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quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Diplomacias contraditórias perpetuam drama egípcio


Benjamim Formigo |
22 de Agosto, 2013

Ainda há poucos dias escrevi umas poucas linhas sobre as insuficiências nas Nações Unidas e as dificuldades que se colocam às organizações regionais para se imporem ou mediarem situações de conflito, por vezes extremas.
No Egipto vive-se precisamente um desses dramas. Soube-se há dias que um enviado da União Europeia, o diplomata Bernardino Léon, julgou estar próximo de conseguir um acordo que permitisse reduzir a violência, evitar os acontecimentos do final da passada semana, e sentar à mesa o Governo dos generais que desde 3 Julho tomaram o poder e a Irmandade Muçulmana que os confronta nas ruas após a deposição do ex-Presidente Morsi.
De modo muito sintético esse acordo previa que o grupo radical que se agrupa na Irmandade Islâmica diminuísse os seus protestos substancialmente e os militares retirassem grande parte dos efectivos de segurança das ruas. A primeira questão que se colocava, e se coloca, num acordo deste tipo é a da confiança entre as partes. Ora essa era, e é, inexistente.
A desconfiança dos militares relativamente aos radicais islâmicos, mesmo os que se proclamam moderados e se agrupam na Irmandade Islâmica vem de longe, designadamente desde que membros da Jihad Islâmica egípcia se infiltraram nas Forças Armadas e em 6 de Outubro de 1981 assassinaram, durante uma parada militar, o Presidente Anwar Al Sadat. Durante a década de 90 os militares perseguiram o grupo islâmico conseguindo levar à prisão ou eliminação física de uma esmagadora maioria dos seus dirigentes antes de Mubarak tolerar a sua actividade.
A Comunidade Internacional e em especial as grandes potências após a chamada “primavera árabe” alhearam-se um pouco do que se passava nos países árabes mais preocupada com os problemas da economia financeira que punham em causa a sua supremacia. A influência que poderiam ter no terreno foi deixada ao seu destino e este não foi brilhante.
Enquanto EUA e União Europeia se preocupavam consigo mesmos, a Rússia se procurava reposicionar internacionalmente e a China consolidar as suas influências. Surgiram outros actores como os Emiratos Árabes Unidos e o Qatar preenchendo os vazios. Deste modo a diplomacia para o “diálogo” que EUA e UE procuravam foi atropelada e até se a­tro­pelou a si mesma.
De Washington vieram sinais que se sobrepunham entre vozes do Departamento de Estado, que sem Clinton parece à deriva, e senadores que visitavam o Cairo e se desdobravam em encontros paralelos aos desenvolvidos por Bernardino Léon.
O Qatar, comprometido com os rebeldes sírios manifestou, conjuntamente com os Emiratos apoio à Irmandade Muçulmana ao mesmo tempo que o rei Abdullah, da Arábia Saudita, manifestava uma abertura discreta aos militares com o discurso da luta antiterrorista. No Cairo chegaram a estar em reuniões distintas, e no mesmo dia, o secretário de Estado norte-americano, o representante europeu Bernardino Léon e os ministros dos Estrangeiros do Qatar e dos EAU. Uma diplomacia cuja confusão só encontrava concorrência no caótico trânsito do Cairo.
Agora que a violência ultrapassou as marcas, sejam quais forem as razões, culpados, ou padrões de avaliação a única coisa que se pode perguntar é se foi ou não passado um ponto de não retorno e o Egipto graças a tantos amigos se encaminha para uma guerra civil.
Ideias inovadoras e disciplina diplomática são preciosas nas situações políticas, sobretudo as que, como no caso do Egipto, têm repercussões internacionais geoestrategicamente importantes.

