse esperado. Os países do G-20 optaram pela prudência e disseram aos grandes da Zona Euro que resolvessem os seus problemas, incluindo o reforço do fundo de apoio em 250 mil milhões de euros para um bilião.
Os europeus não se conseguiram apresentar na cimeira com a necessária imagem de credibilidade. O primeiro-ministro grego, George Papandreou, teve um papel decisivo nessa imagem. Ao fim de três meses de conversações e de muitas votações a União Europeia conseguira um acordo para perdoar pelo menos 50 por cento da dívida grega, recapitalizar a banca europeia e aumentar a ajuda à Grécia.
Sem aviso prévio, sem que os restantes Chefes de Estado e de Governo tivessem sido avisados, Papandreou decidiu referendar a aceitação do pacote europeu. O caos instalou-se nos mercados.
A cimeira do G-20 transformou-se numa “tragédia grega” desta vez escrita pelo novel autor Papandreou. Mas uma tragédia que não perdeu de vista os interesses financeiros, designadamente dos Estados Unidos a quem pouco interessa uma moeda alternativa ao dólar. África do Sul, China, Brasil, Índia e Rússia não estavam à partida muito satisfeitos com o comportamento de alguns países europeus na interpretação abusiva da Resolução 1973 do Conselho de Segurança da ONU sobre a Líbia. O ambiente político não era o mais favorável para que os países ricos pedissem auxílio financeiro.
O processo não ficou porém encerrado e foi remetido para uma reunião de ministros das Finanças do G-20 em Fevereiro próximo. Até lá a União Europeia e muito especialmente a Zona Euro terá de encontrar uma forma de subsistir e de se credibilizar. O ataque especulativo já deixou a Irlanda e Portugal para se centrar agora na Espanha, Itália e França. As taxas a que estes países têm conseguido financiar-se estão cada vez mais altas e a Itália já ultrapassou a Espanha na probabilidade de ter de recorrer a um pacote de apoio financeiro. Daí a necessidade imperiosa de aumentar o fundo de estabilização e flexibilizar a sua utilização, de o colocar sob o poder o Banco Central Europeu e de existir um processo de decisão rápido. Hoje o auxilio a um país passa pela votação e aprovação dos parlamentos, o que significa que a decisão necessária amanhã só está tomada dentro de 30 dias na melhor das hipóteses. Os “euro bonds”, que a Alemanha recusa, eram uma saída excelente e expedita para a situação que vive a euro zona.Por outro lado, a necessidade de o BCE poder comprar divida soberana e controlar o fundo de estabilização passa pela aquiescência alemã que através dos artigos 123 e 127 da União estruturou o BCE à imagem e semelhança do Bundesbank. Um decisão urgente passa hoje pela Comissão Europeia, pelo BCE, pelo presidente da Zona Euro e esbarra no Chefe do Governo alemão O problema que hoje se coloca não é exclusivamente europeu. Antes do euro quando os Estados Unidos se constipavam o resto do Mundo apanhava uma pneumonia. Hoje se a União Europeia se constipa o resto do Mundo arrisca uma gripe. A Europa com a união e o euro abandonou os hábitos de poupança para se entregar ao consumo e ao crédito barato. A dívida soberana não é apenas dívida do Estado, esta é apenas uma parte a que se junta uma outra dívida externa bem maior que é a privada, maioritariamente da banca que se financia internacionalmente para conceder créditos domésticos. Daí que a austeridade imposta aos europeus com todas as consequências que isso está a ter sobre o emprego e consequentemente sobre o consumo tenha reflexos muito para além do Velho Continente.
Cai o consumo de matérias-primas, de bens importados das economias emergentes, decresce a capacidade de investimento das empresas. Se a isto acrescentarmos a previsão da OCDE de um crescimento de 0,3 por cento da economia da zona euro em 2011 temos na verdade uma recessão geral na Zona Euro. Oportunidades de negócio não faltarão, como é evidente. Com os valores da banca e de boas empresas a caírem em bolsa, a porta abre-se a excelentes negócios, designadamente para os americanos que, de momento, sentem dificuldades no seu crescimento, entre outras razões pelo estrangulamento do mercado europeu. Um estrangulamento que será progressivamente sentido por outros mercados. O valor do euro nos mercados internacionais não reflecte a realidade da economia da Zona Euro, mas convém imenso às economias baseadas no dólar. O BCE na sexta-feira baixou inesperadamente a taxa directora, mas não houve reflexo na moeda. Sem uma descida significativa do euro, a Europa não será competitiva. Mas a Europa, se quer recuperar, tem de pôr de lado muitas das políticas que protegem apenas os grandes países, designadamente a aberrante PAC (Política Agrícola Comum) que destruiu o tecido agrícola de muitos países em favor do centro, particularmente da França.
O regresso ao sector primário será de primordial importância para a redução das dívidas externas que se escondem na dívida soberana, e isso terá consequências nas economias exportadoras de produtos agro-pecuários para a União Europeia. Em síntese, a crise da dívida soberana da zona euro ameaça economias para além da União. Se a União vier a estar em causa, a situação mundial será extremamente grave. Não é possível acabar o euro e regressar às moedas nacionais porque se ligou de tal modo a União ao euro que muito dificilmente se pode regressar pacificamente à CEE.
Read more ...

