domingo, 21 de fevereiro de 2016

A Síria no momento crítico


Benjamim Formigo
21 de Fevereiro, 2016

Como se esperava, na sequência dos desenvolvimentos da semana, a sexta-feira 19 de Fevereiro não foi o dia do cessar-fogo na Síria, acordado em Munique uma semana antes entre os Estados Unidos, a Rússia e respectivos aliados.
Não falta quem critique Moscovo, e até com alguma razão, mas com o avanço governamental sobre Aleppo e al-Shaddad,  a 50 quilómetros de Raqqa, a autoproclamada capital do não menos autoproclamado “Estado Islâmico” pelos combatentes curdos, liderando a força governamental, a Rússia não ia cessar o apoio aéreo que permitiu estes avanços.
Ao mesmo tempo os curdos, aliados dos EUA contra o “Estado Islâmico”, e apoiados pela Rússia, foram atacados no seu território nativo pela artilharia e mais tarde a aviação turca que alega apoiar “actos terroristas” do PKK – Partido dos Trabalhadores, que se bate há décadas por um Estado curdo no Sul da Turquia e se aliou ao YPG (Forças Democráticas Sírias) no combate ao “Estado Islâmico”.
A situação criada pelo conflito entre o Governo turco, receoso da capacidade militar curda, e os curdos que combatem o “Estado Islâmico” e, ocasionalmente, outras forças opositoras ao presidente Assad criou a maior das confusões no terreno e um imbróglio diplomático e político onde toda a cautela é pouca.
No fundo, estamos perante um país membro da OTAN, a Turquia, que por razões políticas internas ataca repetidamente um aliado dos EUA (outro país da OTAN) sem que a Aliança Atlântica faça o mínimo: advertir o presidente Erdogan de que poderá ficar só se provocar um conflito com a Rússia, o que ele parece estar a tentar, e os EUA o pressionem com o corte de apoio militar se não cessar os ataques aos curdos – a única força que se tem mostrado eficiente no combate ao “Estado Islâmico”.
Do outro lado, está a intervenção militar de Moscovo, que alargou o seu âmbito declarado para apoiar ostensivamente o regime sírio, conseguindo não só aliviar a pressão sobre Assad como fazer  recuar a oposição, seja a dita oposição democrática, seja o “Estado Islâmico”.
A complicar ainda mais a situação estão a Arábia Saudita, os Emiratos Árabes Unidos e o Qatar, que dividem os seus apoios entre a “oposição democrática” e o “Estado Islâmico”. Existe mesmo uma decisão de Riade e dos Emiratos Árabes Unidos de enviar tropas especiais para trabalharem sob o comando dos EUA.
Os três Estados do Golfo têm materialmente apoiado a oposição, com dinheiro e armas, mas o “Estado Islâmico” tem também recebido a sua parte, além, obviamente, do material de guerra norte-americano que capturou às tropas iraquianas.
E se algum destes Estados, como sucedeu no Afeganistão durante a ocupação soviética, fornecer alguns dos sofisticados mísseis terra-ar que recebeu dos EUA? E se esses mísseis forem usados para abater aviões russos? A escalada da guerra será inevitável e imprevisível.
Como anteriormente aqui escrevemos, Vladimir Putin tem um objectivo paralelo ao combate ao terrorismo: colocar o seu aliado Assad numa posição minimamente confortável para as conversações, designadamente, retomando o controlo de Aleppo, al-Shaddadi e, se possível, Raqqa. Essa ambição, porém, coloca a oposição politicamente correcta numa posição de fraqueza e, por isso, torna ainda mais difícil o cessar-fogo. E que fazer aos curdos, que, certamente, pretendem estabelecer um Curdistão da Turquia ao Iraque e Irão?
O uso de poder militar para confrontar a Rússia e fazer Putin recuar na sua estratégia é, obviamente, impensável dado o risco de um confronto directo entre os EUA e a Rússia. Confronto que Erdogan parece procurar sob o chapéu de chuva da OTAN considerando os actos e declarações de hostilidade face a Moscovo, mas que os aliados europeus, provavelmente à excepção da Polónia e de um ou outro país de Leste, estão pouco interessados.
A União Europeia, neste momento bem mais preocupada com a ameaça de saída do Reino Unido e em plena crise económica, estaria, eventualmente, desejosa de levantar as sanções impostas à Rússia por causa da Ucrânia, onde tudo continua a correr mal.
O conflito tem de desescalar o mais breve possível e permitir o estabelecimento de um cessar-fogo. A alternativa é entrar num processo de negociação contínua de uma solução política na Síria, mesmo enquanto os combates decorrem. Não é impossível, mas podemos contar com um recrudescimento das acções militares e um espiral que facilmente se pode descontrolar.
De positivo, temos a abertura, pelo menos temporária ou pontual, de alguns corredores humanitários para socorro de populações, previstos nos acordos de Munique. A zona de interdição aérea no Norte da Síria e Sul da Turquia, proposta por Angela Merkel é consideravelmente difícil de pôr em prática no estado em que as coisas estão no terreno. Uma zona neutra onde as populações possam encontrar segurança não seria tão difícil, mas provavelmente teria de se situar em território curdo, o que daria aos curdos o embrião do seu Curdistão, mas enfrentaria uma posição feroz de Ancara.
Em síntese: todos deixaram a situação ir longe demais, todos se envolveram no conflito, dando apoio político e mesmo militar, condenando Assad e exigindo a sua partida. Todos ignoraram a realidade. Neste momento, a única coisa a fazer é uma diplomacia extremamente cautelosa, calar a grandiloquência das declarações vazias e irrealistas, agarrar o acordo de cessar-fogo de Munique e aproveitar a primeira oportunidade, por pequena que seja, para conseguir, no mínimo, um cessar-fogo parcial.
Já morreram pessoas a mais naquela guerra onde todos querem matar todos e o autoproclamado “Estado Islâmico” quer mesmo matar todos os outros, e até os que sobrarem. O controlo verbal, material, político e a moderação entre os actores principais e a imposição de moderação aos seus clientes serão factores essenciais para travar a espiral de violência. Já basta.