quarta-feira, 16 de março de 2016

Racismo e xenofobia de Trump dividem os EUA


Benjamim Formigo |
16 de Março, 2016


Não recordo uma campanha eleitoral tão divisiva nem tão violenta como esta que Trump orquestra para tentar chegar à Casa Branca, eliminando não os candidatos democratas mas o próprio Partido Republicano, incluindo a ala conservadora do “TeaParty” representada por Ted Cruz, senador do Texas.
Nem as manifestações de 1968 contra a guerra do Vietname à porta da Convenção Democrata em Chicago tiveram a proporção das que se vêm repetindo ao longo da campanha de Trump e que tiveram o seu expoente máximo na sexta-feira em Chicago. Menos ainda se viu os candidatos apelarem e apoiarem formas de expressão violentas a coberto da 1.ª Emenda (da Constituição dos EUA, Liberdade de Expressão).
Donald Trump conseguiu em meses destruir o mito do “meltingpot” que seriam os Estados Unidos, a terra onde há lugar para todos e onde todos têm as mesmas oportunidades e direitos e merecem o mesmo respeito. Trump, com a sua ridícula franja de uma não menos ridícula cabeleira loira, destruiu o mito americano, dividiu de facto o país, explorou a xenofobia contra as massas desfavorecidas, os negros ou os hispânicos, explorou o sexismo na sua forma mais torpe fazendo tábua rasa do papel da Mulher. O homem que quer o título de líder do mundo livre (outro mito americano) insultou os seus vizinhos mexicanos, rebaixou os canadianos, mostrou total desconhecimento do que se passa no Mundo, ignorou os seus aliados.
Até Martin Shulz, presidente do Parlamento Europeu, abandonou a sua diplomática posição recatada para dizer que a Europa não estava preparada para tal presidente.
De um presidente dos Estados Unidos espera-se um exemplo de sobriedade, moderação, diálogo mas também firmeza. Donald Trump não corresponde a nenhum destes quesitos. Para começar,Trump não era, nem é, o candidato que o Partido Republicano queria. Os republicanos procuravam alguém na “mainstream” do GOP (GreatOldParty – designação comum  dos republicanos), mesmo uma réplica de um George Bush (pai ou filho, preferencialmente pai) servia. O homem do aparelho era Marco Rubio. O “TeaParty” avançou comum ultraconservador, Ted Cruz, do Texas, o que já não era fácil de engolir e divisivo no GOP. Os milhões de Donald Trump avançaram com Donald Trump que, desde logo, fez saber que se o partido não apoiasse a sua candidatura se apresentaria como independente pagando do seu multimilionário bolso a campanha eleitoral.
Conhecido pelos seus sucessos e fracassos empresariais, pela sua incontinência verbal e falta de bom senso,Trump elegeu os grupos brancos insatisfeitos para o lançamento da sua verborreia insultuosa. Atirou-se ao movimento “Black LifeMatters”, criado em protesto contra a violência policial sobre a comunidade negra americana. Respondeu aos grupos brancos desfavorecidos, muitos pelo desemprego, acusando os imigrantes (na ilegalidade ou legalidade), designadamente os mexicanos e outros hispânicos, de lhes roubarem os postos de trabalho. Denegriu a imagem de Barack Obama,questionando se era americano e, depois, sugerindo que era muçulmano. Na passada atacou os muçulmanos em geral como terroristas, prometeu atacar os chineses (presume-se que economicamente), arrasar a Coreia do Norte e por aí fora.
Se tudo isso não chegasse, ao perceber que a baixa escolaridade do seu eleitorado fazia eco aos seus ataques, acentuou cada vez mais as divisões entre etnias, religiões, classes sociais. Não era de admirar as contramanifestaçãos nos seus comícios. Respondeu-lhes apoiando tanto a repressão pela polícia como pelos seus apoiantes, a quem promete “pagar os advogados”. Nem MontyPiton faria melhor. Infelizmente, não se trata de uma comédia ridicularizando um político menor vivendo à margem da realidade. Ao fim de um ano de campanha, com as suas críticas à Casa Branca e a ridicularização do Congresso, Donald Trump consegue ser ouvido e seguido e divide os americanos como nunca. Ao contrário do que sucedeu durante a guerra do Vietname (e outras) a divisão não é transversal. É um emaranhado de sectarismos, de racismos, de descontentes que encontram nas suas palavras aquilo que emotivamente gostariam de dizer aos governantes, mesmo que injustamente. Perante um eleitorado intelectualmente pouco sofisticado,Trump chega mesmo a dizer que “não pode condenar o KuKluxKan porque não o conhece suficientemente”.
O Partido Republicano está quase em pânico. Os seus candidatos que, se perdessem para Trump o apoiariam contra o candidato democrata, começam a manifestar publicamente reservas, em especial Marco Rubio, o candidato institucional do GOP. Donald Trump tem brincado com o fogo, libertou forças que estavam contidas, e será que um Presidente Trump teria capacidade para as controlar? Seguramente que não. Se os democratas ganharem, vão ter de apanhar os cacos e colar os vasos ming que a inconsciência de Trump escavacou. Um elefante numa loja de porcelana é, de facto, a melhor imagem do multimilionário. A imagem política e social.
Como irá o Partido Republicano, com ou sem vitória de Trump, reconstruir-se como um partido de elites, económicas, intelectuais e até de boa parte da classe média? Esse é o “dayafter” do GOP. Sem falar nas relações entre um Presidente Trump e um Congresso cuja maioria, actualmente republicana, insultou?
Daí que tanto Hillary Clinton como BernieSanders, candidatos democratas, se afastem da campanha primária pela candidatura democrata para criticarem Trump concertadamente. As possibilidades de uma vitória democrata são consideráveis face a um Partido Republicano dividido, onde até alguns governadores recusam o apoio ao multimilionário, chegando mesmo a criticá-lo. Contudo, os democratas têm pela frente vários imponderáveis. Em que medida a retórica de Trump acusando Obama, por ser negro, tem dividido o país? Até que ponto continuará a “cegueira” dos americanos que culpam Obama pela crise económica, quando os EUA estão em plena recuperação, com o desemprego a cair, a situação de defesa e segurança estável, a inflação em níveis normaise os indicadores económicos de um modo geral positivos?
Será que alguém se sente mais seguro com um diletante como Donald Trump sentado em cima ou ao lado da mala com os códigos de lançamento do arsenal nuclear?