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Agências de notação e desacordo europeu


Benjamim Formigo|
14 de Julho, 2011

O euro afunda-se, a União voa, o caminho da discórdia não tem fim e eles discutem. Esta é em síntese a situação da dívida soberana da zona euro (ZE) e a forma como está a ser abordada pelos dirigentes europeus.
O euro afunda-se, a União voa, o caminho da discórdia não tem fim e eles discutem. Esta é em síntese a situação da dívida soberana da zona euro (ZE) e a forma como está a ser abordada pelos dirigentes europeus.
As agências de notação contribuem para a confusão deitando achas na fogueira com os seus exercícios de aprendizes de feiticeiro.
Em crónica anterior já aqui se referiu o papel dessas agências. Nada têm de independentes, são propriedade de grandes instituições financeiras, olham para as dívidas soberanas de um país e calculam, de forma discutível, as possibilidades do país. Ou seja, entregam-se à futurologia que, como todos sabemos é, a par com a astrologia e a quiromancia, uma ciência exacta, como de resto a economia e as finanças.
A Matemática, com todo o seu arsenal, da álgebra à estatística, passando pelo cálculo diferencial e infinitesimal, e a Física, que frequentemente esquecemos, que contém as leis fundamentais dentro das quais tudo é real e fora das quais nada existe, são para os economistas meros instrumentos para a avaliação dos comportamentos exotéricos do Universo e suas origens: as Leis da Dinâmica e Termodinâmica (esta última com especial apetência para definir os parâmetros dentro dos quais se deve reger tudo. Impertinência das impertinências, até a economia e as finanças se regem por estas Leis sem o saberem) são descobertas ultrapassadas de cientistas que não cortavam o cabelo.
A verdade muito simples está no Segundo Princípio da Termodinâmica, que não enuncio na esperança de que os economistas consultem os compêndios de Física e consigam descobrir e aprender alguma coisa. Ora os fundamentalistas do neoliberalismo sustentam que tudo se resolve através do mercado, ou seja, de interesses contraditórios com a sustentabilidade (também está na Física, procurem bem). Para eles, o mercado tudo corrige, é uma espécie de aplicação da Teoria da Evolução de Darwin à economia, às sociedades, aos povos e às nações. Se não têm condições, afundam-se e extinguem-se. Está o caso resolvido.
As agências de notação servem-se pois do arsenal científico atrás exposto para serem o instrumento de choque do neoliberalismo e dos mais fortes e até dos pouco escrupulosos especuladores. Uma coisa é fazer uma fortuna gerindo uma exploração mineira, uma empresa de sucesso, outra bem mais fácil é especulando com as dívidas soberanas. Ora, essa parece ser a função das tais agências, por sinal apenas três que contam, por coincidência, todas americanas.
Os neoliberais e seus serviçais consideram-nas indispensáveis. Hoje, até o presidente do Banco Central Europeu, Jean Claude Trichet, afirma recusar aceitar as suas notações quando houver que decidir pela intervenção na dívida soberana de um Estado Europeu.
