15 de Maio, 2016
Muito ou o essencial já foi dito sobre o golpe
constitucional ou inconstitucional – não conheço em detalhe a
Constituição brasileira – que afastou Dilma Rousseff do poder. A
verdade nua e crua é que um grupo de presumíveis corruptos indiciados
pela Justiça brasileira (alguns condenados) se lançou numa aventura
contra outro grupo do mesmo jaez. Pelo meio a Presidente eleita Dilma
Rousseff que por entre os seus pecados parece não contar o da
corrupção.
Lula da Silva e o seu PT tiraram cerca de cinco milhões de brasileiros da pobreza, criaram uma nova ala na classe média, aumentaram o poder de compra e as expectativas de desenvolvimento do país. Veio a crise de 2008 que graças a essa classe média alargada levou mais tempo até se fazer sentir no Brasil. Quando se fez sentir não houve o menor escrúpulo em atacar Lula e Dilma, neste caso mais Dilma Rousseff que, de facto, foi manifestamente infeliz na gestão da crise financeira. No meio dessa contestação e face às necessidades crescentes de infra-estruturas de saúde e educação do país, a Presidente suspensa abraçou dois projectos megalómanos que beneficiaram muitas empresas sem contudo distribuir riqueza: o Mundial de Futebol e os Jogos Olímpicos.
Os políticos envolvidos neste golpe criaram as condições objectivas para um golpe militar e nas ruas há quem fale nisso, sobretudo porque já não são muitos os que lembram os tempos negros da ditadura militar. Esquecem que colocaram já o Brasil – visto como um país desenvolvido e com peso na cena internacional – ao nível de um daqueles países latino-americanos onde impera a Lei Marcial. Para já,os Jogos Olímpicos, que não terão a receita esperada, como a actividade turística, permitem aos políticos conscientes um compasso de espera que deveriam aproveitar para recolocar a legalidade e negociar um pacto de regime que ajudasse à saída da crise. Um velho ditado da língua portuguesa diz que “quanto maior a nau maior a tormenta”. O Brasil é uma nau muito grande.
Se no final deste entre-acto não surgirem soluções, ninguém se admira que os militares decidam intervir. Se o fizerem ninguém sabe por quanto tempo nem como. Isso é de evitar a todo o custo porque nem os golpistas civis escapariam à Justiça Militar. Há que manter o estatuto do Brasil, ou melhor, há que recuperar o estatuto que o Brasil havia conquistado nas últimas décadas.
Como é evidente, estou do lado de Dilma Rousseff, apesar de não ter por ela qualquer simpatia. Acontece que de tudo quanto li, ouvi e vi, não encontrei qualquer acusação séria de corrupção, de vilania. Houve de facto manobras contabilísticas para disfarçar o défice, e daí? Será que não se recordam já dos tempos em que os EUA (até com Ronald Reagan) diferiam o pagamento de Dezembro aos funcionários públicos para o primeiro dia do ano seguinte e com isso aliviavam o défice do ano findo? Alguma vez foi crime? Mais ainda crime de responsabilidade, na terminologia brasileira?
Sejamos sérios. O Brasil é grande demais para ser palco de brincadeiras. De facto, aquele Congresso necessita de uma boa lavagem a jacto e algumas empresas uma boa desinfecção. Isso não implica necessariamente uma intervenção militar. Exige uma noção de patriotismo e de dedicação à coisa pública que uma considerável parte dos políticos brasileiros parece carecer. Apesar do meu apoio a Dilma, pelo menos quanto às acusações que vi, creio sinceramente que os brasileiros podem confiar ou desconfiar menos dos que votaram contra a sua destituição. E não podem querer para ontem aquilo que economias desenvolvidas só conseguirão daqui a uns bons dez anos.
Ou estou totalmente enganado, o que também é possível. Considerando as declarações do ministro da Defesa que, ainda Dilma não havia sido afastada, e procurou tranquilizar o mundo recusando qualquer hipótese de intervenção das Forças Armadas e soube colocar e definir bem o campo em que evolui a actual disputa entre os políticos do país: o da ética. Reconheceu, também, que o país tem mecanismos e instituições com competência para resolver a actual crise.