quinta-feira, 3 de março de 2016

Super Terça-feira clarificou corrida


Benjamim Formigo
3 de Março, 2016


O primeiro dia de Março, a Super Terça-feira em que 12 Estados votam nas primárias democratas e republicanas clarificou as posições dos candidatos dos dois partidos mas também poderá ter redefinido a estratégia dos democratas e complicado a do Partido Republicano (GOP – “GreatOldParty”). Contudo, do lado republicano ficou clara a vantagem que o eleitorado dá a um “outsider” sobre os candidatos ligados aos “establishment”polÍtico. A recuperação, para os dois lados, tornou-se mais difícil e a tendência de vitória pode consolidar-se nas primárias que ainda faltam. O grande prémio que pode relançar estratégias e candidaturas será a Flórida com o seu elevado número de delegados às convenções.
Nos democratas, Hillary Clinton vence o Sul sem perder os Estados do Norte, mas não consegue penetrar no eleitorado com menos de 45 anos. Bernie Sanders, o veterano senador do Vermont, em contrapartida, consegue o voto do eleitorado mais jovem, sem, ao contrário de Clinton, conseguir penetrar no eleitorado negro e hispânico. Curioso, porque Sanders está na casa dos 70 anos, bem mais velho que Clinton. O veterano senador tem conseguido angariar mais fundos e gastar muito mais em propaganda eleitoral do que a sua rival democrata. Nenhum dos dois tem problemas de credibilidade, embora a política de Sanders seja mais liberal – o que nos EUA significa mais à esquerda – que Clinton, o que não é uma vantagem. Clinton está mais próxima de WallStreet, tem recebido menos contribuições e fez parte da actual Administração, que tem índices de aprovação muito baixos. Uma sondagem da CNN divulgada pouco antes da Super Terça-feira mostrava que o senador Sanders ganhava a todos os candidatos republicanos, enquanto Clinton só ganhava numa corrida contra Trump. Não é simples explicar e cada analista apresenta razões diferentes.
Para Sanders, nem tudo está perdido, mas uma reviravolta só seria possível se no final a diferença de delegados à Convenção Democrata fosse relativamente baixa, o que permitia aos chamados “grandes delegados” –delegados do Partido que não são eleitos mas designados pela direcção partidária – pudessem cobrir a desvantagem ou mesmo ignorá-la. Por isso,Sanders aposta agora na Flórida.
Em simultâneo, Hillary Clinton aponta as suas baterias a Trump, transformando esta fase das primárias numa campanha nacional. Curioso que com Sanders sucede o mesmo. Embora seja prematuro, não é de excluir que os democratas preparem um “ticket” Hillary Clinton / BernieSanders, que à partida teria todas as condições para vencer confortavelmente qualquer candidato republicano, o que deve ser considerado na Convenção Democrata na semana de 25 de Julho em Filadélfia, a cidade onde tocou e está o Sino da Liberdade, ícone da independência americana.
Do lado republicano a dispersão de delegados é maior. Embora Donald Trump, com a vitória obtida na Super Terça-feira se tenha distanciado de Ted Cruz e Marco Rubio, quase que instituindo-se como o candidato do GOP, o partido está pouco confortável com a derrota de Marco Rubio, que ganhou apenas num Estado. Ted Cruz apostou forte no primeiro prémio, o Texas, com maior número de delegados (155 republicanos) e o seu Estado, e conseguiu uma vitória que não pode ser ignorada.
O que ficou claro para o GOP nesta Super Terça-feira é que o eleitorado republicano tende a escolher os “outsiders”, como Donald Trump ou Ted Cruz, em detrimento dos candidatos do “establishment” (Marco Rubio). Trump é o bilionário demagogo que diz o que lhe vem à cabeça e nem sempre muito inteligente. O homem que combate Washington e a Casa Branca, o Congresso, tudo enfim que seja tradicional na politica. Ted Cruz é o ultraconservador do TeaParty, um movimento contestatário que tem vindo a aumentar o seu poder dentro do Partido Republicano. (Ao contrário do que se possa pensar o TeaParty não é o Partido do Chá, mas um movimento contestatário que foi buscar o seu nome a um movimento que em Boston no século XVIII contestou a entrada de chá da companhia das Índias Orientais, destruindo no porto de Boston navios ingleses com chá e protestando contra a concorrência desleal da potência colonizadora relativamente às culturas nativas). O TeaPartyé a designação adoptada por um grupo neoliberal do Partido Republicano de protesto contra Washington. O grupo nunca foi bem aceite no GOP, mas conseguiu implantar-se e crescer até ter o seu próprio candidato às presidenciais ou, pelo menos, às primárias. Mais tradicional, a direcção republicana escolheu um candidato moderado, Marco Rubio, que tem sido atacado pelos “outsiders”– Trump e Cruz –que se tornaram apelativos à tradicional contestação ao Governo Federal.
Marco Rubio não pode descer mais. A 1 de Março caiu para um terceiro lugar, mesmo com a desistência de Jeb Bush, e necessita não só de se mater à tona de água como acima da linha de flutuação o que implica uma recuperação nos Estados que faltam para que os “grandes delegados” possam tentar virar a sorte na Convenção Republicana de 18 a 21 de Julho em Cleveland, Ohio. Todavia essa “cambalhota” é extremamente difícil e complicada considerando as diferenças de delegados conquistados. Além de que levaria provavelmente Trump a concorrer como independente, o que poderia deixar o GOP numa posição muito difícil.
Os resultados da Super Terça-feira são, de facto, um impulso muito considerável para o desfecho das primárias que se seguem e, sobretudo, a angariação de fundos para as campanhas nos Estados que se seguem. Há, todavia,uma diferença considerável: na SuperTerça-feira a distribuição de delegados foi proporcional aos resultados, na maioria dos Estados que se seguem até às Convenções os delegados serão distribuídos de acordo com o sistema maioritário, quem ganha leva tudo.
A critica a Washington e a Obama é incompreensível para quem está de fora. Os EUA conhecem um período de recuperação económica saudável, o desemprego desce, aumentou a independência energética, existe um sistema de saúde, não se envolveram em mais guerras e não houve, excepção ao caso de Boston, atentados terroristas externos com significado. Contudo, Obama tem índices de aprovação baixos, que se reflectem na corrida à sua sucessão. Em contrapartida, do lado conservador crescem os “outsiders”extremistas, isolacionistas cuja subida ao poder assustam até os aliados dos EUA.