O escândalo na Europa surgiu por causa de um pequeno país: Portugal. O novel Governo havia acabado de apresentar ao Parlamento um programa cheio de austeridade, um programa que ia mesmo mais longe que o exigido pelo FMI, o BCE e a Comissão Europeia e aí está a Moody's a baixar o rating da dívida soberana para os níveis de "lixo" e não se ficou por aí, considerando também "lixo" um conjunto de bancos, aparentemente sólidos. A Moody's não esperou pelos primeiros indicadores dos resultados dos testes de stress em curso em toda a UE, não esperou indicadores das medidas assinadas com a "troika". Pensaram lá com os seus botões que "eles não vão cumprir, vão necessitar de mais ajuda, tomem lá uma negativa".
O BCE, a Comissão Europeia e até o FMI, para não falar do próprio Governo português, não acharam graça. Sobretudo porque eles, as agências, recebem dos Estados e das empresas milhares de milhões de euros e dólares para esse trabalho. Pela primeira vez considerada pouco credível a avaliação, as instituições europeias reagiram, enquanto as outras duas agências, a Standard & Poor's e a Finch guardaram para mais tarde e esperam para ver.
Em paralelo com as agências, os europeus também não se conseguem pôr de acordo sobre a intervenção na Grécia.
Os alemães têm uma posição, apoiada pela Holanda e Finlândia, e que passa por um incumprimento antes de ajuda, a França e os restantes países defendem a intervenção rápida e com o apoio da banca privada, que ajudou e bem à situação devedora dos Estados.
A Alemanha está em guerra aberta com o BCE por causa disso, todavia os dirigentes europeus sustentam que vão ter um acordo antes de Setembro.
Enquanto isso, os investidores exigem taxas cada vez mais elevadas para financiarem as dívidas soberanas. Duvidam do tal acordo. Aos primeiros rumores, ou melhor, ao acentuar dos rumores no início desta semana sobre os problemas da Itália e Espanha, com rácios de dívida superiores ao grego, ao português e ao irlandês, os investidores apressaram-se a vender os títulos espanhóis e italianos para comprarem a dívida alemã que se financia hoje com juros ligeiramente superiores a 2,6 por cento. Claro que os juros subiram para a Espanha e a Itália.
O euro deu um trambolhão face ao dólar, descendo de 1.6 para 1.4 num dia. E tudo isto quando Barack Obama luta com a oposição republicana para a introdução de cortes significativos mas também subidas de impostos e retirada de regalias dadas por George W. Bush aos mais favorecidos. Medida que tem obviamente a oposição republicana, mesmo quando o Presidente democrata propõe cortes nos benefícios sociais, caros ao seu partido.
Nos Estados Unidos, o limite do défice federal (que tem de ser aprovado pelo Congresso) foi aumentado uma dezena de vezes nos últimos dez anos. Apesar dos esforços de Barack Obama, o desemprego voltou a subir.
As agências de rating não falam dos Estados Unidos da América.
Na Europa tem de haver um acordo claro e firme sobre o futuro do euro. Não é possível falar em acordos até aos mês de Setembro quando os investidores pensam em termos de horas, de um dia na melhor das hipóteses.
A Europa deve isso ao Mundo. Se resultar na União Europeia, uma das maiores economias mundiais, a experiência pode bem espalhar-se aos produtores de matérias-primas. Seria o paraíso dos especuladores. O fim do euro, com todas as consequências e o ataque voraz às matérias-primas.
Quosque tandem abutere desregulamentação pattiencia nostra?
Read more ...

