6 de Fevereiro, 2016
Em meados da semana passada, o secretário da Defesa dos
Estados Unidos apontou quais são as ameaças à segurança dos EUA e à
estabilidade mundial. Seria normal e expectável que o autoproclamado
“Estado Islâmico” surgisse no topo.
Os EUA, contudo, consideram a Rússia a primeira ameaça, não só à sua segurança como à da Europa (o seu teatro avançado), seguida pela China, a Coreia do Norte e o Irão, e só depois o “Estado Islâmico”.
Bastante irónico
Se não fosse um assunto sério, seria bastante irónico. Quando as acções terroristas do “Estado Islâmico” se espalham numa estratégia tentacular por África, a partir de um Estado falhado – a Líbia, onde a acção norte-americana para derrubar Kadhafi não foi despicienda – ameaçando a segurança, senão mesmo a estabilidade, de Estados soberanos da África Ocidental, depois de se ter instalado na costa oriental do continente, e quando o “Estado Islâmico” se faz sentir na Europa, Ásia e o que mais se verá, a Rússia é a ameaça principal.
Se quanto à China se poderia argumentar por causa das suas reivindicações no Mar do Sul, já a ameaça da Coreia do Norte é uma realidade relativa, controlável, sobretudo com o apoio da China.
Caso do Irão
O Irão é o caso mais espantoso de como os EUA, em ano de eleições, continuam a sofrer do síndrome da queda do Xá e da subsequente ocupação da embaixada dos EUA em Teerão. Assinados os acordos de desnuclearização com o Irão, os Estados Unidos são o único país que mantém sanções.
A visita europeia do presidente iraniano custou muitos milhões aos EUA, a começar pela sua industria aeronáutica, preterida a favor da “Airbus”, que conseguiu um contrato multimilionário, o mesmo sucedendo com outros sectores de actividade, designadamente o energético. O Irão compra à Europa e esta investe em diversos sectores da economia iraniana. Washington fica lá fora ao frio.
Com este périplo europeu, o presidente iraniano isolou os EUA. Com problemas de crescimento económico, o negócio iraniano garantiu, pela sua importância em sectores estratégicos da economia dos “grandes” europeus, que a União Europeia terá de pensar muito, mas mesmo muito, antes de considerar sequer a possibilidade de novas sanções a Teerão, a menos que haja uma flagrante violação dos acordos de desnuclearização. E Moscovo marcou mais pontos na sua relação com o Irão e a Europa.
A avaliação norte-americana do risco surge numa altura pouco própria.
As conversações de paz para a Síria estavam ameaçadas já do impasse em que esta semana caíram, levando a ONU a decretar a sua suspensão por algum tempo. Em paralelo, o cessar-fogo aprovado no Conselho de Segurança da organização mundial também não avança. Moscovo é chave nesse cessar-fogo, considerando a sua influência e presença no terreno e os seus bons ofícios serão indispensáveis. Como de resto serão indispensáveis os esforços de Washington junto dos seus aliados do Golfo, designadamente, a Arábia Saudita, que apoiam a oposição síria e até movimentos que canalizam armas e fundos para o “Estado Islâmico”.
Porém, quando encarados num contexto mais vasto, a sobreprodução petrolífera saudita, conjugada com a continuação do “fracking”, fizeram, e fazem, cair os preços do crude, obrigando o maior produtor – a Rússia – a subir também a sua produção.
Os efeitos do excedente ultrapassam em muito o âmbito do esboço de uma nova “Guerra Fria”, provocando consequências avassaladoras nos restantes produtores, que estão a ver cair as suas receitas e enfrentam dificuldades que, não só afectam a sua capacidade de desenvolvimento, como alguns deles têm já problemas de pagamentos ao exterior ou são obrigados a limitar as suas importações, mesmo as mais básicas, afectando a restante economia mundial.
Efeito multiplicador
Nada hoje está desconectado. A crise nas bolsas chinesas tem demonstrado um efeito multiplicador que apenas beneficia alguns dos países mais ricos.
A ameaça à estabilidade vem de facto da possibilidade de globalização de uma crise económica desencadeada por preços assustadoramente baixos do petróleo, que anularam as tais economias emergentes que sustentavam o Primeiro Mundo.
Se a situação na Síria não tiver uma saída rápida e estável, os riscos não são só europeus, com a crise dos refugiados. É que o Líbano, a Jordânia e outros Estados do Médio Oriente vivem uma imensa pressão, com os milhões de deslocados a que estão a dar guarida. A Europa é, apenas, a face visível, mediática.
Em nota de rodapé, vale a pena acrescentar os esforços turcos para ameaçar a Rússia com a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).
O caso ucraniano, onde burocratas europeus se juntaram a serviços dos EUA, deixou a União Europeia escaldada, e Berlim, que de facto lidera a Europa comunitária, não tem qualquer interesse num conflito com a Rússia, apesar dos esforços dos seus amigos da Europa de Leste, que, no início, eram apenas mais um bom mercado para a Alemanha.
Que estranho início deste primeiro quartel do século XXI.