28 de Fevereiro, 2016
Às primeiras horas de ontem entrou em vigor na Síria um
cessar-fogo que deve estender-se a partir das zonas de melhor
comunicação para o interior durante este fim- de- semana.
Na última sexta-feira diplomatas dos Estados Unidos e da Rússia preparavam ainda uma fórmula que garantisse a suspensão das hostilidades nas zonas previstas, bem como os mecanismos de verificação e fiscalização do cessar-fogo. EUA e Rússia trocavam mapas sobres as áreas excluídas – as dominadas pelo autoproclamado “estado islâmico” e o Jabhat al-Nusra, movimento afiliado da Al Qaeda. Apesar de o Governo de Bashar al-Assad ter dado o seu acordo bem como parte dos movimentos que lutam contra ele, o principal agrupamento da oposição, que agrega 97 facções, apoiado pelos sauditas, só a meio de sexta-feira anunciou a sua concordância.
Da trégua estavam desde sempre excluídos os movimentos considerados terroristas contra os quais tanto EUA e seus aliados, como a Rússia poderão continuar as operações militares. Não estava contudo claro ao final do dia de sexta-feira se as tropas governamentais apoiadas pela Rússia e pelo Irão, quer directamente quer através do Hezbollah e da Guarda Revolucionária iraniana, bem como os grupos que se opõem a Assad, poderão tomar parte nas acções antiterroristas. Outro dos problemas ainda em aberto horas antes de o cessar-fogo entrar em vigor era a delimitação das áreas sob controlo das várias partes. Quem controla o quê é um dos problemas que estava na mesa nas últimas horas e que é bastante caro a todos os lados já que na última semana, apesar de um abrandamento da actividade aérea russa, registou-se um aumento da actividade militar governamental.
Os Estados Unidos e a Rússia parecem dispostos a recuar o apoio aos rebeldes e a Assad, respectivamente. Washington deixou claro, no que foi visto como um aviso aos sauditas e outros aliados do Golfo, que não quer mísseis terra-ar nas mãos dos grupos oposicionistas, por recear que eles acabem em poder do “EI” ou do Jabhat al-Nusra. Um avião abatido na região, em particular neste momento, poderia ter consequências muito para além do conflito regional. Contudo nem Moscovo nem Washington escondem o receio com a carta fora do baralho que é a Turquia, em oposição a qualquer cessação de hostilidades que inclua as milícias curdas. John Kerry está consciente das dificuldades que esse seu aliado, mesmo que a contragosto de todos, é absolutamente imprevisível.
Ainda estavam por definir, ontem, as consequências de uma violação da trégua, como lhe chamou Vladimir Putin, e a desconfiança explícita do Pentágono relativamente ao Kremlin não ajuda.
A única coisa que neste momento importa é que, com ou sem atraso, as hostilidades cessem - como realmente cessaram - para que a diplomacia possa encontrar uma solução política. Neste particular é um facto que graças aos russos Assad está em muito melhor posição que em Junho, quando quase parecia derrotável pela força, o que o pode tornar mais receptivo a uma solução. Qual? Provavelmente estamos ainda longe de saber mas não é de excluir um exílio. Importa porém esperar que, se e quando Assad se retire, não se repitam as asneiras feitas no Iraque que destruíram a máquina militar e administrativa do país deixando o imenso caos de onde ainda não saiu mas que aproveitou, e bem, ao autoproclamado “estado islâmico”.