quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Herança de problemas


Benjamim Formigo |
31 de Dezembro, 2015

O ano que finda deixou na memória mais recente dois eventos que podem ser positivos: o resultado da Conferência COP21 sobre o clima e um projecto de resolução política para a Síria e o acordo com o Irão sobre armas nucleares.
O ano que finda deixou na memória mais recente dois eventos que podem ser positivos: o resultado da Conferência COP21 sobre o clima e um projecto de resolução política para a Síria e o acordo com o Irão sobre armas nucleares. A cair no esquecimento ou a ser dificultada especialmente
pelos países de Leste da União Europeia fica o problema dos refugiados, a crise na Ucrânia entregue a si mesma numa resolução complicada. A situação israelo-árabe que se complica diariamente pode ter algum fôlego, mas só depois das eleições no Estados Unidos. O terrorismo foi o fenómeno marcante do ano que agora acaba e estará na agenda de 2016. Janeiro deste ano ficou marcado por dois ataques violentos: o atentado ao “Charlie Hebdo” em Paris, a 7 de Janeiro, um dia depois do qual centenas de pessoas foram massacradas num ataque do Boko Haram em Baga, na Nigéria. O primeiro mês do ano contabilizou 29 incidentes violentos, causando 2.369 mortos, o terrorismo puro e duro foi responsável por 2.193, as restantes ocorreram na sequência de acções não convencionais em teatro de guerra. As estatísticas compiladas de várias fontes só vão até Junho deste
ano. No final de 2015 outros dois violentes ataques terroristas em Paris, um na Tunísia, e outros em Beirute, na Tunísia e no Quénia, além das acções do Boko Haram, agora ligado ao Estado Islâmico na Nigéria e países limítrofes. As consequências económicas da luta contra o terrorismo
terão de se reflectir nos orçamentos dos Estados, obrigando a opções pouco simpáticas. Em 2014 a despesa na luta contra o terrorismo aumentou. Segundo elementos do Instituto para a Paz e a Economia, um organismo independente, aumentaram cerca de 61 por cento relativamente ao ano anterior, atingindo globalmente um valor de 117 mil milhões de dólares. O debate mudo que se coloca em muitos países hoje
é a dificuldade de manter orçamentos em linha com os PIB, tendo de optar se o défice vai ser nos sectores sociais e desenvolvimento, já bastante penalizados, ou se continuam os tradicionais cortes na segurança e defesa, e portanto o défice recai directa ou indirectamente sobre a segurança dos cidadãos e dos Estados. A privacidade dos cidadãos e o apego à democracia continuam a ser as principais baixas dos países livres que abdicam de direitos individuais e colectivos em nome de uma falsa sensação de segurança.
Refugiados na Europa

A outra situação que marcou o ano e transita para 2016 é a dos refugiados de guerra e económicos que do Médio Oriente ao Afeganistão e de Áfricademandam países da União Europeia morrendo aos milhares na travessia do Mediterrâneo sem quaisquer condições de segurança e explorados por gangues de traficantes. Estima-se que mais de um milhão de imigrantes, refugiados na esmagadora maioria,
entrou na Europa este ano, 970 mil dos quais por mar e os restantes por terra. Segundo números do Alto Comissariado da ONU para os Refugiados em todo o mundo há mais de 60 milhões de pessoas refugiadas por causa de conflitos, muitas delas refugiadas nos seus próprios países. Este numero é o acumulado de dezenas de anos de conflito, ultrapassando a barreira de 50 mil refugiados da II Guerra Mundial. Estima-se que os países vizinhos da Síria tenham acolhido já quatro milhões de pessoas e na Europa admite-se que o número passe do milhão em 2015 para quatro milhões em 2017. Os fundos alocados na ordem dos 110 mil milhões de dólares são insuficientes e muitos países do Leste europeu recusam receber ou dar passagem a centenas de milhares de imigrantes. O problema é global e arrasta-se desde o século passado. Tornou-se mais mediático neste ano com o afluxo à Europa. O crescendo do terrorismo dito islâmico provocou na Europa e outros países uma reacção de recusa de asilo por se temer que entre os imigrantes se infiltrem agendes do Estado Islâmico ou da Al Qaeda, o que agrava ainda mais esta crise humanitária. A situação de guerra agravada no Médio Oriente, da Síria ao Iémen, levou à intervenção de novos actores, a maioria regionais. Contudo, a intervenção da Rússia na Síria foi o elemento mais relevante e que obrigou o chamado Ocidente a rever toda a sua estratégia. Vladimir Putin não se deixou afectar pelas sanções impostas na sequência da crise na Ucrânia e em particular da anexação da Crimeia. Putin ripostou com sanções iguais e lançou o sector agro-pecuário da União Europeia numa crise complicada. Ao mesmo tempo, fez a Rússia regressar ao teatro internacional. Através da sua aliança com o Irão e da presença de Guardas Revolucionários na Síria levou à assinatura do acordo sobre o programa nuclear iraniano. Se Moscovo tornou-se contornável nas relações com Teerão, o Irão tornou-se incontornável da Síria, onde Moscovo reforçou a sua posição com o envio de uma força considerável. O regresso da Rússia à cena internacional fez-se por via diplomática, mas também com uma demonstração de força inesperada. Estimava-se que a Rússia estivesse enfraquecida militarmente, por força das sucessivas crises económicas desde o final da URSS e o regresso à dimensão russa, como por causa das sanções Ocidentais e a baixa do preço do petróleo e do gás natural, que reduziu as suas receitas de moeda estrangeira. Afinal, a Rússia de Vladimir Putin desenvolveu uma nova economia, através da área da defesa, da metalomecânica, da agro-pecuária, ao mesmo tempo que o “regresso da Rússia” levou Putin ao máximo de sempre da sua popularidade e os russos a disporem-se a sacrifícios pelo orgulho da grandeza do país. Nada será como dantes enquanto Putin estiver no poder e é de esperar que, tanto ele como o seu braço direito, o primeiro-ministro Medvedev, estejam a
preparar a sucessão para quando chegar o momento. Ainda no campo do geoestratégia, temos de dar conta e ter em atenção as reivindicações chinesas sobre a quase totalidade do sul do Mar da China. Os atoles da região transformados em ilhas cuja soberania a China reivindica acabam por dar ao país uma imensa zona económica exclusiva, aumentando substancialmente a sua área de águas territoriais, motivo pelo qual os EUA, o Japão, a Coreia, Taiwan, as Filipinas e outros contestam e resistem a obedecer aos navios patrulha chineses que pretendem interditar-lhes a zona.
África e Brasil

