12 de Janeiro, 2016
Parece um lugar comum das últimas décadas dizer que um ano
começa em crise. As crises transferem-se de um ano para o outro, mas
raramente se reacende uma crise com a diversidade da que logo na
primeira semana do ano reacendeu, agravou e congregou várias crises
dentro de um período em que se procurava uma solução para algumas.
O Governo chinês procedeu a uma desvalorização da moeda, procurando relançar a competitividade no mercado externo, agindo portanto em duas frentes: relançamento da economia, através do relançamento do mercado interno, onde os bens importados se tornaram mais caros com a desvalorização da moeda, e no externo, onde os bens de consumo se tornaram mais baratos. Contudo, imediatamente a seguir, a Bolsa chinesa caía sete por cento. Seria de esperar que, com uma crise deste teor no Golfo, a incerteza da crise coreana, o volátil mercado do petróleo fosse afectado em alta, o que conviria vivamente aos países produtores. A realidade é que os preços caíram para mínimos de 11 anos. O crude transaccionava-se na sexta-feira a pouco mais de 33 dólares por barril, não havendo perspectivas de que possa recuperar tão cedo.
Os analistas admitem uma descida abaixo dos 30 dólares nos próximos meses e os mais pessimistas não excluem uma queda progressiva até 20 dólares, altura em que os sauditas seriam obrigados a cortar a produção dado que as suas reservas de dólares não são inesgotáveis e o país tem estado a usá-las para compensar a quebra das receitas petrolíferas.
A desaceleração da economia chinesa e consequente quebra de procura de crude contribuiu para a estabilidade do preço do barril. Como se isso não chegasse, a Rússia, o maior produtor, aumentou também a produção, procurando com a venda de mais crude compensar o aumento de despesa decorrente das sanções impostas pela União Europeia e Estados Unidos após a crise da Ucrânia. Uma crise que serve para dinamizar o sector industrial e agro-pecuário, mas obriga a despesas de investimento sem retorno imediato e à compra noutros mercados usando dólares que vai buscar no petróleo.
A cereja no topo deste bolo foi a reentrada do Irão no mercado já há bastante tempo saturado, pois nem o potencial de um conflito entre dois grandes produtores, Irão e Arábia Saudita, agitou o mercado em alta. É evidente que não se esperaria um confronto directo, mas guerras por procuração, como sucede no Iémen ou na Síria, onde sauditas, qataris e as outras monarquias do Golfo financiam todos os grupos que se opõem a Bashar Al Assad.
O estado de depressão da economia mundial reduziu substancialmente a procura de petróleo e não se vislumbra uma retoma firme a curto e médio prazo. Para já, Estados Unidos, Rússia e União Europeia tentam deitar água na fervura e controlar a crise no Golfo Pérsico ou Arábico conforme a margem do golfo em que se esteja. O risco de o Irão fechar o Estreito de Ormuz e cortar o trânsito do petróleo vindo do interior do Golfo parece não se colocar. Seria uma aposta demasiado arriscada, considerando que a 5ª Frota dos EUA está baseada na região e, sobretudo, a vontade de desanuviamento entre Teerão e Washington.
A prioridade internacional é evitar que o processo que se pretende venha a conduzir a uma solução política na Síria não descarrile, que os sauditas se mantenham um parceiro fiável do Ocidente e o Irão não renuncie ao acordo sobre armas nucleares, o que poderia suceder sob ameaça saudita, presente ou futura. A influência que Moscovo pode ter junto do regime de Teerão pode bem ser determinante, como determinante é uma discreta diplomacia de Pequim, grande cliente da região, embora esta esteja fora da sua área imediata de interesses estratégicos. Um início de ano realmente pouco animador.