27 de Janeiro, 2016
A eleição de Marcelo Rebelo de Sousa para a Presidência da
Republica Portuguesa encerra, em minha opinião, um capítulo de
presidências pouco interventivas, como as duas últimas, protagonizadas
por Cavaco Silva.
Marcelo Rebelo de Sousa está na política porque gosta. Fez análise política porque gostava de o fazer como se doutorou em Direito por gostar de Direito e de ser professor. Não é perfeito. Tem, seguramente, dúvidas e procura não se enganar, mas quando se engana é capaz de reconhecer que o fez. Não é um neoliberal e isso será um problema, para ele menor, na sua relação com membros do seu próprio partido. Foi demasiado seca a intervenção de Passos Coelho, domingo à noite, quando felicitou Marcelo, como foi a de Portas.
Deixemos as dúvidas para trás e notemos, sobretudo, que Marcelo Rebelo de Sousa – ainda não me habituei à expressão Presidente Eleito Marcelo Rebelo de Sousa–fez uma campanha solitária. À partida, ele gozava da enorme popularidade que decorre da relação intimista do comentador político de televisão que entra pelas nossas casas aos fins de semana e consegue a nossa atenção, mesmo que no seu discurso faça uma afirmação sem se esquecer de deixar em aberto a contrária, não por oportunismo ou “viracasaquismo”, mas apenas pela prudência de um comentador ou analista cauteloso. Não se coibiu de tratar os factos à sua maneira, como não se coibiu de criticar amigos e correligionários, se entendia que o mereciam, evitando sempre ser impiedoso e colocar-se numa posição de onde não pudesse sair.
Sem dúvida alguma, Marcelo foi o mais popular comentador político das últimas décadas, mesmo que muitos o critiquem e depreciem algumas das suas análises. Não acertou, pronto! Só não acontece a quem não escreve nos jornais ou dá a cara na TV. Em síntese, a sua imagem, mesmo quando muito espontânea, sempre foi cultivada.
Mas regressemos à sua campanha solitária.Marcelo Rebelo de Sousanão teve atrás de si uma parafernália de assessores nem o peso das máquinas partidárias, tal como recusou financiamentos eleitorais. Chegou à vitória pelo seu pé, sem empurrões e sem dívidas financeiras ou políticas, não pediu favores, não recebeu favores, portanto, não deve favores. Antes de chegar a Belém, de tomar posse no início de Março, ele tem de escolher e formar uma equipa. Pode fazê-lo com toda a liberdade, sem pressões, sem favores. Estará na equipa dele quem ele entender. Isso traz-lhe uma responsabilidade acrescida.
Alguns comentadores apressaram-se no domingo a dizer que é uma continuação de Cavaco Silva ou uma evolução da actual presidência. Marcelo Rebelo de Sousa tem um estilo muito peculiar, muito próprio e a coragem necessária para mostrar esse estilo. Durante a campanha, como decorria dos seus comentários, demarcou-se “qb” do actual presidente. Demarcou-se dos que sustentavam que ele iria rapidamente convocar novas eleições parlamentares. Deixou bem claro que o seu objectivo é a estabilidade governativa, a retoma económica e a protecção dos grupos menos favorecidos.
O candidato Marcelo deixou-se levar pela campanha? Não creio, com Marcelo Rebelo de Sousanada sucede por acaso. Todavia, face a um eleitorado deprimido ele colocou a fasquia muito alto. Em torno da sua figura criaram-se imensas expectativas. O presidente está confinado aos poderes constitucionais e poucas pessoas em Portugal conhecem a Constituição como ele. Foi um dos seus fautores e professor de Direito Constitucional. Sabe em que terreno se pode ou não movimentar.
Nunca na democracia portuguesa um presidente teve tanta margem de manobra como ele. Na noite em que foi eleito fez um verdadeiro discurso de Estado e não declarações de circunstância. Afirmou-se para além de qualquer dúvida “Presidente de todas as portuguesas e portugueses”. Um compromisso que não o vai largar. Porém, Marcelo não é perfeito, adora o jogo político e tudo o que isso implica, por vezes até demais. No “demais” estão as reservas de muitos.
Segundo as palavras de Marcelo “não teve adversários políticos, apenas opositores”. A fasquia desta presidência, que encerra um ciclo político, está de facto alta. Pode ou não o novo presidente ter uma acção mais interventiva face ao FMI, à Comissão Europeia, ao Banco Central Europeu? Constitucionalmente, nada o impede, porém, de falar, dizendo abertamente o que pensa. Só isso já é importante e uma diferença substantiva face ao seu antecessor.
Os quem têm reservas esperam apenas que Marcelo Rebelo de Sousa, presidente, os surpreenda. A verdade é que a história irá julgar Marcelo, e pela sua personalidade ele não quer ser uma mera nota de rodapé.