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segunda-feira, 8 de julho de 2013

Situação no Egipto ultrapassa fronteiras


Benjamim Formigo |
8 de Julho, 2013

Quando em 2011 a chamada “primavera árabe” abalou o Norte de África com gáudio de muitos e reservas de outros tantos as alterações no Egipto assumiram desde logo os contornos mais importantes.
O Egipto é sem dúvida um dos países muçulmanos mais influentes, apesar das suas extremas dificuldades financeiras, e o que ali acontece pode influenciar directa ou indirectamente em todo o Mundo Islâmico até à Indonésia.
Um dos países mais populosos de África, com 84 milhões de habitantes, e o 15º mais populoso do Mundo, dispõe do maior Exército de África e de uma elite intelectual desproporcionada em relação à sua população. A sua influência no Médio Oriente é inegável como inegável é o seu papel no equilíbrio de forças na região e na relação árabe com Israel.
O Ocidente assobiou para o ar enquanto a tal primavera varria um atrás do outro os países da região. O primeiro caso a dar para o torto foi o da Líbia e ainda estamos para ver como irá evoluir. No Egipto a Irmandade Muçulmana banida e reprimida durante décadas era a única força politicamente organizada. As eleições democráticas que os egípcios abraçaram após noite de protesto na Praça Tharir levaram à Presidência Mohamed Morsi e a Irmandade Muçulmana.
Morsi durante os seus dois anos de mandato preocupou-se em consolidar as posições da Irmandade e pouco com a governação. A situação económica e financeira do país foi-se degradando ao ponto de não haver liquidez para importar o combustível necessário à produção de energia. Progressivamente foi introduzindo e tentando introduzir na Constituição regras islâmicas, contrariando a tradição laica do Estado.
A elite intelectual foi denunciando e protestando contra as medidas e as tentativas sem grande resultado. Mas na verdade foi a incompetência do seu Governo onde a Irmandade Islâmica pontificava que levou às grandes manifestações de rua que ditaram a intervenção militar.
Para trás ficaram casos como a nomeação como governador de Luxor – o mais importante centro turístico do país - um militante islâmico, Abdel al-Khayat. Al-Khayat militava no grupo radical islâmico que em 1997 reivindicou o massacre de 58 turistas precisamente em Luxor, provocando uma quebra brutal na receita turística. O turismo representava dez por cento das receitas externas do país e a imagem do retorno da estabilidade estimularia o turismo, a forma mais rápida e de baixo investimento que o Egipto tinha de aumentar as suas receitas em divisas.
A introdução de uma norma que estabelecia o fecho dos restaurantes, cafés, bares e locais turísticos, mas também de concentração de jovens e intelectuais às 22 horas não podia ser menos desastrosa numa capital onde existem engarrafamentos durante a madrugada.
O Presidente agora deposto pelos militares confundiu a sua eleição democrática com um mandato para governar de forma autocrática, ignorando a oposição e islamizando a estrutura legislativa do Estado. As manifestações de rua e o descontentamento instalaram-se e os militares – que ainda em Novembro de 2012 garantiam se iriam manter à margem – vieram a terreiro dar 48 horas a Mohamed Morsi para encontrar uma plataforma de entendimento com outras forças políticas advertindo que se não o fizesse eles determinariam a agenda política. Morsi cometeu um erro de avaliação, os militares mantiveram a sua palavra.
O Presidente eleito foi deposto perante alguns protestos vagos da União Europeia e dos Estados Unidos mas veementes da Turquia onde a situação política encontra algumas semelhanças.
Os Estados Unidos evitam o uso do termo golpe de Estado. Fazê-lo seria reconhecer uma situação que perante a lei americana obrigava à suspensão do programa de auxílio militar de 15 mil milhões de dólares.A situação complicada no Egipto vem levantar uma questão: a compatibilidade ou não entre o Islão e a democracia. A tese da democracia islâmica que alguns Estados tradicionalmente laicos se sentem tentados a abraçar, da Turquia ao Paquistão ou Indonésia, está seriamente posta em causa.
A inabilidade da Irmandade Islâmica para encontrar um equilíbro – se alguma vez o quis - no Egipto abriu essa porta. Uma outra questão deve ser equacionada: a juventude, que na década de 80 do século passado, na onda da invasão do Líbano por Israel, em 1982, se entregava à militância islâmica e hoje parece, sublinho parece, mais tentada a olhar o seu próprio futuro e uma imagem de liberdade que lhe chega, e muito, através das redes sociais.

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