sábado, 21 de maio de 2016

Politica social abana Venezuela


Benjamim Formigo

21 de Maio de 2016



Hugo Chavez tomou conta de um país onde sobrava o petróleo, a miséria e a falta de uma politica de desenvolvimento. O carisma do “Comandante” colmatava porém a falta de um estratégia económica usando os rendimentos do petróleo para comprar tudo o que a Venezuela não produzia. Durante uns anos resultou. Tal como no Brasil surgiu uma classe média, que como todas as classes médias se revoltam quando lhe “vão ao bolso”. Com a deterioração da situação económica, o excesso das importações a ausência quase total de produção nacional levou “El Comandante” a introduzir medidas que se tornaram cada vez mais impopulares. Mas era “El Comandante”. Hugo Chavez procurava transferir para o seu delfim o crédito politico que ainda lhe restava e que caía aceleradamente dia a dia.



Com as enormes receitas petrolíferas o crude acima dos USD 100 o barril Chavez não usou uma parte dessa receita para fomentar o desenvolvimento do sector não petrolífero e preparar o país para um tempo de “vacas magras” em que, convenhamos, poucos produtores acreditavam ou esperavam, sobretudo com a rapidez que se veio a verificar.



Conta um diplomata que participou numa das cimeiras latino americanas que numa delas o então Presidente Lula da Silva - cujo país era um dos maiores beneficiários da exportação de bens para a Venezuela – aconselhou Chavez a reduzir a dependência do país das importações e a abrir as portas a empresas venezuelanas que produzissem uma parte do que importavam, mesmo que isso não fosse aparentemente nos melhores interesses do Brasil. Hugo Chavez teria concordado com Lula prontificando-se à criação de empresas estatais. O Presidente brasileiro chamou-lhe a atenção para o facto de não poder depender do Estado para tudo e da necessidade de fomentar, encorajar, a iniciática privada. Ao que parece “El Comandante” teria recusado em absoluto.



E assim evoluiu a economia venezuelana dependente do financiamento de um Estado que por sua vez dependia financeiramente de factores externos, designada e principalmente as receitas petrolíferas. A partir de certa altura, após a crise de 2008, o crude começou a cair. O Brasil pela sua diversificação económica só há uns dois anos começou a sentir a crise e ainda manteve o crédito à Venezuela.



Sem produção própria, desleixando o sector primário, os bens importados começaram a faltar em especial depois de Nicolas Maduro subir ao poder. Maduro caiu sobre a classe média para financiar o Estado e a sua politica económica estatal que por seu turno também não investia em sectores estratégicos. A comida falta nas prateleiras dos mercados, os preços tornam-se proibitivos. A agravar uma crise energética que não pode ser apenas atribuída à seca mas à incapacidade de criar um plano energético nacional menos dependente dos derivados do petróleo.



As manifestações sucedem-se em Caracas e outras cidades venezuelanas. Lideradas por uma classe meia sufocada, um campesinato quase inexistente e um operariado mínimo. Maduro manda os resultados eleitorais às urtigas, contorna o Parlamento e tenta governar por decreto. Uma solução que não parece muito avisada sobretudo quando o  país não mostra qualquer sinal de recuperação, perde os seus aliados regionais que assobiam para o ar enquanto Washington coloca toda a pressão sobre Maduro.



Uma intervenção do FMI com Maduro só poderia ser produtiva se o Presidente assumisse que existem outros caminhos, e de facto o FMI não é o melhor. Imaginem ainda mais austeridade na Venezuela ! O  a que deixa uma de três soluções: Nicolas Maduro aceita o referendo, convoca eleições presidenciais e deixa a batata quente a outro, ou pode muito bem ter em mãos uma revolta popular, bem pior do que as manifs de hoje, ou perante a repressão de rua os militares intervêm, se possível palacianamente dando um ultimato a Maduro.



A Venezuela não aguenta muito mais a presente situação.