sábado, 18 de junho de 2011

Salvar o euro ou evitar a crise social


Benjamim Formigo
18 de Junho, 2011

Pela primeira vez desde a criação da moeda única existem na Europa vozes defendendo a saída de vários países, os mais vulneráveis, da moeda única. A questão infelizmente não é nada fácil. Antes do mais porque ainda estamos para saber quem são os mais vulneráveis.
A crise da dívida não é um exclusivo do Sul embora os países do Norte tentem esse discurso. A Grécia foi a primeira atingida e fortemente. Mas o Governo grego não foi o único responsável. A banca financiou os projectos mais exotéricos, propôs novos empréstimos, ofereceu dinheiro à banca grega para se financiar e estimular o consumo. Nenhum projecto económico estruturante beneficiou desses financiamentos.
A situação com a Irlanda foi semelhante. Um economia brilhante, assente no conhecimento tecnológico, nas novas tecnologias, viu as empresas tecnológicas deslocarem-se para países asiáticos com “know how” de menor qualidade mas custo de mão de ora muito mais baixo.
Portugal veio a seguir interpondo-se no caminho para a Espanha. Com a sua agricultura neutralizada pelos subsídios europeus ao não cultivo, a sua frota pesqueira diminuída em favor de parceiros europeus, com o desaproveitamento nos tempos do Primeiro-Ministro Cavaco Silva dos fundos comunitários, usados em vias de acesso esquecendo o tecido industrial a quem estas serviriam, cedo Portugal se viu como importador de toda a espécie de bens, incluindo os alimentares e exportador de poucos produtos (o que sucedeu também com a Grécia).
A dívida comercial aumentou ao mesmo tempo que sem um aumento do sector produtivo os rendimentos fiscais do Estado diminuíam e portanto aumentava o défice público. Em simultâneo, os bancos ofereceram crédito sobre crédito sem grandes exigências. Para se financiarem recorreram ao BCE e à banca comercial estrangeira. Três dívidas, a comercial, a pública e a da banca. Não podia haver melhor receita para um crise.Aquilo que se detalhou mais em relação a Portugal é válido para os seus parceiros de infortúnio.
A eles estão em risco a Bélgica – emblemática da União Europeia – e a Espanha, uma dor de cabeça para o BCE e as instituições europeias por se tratar da quarta economia da União.A crise da dívida da zona euro não se fica por aqui. A banca francesa, com o facilitismo de empréstimos à Grécia tem uma exposição superior ao desejável. Como todas estas desgraças ainda não chegam os ministros das Finanças não se conseguem pôr de acordo sobre o apoio à Grécia.
A Europa dividiu-se entre os que, liderados pela Alemanha, defendem que a Grécia deve entrar em incumprimento e renegociar a sua dívida cabendo às instituições privadas assumirem parte dessa dívida e uma outra corrente, com a França à frente que sustenta a continuação do apoio à Grécia através de novos empréstimos.Se a Alemanha tem uma certa razão – quem contribuiu displicentemente para essa dívida deve assumir a responsabilidade – a verdade é que o problema grego não será resolvido sem uma reforma estrutural da economia. Seja como for, o euro teve um parto prematuro.
Os países que aderiram não tinham condições para cumprir a médio ou longo prazo o artigo 2º do Tratado de Maastricht. O Tratado é uma peça bíblica, dogmática, intocável, como se os tempos não corressem. O Pacto de Estabilidade e Crescimento que obriga os Estados membros da euro zona a manterem défices hoje impossíveis e estabelece uma série de obrigações ultrapassadas, está imutável e quando se fala em revisão cada um quer “a sua” revisão. Ora, basta referir que o preço do petróleo nem cheirava os 60 dólares na época em que Tratado e Pacto foram redigidos. Só isto basta para se ver que a conjuntura é radicalmente diferente.O BCE entregou tudo ao sacrossanto mercado. Só se preocupou em usar as taxas de juro para conter a inflação na Alemanha. O euro subiu despropositadamente relativamente ao dólar e a economia europeia perdeu toda a competitividade, excepção feita aos produtos de luxo, aos topos de gama. Em paralelo com George W. Bush a dívida federal americana entrava numa espiral, e mais uma vez os créditos eram oferecidos ao desbarato.
Até que alguém se lembrou de ser inconveniente e gritar que o réu ia nu. Obama já era presidente, tinha entre mãos duas guerras, mais a do terrorismo, e teve de enfrentar a crise dos sub primes. Contudo, as medidas então aprovadas são aplicadas de forma ultra discreta.
A conjuntura americana, porém, é bem diferente da europeia. Na Europa, a instabilidade social vem-se agravando na proporção directa do aumento do desemprego, dos cortes draconianos no sistema social (incluindo na saúde), da redução do função pública, da perseguição fiscal.
As manifestações percorrem o Continente e agora centram-se na Grécia onde o Governo remodelado à pressa prepara novo pacote de austeridade para a reunião deste fim-de-semana e a cimeira de 24 de Junho. À pressa também forma-se um Governo em Portugal para que o novel Primeiro-Ministro esteja nessa cimeira onde se esperam medidas decisivas para o euro. Provavelmente, como em cimeiras anteriores da União Europeia a montanha vai parir um rato.
Claro que a escolha não tem necessariamente de ser entre o euro e a estabilidade social. É necessário reler Jacques Delors. É necessário ouvir os homens que souberam criar uma Europa que quiseram solidária. É necessário que a Europa tenha o seu FME, que crie as suas agências de notação e lhes dêm credibilidade. Afinal tudo seria muito mais simples se a Europa, a União Europeia, regressasse muito simplesmente aos princípios políticos, económicos e sociais que estiveram na sua origem. A solidariedade europeia não pode estar entregue aos mercados. Se assim for, adivinham-se tempos bastante agitados.
Read more ...

