Benjamim Formigo |
13 de Fevereiro, 2016
Há alturas nos Estados Unidos, especialmente na época
eleitoral, em que é difícil ou mesmo impossível perceber o que querem
os americanos e porquê.
Em 2008 a banca norte-americana desencadeou a última maior crise financeira atingindo todo o mundo, travando crescimentos económicos, pondo em causa o sistema financeiro mundial, provocando recessões técnicas quer no mundo desenvolvido quer nas economias em desenvolvimento. Graças às medidas unilaterais que pôde introduzir por decisão presidencial, acompanhadas de um dito controlo bancário, a Reserva Feveral (FED) injectou no mercado biliões de dólares, cortou as taxas de juro drasticamente em resposta à crise financeira. Obama teve de atirar o défice para o cosmos com uma oposição só formal dos republicanos e o apoio da indústria. Num ano, enquanto a Europa debatia o sexo dos anjos, sem que o BCE se decidisse a injectar euros no mercado e a cortar as taxas de juro, os Estados Unidos começavam a sua retoma.
A partir daí a política económica da Administração Obama propiciou a criação mensal de milhares de postos de trabalho, atingindo em dois anos o número mágico: 120 mil novos postos de trabalho por mês, ou seja, o numero a partir do qual começavam a ser reintegrados os desempregados da crise, mais umas dezenas de milhares e, além dos desempregados, a economia estava em condições de absorver parcialmente os jovens que chegavam ao mercado de trabalho. Hoje esse número ronda, consistentemente, os 230/240 mil. Mas os americanos queixam-se da economia. Porquê? Têm as taxas de juro mais baixas e, portanto, facilidade de acesso a bens a crédito barato, não estão a fechar empresas nem há reduções de postos de trabalho, pelo contrário – apesar de algumas companhias multinacionais, incluindo petrolíferas, anunciarem reduções de efectivos (fora dos EUA). Mais uma vez, porque se queixam os americanos?
Com inusitada frequência sabemos pelas notícias que indivíduos armados, porventura desequilibrados, legais detentores de uma arma de guerra, chacinam crianças numa escola, atiram sobre transeuntes, “atacam” centros comerciais, e por aí fora. As televisões americanas dão enorme ênfase à revolta e sentimento de perda da comunidade, local e geral – todavia, recusam o controlo das armas. Quando Barack Obama anunciou medidas para controlar o armamento em poder de civis, não faltaram as críticas ao presidente. Aqui d’el rei que nos querem tirar as armas. Falso, Obama queria apenas introduzir regras para controlar as existentes e regular a venda de armas de guerra. Há uns anos, em Midland, Texas, fui levado pelo “sheriff” local a visitar um armeiro. Fiquei estupefacto. Desde armas de calibre “.22” a espingardas semiautomáticas de calibre militar passando pelas nove milímetros havia de tudo acompanhado de silenciadores. Um silenciador não é um acessório defensivo. Para comprar uma daquelas armas, a um americano, bastava um formulário e um documento de identificação. Claro que noutros Estados existem controlos mais apertados, mas todos estaduais. A intromissão do Governo Federal é como que uma declaração de guerra, em especial nos Estados do Sul vencidos na guerra civil. Mas como é que as pessoas manifestam tamanho e justificado ultraje com um ataque a uma escola e dias depois idêntica indignação porque o presidente quer impor controlos na venda de armas? Porque carga de água armas de guerra podem ser vendidas a civis? A simples invocação da 2.ª Emenda da Constituição é fraco argumento para quem prescinde voluntariamente de uma série de direitos liberdades e garantias constitucionais quando ouve a palavra terrorismo.
Donald Trump e Ted Cruz, dois ultraconservadores, são os favoritos à corrida republicana. Os valores que defendem poriam em pé os cabelos de George Washington. Afinal, os EUA querem ser os líderes do que chamam o “mundo livre” e reclamar para si o direito moral de se intrometerem. Não, obrigado. Mas entre o eleitorado americano a diatribe de Trump e a verborreia conservadora de Cruz fazem caminho. Do outro lado, no campo democrata, Hillary Clinton apresenta-se como um político de centro e o seu principal rival, Bernie Sanders, não esconde o seu liberalismo quase socialista. Não é nada claro que a moderação destes candidatos se venha a impor ao radicalismo demagógico dos republicanos ou, pelo menos, destes republicanos.
Poderíamos continuar a citar contradições quer de política interna quer externa, mas poupemos o leitor e fiquemos-mos por estas mais evidentes.
E a terminar a pergunta inicial a que não me atrevo a responder: o que querem, afinal, os americanos?