2 de Novembro, 2015
A estratégia russa na Síria parece ter dado os incentivos necessários ao arranque de novas conversações de paz para o país.
Moscovo não se lançou na intervenção em apoio “de facto” de Bashir Al Assad, a pretexto do combate ao autoproclamado “estado islâmico”, sem uma estratégia diplomática e um objectivo bem definido.
O objectivo é manter, consolidar e se possível aumentar a sua posição no Médio Oriente, e isso passa por uma estratégia que, combatendo o grupo terrorista, apoie também Assad a reequilibrar a sua força face à chamada oposição moderada síria.
O primeiro resultado foi a cimeira de sexta-feira em Viena, onde apesar de Serguei Lavrov e John Kerry “concordarem em discordar”, os participantes (Arábia Saudita, EUA, França, Grã-Bretanha, Irão, Qatar, Rússia e Turquia) decidiram explorar as possibilidades de um cessar-fogo em todo o país, solicitaram à ONU que supervisione uma nova Constituição, com vista a eleições, e apesar de não haver um calendário, fixaram nova reunião para meados de Novembro.
Pela primeira vez, o Irão foi convidado para as conversações, como o havíamos previsto há alguns meses nestas páginas, tornando-se, tal como a Arábia Saudita, incontornável numa solução duradoura.
O maior problema que se colocou até agora aos russos parece ser a incapacidade do Exército regular sírio em tirar partido do apoio aéreo russo ou da janela de oportunidade após os ataques com mísseis de cruzeiro “SSN-30”, de longo alcance, usados pela primeira vez.
Note-se que a máquina de propaganda russa divulgou alguns vídeos através dos Media sociais e, designadamente, do YouTube, mostrando a elevada cadência de lançamento destes sistemas e até explicando as trajectórias para, a partir do Mar Cáspio, atingirem a Síria, depois de sobrevoarem o Irão e o Iraque, muito perto da Turquia.
Para suprir as dificuldades das tropas governamentais num avanço contra rebeldes, que receberam da Arábia Saudita (com autorização dos EUA) novo equipamento anti-tanque norte-americano, o Irão enviou abertamente uns milhares de homens da elite da Guarda Revolucionária. A estratégia russa estava em marcha. Equilibrar as forças no terreno para fazer avançar a diplomacia.
Nesta última reunião, nem Assad nem os rebeldes estiveram presentes, e tudo foi decidido por eles pelos russos e iranianos, de um lado, e os EUA e seus aliados, do outro. De notar que Washington vê com alguma reserva a entrega de armamento muito sofisticado à oposição armada síria, pois não é possível ignorar a força do “Estado Islâmico”, e existem receios de que este grupo se possa apoderar dessas armas, como o fez com os blindados norte-americanos entregues ao Exército iraquiano.
O facto de não existir uma calendário é, apesar de tudo, positivo. Moscovo e Teerão insistem em que Assad, bem como os alauitas, tenham um papel na transição. Os EUA e seus aliados opõem-se. Resta saber a posição de Pequim que, segundo algumas notícias não confirmadas, terá despachado para o Mediterrâneo uma força de apoio às tropas russas. Mesmo sem tropas no teatro, Pequim tem apoiado as posições do Kremlin de forma consistente. O diálogo entre os actores externos não se afigura fácil, ainda por cima com a França em bicos de pés, a defender de modo fundamentalista o afastamento de Assad.
Berlim, que se mantém à margem, não esconde, através da própria chanceler Ângela Merkel, que prefere o diálogo com Bashir Al Assad, do mesmo modo que favorece o diálogo com Moscovo.
Sem calendário, apesar de não existir pressão, existe margem de manobra para todos os lados, pacientemente, debaterem a questão, em especial os actores externos que inevitavelmente terão de impor a solução aos que morrem no terreno.
Como é evidente, o tempo corre a favor de Assad, se as suas tropas conseguirem, com o apoio iraniano e do Hezbollah, aproveitar a intervenção russa, que até agora tem procurado mais abrir espaço ao longo da costa com ataques ocasionais ao autoproclamado “Estado Islâmico”. O risco: se as partes, todas elas, não forem capazes de se entender, o conflito tem o potencial para se transformar num confronto indirecto entre os EUA e a Rússia, que todos procuram, de momento, evitar.