Em África, os conflitos mantêm-se sem fim à vista, do Sudão do Sul ao Magreb ou Golfo da Guiné para Norte. A Sul a seca está a provocar enormes prejuízos e a devastar a agro-pecuária, designadamente na África do Sul. Outros países com economias dependentes da exploração de matérias-primas minerais e de combustíveis fósseis sofrem as consequências da desaceleração das economias chinesa e europeia.
Como se isso não chegasse, a introdução no mercado, a baixo custo, do petróleo de “fracking” pelos Estados Unidos provocou, em primeira instância, uma drástica redução nas receitas. A guerra pela manutenção dos mercados liderada e defendida pela Arábia Saudita, cujo custo de extracção de barril é baixíssimo, empurrou o preço do crude para valores desconhecidos havia décadas, não sendo de excluir que a presente ligeira retoma seja breve e os preços continuem a cair. A concretizar-se essa queda, as economias emergentes que não se diversificaram vão conhecer problemas mais complicados, pois os custos das suas importações tornam-se proibitivos. Daí a necessidade de já em 2016 acelerarem os projectos de diversificação económica e aumentarem a sua auto-suficiência pelo menos no sector alimentar.
Algumas previsões colocam o crescimento industrial da China em valores baixos se e quando Pequim decidir incrementar o seu sector de serviços. Há indicadores que apontam nessa aposta, designadamente a aquisição de empresas de serviços e casas financeiras pelo sector de investimento estrangeiro chinês onde existe um considerável peso do Estado.
Na América Latina, a mudança começou na Venezuela e Argentina. O Brasil tornou-se a grande incógnita, com a recessão de uma economia pujante e uma desvalorização monetária que parece imparável. Dilma Rousseff está sob demasiado fogo para poder reverter a situação, e o mais que se pode esperar é que acabe o mandato sem sobressaltos que desestabilizem o subcontinente.

Le Pen e Donald Trump

Fechando o círculo, regressamos ao fenómeno da xenofobia, que cresce na Europa, confundindo-se com o medo da infiltração terrorista – da qual Marine Le Pen, líder da extrema-direita francesa, tem tirado partido e a xenofobia que Donald Trump tem fomentado nos EUA. Resta esperar que os desejos não sejam tomados por realidade e que no momento do voto os eleitores não fiquem em casa e votem com cabeça. Verificou-se na segunda volta em França e muito provavelmente no congresso do partido republicano nos EUA.
Trump como Le Pen não são, definitivamente, os líderes que o Mundo necessita neste período tão complicado, mas também cheio de oportunidades, designadamente, de uma revolução industrial verde propiciada pelo acordo aprovado pelos 195 países do COP21 sobre o clima. Ou será necessário bater mesmo no fundo para depois vir à superfície? Se assim, for receio que seja tarde.