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

A crise financeira grega já está a ser útil à zona euro

Benjamim Formigo |
22 de Fevereiro, 2010


A crise grega pode revelar-se favorável à recuperação europeia no mercado das exportações e obrigar os governos da União Europeia a terem uma posição política face à economia de mercado e até alguma simpatia pelo kenesianismo.
De ambos os lados do Atlântico, ainda não há seis meses, os governos não podiam ter sido mais kenesianos quando injectaram em socorro da banca milhares de milhões de dólares, euros e yenes para suster a derrocada do dominó especulativo que os próprios haviam construído.
Uma especulação, a crise dos “subprimes”, que chegou a ter contornos de ilegalidade, levou à falência alguns bancos em quase todos os continentes. Os depositantes perderam a confiança na banca, uma instituição só marginalmente mais simpática que o fisco, e com razão. Os seus depósitos, as suas poupanças foram usadas de forma irresponsável em fundos de alto risco – reconheça-se de maior rentabilidade - sem que os travões tivessem sido accionados no momento necessário.
A bolha do imobiliário sucedeu-se à dos “.com” e agora para os mais pessimistas podemos estar a caminhar para a bolha da dívida pública. Para resolvermos já esta questão as dívidas públicas são colocadas no mercado de capitais como bens seguros e não é o aumento dos défices dos Estados que os torna insolventes, e, portanto, incapazes de pagarem aos seus credores. De facto, os Estados são os únicos devedores que pagam. Claro que isso não impede a especulação com os títulos de dívida pública, mas apesar da supremacia do poder financeiro sobre a política, os políticos se e quando o entenderem dispõem de instrumentos que defendem os seus próprios títulos contra os especuladores: o poder legislativo, o executivo. Fiquemos pelos mais simples e menos ficcionais.
A bolha da dívida pública, sendo sempre uma possibilidade, não é credível e as agências de “rating”, depois da forma estrondosa como falharam a previsão da crise do sector bancário, já não têm a credibilidade necessária a condicionar um Estado. Outros mecanismos vão começar a surgir porque o poder público tem necessidade e o direito de se proteger – e aos bens dos cidadãos – contra manobras especulativas e grupos financeiros maiores que alguns Estados.
Para salvar a banca, que levou o Mundo para o precipício da crise financeira e depois económica, os Estados recorreram a financiamentos com dinheiros próprios e empréstimos contraídos no mercado financeiro para injectar nos bancos e garantir os depósitos dos cidadãos, os fundos que haviam comprado e evidentemente os próprios bancos, com raras excepções. Um ano depois descobre-se que essa mesma banca que foi socorrida com dinheiros públicos, ou melhor, alguns dos seus gigantes, ajudaram a Grécia a falsificar as suas contas face à União Europeia.
Mais, descobre-se que não foi só a Grécia a recorrer a sofisticados estratagemas que mostravam contas equilibradas graças a operações financeiras não contabilizáveis remetendo para o futuro o pagamento dos adiantamentos e fazendo os pagamentos através de concessões de taxas aeroportuárias, portagens, etc. Alemanha, França, Itália,  Espanha e Portugal – pelo menos – haviam recorrido a vários tipos de engenharia financeira, para equilibrar o défice, embora em muito menor grau e na maior parte dos casos contra a emissão de obrigações da dívida pública.
