7 de Dezembro, 2015
Honestamente já perdi a conta das vezes que
profissionalmente abordei a problemática das alterações climatéricas e
do aquecimento global.
A primeira batalha terá talvez sido a produção electronuclear, os riscos potenciais das centrais nucleares. O grave acidente na central nuclear de Three Mile Island, a 28 de Março de 1979. Dias antes, a 16 de Março, estreou nos EUA o filme “Síndrome da China”, com Jane Fonda, John Lemmon e Michael Douglas, dramatizando o caso extremo de uma falha nos sistemas de segurança de arrefecimento do reactor colocando a “remota hipótese” de fusão do núcleo. Se tal sucedesse não só um território imenso ficaria contaminado pela radiação como o núcleo em fusão atingiria uma temperatura que o poderia levar aos antípodas, na China. Este acidente levou à suspensão da construção de um considerável numero de centrais, ao encerramento para inspecção de outras e até ao abandono de programas electronucleares. Anos depois Chernobyl e recentemente Fukushima voltaram a sublinhar os riscos deste tipo de produção energética. A discussão desapareceu dos jornais e os cientistas e ambientalistas voltaram as suas atenções para questões mais tangíveis como a do aquecimento global provocado por um efeito de estufa derivado da libertação de dióxido de carbono, quer nas centrais térmicas convencionais quer pelas viaturas automóveis, mas também a destruição desenfreada da floresta tropical, da Amazónia à Índia, Indonésia, etc.
Como seria de esperar a tese do efeito de estufa foi contestado durante décadas por técnicos contratados pela indústria e alguns Governos. Finalmente, depois de constatarem para além de dúvidas razoáveis o recuo dos gelos da Antárctida, do Árctico, dos fiordes da Noruega, a subida dos oceanos e a descida da temperatura das águas motivada pelo degelo, foi aceite politicamente que existia um problema grave que poderia, e pode, levar à redução da plataforma continental e pôr em causa a existência de Estados ilhas. Os subprodutos da queima de carvão e petróleo são o dióxido de carbono e o metanol que formam, em torno da atmosfera, uma cúpula que devolve ao solo do Planeta o calor que ele irradia, daí a destruição do equilíbrio sensível das zonas geladas, designadamente as polares. A falta da floresta não permite a absorção do carbono pelas inexistentes árvores, a qualidade do ar diminui enquanto as emissões de carbono aumentam.
Em 1994, sob a égide da ONU, 196 países assinaram um protocolo visando a redução das emissões de carbono para níveis compatíveis com a capacidade do planeta. Daí para cá as conferências anuais (COP – Conferência das Partes signatárias) reúne frequentemente apenas para constatar que a situação piora.
A actividade económica, designadamente o desenvolvimento industrial acelerado de países como China, Índia, Brasil, Indonésia, tem lavado à destruição de florestas e a um crescente recurso à energia mais barata: o carvão ou o petróleo, ao mesmo tempo que as florestas são queimadas numa luta da população conquistando espaço para viver e cultivar. Culpar o desenvolvimento é um falsa questão. A verdade é que existe toda uma economia nos países ricos e desenvolvidos em torno da produção eléctrica convencional barata, baseada no carvão e petróleo, mesmo quando as fontes não poluentes, como as barragens com a sua energia barata estão disponíveis. As fontes convencionais, poluentes, são ainda muito rentáveis para quem vende, e compra. As energias alternativas, gratuitas, tal como as barragens necessitam de um investimento inicial e manutenção, ao alcance da maioria dos Estados, mas mesmo nas novas tecnologias têm uma produção energética inferior, obrigando a um abrandamento e consequente investimento quer na remodelação da infra-estrutura produtora quer na replicação de infra-estruturas para atingir a procura. Ao contrário das grandes centrais convencionais, sejam térmicas, sejam nucleares, têm a vantagem de poder dispensar o investimento do transporte de energia por cabos de alta tensão graças à facilidade de descentralização da geração e a possibilidade de co-geração para fins domésticos.
Deixemos de lado a poluição automóvel, que não é despiciente, e que terá de ser abordada em breve. O facto é que para a sustentabilidade do planeta a temperatura global não pode subir mais de 2º C – relativamente à era pré-industrial – num prazo extremamente curto (25 anos). Quem paga? Inicialmente havia dois grupos: os desenvolvidos (Europa e Estados Unidos) e os restantes em desenvolvimento. As economias emergentes, em especial China (o maior poluidor), Brasil e outros tornaram-se responsáveis por uma parcela substancial da produção de gazes de efeito de estufa. Os EUA passaram a segundo poluidor. Agora em Paris discute-se quem e como paga a reconversão para novas tecnologias, os tais 100 mil milhões de dólares anuais necessários de investimento até 2020.
Tudo se resume neste momento à responsabilidade financeira necessária à recuperação e às inspecções internacionais obrigatórias ao cumprimento do que passaria a ser um tratado internacional compulsivo.
O documento a que se chegou no fim de semana deixa em aberto demasiadas questões técnicas que terão esta semana de ser debatidas pelos políticos que irão apreciar o documento. Ninguém se atreve a dizer que não haverá acordo mas ninguém apresenta uma fórmula consensual para o encontrar, sobretudo num período de crise financeira global. Esquecendo que existe um potencial de negócio para uma economia verde, uma vez que os investimentos feitos na poluente ainda são altamente rentáveis e as novas tecnologias estão ainda sob controlo dos países desenvolvidos, muito em parte por culpa dos outros que não querem investir nas tecnologias renováveis. Mesmo os produtores de petróleo que, compreensivelmente, não querem perder as suas fontes de rendimento, preferem o status quo ao investimento e porventura liderança das renováveis usando uma parte dos seus proveitos petrolíferos.
Há um dado incontornável neste COP21: o relógio continua a contagem decrescente e as duas partes têm fatalmente de encontrar um ponto de compromisso, financeiramente viável e economicamente rentável.