segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Brincar com fogo... com os russos não


Benjamim Formigo |
30 de Novembro, 2015

Em 2012, já em plena crise na Síria, um caça Phantom turco equipado para observação e guerra electrónica, ao que se soube na altura, violou o espaço aéreo sírio durante algum tempo e foi abatido por caças sírios dentro do seu território.
O Presidente Erdoğan, furioso, sustentou que “uma violação curta de espaço aéreo nunca poderia ser pretexto para um ataque”. Em seu apoio veio o então secretário-geral da OTAN, Anders Rassmussen, classificando o ataque como “mais um exemplo do desrespeito das autoridades sírias pela Lei Internacional”. Curioso não é?
Há cerca de uma semana um Sukhoi 24 russo aproximou-se e terá entrado em espaço aéreo turco, em pleno conflito contra o autoproclamado “estado islâmico, durante 17 segundos para ser abatido por dois F-16 turcos que o esperavam. De repente Erdoğan passou a considerar legítima e justificada a acção turca. Mais, assumiu que ele próprio deu a ordem! E a OTAN, conforme pôde lá veio em defesa de um dos seus membros embora, sem grande convicção. Sergei Labrov, na senda do Presidente Vladimir Putin, falou num acto de traição, numa emboscada, e uma acção injustificável. Soube-se que os russos haviam informado o Estado Maior americano da missão que ia ser executada pelo seu SU-34. Considerando o tempo – 17 segundos – que o SU-24 esteve em espaço turco não era possível interceptar a aeronave russa e abatê-la a menos que os F-16 estivessem já em posição à espera do Sukhoi. Não há aliança que possa resistir à desconfiança que se instalou em cima da que já existia.
Como é evidente a Rússia, na situação de granel que se vive naquela área, não deveria ter programado uma missão que se aproximasse tanto do espaço aéreo turco, mas lá em cima não existe uma linha de demarcação e só as ajudas rádio permitem a um piloto e o seu navegador saber exactamente onde estão, e o local não ajuda a uma navegação precisa num voo a alta velocidade. Também não é menos certo que a reacção turca foi exagerada, além das dúvidas que levanta, pondo em questão a fiabilidade do um Estado Maior americano em teatro de operação. O facto é que o SU atacava milícias turquemenas, contrárias a Assad, que Erdoğan quer ver partir. Acção que se enquadra na estratégia russa de atacar não só o “EI” como pretende dar espaço a Assad antes de negociar a transição de poder.
O certo é que ainda não há muito tempo a Turquia bombardeou milícias curdas que lutam contra o chamado “estado islâmico”, alegando que constituíam um risco para a sua fronteira. Nada disto ocorre isoladamente. Erdoğan não quer que no desfecho final os curdos possam reclamar o seu Curdistão, que se estende da Turquia ao Irão. Como não quer uma aliança que englobe russos, franceses e americanos sem que primeiro a partida de Assad esteja garantida e achou que a sua posição como membro da Aliança Atlântica iria forçar a mão aos russos. Se assim pensou está provavelmente errado. Não vivemos já o tempo da rivalidade dos Impérios Otomano e Russo, mas num ambiente confuso deixado pelo final da Guerra Fria e uma redistribuição e reconquista de áreas de influência.
O assunto só aparentemente está arrumado. Os riscos de confrontos entre aviação russa e turca subiram consideravelmente. Putin não retaliou militarmente, para já. Mas as consequências económicas para a Turquia vão sentir-se. As dificuldades à entrada de bens turcos na Rússia começa a colocar em causa a qualidade dos alimentos que esperam em camiões na fronteira para passarem para a Rússia. O petróleo e gás russo que mantém a  Turquia em funcionamento estão em causa e o gasoduto alternativo à Ucrânia que iria passar pela Turquia está suspenso, sem que a Rússia seja economicamente prejudicada, pois há alternativas para um novo pipeline. Mas o risco desespera a Alemanha e a UE que dependem largamente do abastecimento russo. O investimento será uma realidade que no final beneficia as indústrias russa, alemã e algumas europeias. O único prejudicado será a Turquia.
Do ponto de vista europeu Ancara não tem muitas saídas. Mesmo com o apoio das potências europeias um pequeno país como Chipre pode vetar tudo quanto diga respeito à Turquia. Ninguém fala nisso mas todos se lembram e sabem o problema que pode constituir a posição cipriota. Chipre conseguiu a sua independência ao fim de anos de guerrilha contra os ingleses.
A Turquia manipulou a situação dos cipriotas turcos, amedrontando-os, levando-os a fugir para a parte Norte da Ilha, depois invadiram o pequeno país violando a Lei Internacional e com a ocupação militar criaram nessa metade uma república cipriota turca que só Ancara reconhece. Que vive muito aquém da qualidade da parte cipriota e ainda por cima coloca à venda nos mercados, sobretudo no inglês, propriedades pertencentes a cidadãos cipriotas gregos que nunca foram formalmente expropriados. É difícil defender a posição de Ancara.
Hollande e Putin entenderam-se quanto à colaboração contra o dito “estado islâmico”, mantiveram de fora a questão Assad, como os americanos se parecem inclinar a fazer, pelo menos informalmente, estabelecido o interesse mútuo em derrotar o “EI”, na Síria e no Iraque. A Rússia continuará os ataques aos comboios de camiões tanque que contrabandeiam o petróleo das zonas capturadas pelo “EI” e que passam pela Turquia, onde muitos fazem fortunas com a sua compra ilegal e venda em mercados paralelos. Secar as fontes de financiamento dos terroristas não é só um objectivo russo. Mas será sobretudo uma tarefa russa dado ser o país com mais meios e melhor informação na região, além de ser o país que pode contar com forças da Guarda Revolucionária iraniana, curdas e resquícios do Exército regular sírio para ocupar o território deixado vago pelo “EI” na sequência das operações de ataque aéreo e apoio ao solo da aviação russa. Na garganta de americanos, em especial, e de alguns franceses como o ministro dos Estrangeiros, Laurent Fabius, fica um espinho: a forma de ataque a todos os inimigos de Assad que os russos estão a desenvolver.