Aqui entram as agências de “rating” que, ao qualificar os países como se de empresas se tratasse, obrigam por vezes a seguros de risco que tornam o financiamento da dívida mais caro. Escandalosamente os financiadores desses seguros são as mesmas instituições que se envolveram nas engenharias financeiras menos transparentes.
Para regressar ao resgate dos bancos, os Estados, ao recorrerem ao crédito privado na gigantesca operação do ano passado, tornaram mais difícil o acesso ao crédito para os investidores, muito em particular os que se movimentam na área produtiva. Estes sentem os efeitos da reacção dos bancos, que se tornaram subitamente muito cautelosos, têm dificuldade em escoar a sua produção porque o desemprego se mantém extremamente elevado e não criam empregos porque não têm necessidade de aumentar a produção.
A crise mantém-se nos EUA como na UE (dentro e fora da zona euro). Os europeus têm de ultrapassar o complexo de Maastricht, de rever o Programa de Estabilidade e Crescimento, de aperfeiçoar os mecanismos do euro, do Banco Central Europeu e a UE tem de adoptar uma governação mais económica regulando a actividade. Em boa verdade, só os fundamentalistas é que ainda pretendem que o mercado omnipotente seja o regulador.
Desta crise, para os europeus parecem sair sinais contraditórios. Por um lado, mostra que o défice de três por cento é uma ilusão, que está desajustado da realidade hodierna. Por outro, mostra que o euro é de facto uma medida de protecção das economias cujo crescimento a regulamentação da sua existência cerceia. Finalmente, esta crise helénica trouxe aquilo que o BCE não conseguia: fazer cair o valor do euro face ao dólar. Depois de paridades exageradas o euro caiu finalmente, na mesma ocasião em que a Reserva Federal sobe finalmente a sua taxa de redesconto em um quarto de ponto percentual. Só um pequeno empurrão para o euro chegar a um valor sustentável e competitivo: 1.25 dólares.
Quanto às dívidas públicas, depois de um período deflacionário é chegada a altura de um pouco de inflação que desvalorize o dinheiro e torne a dívida mais fácil de pagar. As políticas restritivas têm de ser repensadas pois contribuem apenas para abrandar as economias e diminuir as receitas fiscais num ambiente de consumo deprimido, elevado desemprego, poupança e aumento do petróleo. Também aqui a crise grega, ao deprimir o euro empurrando-o para a marca de 1.25 dólares por euro, o situa numa zona equilibrada para a competitividade na exportação e um peso suportável na importação de petróleo. E porque tudo está ligado, é bom que a política se comece a sobrepor. Os emergentes estão no mercado e se o crescimento nos EUA e na Europa não se fizer sentir, as economias emergentes podem ser atingidas pela inflação e um sobreaquecimento que levará os seus Estados à contracção e a uma menor intervenção no consumo mundial, com um impacto significativo na retoma da economia do Norte.
Read more ...