15 de Novembro, 2015
Na véspera de reunirem em Viena os ministros dos
Estrangeiros do Grupo de Contacto para a Síria, a fim de definirem quem
são os bons rapazes da oposição que podem falar com Assad, sob a égide
do Grupo, a fim de negociar uma solução politica, Paris tornou-se
teatro de guerra.
Definido o segundo parâmetro do ataque, uma zona de máximo impacto: fica perto da Concorde, do Louvre, dos Campos Elísios, em síntese das grandes artérias parisienses de trânsito razoável à noite e imensos transeuntes, o que facilitaria a fuga ou a mistura dos terroristas com passeantes que à noite frequentam a zona. Definido o terceiro parâmetro: as vias de fuga. O local também não é longe do “Stade de France” onde decorria um amigável França – Alemanha. Finalmente, os objectivos: uma sala icónica de concertos, o “Bataclan”, onde se realizava um espectáculo com uma banda americana, restaurantes e bares frequentados àquela hora. Definido mais um parâmetro: maximização da acção.
O facto de estarmos a um escasso mês de eleições regionais, onde a extrema-direita xenófoba da Frente Nacional de Marine Le Pen está bem posicionada, não é totalmente despiciendo. Como não o é o efeito de reverberação numa Europa dividida pelo fluxo de refugiados que levou já alguns Governos a introduzirem controlo de fronteiras, à margem do Tratado de Schengen, alguns mesmo a encerrarem-nas.
Um ataque desta envergadura, o maior sofrido pela França desde a II Guerra Mundial, não deixa de se repercutir na tendência xenófoba crescente, faz disparar o medo e com ele a disponibilidade dos cidadãos em abdicar dos seus direitos. Dito isto, uma palavra para a coordenação dos atentados: uma operação destas só pode ser levada a cabo após muitas missões de reconhecimento de vários locais, até à escolha do que parece melhor e depois de missões de autenticação da fiabilidade da escolha.
Não para poupar os terroristas, entre os quais suicidas, mas para realizar as acções terroristas com sucesso. Isto não se faz com refugiados mais ou menos recém chegados, mas com residentes, nacionais ou não, capazes de reconhecer a viabilidade da área e de nela operarem à vontade. Significa que, ao contrário do atentado ao “Charlie Hebdo” e ao supermercado judeu, com motivações ditas religiosas, este teve o objectivo de mostrar a capacidade operacional do grupo e a sua determinação na retaliação.
Durante os ataques, sobretudo no “Bataclan” não só se ouviu gritar “Alá é Grande” como houve terroristas que anunciaram o atentado como uma retaliação “pelo que Hollande está a fazer na Síria”. Através dos meios usados normalmente pelo Estado Islâmico, este reivindicou a autoria do atentado. Os terroristas atacaram indiscriminadamente tanto na sala de espectáculos como nos restaurantes, bares e ruas. Morreram sete ou oito, abatidos pela polícia, mas alguns ter-se-ão posto em fuga, razão pela qual as autoridades procuravam pelo menos uma viatura.
Uma das questões que desde logo se levanta é como foi possível, dado o estado de alerta das polícias e dos serviços de informação franceses e europeus, não detectar movimentos suspeitos ou interceptar comunicações duvidosas?
François Hollande introduziu de imediato controlos fronteiriços, como os ingleses e os alemães. Haverá seguramente uma resposta. Resta saber se existe a informação necessária a uma resposta militar, como defendem muitos, ou uma resposta diplomática acelerando as conversações que decorrem em Viena. A primeira é sem dúvida a retaliação mais popular, mas é mais eficaz? David Cameron, Angela Merkel e até Vladimir Putin, além do chefe religioso do Irão, condenaram a acção, mas parecem divergir na solução. Se a França retaliar militarmente, Vladimir Putin acompanhará, já o disse no sábado: “estes ataques só mostram a premência da guerra ao terrorismo”.
Os EUA não ficarão atrás da Rússia e a Grã-Bretanha irá a jogo. Se os ataque sofrem coordenados e dirigidos com informação fiável contra bases do Estado Islâmico podem enfraquecê-lo o suficiente, se em terra as tropas sírias, o Hezbollah e os Guardas da Revolução, iranianos, aproveitarem a cobertura aérea para ocuparem as posições do grupo terrorista. E se, um grande “e se”, em Viena conseguirem decidir quem são os “bons rapazes” e as potências europeias conseguirem concertar-se com os russos e iranianos?
Para já o Estado Islâmico conseguiu uma vitória: amedrontar pelo terror a França e os europeus e fechar uma das principais conquistas da União Europeia: condicionar a livre circulação.